David Bowie, Patti Smith e mais nove artistas que inspiraram Cidade em chamas

Por M. J. Franklin

cidademchamas

Texto originalmente publicado no site Mashable. Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

O romance Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg, acompanha um amplo elenco de narradores — punks, herdeiros, detetives, jornalistas, artistas — pela Nova York dos anos 1970. Há, porém, um outro personagem que tem uma participação de peso no livro: a música.

Enquanto os personagens vão se movimentando pela cena punk da década de 1970, é a música que, a um só tempo, conduz os protagonistas do livro e enriquece o mundo de Cidade em chamas­ — por vezes, literalmente.

Por exemplo, quando Charlie, um desses protagonistas, vai ao show de Ano Novo de sua banda predileta, Hallberg escreve:

“O mero poder monofônico daquele som apagou completamente qualquer impressão que aqueles bocós de smoking pudessem ter deixado. Era uma avalanche, rolando montanha abaixo, quebrando árvores e casas como brinquedinhos de lata, pegando todo som que encontrasse e obliterando num troar branco. Enquanto Charlie se viu sendo levado, totalmente, incapaz de decidir se era bom ou ruim — incapaz, até, de dar bola.”

Considerando o papel da música no curso do romance, perguntamos a Hallberg quais foram os álbuns que mais o inspiraram quando ele escrevia Cidade em chamas. Viaje de volta aos anos 1970 com as respostas dele, a seguir.

Patti Smith — Horses (1975)

“O jeito mais fácil de explicar o quão essencial esse álbum é para Cidade em chamas: abra o livro na página 579 e olhe para a fotografia de Patti, punho ao ar. Horses foi um dos mapas que me conduziram do rock dos anos 60 e do punk dos 90 do começo da minha adolescência para a utopia, ou distopia, funk da Nova York da metade dos anos 1970. Esse disco me fazia sonhar com aquele lugar e com aquela época bem antes de eu sequer acalentar a ideia de escrever um livro sobre isso. E quando, anos mais tarde, sentei para escrever, muito do personagem Charlie veio de ‘Birdland’, enquanto Samantha veio se vangloriando diretamente de ‘Gloria’.

Lou Reed — Transformer (1972)

“Outra obra-prima dos anos 1970 que mistura a energia anarquicamente entrópica do que viria a ser o punk rock com algo mais tradicionalmente, e construtivamente, poético. Há um romance sobre Nova York apenas no solo de saxofone de ‘Walk on the Wild Side’, nas cordas de piano em ‘Perfect Day’. Eu consigo imaginar William, o pintor viciado e herdeiro desonrado, rebolando rua abaixo ao som de ‘I’m So Free’. E aqueles vocais durante toda a música… Não tem nada mais Nova York que Lou Reed.”

Billy Joel — The Essential Billy Joel (2001)

“Claro que também não tem nada mais Nova York que Billy Joel. Ainda não sei como é que essa coletânea veio parar no meu iPod; só se foi naquela vez em que eu estava caidinho por uma garota que adorava ‘The Stranger’. Fato é que o primeiro vislumbre que eu tive de Cidade em chamas, quase literalmente uma inspiração divina, me veio da primeira vez que ouvi ‘Miami 2017 (Seen the Lights Go Out On Broadway)’, o hino dos anos 70, enquanto olhava, de New Jersey, para a arruinada linha do horizonte da cidade de Nova York, por volta de 2003. Eu concebi essa grande tela dickensiana, esse grande paralelo entre duas épocas em que a cidade estava em desarranjo — e quando grandes mudanças eram possíveis.”

The Rolling Stones — Goats Head Soup (1973)

“Não conheço ninguém que tenha esse disco dos Stones como o seu preferido, mas tem algo na sonoridade de Goats Head Soup, especialmente nas primeiras faixas, que acho que capturam o choque de extremos na Nova York dos anos 1970 — a grande riqueza, a grande miséria. Eu estava com ‘Heartbreaker (Doo Doo Doo Doo)’ na cabeça quando concebi o tiroteio que encerra o Ato 1 do romance, e que serve para colocar vários dos personagens em curso de colisão. Acho mesmo que por algum tempo eu quis utilizar algum dos seus versos como uma epígrafe.”

Talking Heads — Talking Heads 77 (1977)

“Como vários dos personagens observam no livro, havia algo de talismânico e icônico sobre o ano de 1977, mesmo em 1977. E tanto foi assim que o Talking Heads batizou o seu primeiro disco com o nome desse ano. Mas para mim foi útil recordar, vencendo a tentação de reduzir aquele período de tempo a um monolítico retrato da decadência (sim, Mick Jagger, estou falando com você), de como tantas posturas e comportamentos e humores ainda circulavam pela Nova York de então: a tensão de ‘Psycho Killer,’ o chacoalhar lisérgico de ‘Don’t Worry About the Government’…”

Chic — Chic (1977)

“O livro termina imediatamente antes desse disco sair, mas a discoteca (assim como o hip-hop) já estava germinando em Nova York e em outras partes, e deu um jeito de se imiscuir no pano de fundo do romance. Eu meio que adorei, por exemplo, que Nicky Chaos, que se acha o rei dos anarquistas, também ache Donna Summer irresistível. Ou que Mercer, a professorinha travada, acaba se rendendo ao Abba. De minha parte, eu sempre fui um fã do Chic. Culpa daquele baixo…”

Bruce Springsteen — Born to Run (1975)

“Houve épocas da minha vida em que eu não ouvia nada além de Bruce Springsteen. Se tem algo que eu amo sobre o ‘Boss’ é que ele não renega suas influências; ele parece acreditar na força de sua própria paixão para conjurá-las em algo novo. É o caso de Born to Run, essa costura maluca de sons de guitarra de música de surf, percussão de trilhas de faroeste e riffs de piano dos lados B dos discos de Phil Spector em algo completamente original. É uma sinfonia barata — ‘um Chevy’57 acelerando sobre discos derretidos do selo Crystals’, como definiu um crítico. Eu torcia para que Cidade em chamas fizesse algo semelhante com todos os livros que eu mais amei, de Dickens a Virginia Woolf a David Foster Wallace.”

David Bowie — The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972)

“Para mim, Charlie parecia o tipo de garoto que realmente gostaria de David Bowie, de modo que eu me diverti à beça explorando a história de seus anos de colegial, baseando-me para isto numa leitura rigorosa de Ziggy Stardust. Adotado bem novinho, e crescendo nos subúrbios de Long Island, ele se sente um pouco como um alien que caiu na terra. E sua sensação de que Bowie, de certa forma, é o único que o entende é como eu me sinto em relação aos músicos e poetas e romancistas que falavam a mim quando eu tinha a idade dele.”

Fugazi — In On The Kill Taker (1993)

“Acho que comecei a ouvir o Velvet Underground de Lou Reed quando estava na sétima série, mas foi este álbum, que eu comprei quando tinha quinze anos, a minha verdadeira introdução ao punk rock. O que acabou por me aproximar da cena alternativa musical de meados dos anos 1990 na capital de Washington, a maior cidade próxima da cidade onde eu cresci. E à medida em que eu tentava abrir meu caminho rumo ao autêntico círculo punk de Nova York, eu me peguei fazendo a aproximação de certos elementos de um no outro.”

Joni Mitchell — Blue (1971)

“Cheguei à conclusão de que os anos 1970 me fascinavam em parte por serem como a ressaca que se seguiu aos utópicos anos 1960 — o momento em que as pessoas acordaram e perceberam que o mundo poderia não aprender como cantar em perfeita harmonia. O que o romance busca ao desenhar o passado dos seus personagens é tentar entender essa transição. E esse álbum é um documento essencial, segundo penso, desse ponto de inflexão. Ele tem tanto esperança como desespero em si, o que me faz recordar de alguns dos personagens mais maduros, em particular, Regan e Richard. Na verdade, o nome de Richard veio de ‘The Last Time I Saw Richard.’”

The Ramones — Ramones (1976)

“Se você estiver em busca de uma gravação quintessencial do punk, algo que corporifique as ‘regras do alto e rápido’, não vai encontrar nada melhor que o Ramones. Se ouvir com atenção, parte do que irá perceber é o quão marginais esses caras são, com suas histórias de ratos e punks que fogem para se juntar aos festivais de patinação no gelo. E esse senso de inadequação, transformado em um tipo de signo de comunidade, é de fato o que leva Sam e Charlie à cena punk. É um tipo de metáfora da própria Nova York: ‘Bring me your poor, your tired, your huddled masses…’ [Vinde a mim os pobres, os exaustos, as massas reunidas…] Todos os personagens deste livro, sejam eles nativos ou colonos, de algum modo ou outro sentem-se como estrangeiros. Talvez todos nós nos sintamos assim.”

Cidade em chamas, de Garth Risk Hallberg, chega às livrarias brasileiras no dia 29 de abril.

2 Comentários

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