Em tradução (Ulysses?)

Por Caetano Galindo

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Com a perspectiva do lançamento de Um retrato do artista quando jovem (cf. coluna anterior), eu já vou dando os pontos finais no meu “projeto Ulysses”.

Tudo bem que final-final nunca vai ser.

Se pros leitores, pros bem-aventurados leitores, o livro nunca há de acabar, e vai sempre ser motivo de releitura e rediscussão (e espero que essa nova tradução do romance que o antecede gere ainda mais releituras e rediscussões, como rendeu pra mim), imagine como é que seria pro humilde tradutor.

Mas mesmo assim tem mais.

Tinha mais.

Lá no prefácio à tradução do Ulysses (no que já me parece o longínquo ano da graça de 2012), eu prometia um Guia de Leitura da obra. Afinal, se a gente estava apresentando naquele momento uma tradução nova do romance na crença de que isso fazia parte de uma tentativa de propiciar um acesso mais amplo e mais pleno a um romance cuja leitura a gente considera fundamental (a gente aqui é plural de verdade, ok?), ainda restava o problema de que o leitor brasileiro do Ulysses se vê alijado daquilo que vem facilitando, ou tentando facilitar, a vida dos leitores anglófonos desde 1930, com a publicação de James Joyce’s Ulysses, de Stuart Gilbert: guias, explicações, glosas, estudos… a bibliografia de interpretação e de apoio nunca parou de crescer.

Mas aqui ela ainda é limitada. E eu meio que achava que precisava dar esse pitaco, pra tentar inclusive botar no papel coisas que eu venho desenvolvendo em sala de aula, em palestras, em cursos, de 2002 pra cá.

Pode ter demorado (a vida… a universidade… outras traduções…) mas agora em março a Companhia das Letras publica Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce.

!YAY!

O livro tem uma introdução beeeem generosa, que dá conta de um monte de questões gerais (biografia, Homero, estrutura…), e depois uma leitura do livro, episódio a episódio, sob uma ótica bem singular (a gente acha mesmo que até na comparação com todos os outros guias em inglês e em outras línguas esse ficou diferentinho): uma coisa de ficar o tempo todo dizendo “preste atenção”, veja bem…

Ainda tem um resumo da bibliografia disponível em português, que é pra garantir, e mais uns comentários sobre o indispensável em inglês. (No meu site, onde normalmente ficam as informações das minhas disciplinas, vai ter uma seção mais atualizada e hiperativa de notas e referências).

Enfim.

Ufa, né?

É isso.

Como diz o grande scefigno André Conti, divertido pensar que alguém que hoje está na escolinha pode daqui a dez, quinze anos, decidir encarar o Ulysses e usar esta nossa tradução, com o apoio do “nosso” retrato e do meu Guia.

Acima de tudo divertido pensar que você aí, lendo agora, pode tirar alguma coisa útil disso tudo. É pra isso que devia servir.

Boa leitura.

(E agora toca eu pensar em coisas diferentes pra dizer em sala de aula!)

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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4 Comentários

  1. turian disse:

    Uma ótima indicação de leitura, com certeza

  2. Caetano W. Galindo disse:

    Excelente pergunta, Personagem do Pynchon (aren’t we all?)!

    acho que sim, e com sobras…
    mas tem duas coisas, se o que você quer saber é se num caso como esse o tradutor merece MAIS destaque do que o usual crédito de quarta capa ou de folha de rosto, eu diria que depende de quem tiver que decidir… eu, quanto a mim, me importo pouco com isso.
    crédito claro de tradução, acho fundamental. Destaque, acho bacana. Capa? Legal, mas não sei se necessário.
    se por outro lado você está pensando se por acaso o tradutor do Wake mereceria MENOS destaque, num texto que de certa forma já é de origem multilinguística, eu te diria que discordo… a dificuldade infinita gera infindas liberdades. E todo tradutor do Wake é “autor” responsável num sentido ainda mais DURO que pros outros livros..
    era isso?

  3. Tiago Moura disse:

    Ainda não tive coragem de encarar Ulysses. É certo que antes de aventurar-me nessa empreitada, lerei uma obra como essa. Quem sabe a minha leitura de base não será a de Caetano Galindo?!

  4. Personagem do Pynchon disse:

    Galindo, uma questão BEM pessoal.

    Uma possível tradução de Finnegans Wake merece ter o nome do tradutor na capa?

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