O infinito, só mais uma vez

Por Luiz Schwarcz

luiz-manguel

Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Queridos leitores, antes de redigir meu último post, escrevi no ano passado para Alberto Manguel e para Jorge Schwartz tentando averiguar se estava falando uma grande bobagem a respeito da obra de Jorge Luis Borges. A resposta de Alberto Manguel chegou muito tempo após o envio do meu texto para o blog. Achei tão boa a carta que pedi autorização deste para publicá-la, deixando meu texto inicial sem novas alterações ou complementos. Vejam abaixo. Aproveito para agradecer ao Jorge também pelos esclarecimentos preciosos.

* * *

Querido Alberto, como vai?

 

E os planos de voltar a morar em Buenos Aires? Quero saber de tudo!

Venho escrevendo para nosso blog uma pequena série de artigos sobre o ofício do editor, mais precisamente sobre a filosofia da editoração. Batizei a série de “Livre-editar”, referência à expressão “livre-pensar”.

Por ora, publiquei apenas um texto, embora já tenha escrito cinco. Planejo escrever outro, sobre a página em branco e a progressão infinita da escrita, de como uma frase se encadeia necessariamente com a anterior, não importando muito quais eram os planos prévios do autor.

E me deparei com uma questão que talvez somente você possa resolver para mim. Responda quando puder, sem pressa.

Você poderia me dizer como imagina que a cegueira, o não encarar uma página, ou reler a última frase e ter que memorizar as duas — uma página em branco e a última frase de um poema ou de um conto —, influenciaram a obra de Borges? Seria correto afirmar que suas obras-primas foram escritas quando ele podia fazê-lo fisicamente, sem se limitar a ditá-las? Antes de ficar completamente cego?

Estou relendo com enorme prazer grande parte do que você escreveu sobre ele. A noção do Aleph (o lugar de todos os lugares) como sendo mais importante que o labirinto é brilhante, e me ajudou muito.

Agradecer-lhe-ei imensamente se puder me dizer qualquer coisa sobre o assunto, mesmo se considerar isso uma grande tolice, quando puder. Eu adoraria conhecer sua opinião.

Com carinho e os votos de um feliz Ano Novo para você e para o Craig. (Estou muito contente com os novos rumos de sua vida, e por saber que você será parte das comemorações do aniversário de nossa editora no ano que vem).

 

Luiz

* * *

Querido Luiz,

 

Sua pergunta é muito importante.

Conheci Borges quando ele já estava cego, como você sabe. Ele me disse que ainda podia escrever poesia porque os poemas vinham a ele como uma melodia musical, à qual então acrescentava palavras, o que lhe permitia guardar o poema inteiro em sua mente, ditando-o quando estivesse finalizado.

Escrever prosa, porém, era diferente: ele afirmou (era o início dos anos 1960) que jamais voltaria a escrever prosa, porque para isto “é preciso enxergar sua mão escrevendo”. Borges disse que podemos decorar um poema inteiro, mas não um romance: lemos um romance e nos recordamos de umas poucas cenas, alguns parágrafos, ou mesmo frases, jamais de tudo. O poema era para Borges uma entidade individual; o romance (e talvez o conto), uma massa de fragmentos, trechos, episódios que somente podiam ser vistos como um todo. Sendo cego, para ele não havia página em branco, apenas um texto musical completamente acabado em sua visão mental, ou fragmentos esparsos e peças que ele não se julgava capaz de reunir novamente de forma coerente, sequencial.

No entanto, passados alguns anos, ele sentiu que tinha que escrever as histórias que estavam vindo a ele como argumentos e anedotas, as histórias que se tornariam O informe de Brodie. Assim, solicitou-me que lesse para ele as histórias que considerava obras-primas, para sentir como funcionavam, como haviam sido construídas, como um mestre-construtor reaprendendo o seu ofício. E também aqui não havia página em branco, mas somente parágrafos construídos em sua mente, que deviam ser ditados um a um e lidos para ele vezes sem fim, até que considerasse estar perfeito. Esse era o método que ele utilizara no início de sua vida, quando começou a dar aulas: ele ensaiava lendo as aulas em voz alta para si (ou para sua mãe), com as pausas e mudanças de tom, como um ator praticando suas falas.

Sim, penso que ele soube que havia escrito suas obras-primas antes de ficar cego. Confira na Autobiografia dele. Na última página ele menciona algo assim.

Se puder te ajudar mais, me diga. Neste exato momento estou atulhado com um milhão de coisas, pra não falar da reinvenção da Biblioteca Nacional.

Com muito afeto,

 

Alberto

Tradução de Carlos Alberto Bárbaro.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna semanal sobre livros e o trabalho editorial.

 

8 Comentários

  1. admin disse:

    Oi, Mariana!

    Ainda não temos informações confirmadas, mas em breve teremos mais novidades. ;)

  2. Mariana disse:

    Manguel sempre dando uma aula e ainda mais numa história “tocada” por Borges <3 Pelo que entendi, Manguel vem ao Brasil neste ano, certo? Será aberto ao público o evento? Diz q sim, por favor :)

  3. Rogério Rezende disse:

    Roberto, gostei da metáfora de chapéuzinho vermelho. É isso.mesmo

  4. RobertoEscritor disse:

    Prezado Luiz,
    Permita-me ocupar este espaço para responder de través, não ao Rogério Rezende nem a você, e sim ao Veríssimo, já que é dele a autoria da parte maior postada pelo Rezende. Conheci o Veríssimo ainda na Academia, encantando-me com seu “Gigolô das Palavras” (reveja esse texto na net para compreender melhor o que se segue), texto que abriu uma brecha na gramaticologia dos acadêmicos de plantão, e com ele me identifiquei no instante de um raio.
    Mas agora, atento ao cenário político nacional, vejo-me a rachar para a outra banda. Há um suposto caos instalado, que vem da direita e não da esquerda, por conta de uma ala que não aceita de maneira alguma não ter em mãos o poder. Querem com isso por o Brasil à beira do abismo, com um falso discurso de salvar o Brasil, quando querem mesmo é salvar a própria pele. Nos últimos dias, assisti diversas entrevistas de ataque do Cassio Cunha Lima defendendo a bandeira da lisura política, justo ele que foi cassado no governo da Paraíba. Em suma, o que quero defender, é que não temos à nossa direita nada que valha a pena substituir pelo que temos de esquerda, e que a corrupção hoje encontra-se instalada em todas as instâncias de governo, qualquer município, qualquer estado, até mesmo o estado central. Por outro lado, esse cenário de caos não nos é novidade, nem em se tratando de Brasil nem de mundo, e só teme o caos quem não traz consigo Deus no coração. Ontem à noite, durante uma homilia, foi isso mesmo que eu disse para uma plateia assustada. Quem tem Deus no coração, fenômeno de justiça, não se deixa abalar com simples fatos, e sabe muito bem que tudo é vaidade e vento que passa. Ora Veríssimo, fostes longe demais ao supor que um redemoinho causado pelo desencontro entre dois ventos contrários poderia ser capaz de arregimentar uma terceira guerra, que, a bem da verdade, ocorre silenciosamente todos os dias, de maneira discreta, por todos os lados, e já não em forma de estardalhaço. Tu que destes outros óculos à gramática, por meio de seu gigolô, tu que tem espaço para isso diariamente, bem que poderia semear nova ordem à política nacional, e assim dizer:
    “A política, qualquer política, é apenas meio para se chegar ao poder, e deve ser vista como tal. Respeitadas as regras básicas da Constituição para se evitar os escândalos, há que se reconhecer que temos leis em excesso. Governar é questão de talento, não pretexto para se manter na nobreza. O importante é ser ao mesmo tempo presidente e gente do povo. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias das Câmaras Legislativas é de reprovação por verem-se fora da maior esfera de poder, o Executivo. Eles só estão esperando, disfarçados de Chapeuzinho Vermelho, aguardando pela morte da Vovó para que então mostrem-se os Lobos Maus que sempre foram. Um governante de talento que se submetesse a essa caterva seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. As leis bastardas seriam sua patroa. Acabaria impotente, incapaz de governar. A política precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.”

    Cordiais saudações ao Luiz, ao Rezende e ao Veríssimo

  5. RobertoEscritor disse:

    O infinito imiscuído na página em branco diante do autor, prestes a depor parte de seu passado combinado a delações do presente, é tal que uma alma invisível (como todas naturalmente são), um cravejado de pontos cintilantes, imitações de diamantes, posto que o autor se obriga a tingi-los um a um com impressões de sua identidade, mundos quaisquer, em que haja cores suficientes para dar novos tons a esses já entediados.
    Com o que há de ser preenchida, essa folha, disso os bons autores já o sabem: vírgulas, exclamações, interrogações, pontos, reticências… O mais que couber em meio a tudo isso dá-se por experiências cotidianas que tendem a assaltar do eterno porções diminutas em sequencia, as coisas vêm à mente por gestos de sedução, um leva e traz entre o ser e o Olimpo, palavras ilimitadas como o é o itinerário da vida inconsciente. Para que servem os olhos em meio a tudo isso? Creio eu que apenas para nos distrair.

  6. Rogério Rezende disse:

    Luiz,

    1 – Seus textos, são para mim, como um oásis num deserto e eu me sinto um camelo cansado e sedento neste deserto.
    Isso para dizer o quanto gosto dos seus textos. Desculpe a intromissão, mas seus textos para mim revelam um grande escritor interrompido por um editor bem sucedido.
    2- Mas hoje queria falar de algo mais sério. Hoje me sinto muito pertubado com o país, não só eu, também Veríssimo, e acima de qualquer ânimo político partidário, compartilho parte do texto de Veríssimo:
    “Às vezes imagino como seria ser um judeu na Alemanha dos anos vinte e trinta do século passado, pressentindo que alguma coisa que ameaçava sua paz e sua vida estava se formando mas sem saber exatamente o quê. Este judeu hipotético teria experimentado preconceito e discriminação na sua vida, mas não mais do que era comum na história dos judeus. Podia se sentir como um cidadão alemão, seguro dos seus direitos, e nem imaginar que em breve perderia seus direitos e eventualmente sua vida só por ser judeu. Em que ponto, para ele, o inimaginável se tornaria imaginável? E a pregação nacionalista e as primeiras manifestações fascistas deixariam de ser um distúrbio passageiro na paisagem política do que era, afinal, uma sociedade em crise mas com uma forte tradição liberal, e se tornaria uma ameaça real? O ponto de reconhecimento da ameaça não era evidente como o monólito do Kubrick. Muitos não o reconheceram e morreram pela sua desatenção à barbárie que chegava.

    A preocupação em reconhecer o ponto pode levar a paralelos exagerados, até beirando o ridículo. Mas não algo difuso e ominoso se aproximando nos céus do Brasil, à espera que alguém se dê conta e diga “Epa” para detê-lo? Precisamos urgentemente de um “Epa” para acabar com esse clima. Pessoas trocando insultos nas redes sociais, autoridades e ex-autoridades sendo ofendidas em lugares públicos, uma pregação francamente golpista envolvendo gente que você nunca esperaria, uma discussão aberta dentro do sistema jurídico do país sobre limites constitucionais do poder dos juízes… Epa, pessoal.

    Se está faltando um monólito para nos avisar quando chegamos ao ponto de reconhecimento irreversível, proponho um: o momento da posse do Eduardo Cunha na presidência da nação, depois do afastamento da Dilma e do Temer.”

    Luis Fernando Verissimo é escritor

  7. Fatima Pombo disse:

    Fascinante ler.
    Fascinante quem nos induz a ler
    Fascinante que compartilhem conosco o prazer de ler.
    Fascinante trocar correspondências com quem lê
    e quem escreve
    Fascinante a gente poder ler tudo isso!

  8. Sergius Gonzaga disse:

    Fascinante evocação do Manguel sobre as relações entre cegueira e escrita em Borges. Uma aula exemplar sobre as diferenças entre os gêneros literários, com a concisão e a precisão da prosa borgeana.

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