Perda e magia na Cidade de Quartzo

Por Ana Maria Bahiana

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Foto: Dark Sevler

Na noite de 29 de abril de 1992 eu tinha subido as colinas de Hollywood até o Greek Theater, no coração de Griffith Park. A experiência de ver um show no Greek tem sempre alguma coisa de devocional, mística: sobe-se uma colina íngreme, em grande parte a pé (o estacionamento fica numa área livre, abaixo), o ronronar da cidade sendo substituído gradualmente pelas chamadas dos pássaros noturnos, o sibilar dos grilos, os uivos dos coiotes, o vento na galharia. Quando se chega ao alto, há um anfiteatro cercado de colunas brancas.

Naquela noite a música em si era reverente, profunda. Little Jimmy Smith abriu o show com sua voz surreal, tão humana e tão acima de todos nós. Depois veio a pièce de resistance: Lou Reed. Acompanhado por uma pequena banda predominantemente acústica, Lou interpretou essencialmente o repertório de seu então novo álbum, Magic and Loss.

Dedicado às memórias de dois amigos que ele perdera recentemente — o bluesman Doc Pomus e Rotten Rita, estrela da Factory de Andy Warhol, incubadora do próprio Reed — Magic and Loss é, por si mesmo, uma jornada intensa por todas aquelas coisas que preferimos empurrar debaixo de nossos vários tapetes existenciais: a inevitabilidade da morte, o inverno que se segue ao glorioso verão de nossa juventude, as perdas irreparáveis daqueles que amamos.

Naquela noite perfeita de primavera, sob um céu estrelado e cercado dos perfumes do chaparral do sul da Califórnia — sálvia, lavanda, alecrim, limão — ouvir Lou reinterpretar esse material era quase uma cirurgia psíquica, cutucando tumores e cicatrizes mal fechadas num cenário que, em geral, se parece mais com Tir Na Nog, a terra encantada da eterna juventude.

Eis o que não sabíamos: Tir Na Nog estava em chamas. Saindo do Greek, a Lua ainda estava lá, mas um espesso véu de fumaça cobria o centro de Los Angeles. Do alto das colinas a grade de ruas da planície aparecia pontilhada de vermelho e laranja, os incêndios se multiplicando diante de nossos olhos. A brisa trazia um cheiro acre e os gritos das sirenes. Era o começo do que ficaria conhecido como os LA Riots, o levante civil de 1992.

Durante uma semana a cidade foi um campo de batalha. Indignada com o veredito de inocência no julgamento dos policiais (brancos) acusados de espancar violentamente um motorista (negro), a população dos bairros predominantemente afro-americanos da cidade foi às ruas. No início eram gritos, marchas, protestos. Depois vieram os ataques aos passantes, o quebra-quebra das lojas, o corpo a corpo violento com a polícia, os incêndios.

Do centro-sul, nos arredores do centro financeiro da cidade, o rastilho seguiu no rumo noroeste, na direção da comunidade asiática de Koreatown (os coreanos são proprietários de vários negócios nas comunidades negras, especialmente mercados e lojas de bebidas) e daí para uma sucessão de bairros classe média predominantemente branca.

No dia seguinte ao show do Lou Reed tive que ir a Beverly Hills pegar um medicamento numa farmácia especializada. As ruas estavam desertas. Na esquina da farmácia um cheiro acre veio no vento. Olhei para cima: uma coluna negra de fumaça se erguia de algum ponto não muito longe dali. Uma senhora muito loura e muito elegante passou correndo por mim e gritou: “Vai pra casa! Vai pra casa agora!”

Vinte e quatro anos depois ainda é difícil compartilhar o que aconteceu naquela semana de abril. O impacto daqueles dias sobre o que o ensaísta Mike Davis chama de “a cidade de quartzo” no seu livro do mesmo nome — a cidade dura, brilhante, multifacetada — durou muitos e muitos anos. Aquela semana de abril ecoou outros episódios não muito distantes no tempo — a revolta de Watts, em agosto de 1965, e a Guerra das Zoot Suits, de 1943 — causados pela mesma intolerância e discriminação raciais. Todos esses incidentes levantavam para a Cidade de Quartzo um duro espelho: pesadelos moravam na cidade que se especializara na magia de fazer sonhar.

Tudo isso veio na minha memória numa grande onda, recentemente, por conta da excelente minissérie American Crime: The People Vs. O.J. Simpson. O assassinato de Nicole Simpson, ex-mulher do atleta-estrela de futebol americano transformado em astro B do cinema, em 1994, e o julgamento que inocentou O.J. um ano depois aconteceram à sombra dos eventos de abril de 1992 — meros dois, três anos os separam.

Quem não viveu ou não compreendeu a guerra civil de 1992 certamente tem, até hoje, dificuldade para entender o affair O.J. Simpson — sua importância, seu fascínio midiático, seu espantoso resultado. Com delicadeza e inteligência surpreendentes (isto é entretenimento, afinal), a minissérie posiciona todas as peças desse jogo de vida, morte, etnia e poder dentro do contexto da Cidade de Quartzo partida, sua fachada de laissez-faire quebrada, suas fissuras de classe e influência reveladas, sua engenharia de celebridade — e suas ramificações — posta a nu. Muito rapidamente fica estabelecido que não é nem um assassinato brutal nem O. J. Simpson que estão sendo julgados: no banco dos réus está a própria cidade, seu passado, seus pecados não confessados e não absolvidos.

Mas eis o que achei mais espantoso: The People… foi o primeiro projeto audiovisual de fôlego a abordar tanto o crime e o julgamento quanto sua moldura essencial dos conflitos de 1992, suas raízes e suas feridas. Isso, numa cidade que vive de alquimizar tudo, o vivido e o imaginado, mais o vasto espaço entre uma coisa e outra, e devolver ao mundo poções das mais diversas qualidades e com os mais diversos objetivos. Aqui, na indústria de contar histórias, há histórias que ainda não podem ser contadas. Que não conseguem ser contadas, porque engasgam na garganta do sonho coletivo. A magia tem seus limites: há, sim, perdas irreparáveis.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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2 Comentários

  1. Luciano Eloi disse:

    Queria Ana
    Texto brilhante.
    Te acompanho desde a revista Rock da década de 70, JB, Folha, etc.
    Poundianamente antenada com a orbis e urbes, descreve a delícia do show e os conflitos raciais.
    Belo texto.
    Estive em LA em dezembro passado, meu filho está morando aí.
    Beijos e continue on the long. and winding road…

  2. marcelo fortes da silva disse:

    Cara Ana maria li seu comentário com arrepios na alma por saber que magic and loss assim como murder ballads de Nick Cave encontram-se em minhas prateleiras de discos essenciais e lembrei também de suas matérias sempre muito interessantes feitas na antiga revista bizz neste periodo conturbado de Los Angeles. Abraços

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