Dentro da bolha dourada: a alucinação coletiva de Cannes

Por Ana Maria Bahiana

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Foto: Franck Michel

Se você vive e trabalha no mesmo mundo que eu — “a indústria”, ou seja, a rede fluida, móvel, sem fronteiras, que faz, financia e vende conteúdo audiovisual — você sabe que maio não é nem mês das noivas nem das mães: é o mês de Cannes. Cannes é uma cidadezinha linda e aprazível no sul da França, às margens do Mediterrâneo que, logo depois da Segunda Guerra Mundial, encontrou uma inesperada vocação além de balneário das elites europeias: ser um polo de eventos internacionais.

O primeiro deles — e até hoje o mais conhecido internacionalmente, badalado, mitificado — é o festival de cinema que ocupa a cidade durante dez dias em meados de maio. Nascido das cinzas da Segunda Guerra, Cannes — o festival — rapidamente se tornou uma espécie de mancha de Rorschach coletiva; dependendo de quem você é, o que você faz e pensa e onde você está, no tempo e no espaço, Cannes significa coisas muito diferentes. Na maior parte das vezes, muitas coisas diferentes ao mesmo tempo.

Essa é uma das características que o fazem tão importante e tão fascinante. Em 1947 ele significava a possibilidade de uma Europa em processo de cura num mundo ainda atordoado de horrores. Em 1968 ele significou o establishment careta pronto para ser virado do avesso — e virado do avesso ele foi, com Godard, Lelouch e Louis Malle invadindo o palco do antigo Palais e mandando parar tudo. (Pararam, naquele ano. Mas daí também surgiu a Quinzena dos Realizadores.) Este ano está vigiado por batalhões de polícia e exército, a sombra dos ataques a Paris — meros seis meses atrás — pairando pesada sobre a Croisette tão primaveril, toda azul e dourada se espichando pelo bord de mer do novo Palais des Festivals até a curva do Casino.

Para quem cria, Cannes pode ser a incubadora dos seus sonhos, a caixa de repercussão que vai lançar sua carreira, a trama de contatos que vai viabilizar projetos. Quem é do meio sabe que Cannes tem o mercado de cinema mais animado e poderoso entre todos os festivais; muitos anos as ofertas do Marché são mais interessantes que as da competição, e ali naquele porão do anexo do Palais, onde direitos, vendas e pré-vendas varam tardes e noites, forjaram-se projetos vitais nas carreiras de gente como Martin Scorsese, Terry Gilliam, Todd Haynes.

E embora uma batelada de bons filmes passem pelas mostras competitivas, apenas sobre alguns poucos recai a poeira dourada que transforma tudo. Quando isso acontece, é meio mágico. Eu me lembro vivamente de John Travolta andando pela Croisette de manhã cedo, no dia seguinte da exibição de Pulp Fiction, em 1994, rindo sozinho e dizendo “muito obrigado, muito obrigado” para cada pessoa usando crachá que ele cruzava (eu fui uma delas).

Cannes é uma bolha, dentro da qual os milhares de festivaliers — os realizadores, atores, produtores, executivos, jornalistas — vivem temporariamente isolados do mundo lá fora, imersos numa realidade onde paixões, ideias e conceitos são expressos apenas por cinema. Outros festivais têm um pouco dessa semi-loucura — Sundance, acho, é o que fica mais próximo, talvez por ser no alto das Montanhas Rochosas, numa cidade pequenina, em pleno inverno — mas em Cannes a bolha se fecha completamente, selada pelos polos complementares de arte e comércio.

Há algo nessa espécie de alucinação coletiva e voluntária que gera algo tipo “o que acontece em Cannes, fica em Cannes”. Quando se emerge da bolha, toma-se um susto. E aquelas vaias, aquela controvérsia, aquele protesto, aquele diretor que disse que era nazista, aquela moça que foi retirada do tapete vermelho por estar de sapato baixo…? Nada disso tem importância aqui fora? Há um outro mundo aqui fora?

Eu me lembro de chegar a Cannes cedo, dois dias antes do festival começar, e ver a cidade mudando, se preparando para a invasão iminente, as farmácias, todas, colocando nas vitrines ou logo na entrada um stand com bandaids, aspirina/paracetamol e camisinhas — os produtos mais cobiçados na maratona. Eu me lembro de encontrar uma grande amiga minha no mesmo bar todo ano, para pedirmos dois copos do mesmo vin maison e ter o mesmo diálogo: “Mas o que estamos fazendo aqui de novo?” “Acho que esquecemos a loucura que é…” “Cannes é feito parto — dói que é um horror, mas depois você esquece e lá vai você de novo…” “Salut! A um bom Cannes!”

Porque às vezes a linha que separa arte, loucura e beleza é fina demais.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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