Carta aberta ao autor não-publicado

Por Luisa Geisler
 
"Berlin, 1936"
Crédito: simpleinsomnia

Querido(a) autor(a) (ainda) não-publicado(a),

Sei que você já está rindo do meu tom condescendente. Sei sim. Eu tenho só vinte e cinco anos e não devia vir encher o saco. Mas sempre brinco que era universitária antes de começar a publicar. Portanto, não tinha currículo algum (pra publicar por ser famosa ou bem sucedida em outras áreas), sem pessoas influentes (pra convencer de publicar o livro da amiguinha) e, óbvio, sem dinheiro no bolso (pra pagar por publicação). E até agora, cada avanço me parece um passo na Lua. Queria compartilhar algumas coisas que aprendi nesse processo. Talvez seja uma espécie de FAQ, mas talvez não tão irônico.

Vamos começar de novo?

Querido(a) autor(a) (ainda) não-publicado(a),

É foda. É horrível de foda. Existe um mundo de pessoas com livros na gaveta, que escrevem, que não são publicadas, que ninguém quer ler. Existe um mundo de pessoas publicadas que ninguém quer ler. Existe um mundo de pessoas que têm zero interesse na literatura, que são publicadas, e um mundo de pessoas que quer ler sim. E você aí com seu livro.

É preciso abrir com a informação de que cada jornada é diferente. Alguns autores fundam editoras, alguns publicam com editais, alguns ganham dinheiro de editais e publicam, alguns ganham prêmios de manuscritos, alguns mantêm blogs e são bem-sucedidos, alguns misturam tudo isso e dá certo. Soa como um livro de autoajuda? Soa. Mas é isso.

Pessoalmente, publiquei graças ao Prêmio SESC de Literatura, que é um prêmio que apoio e divulgo. No entanto, ninguém viu as inúmeras tabelas do Excel que eu preenchia com prêmios, datas de inscrição, gênero, premiação. Até poesia — gênero que hoje tenho o bom senso de apenas ler — escrevi. Qualquer coisa pra ser escritora mesmo.

Sempre que vemos alguém que “deu certo” (muitas aspas), vemos como tudo é linear e faz sentido. Mas a manchete “Luisa Geisler tem um livro que enviou pra trocentos prêmios e depois percebeu que era uma desgraça e o engavetou para sempre” não é tão interessante quanto “jovem de 20 anos ganha o Prêmio SESC de Literatura”.

E, aliás, sim, esse livro engavetado existe. E, não, você não pode ler. Marcelo, tô vendo a sua cara. Não, não pode ler, eu disse. Não.

Esse livro engavetado inclusive não pode existir publicamente. A versão melhorada dele é o Quiçá, meu primeiro romance. Há intersecções, a estrutura e modus operandi com semelhanças por todo o lado. Mas é um romance diferente, sem dúvida, é outra história com outros personagens. Mas os erros e disfunções neste primeiro geraram os acertos do segundo. E antes que você diga que estou mudando de assunto — a-há! —, não estou.

É importante saber abandonar. Nossa, como é importante. Não digo apenas tirar adjetivos, aparar frases, rever a utilidade de parágrafos. Às vezes textos inteiros podem ser geniais pra você e só pra você. Inclusive, achar algo genial é em geral pista pro fato de que não é genial. Seu livro não é genial. Você pode achá-lo genial, mas ele não é. Tampouco meus livros são geniais, deixo claro.

Em especial quando é a primeira coisa que se escreveu, é fácil se apegar. É fácil mandar o mesmo texto pra vinte concursos, postar em trinta mídias diferentes marcando noventa pessoas na postagem (nunca faça isso). O stand-up comedian Louis C.K. disse que se impressionava como George Carlin, um deus em forma de stand-up comedian, tinha um especial pra HBO todos os anos. Ao perguntar a George a respeito disso, George disse que conseguia produzir porque ao final de cada ano, ele colocava todo o material produzido fora. E começava do zero.

Não que eu faça isso, deus me livre e guarde.

Claro que reciclar uma ideia não é trabalhar nela. Claro que livros em geral são trabalhos de anos de aprimoramento. Mas o nível de apego que pessoas que trabalham com ideias têm em relação a elas é imenso. E às vezes reciclar uma ideia até ela servir em algo só serve a você mesmo, não a quem lê.

E essa é a última e mais importante coisa.

Existe um leitor.

Por que ele tem que ler o que você escreveu?

Por que ele tem que ler seu livro e não um Saramago? Ou uma Alice Munro? Ou até um Stephen King, que seja?

Não que eu tenha respostas pra isso. O que realmente sei é que começar é foda. E permanecer também. O resto é pura especulação mesmo. Usem filtro solar?

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

4 Comentários

  1. Hugo César disse:

    Nos apegamos porque temos a certeza de que nunca iremos conseguir ter outra ideia, outra linha, outro parágrafo e outro texto. Salvo engano isso não muda nem mesmo depois da pessoa ter lançado mais de um livro, mas isso eu não sei, ainda estou batendo cabeça com a primeira ideia.

  2. Luisa, é a primeira vez que comento aqui no blog da Companhia, o que talvez dê uma medida do quanto gostei de seu texto. Claro que também rolou a questão da identificação, afinal sou um cara de 27 anos que escreve desde os 16 e que só considera o que redigiu de dois ou três anos para cá digno de algum mínimo investimento – em concursos literários ou envio ao setor de análise de originais das editoras, quero dizer. E, bom, do lado de cá do muro (considerando a publicação efetiva como um divisor de águas – duplamente simbólico, diga-se – na vida do escritor), reitero que você tocou num ponto chave do caso todo: a questão do apego dos novos autores às suas ideias primevas. Há uma dificuldade muito grande quando se trata de abandonar velhos edifícios (edifícios aos quais os novos autores se afeiçoam como à casa onde cresceram, talvez) e partir para a construção de outros. Ou de um sobrado que seja. A essa possibilidade, prefere-se muitas vezes a cultura do “puxadinho”, que faz os autores acreditarem que alterar uma ou outra coisinha na estrutura geral da obra, a pessoa do discurso, quem sabe contar o passado do personagem X, mudar o nome do gato da família para “Borges” para dar um tom, assim, mais joco-erudito à narrativa, adequando-a às preferências de jurados herméticos de concursos literários… — faz eles acreditarem que isso conta, em termos de amadurecimento da coisa. Esse tipo de noção fica ainda mais nítido quando se frequenta o submundo das comunidades (sobretudo as mais numerosas, em termos de membros) de autores amadores no Facebook. É um tal de “tenho medo de a minha obra não ser entendida nesses nossos tempos” que vou te contar. Todos (ou quase todos) julgam-se gênios anacrônicos, invocam certas frases motivacionais de André Gide, a existência de Sousândrade e das grandes vozes dissonantes que só seriam descobertas por exegetas na postumária desses autores. A autocomplacência chega a dar um pouco de pena.

    No entanto, por outro lado, há aqueles que, numa espécie de gincana lítero-behaviorista, aprendem com os mecanismos de aperfeiçoamento estético mais simples que estão a seu alcance: aos feedbacks isentos de camaradagem obtidos de outros autores em concursos literários de blogs independentes, às sucessivas leituras (de obras canônicas ou não), reagem de maneira positiva, dedicando-se ao desbaste da própria obra, quando necessário, ao descarte da própria obra, quando necessário – enfim, à busca por uma voz que destoe da mediocridade que por vezes impera. E o desânimo destes, na maior parte dos casos, é fruto mais da realidade do mercado do que de uma suposta autocrítica atrofiada. Resguardadas as exceções, quase não se ouve falar de jovens autores que tenham chegado às grandes casas de publicação brasileiras sem a chancela de um prêmio literário, de uma distinção acadêmica (ou política) ou de um currículo no meio jornalístico (que muitas vezes, e talvez estranhamente, nem precisa estar associado ao escopo da literatura, coisa que seria de se esperar). Selos voltados a novos autores logo se corrompem (vide o “Novos Talentos da Literatura Brasileira”, da Novo Século, piada eterna entre autores iniciantes minimamente comprometidos com o próprio trabalho, por causa do mercenarismo galopante; vide o “Novas Páginas” da Novo Conceito, que aparentemente tem se especializado na publicação de obras de youtubers e outras sub-celebridades). Tudo isso, e mais o fato de que, quando uma Companhia das Letras da vida se interessa por um autor inédito, o currículo desse cidadão ou dessa cidadã de alguma forma sempre inclui alguma das pré-condições que mencionei — enfim, todo esse panorama só faz contribuir para que, no fim, jovens autores “maduros” e jovens autores “em fase de maturação” sejam irmanados na ideia de que o que produzem está sendo subvalorizado – uns por mero pernosticismo, outros com razão.

    Abraços.

  3. Luís de Lima disse:

    Luísa, você não precisa, mas gostei do seu texto. Ao fim e ao cabo , você deixa claro que não há fórmula pronta, há é uma busca por um lugar ao sol. É que nem namorar, você se empenha todo mas nunca tem certeza que vai agradar. Então, apaixone-se pelo imponderável de almeida e vá trabalhar. Não tem outro jeito. Ah… Mas apesar de tudo trabalhe bastante o texto e seja original, como você é. A literatura não pode ter aquele gosto “isso aí eu já vi ou já comi”. Abraço.

  4. patti disse:

    luisa, seu textos são legais, mas queria ver algo além desse tema: sou uma autora nova e tenho de ficar me justificando para os outros. tá meio chato.

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