Deste lado do mundo

Por Mell Brites

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Fotos: Mell Brites

Dia 1

Cheguei em Paraty um pouco atrasada para ouvir Yasmin falar. Mas a cidade ainda vazia me permitiu chegar à tenda da biblioteca da Flipinha antes de a conversa começar. Um grupo de aproximadamente quinze crianças, todas do ensino público, a aguardavam lendo os livros expostos nas prateleiras ao redor.

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Alguns minutos depois, quando a convidada de onze anos apareceu sem alarde e pegou no microfone, quem conheci foi uma menina bastante tímida que, com o olhar baixo, começou imediatamente a ler seu próprio livro torcendo, assim me pareceu, para que aquilo acabasse o mais rápido possível. Filha de pai russo, muçulmano, e mãe brasileira e católica, Yasmin Ziganshin autopublicou, em dezembro de 2015, Do outro lado do mundo, em que fala sobre a sua origem multicultural.

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Ela conta que nasceu em Tóquio, onde seus pais se conheceram, em 2002, quando trabalhavam na cidade, e que até chegar ao Brasil, com três anos de idade, não sabia falar nenhum idioma. Diz que sua família tem várias nacionalidades, idiomas e religiões — e que é assim que o mundo deveria ser, misturado e tolerante. Às perguntas do público mirim, respondeu sempre com poucas palavras:

“Como você teve a ideia de fazer o livro?”

“Minhas amigas me perguntavam muito sobre a minha história e resolvi escrever pra contar.”

“Você é mais católica ou mais muçulmana?”

“Mais católica.”

“Quanto tempo você demorou para escrever?”

“Uns meses.”

Depois, em conversa reservada, me disse querer ser arquiteta, não ter vontade de virar escritora, gostar de andar de bicicleta — aprendeu a andar sem rodinhas no ano passado — e de brincar com as amigas. Apesar da mudança em sua vida desde o ano passado, quando o livro foi lançado para download pela Amazon e atingiu rapidamente os três mil acessos, da sua participação em programas de TV e das entrevistas que vem dando a jornais da grande imprensa, Yasmin tem o comportamento e as ambições de uma criança na pré-adolescência. Quando perguntei à sua mãe como seriam os próximos dias de festival, ouvi: “ela volta para o Rio amanhã, não pode faltar na escola.”

Foi aí que entendi que talvez o grande êxito de Yasmin não tenha sido a publicação de um livro aos dez anos, nem mesmo a sua interessante história de vida, que, pensando bem, tanto se aproxima da de muitos brasileiros. O recado que parecia vir junto à figura daquela garota tímida e simpática era o mesmo que apareceu algumas vezes na voz da bibliotecária que coordenava a atividade: “viu, pessoal, todo mundo pode ser escritor”. Seja as suas amigas que vieram do Rio como acompanhantes, seja a plateia curiosa que a ouvia atenta, todo mundo tem uma boa história para contar. Adulto ou criança, deste ou do outro lado do mundo.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

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