Você é dono do livro

Por Mell Brites

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Fotos: Mell Brites

Dia 2

Algumas semanas antes do início da Festa Literária Internacional de Paraty, os autores convidados da Flipinha foram desafiados: cada um deles teria que bolar uma história, uma música ou qualquer outra forma de expressão, a partir do título, e só do título, de um livro escrito por outro colega também participante do evento. E foi hoje, na abertura da Ciranda dos Autores, na Casa da Cultura Câmara Torres, que veio à luz o resultado do troca-troca. Lá estavam todos os escritores reunidos e a plateia lotada de crianças, professores e interessados em geral, para comentar suas criações e as dos colegas.

Assistimos assim a O caderno de rimas de João, de Lázaro Ramos, se transformando numa história sem rimas, à canção Número, do Palavra Cantada, tomando a forma de uma ilustração em aquarela, ao Jornal, de Patricia Auerbach, virando um vídeo musicado, ao Quem soltou o Pum?, de Blandina Franco e Lollo, se tornando “um conto cumulativo pra fora”, como definiu Celso Sisto, e ao Metade cara, metade máscara, de Eliane Potiguara, se metamorfoseando, nas mãos de Angela-Lago, no seguinte poema:

Metade,

Cara metade,

Máscara

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Se ontem dissemos aqui que todo mundo pode ser escritor, hoje de manhã a mensagem parece ter ganhado um tamanho maior: além de sermos escritores, é possível interferir na obra do outro e se apropriar dela do jeito que bem entendermos. Afinal, como disse Ana Luísa Lacombe, “a imaginação nunca se esgota” e, como completou Lázaro, “tudo que você quiser encontrar no livro você encontra. Você é dono do livro, use como quiser”.

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E foi com esse espírito que, mais tarde, ainda na Casa da Cultura, Angela-Lago e Lázaro Ramos chegaram ao palco com os crachás trocados. Os dois apresentaram sua obra e, como não podia deixar de ser num evento para crianças, falaram sobre o começo do trabalho como autores de livros infantis. Lázaro, com três já publicados, disse que o que o incentivou a fazer o primeiro foram suas lembranças da casa onde vivia quando pequeno e principalmente do quintal onde passava horas a fio observando o mundo. “O primeiro livro que escrevi foi para a criança que fui. O terceiro, para o adulto que eu quero que o meu filho seja.” Já Angela-Lago lembrou que fez o seu primeiro poema aos sete anos de idade — e depois nunca mais parou. Ela emendou dizendo: “E qualquer livro ensina alguma coisa. Antes de escritores, somos cidadãos. A gente ensina, qualquer livro abre alguma porta, nem que seja a porta do encantamento estético”.

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Pois às 14 horas, na Tenda da Biblioteca da Flipinha, assisti justamente a um completo encantamento de um grande grupo de crianças ao encontrar Blandina Franco, José Carlos Lollo, criadores do Pum, e Patricia Auerbach, autora de Pequena Grande Tina e Histórias de antigamente. Enquanto Patricia relembrava episódios da infância, Lollo as desenhava para a plateia — contando, é claro, com os palpites do público animado. Mais do que encantada com aquela narrativa visual que se criava ali, ao vivo e a cores, a plateia parecia ser uma velha conhecida dos personagens mencionados — quem nunca ouviu falar do cachorro Pum? –, esbanjando propriedade ao fazer sugestões. Com aquele grupo alegre e barulhento, não havia dúvidas de que todos já sabiam há tempos daquilo que Lázaro tinha dito algumas horas antes: “Você é dono do livro”. O aprendizado de hoje, então, foi para os autores — e não para as crianças.

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Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

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