Lendo Cidade em chamas

Por Carol Bensimon

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Foto: Logan Hicks

A minha maluquice é querer entender demais as coisas. Quando pego um livro para ler, óbvio que uma parte de mim está andando com a história, vivendo aquele lance que a gente chama de suspensão da descrença, mas outra certamente fica pensando em como é que a ficção está conseguindo tirar (ou não tirar) aquilo de mim; como é que, em resumo, a ficção está me deixando naquele estadinho emocional constrangedor. Normalmente dá pra entender o funcionamento de algumas engrenagens, porque a gente treina bastante para isso. Mas há mistérios insolúveis, lindos mistérios. Recentemente, os contos de Alice Munro. Eu não conseguiria nem falar sobre esses contos se quisesse, e a sensação de que eu perdi alguma coisa parece proporcional à minha atração por eles. Não dá para entender.

Cidade em chamas. Melhor não citar os fatos que costumam começar qualquer resenha ou matéria sobre o livro-de-mais-de-mil-páginas do norte-americano Garth Risk Hallberg. Eles não têm nada a ver com o romance de fato. São fofocas literárias e movimentos de mercado editorial. Estou na metade do livro, portanto leve isso em consideração se quiser, o fato de que ainda não terminei a leitura e estou me metendo a falar sobre ele sem ter lido, por exemplo, a parte que se passa durante o grande blecaute de 1977 em Nova York, uma das cenas mais impressionantes do romance de Hallberg, segundo dizem. Mas acho que vai ficar tudo bem. Minhas considerações têm mais a ver com linguagem do que propriamente com trama.

Aquele prólogo já deixava claro que vinha coisa boa. Pra mim, quer dizer. Eu me sinto muito seduzida por coisas do tipo apesar de ela [a geladeira] só conter uma barra mesozoica de manteiga que o pessoal que está me hospedando deixou para trás quando se mandou para a praia (…). A barra mesozoica de manteiga me pegou. Há um certo ritmo que também me pega. E coisas como: As sirenes e os ruídos do trânsito e dos rádios flutuam vindo das avenidas como lembranças de sirenes e ruídos de trânsito e de rádios. Por trás das janelas de outros apartamentos, TVs estão sendo ligadas, mas ninguém se dá ao trabalho de baixar as persianas. Dá para estar lá dentro, naquela Nova York dos setenta, com muita facilidade.

De fato, meu livro já está todo sublinhado. Há imagens muito bonitas, que vão do “cigarro fantasma” (o cigarro que vai virando cinza sem ninguém bater a porcaria do cigarro) a uma descrição detalhada de cheiros: Sam ainda lembrava do cheiro da mãe quando ela voltava ao sofá, chocolate em pó e marshmallow derretido, sim, mas também uma intrincada coisa meio florestal que dizia Califórnia, de onde ela tão improvavelmente viera. Por algum motivo, no entanto, a mesma coisa que me fascina acaba me parecendo um pouco cansativa.

E não é só uma questão de cansaço, mas de ter a impressão de que eu não estou entrando no tal do estadinho emocional constrangedor. Talvez o acúmulo de imagens espertas crie um efeito indesejável de distanciamento. Esperteza, aliás, é uma palavra bem adequada aqui; Cidade em chamas exala um tipo de inteligência malandra que, com frequência, deságua em um sorrisinho de canto de boca. É possível que isso tenha uma relação com os tais andaimes que Zadie Smith menciona em um de seus ensaios sobre escrever um romance, os andaimes necessários no processo, mas dos quais o escritor deve se livrar depois. Embora ela esteja falando provavelmente de montagem da trama, não parece ruim supor que o excesso de imagens-nunca-pensadas-antes acabe chamando muita atenção sobre si mesmo (como andaimes?), me jogando para fora da história. É claro que eu não quero propôr uma discussão forma x conteúdo aqui. Só estou tentando entender uma sensação de leitura.

Eu diria que a questão de fundo é a seguinte: há no narrador de Hallberg um palpável medo de se levar a sério. Talvez esse seja o medo de toda uma geração (a minha). Opiniões sobre isso, ou sobre qualquer aspecto de Cidade em chamas, são muito bem-vindas.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

4 Comentários

  1. thais disse:

    Aliviada em ler que outros e outras tem sentido que esse “acúmulo de imagens espertas crie um efeito indesejável de distanciamento”, aliás, parabéns por colocar isso em palavras! Tive essa sensação com A Little Life, da Hanya Yanagihara, com o Pintassilgo, de Donna Tartt, entre outros mais recentes – por coincidência ou não, todos livros bem comentados na mídia… Talvez seja apenas uma viagem minha, who knows!

  2. Cora disse:

    Eu gosto desse estadinho emocional constrangedor, apesar de seu caráter duplo. O estadinho emocional constrangedor é pra mim como um barato de droga, ou de uma sensação química qualquer entre duas pessoas. Às vezes tenho a impressão de ficar meses procurando isso em livros, como quem passa meses procurando uma boa companhia em bares. Então, quando eu finalmente encontro, sinto o barato. Aí pego o lápis, risco o livro, fico high por alguns segundos e volto à busca, que pode durar meses de novo. (Não é todos os dias que lemos coisas como “A noite é permissiva como um tio distante. Basta ela terminar para que terminem também toda a flexibilidade das regras e todos os atalhos possíveis. Os caminhos são mais longos de dia.”) Um recurso que pode funcionar como um prolongamento do barato é a leitura em voz alta do trecho psicoativo para alguém que lhe provoque o mesmo barato. (Eu queria riscar um livro inteiro e te dar, mas isso seria estúpido.) A mesma coisa que fascina acaba sendo cansativa. E a mesma coisa que alimenta, por sua vez, esvazia.

  3. Priscila Liverpool disse:

    às vezes o que a gente tem a falar durante a leitura é muito melhor do que depois. um livro abandonado também é uma experiência completa.
    ótimo texto!

  4. Hugo César disse:

    Carol, qual é o ensaio da Zadie Smith que você menciona?

    Sobre o “distanciamento”, acho que esse é um efeito bastante comum em textos inteligentes, repletos de frases espertas. Eles, geralmente, tornam a coisa muito cerébral e a gente se concentra demais na forma. É como um diretor que abusa tanto da técnica que chama atenção pra ela, tirando o espectador um pouco da atmosfera. A gente dá um grito de “nó” quando vê uma cena bem executada, mas ao mesmo tempo a gente percebe que é uma cena sendo executada. Uma frase sendo construída, gerando uma imagem. Não a imagem em si.

    Sobre “se levar a sério” e a sua (nossa) geração. Eu nem sei por onde começar, mas eu aposto que pessoas que se levam a sério acredita mais na noção de verdade. Eu tenho a impressão que a nossa geração duvida que há algo parecido com isso, por mais que tentemos desesperadamente buscar por ela.

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