Literatura e mulher: essa palavra de luxo

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Ana Cristina Cesar em 1976. Foto: Cecilia Leal

Em 1979, Ana Cristina Cesar publicou na revista Almanaque 10: cadernos de literatura e ensaio, editada pela Brasiliense, o texto “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”. No ensaio, a poeta carioca analisa livros de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, discutindo o que seria a “poesia feminina”, o lugar que a mulher ocupa no meio literário e qual a percepção de sua obra por críticos e leitores. O texto é publicado agora na nova edição de Crítica e tradução, volume que reúne textos críticos e ensaios de Ana Cristina Cesar sobre cinema, literatura e outros assuntos, além de suas grandes traduções, como a do conto Bliss, de Katherine Mansfield. Como diz Alice Sant’Anna no prefácio desta edição, Ana C. aponta como “a mulher ideal dos poemas, essa mulher antiquada, trata sempre do Belo, etéreo, sublime, com nobreza e uma boa dose de pudor”, enquanto em sua poesia “Ana trata justamente de desconstruir a perspectiva da mulher bem-comportada, elevada, perfeita”.

Leia a seguir um trecho de “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”.

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Ninguém me ama
ninguém me quer
ninguém me chama de Baudelaire
Isabel Câmara

I.
— Haverá uma poesia feminina distinta, em sua natureza, da poesia masculina? E no caso de existir essa poesia especial, dever-se-á procurar nela caracteres tais como uma sinceridade levada até o exibicionismo, uma sexualidade que nada mais é do que o desejo de se fazer amar pelos leitores? Poder-se-ia dizer que o homem é mais intelectual ou então se aprofunda mais? Será preciso ligar o sentido da experiência interior a um caráter essencialmente feminino? Poder-se-ia dizer que o apegamento ao real seja uma das características do homem em oposição à mulher?

II.
— Faça uma enquete tipo Globo Repórter. Saia à rua e pergunte aos pedestres: o que é poesia; o que é mulher; e mulher fazendo poesia, fala de quê. As respostas vão configurar o senso comum do poético e do feminino. Surgirão algumas imagens que se convencionou chamar da natureza e considerar belas. O cancioneiro popular. Perfume, pérola, flor, madrugada, mar, estrela, orvalho, pólen, coração. Tépido, macio, sensível. E em aparente contradição: inatingível, inefável, profundo. A velha contradição que os românticos não conseguiram resolver. Mulher é inatingível e sensual ao mesmo tempo. Carne e luz. Poesia também. O poético e o feminino se identificam.

Passemos agora para o campo erudito. Estou escrevendo a propósito de dois livros de mulheres famosas: Flor de poemas, de Cecília Meireles, e Miradouro e outros poemas, de Henriqueta Lisboa. Os dois da Nova Fronteira e, a julgar pelas edições, vendendo bem. São livros de escritoras consagradas; antologias com notas editoriais, prefácios de professores universitários, biografias, bibliografias. O prefácio a Cecília: “Poesia do sensível e do imaginário”. O prefácio a Henriqueta: “Do real ao inefável”.

O título dos prefácios já encaminha a leitura dessas poetisas: imagens estetizantes, puras, líquidas. Tudo aqui é limpo e tênue e etéreo. A dicção e os temas devem ser belos: ovelhas e nuvens. Falando ou de preferência se insinuando sobre o segredo das coisas ocultas. Intimidade, dom mágico, pudor, meios‑tons, surdina, véus, nuance. O ocluso, o velado, o inviolado. A tentativa de “apreensão da essência inapreensível” das coisas. A função tradicional da poesia (de mulher?): “elevação” além do real. Tons fumarentos. Nebulosidades. Reflexos crepusculares. Luz mortiça, penumbra. Belezas mansas, doçura. Formalmente, uma poesia sempre ortodoxa, que passou ao largo do modernismo. Um temário sempre erudito e fino. Cecília é considerada “a única figura universalizante do movimento modernista” ao afastar-se dos “vícios expressivos, do anedótico e do nacionalismo” que subsistiam em quase todos os poetas de então. Henriqueta insiste numa poesia metonímica, de interiorização, aprofundamento, abstração, em que a natureza aparece em flocos, resíduos, gotas de orvalho, voz de luar, chuva triste, espuma entre os dedos, pássaro esquivo, bolhas desvanescentes. Movimento: elidir o visível. Dissolver. Abstrair.

A apreciação erudita da poesia dessas duas mulheres se aproxima curiosamente do senso comum sobre o poético e o feminino. Ninguém pode ter dúvidas de que se trata de poesia, e de poesia de mulheres. Não quero ficar panfletária, mas não lhe parece que há uma certa identidade entre esse universo de apreensão do literário e o ideário tradicional ligado à mulher? O conjunto de imagens e tons obviamente poéticos, femininos portanto? Arrisco mais: não haveria por trás dessa concepção fluídica de poesia um sintomático calar de temas de mulher, ou de uma possível poesia moderna de mulher, violenta, briguenta, cafona onipotente, sei lá?

A crítica constituída se divide em relação às poetisas: uns veem na delicadeza e na nobreza de sua poesia algo de feminino; outros silenciam qualquer referência ao fato de que se trata de mulheres, como se falar nisso fosse irrelevante ante a realidade maior da Poesia. Seria possível superar essas atitudes críticas? Pensar na recepção da poesia consagrada de mulher como instância organizadora de um universo naturalmente feminino. Suave. O natural: onde as imagens estetizantes ecoam o senso comum do poético e do feminino.

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O ensaio completo você encontra em Crítica e tradução, publicado pela Companhia das Letras, que já está nas livrarias.

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