Livros e barcos

Por Mell Brites

0 (4)

Dia 4

Paulo Irini, garoto de 21 anos, foi morto pela polícia de Paraty há aproximadamente seis meses. Ele estava dirigindo e dava carona para um suposto procurado da polícia quando seu carro foi atingido por 47 tiros. Paulo em breve seria pai. Quem me contou isso foi Gibrail, de dentro de um barco, enquanto assessorava as crianças na praia do Pontal que participavam da Regata da Flipinha. Esse era um exemplo, na opinião do comandante e vice-presidente do Instituto Náutico de Paraty, do quão violenta era a cidade e de como o ensino de vela fazia diferença no desenvolvimento da região.

O instituto surgiu há dezesseis anos e atende crianças de oito a dezessete anos gratuitamente, tanto de escolas particulares quanto públicas. As aulas acontecem três vezes por semana e com frequência os alunos participam de competições — como essa a que assisti hoje, já tradicional na festa literária, em sua décima primeira edição.

Depois das instruções do Gibrail — “todo mundo está de colete?”, “e a caneca pra tirar água do barco, está a postos?” –, o apito soou e aproximadamente vinte meninos foram para a água. Do bote onde eu conversava com o instrutor, via os barcos de tamanho e formato próprios para criança ziguezagueando, e, dentro deles, navegantes compenetrados. Entre uma resposta e outra, o comandante interrompia o papo comigo e gritava: “Arriba mais!”, “Isso aí, Artur!”, “A espicha tá frouxa, deixa eu ver se você aprendeu!”. E em seguida voltava ao assunto: “quem entra no projeto do instituto sai daqui outra pessoa. Não se envolve com coisa errada e o mais importante é que começa a trabalhar pro mercado náutico. Tem muita demanda por mão de obra qualificada e quem sai daqui já sai na frente”.

Quando perguntei sobre a relação entre a regata da Flipinha com o resto do festival (pois não me parecia óbvia a presença de um campeonato de vela num festival de literatura), Gibrail disse que Liz Calder, mentora da Flip, foi a primeira apoiadora do Instituto Náutico, numa época em que não se contava com nenhum tipo de patrocínio, e foi ela quem doou o barco que inaugurou o projeto. Além disso, ele contou que nos primeiros anos da festa havia uma gincana entre as escolas da cidade e uma das modalidades era o barco a vela, que depois acabou ficando muito popular e ocupou todo o espaço da competição.

Mas o que de fato respondeu à minha questão, que no fundo dizia respeito ao vínculo entre o esporte e a literatura naquele contexto, foi uma frase dita à toa pelo comandante quando, uma hora depois da largada, já voltávamos para o píer. “Isso aqui é uma delícia, uma criança dessa idade ter a liberdade de navegar assim…” A palavra liberdade, ali, me chamou a atenção. Não me parecia que Gibrail se referia só à sensação que temos ao navegar, mas também — e principalmente — à liberdade que conquistamos quando aprendemos algo e passamos a ter domínio completo disso. Passamos a ser donos daquele objeto e assim ganhamos poder de escolha. Nesse caso, então, a liberdade parecia intimamente ligada à cidadania — e essa, depois dos quatro dias de festa, talvez tenha se tornado a palavra-chave da minha experiência aqui. Livros e barcos, na Flipinha, oferecem às crianças a possibilidade de conhecer espaços novos e diversificados para que, num futuro próximo, encontrem o seu próprio, conscientes da escolha que fizeram. Assim quem sabe, como consequência, teremos mais para frente menos casos como o de Paulo Irini, que passou a levar o nome do troféu da regata de fim de ano de Paraty e se tornou um alerta para os moradores da região de que as coisas precisam mudar — e rápido.

* * * * *

Mell Brites é editora da Companhia das Letrinhas e acompanhará os eventos da Flipinha durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Deixe seu comentário...





*