“Tenho todos os dentes”

Por Érico Assis

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Geneviève Castrée em Susceptible. 

Quando Geneviève Castrée tinha uns 4 ou 5 anos, seu pai disse que ia ficar uns dias fora, visitando amigos em outra parte do Canadá. À mãe, ele disse que ela saberia se virar bem, sozinha com a criança.

“Quando voltou, falei que ele tinha razão: eu não precisava mais dele”, a mãe conta à filha crescida. Pai e mãe nunca mais se viram. A filha levou dez anos para rever o pai, que foi morar no meio do mato em uma ilha de Vancouver.

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Geneviève Castrée faleceu no último dia 9 de julho. Tinha 35 anos. Ela descobriu um câncer no pâncreas pouco depois do nascimento da primeira filha, um ano atrás. Em junho, seu marido montou uma campanha GoFundMe para pagar o tratamento. A campanha continua ativa.

Castrée — que às vezes assinava Geneviève Elverum — produziu cinco álbuns, participou de algumas antologias e tinha carreira paralela como cantora. Na música, identificava-se Woelv e, depois, Ô PAON. O marido, Phil Elverum, também é músico e os dois organizavam festivais de bandas indie. Pamplemoussi, um dos álbuns de Castrée, vinha com um LP.

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Aos 15 anos, nos dias em que passou com o pai depois de uma década sem se verem, os dois entraram em uma loja de quadrinhos e Castrée encontrou um gibi de Julie Doucet. Disse ao pai: “Se eu fosse menina, eu fazia quadrinho ASSIM!”

Ela já lia Tintim desde criança, e também se dizia influenciada pela Mafalda do Quino — que, embora quase desconhecida na América do Norte, tinha sua cota de fãs francófonos no Québec.

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Depois de vários minicomics, Castrée publicou seu primeiro álbum em quadrinhos aos 19 anos. Um editor sugeriu que ela produzisse um álbum mais pessoal, quem sabe autobiográfico. Ela levou onze anos para atender o pedido.

Susceptible mostra principalmente a relação entre ela e os pais, da infância ao fim da adolescência. A mãe, envolvida com drogas e namoros complicados. O pai, distante emocional e geograficamente.

Uma página é dedicada ao seu primeiro amor: “Ele e eu montamos um forte com cobertores. Lá dentro a gente desenhava e fazia outras coisas que não tão sérias assim mas que ainda quero deixar em privado.” Seguem-se três quadros de um emaranhado de cobertores se mexendo, soltando balões de risadinhas.

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Anders Nilsen, também quadrinista, escreveu no site do Comics Journal sobre a amiga. “Ela devia ter tido mais cinquenta anos para exibir para o planeta esse gênio particular que tinha — como música, contadora de histórias, mãe, esposa e amiga.”

Também mostra um dos últimos desenhos que ela fez: sorrindo, desenhando, junto com a filha. Há um balão de fala apontando para Castrée, que não diz nada.

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No final de Susceptible, Castrée reencontra a mãe depois de passar uma temporada de seis meses com o pai. É o momento em que decide sair da sombra e dos problemas dos dois. Como Miranda July diz na quarta capa, é o final simples e perfeito. Castrée espaça sua declaração final em três páginas:

“Tenho dezoito anos.”

“Tenho todos os dentes.”

“Eu faço o que eu quiser.”

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

2 Comentários

  1. Selma disse:

    Belo texto. Não pude deixar de ver nas três últimas frases, a figura de minha neta, que, ao mudar-se para outra cidade a fim de estudar filosofia, disse ao pai: “Tenho dezoito anos. Vou pintar o meu cabelo de azul. Eu faço o que quiser”.

  2. Renan disse:

    Lindo texto, Érico! Ela merece ser lembrada, chorei aqui.

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