Detalhes tão pequenos de nós dois são coisas muito grandes pra esquecer — ou um tempo à toa na estação de trem

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42A brincadeira que fiz no fim da minha participação num encontro de editores da Penguin, quando perguntei se no ano seguinte poderíamos falar também sobre livros, ecoa o conflito que caracteriza a vida do editor, muitas vezes sobrecarregada por questões comerciais ou financeiras. Quando percebo o quanto os números tomam conta do meu dia a dia, e quantos exercem a profissão sem o mesmo apreço pelos momentos de leitura, sinto o senso crítico aflorar e repenso se gosto mesmo da profissão que escolhi. Em momentos de inconformismo já me peguei falando comigo mesmo, criticando colegas com a frase mais devastadora que posso dedicar a um profissional do mercado editorial: “Ele(a) não gosta de livros”. Nesses casos, sinto que essas pessoas, que acabam por merecer o meu desprezo, trabalham com livros pelo seu glamour, mas não se encantam com seu conteúdo. É comum nessas ocasiões que eu continue meu diálogo interior raivoso, impensadamente, em tom cada vez mais acusatório: “fulano não é de fato um editor, é um simples comerciante!”.

Porém nada poderia ser mais preconceituoso do que essa frase, da qual eu deveria me envergonhar. Só o cansaço oriundo de uma rotina difícil, principalmente em tempos sombrios, justifica que ela seja sequer pensada. Afinal, o tino comercial que há em cada editor é absolutamente fundamental para o bom exercício do trabalho no ramo e dignifica nosso cotidiano. O fato de a carreira de editor possuir um lado intelectual, de estarmos nas bordas da arte ou acompanhando o labor criativo de escritores, não permite que nos esqueçamos de que nossa função primordial é intermediar autores e leitores, e que essa intermediação ocorre por meio do mercado, do comércio, todos os espaços distantes do universo artístico.

Assim, é interessante notar que enquanto há editores que se destacaram por serem leitores extraordinários, outros serão lembrados por suas inovações mercadológicas, dedicando-se pouco aos textos ou ao acompanhamento da criação autoral. E não há problema algum em nenhuma das duas escolhas.

Esse é o caso de um dos maiores heróis do mercado editorial de todos os tempos chamado Allen Lane, o criador da Penguin e grande responsável pela existência dos livros de bolso como são conhecidos hoje. Lane era conhecido como um homem que lia muito pouco e quase nunca chegava ao final dos livros que começava. Não tinha interesse em outras áreas artísticas, era indeciso e pouco ligado em números ou relatórios gerenciais. No The Book of Penguin (editado institucionalmente em 2009 pela empresa que Lane fundou), seu criador aparece como um homem de enorme energia, obcecado, predestinado e detalhista. Era muito mais um empreendedor do que um intelectual, mas sabia se cercar de pessoas brilhantes na área editorial. Teve a ideia de criar a Penguin em 1935, supostamente numa estação ferroviária, à espera de um trem que atrasou. Interessado em comprar alguma coisa simples para ler e matar o tempo, percebeu que não havia livros baratos nos quiosques. Então, por que não criar uma linha de publicações com este fim?

Ao voltar a sua cidade, propôs um brainstorming no seu escritório em busca de um símbolo para a marca de livros baratos que queria lançar, dizendo de saída que preferia nomes de pássaros. Foi a sua secretária quem perguntou, de supetão: “Por que não um pinguim?”. Lane ouviu a sugestão e imediatamente enviou um funcionário do departamento de arte para o zoológico, a fim de que rabiscasse sketches do simpático animalzinho alvinegro.

Por trás de tudo isso estava a convicção de Lane de que no período entre guerras as pessoas gostariam de comprar livros baratos, que coubessem em seus bolsos e que tivessem um design moderno e atraente. Para ele estava claro que precisaria de uma marca forte, seguindo os caminhos da sociedade industrial do início do século XX. Allen Lane possuía concepções modernas de marketing, muito adiante do mercado de sua época.

Ele não foi o criador do livro de bolso, já existente desde o século XIX, mas o idealizador de seu formato contemporâneo — que não devia custar mais do que um maço de cigarros e atingir um grande número de leitores, mas sempre com qualidade e substância. Para que o modelo desse certo, ele teria de conseguir comprar por um preço baixo os direitos de republicação dos livros já lançados em capa dura; isto é, pagando um royalty bem inferior ao da primeira edição. Mesmo assim, com o preço baixíssimo que ele buscava alcançar, o breakeven para que as edições fossem lucrativas era muito alto para a época, ou seja, a Penguin só teria lucro a partir de um mínimo de 18.000 exemplares vendidos. Todos consideraram a aposta inviável, menos Lane. A reação inicial do mercado foi negativa, com editores, livreiros e autores se posicionando contra o barateamento dos livros. A voz discordante foi, como sempre, a de George Orwell, que disse: “Esses livros possuem um grande valor para o preço de 6 pence. Se os outros editores fossem espertos, se juntariam para enfrentá-los e derrubá-los”.

A surpresa foi grande quando o breakeven foi superado logo de cara, com uma compra de 63.500 exemplares por parte de uma grande rede de livrarias. O primeiro livro da Penguin foi Ariel, de André Maurois. Em 1937 passaram a fazer parte do projeto as obras de não ficção, através do selo Pelican, e mais à frente a linha infantil, pelo selo Puffin. No mundo do pós-guerra, o interesse por educação a preços acessíveis cresceu muito, como Lane previra, e assim sua aposta continuou dando certo e passou a se multiplicar. A conquista do mercado mundial em língua inglesa não tardou, tendo Lane mudado os escritórios da Penguin para próximo do aeroporto de Heathrow, até por conveniência operacional.

Na história de Allen Lane e da Penguin podemos ver como grandes editores por vezes são mais inovadores empresariais ou culturais do que companheiros artísticos dos autores. Caio Graco Prado, com quem aprendi o meu ofício, era parecido com Lane, embora fosse também um editor, que, ao contrário do criador da Penguin, ocupava-se sobremaneira com a leitura. Como Lane, Caio tinha um instinto empreendedor aguçado, em seu caso particularmente aliado ao interesse pela participação política. Sua vida de editor e o empenho pessoal devotado à abertura democrática brasileira caminharam juntos. Numa reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), nos tempos da ditadura, Caio sacou que havia um público jovem de peso ao lado dos intelectuais, o que transformava esse tipo de encontro em uma espécie de manifestação pela abertura democrática. Percebeu, além disso, que esse mesmo público emergente ansiava por leituras acessíveis, devido à lacuna de formação política e cultural existente nos currículos da grande maioria das escolas na época da hegemonia militar. Comprou os direitos de uma coleção intitulada Biblioteca de Iniciación Política, por sugestão de um amigo exilado na Espanha, da qual se originou a Coleção Primeiros Passos. Eu ajudei na confecção final da série brasileira, formando uma dupla com Caio, o verdadeiro empreendedor e inovador. Nesse sentido, encaixo-me mais no caso do editor que atua nos inúmeros detalhes que formam um livro, e menos nas grandes sacadas e inovações que movem o mercado para novos patamares. Eu tinha, é verdade, longas discussões com ele por ocasião das leituras dos livros que compartilhávamos, ou mesmo sobre a confecção dos produtos que fomos criando em dupla. A minha maior especialidade como editor sempre esteve nos infinitos detalhes de texto e no acabamento do livro.

Mas é bom dizer que, ao contrário de Lane, Caio Graco era um profissional que intervinha na redação dos livros. Nossos critérios aos poucos foram se distanciando, e nem sempre líamos os textos com olhares semelhantes. Ainda assim, aprendi com ele a ter o desprendimento de me colocar como leitor privilegiado, como companheiro, comparsa ou cúmplice dos autores, e falar com estes com total sinceridade. É claro que tento dosar a franqueza com certa diplomacia, mas é comum um autor estreante na Companhia estranhar o volume de questões e a forma direta com a qual tento expor minha visão dos textos. Devo ao Caio mais essa lição.

Allen Lane e Caio Graco, cada um a seu modo, e com abrangências diferentes, fizeram o mercado de livros dar saltos e mover montanhas. Outros editores podem se vangloriar de outros feitos, como ajudar o autor a encontrar sua voz, acertar enredos, dar o título correto às criações ficcionais, ou mesmo mudar uma vírgula de lugar — uma façanha muitas vezes capaz de influenciar o significado de um livro. Com um gesto pequeno, o editor é capaz de agregar sentido à viagem imaginária compartilhada pelo autor e seu leitor, feita de tantos “detalhes tão pequenos de nós dois”.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

8 Comentários

  1. […] Knopf, assim como Allen Lane — fundador da Penguin, cuja história já contei em outro texto —, tinha a clara noção de que precisava de um logotipo forte. Knopf seguiu a sugestão da […]

  2. RobertoEscritor disse:

    Prezado Wellington Machado,
    A questão da estética é natural da condição humana, o belo sempre sobressai, e isso não é diferente em se tratando de livros. A imagem, seja ela física ou um “status”, coloca em fundo de baús ou em lixeiras de editoras obras literárias diferenciais. A modelo das passarelas não deixa lugar para o mendigo maltrapilho. O livro escrito por qualquer ator global pula à frente em qualquer departamento editorial, não importando o que contenha, ou até mesmo se possua autoria de quem diz ter. A literatura, meu caro Wellington, é um mercado, e como tal deve estar atenta a regras de sobrevivência e de destaque. Em se tratando de mercado, qualquer mercado, ocorrem processos dinâmicos e intensos, sempre sujeitos a reviravoltas, principalmente aos mais desprecavidos, coisa que o Sr. Schwarcz atenta-se cotidianamente, e não por acaso ocupa seu atual posto.
    Já o papel, detive-me minuciosamente neste detalhe por muito tempo, e aqui vou responder a você sob a forma de metáfora, é tal qual café, a bebidinha muito querida por várias partes do mundo. A maior parte das pessoas pensa que café é tudo igual, e sempre opta por aquela tal marca “promoção”. Depois, mais tarde, quando o seu paladar se acostuma a um “arábica gourmet”, aí nenhum outro mais serve.
    Cordiais saudações a você Wellington e ao Sr. Schwarcz.

  3. Fatima Pombo disse:

    Prezado editor, aproveitando a deixa desse seu texto de hoje, que tal
    publicar novamente BASHÔ,
    uma publicação da coleção Primeiros Passos da Brasiliense?
    Eu perdi o meu livrinho(GRANDE) num táxi muitos anos atrás e não consigo adquirir outro!A tradução se a minha memória não me trai, é do Paulo Leminsky. Obrigada.

  4. luiz schwarcz disse:

    Obrigado Wellington vou pensar em escrever sobre papéis mas talvez eu não tenha tanto conhecimento para que o assunto possa render um post. Vou tentar. Enquanto isto vou verificar o que houve com a maleabilidade dos livros da Lygia. Creio que a Companhia tenta ao máximo fazer livros legíveis. No entanto em alguns casos, principalmente quando se trata de livros muito grandes, acabamos ficando com medo de incorrer em preço muito alto e sacrificamos um pouco a legibilidade. Quero fazer isto menos e menos, pois o assunto me preocupa cada vez mais. Quanto ao papel da Penguin certamente foi por não haver equivalente no mercado brasileiro.
    Um abraço Luiz

  5. Wellington Machado disse:

    Tenho lido com interesse os textos do Luiz. Gostaria de propor dois assuntos (pautas?) para futuros textos sobre edição.

    1. Qual é a importância do tipo de papel na feitura do livro? Existe uma relação entre o texto e o tipo de papel a ser utilizado na edição, ou seja, determinado estilo/gênero requer este ou aquele papel? Existe um público, de acordo com uma cultura ou país específicos, que prefere algum tipo especial de papel?
    Levanto essa questão por causa de algumas dificuldades – de leitura e manuseio – que tenho com algumas edições brasileiras. Os livros brasileiros, em sua maioria, são feitos para ficarem fechados!? Sinto uma grande resistência em abri-los devido a edições apertadas (na costura?) ou papéis inflexíveis. Pra citar um exemplo da Cia das Letras, os livros da reedição/coleção da Lygia Fagundes Teles são lindos, porém duros, resistentes em ficarem abertos. Por outro lado, a edição do “Vozes de Tchernóbil” (Svetlana) é boa de ler, macia. O mesmo vale para “Graça Infinita”, do David Foster Wallace.
    Por que a Cia-Penguin não adotou o mesmo papel que a Penguin americana adota? O papel “deles” é bem mais delicado e macio. Na mesma linha, os livros da editora francesa “folio” são igualmente deliciosos de segurar, manusear e têm um tamanho fácil de transportar.
    * * *
    2. Por que as editoras resistem tanto em reeditar livros bem sucedidos? Não é vantajoso comercialmente? Por que a Cia das Letras não reedita livros há tempos esgotados, como, p.ex., “Seis passeios pelo bosque da ficção” (Umberto Eco), “O olhar” (org. de Adauto Novaes) – além de inúmeros outros?

  6. RobertoEscritor disse:

    Puxa! Como uns dias de férias mudam um homem… Esse não me parece o Sr. Schwarcz do final de junho. Está um tanto mais ocre. Mais editor do que nunca. Parece não ter restado nada do homem, o escritor, cuja alma tirava proveito de certos momentos de descanso; e com isso tomava posse da criatura, hasteando por alguns instantes a bandeira do escritor. Confesso que prefiro esse segundo ser, temos alguns afluentes em comum. Embora o editor seja o dominante, o administrador, a figura pública, o aprendiz que superou o mestre, vou deixar aos dois (o editor e o escritor) uma pergunta no ar: será que no próximo post poderíamos falar também sobre livros?
    Cordiais saudações.

  7. Priscila Liverpool disse:

    que texto bão.
    e como é estranho ler: “trabalham com livros pelo seu glamour”, quando a última coisa que a vida literária parece ser é glamurosa. Até mesmo porque falamos de Brasil, nesse e em outros momentos, onde o maior prestígio para um escritor é ganhar um JABUTI — qual a glória disso?? Se fosse uma fênix, ou qualquer outro símbolo de ouro, sei lá, mas um jabuti…

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