Do que falamos quando falamos de ficção científica

Por Luara França

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Ilustração de A guerra dos mundos, de H. G. Wells, por Warwick Goble. 

Nem sempre fui uma leitora de ficção científica (FC). É bastante comum que as pessoas que gostam do gênero comecem sua jornada já no fim da infância lendo Eu, robô, de Isaac Asimov, A guerra dos mundos, de H. G. Wells ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Minha infância, por outro lado, esteve repleta de fantasia, mágicos, monstros e dragões que não precisavam ser explicados por nenhuma lógica científica. Foi só mais tarde, ao ler Solaris, de Stanisław Lem, que o gênero realmente se abriu para mim. Foi a partir dessa leitura que pude revisitar boa parte do que já havia lido e descobrir como um gênero tão amplo como a FC pode extrapolar barreiras literárias.

Não me parece contraditório que um gênero que se preocupa em pensar a existência do outro, da diferença, do alien, atraia uma gama tão diversa de leitores. Todo mundo pode ler FC, desde crianças fascinadas com as estrelas até adultos que tentam entender as consequências de uma guerra.

Posso estar me precipitando aqui, talvez seja melhor definir do que falamos quando falamos de FC. […] O.k., tarefa impossível. Próxima.

Talvez seja melhor tentar desvendar os contornos do que seria a ficção científica. A ideia mais aceita é a de que você precisa ter um elemento distante da nossa realidade que seja explicado por uma teoria científica. Exemplo: se você vê uma vassoura voadora mágica, está em um livro de fantasia; se você vê uma vassoura voadora movida por micro-turbinas feitas por uma grande corporação que pode na verdade estar querendo dominar o mundo através da sistemática contratação, substituição por clones e assassinato de físicos e engenheiros especializados em nanomateriais, eis aí em um livro de FC. A diferença é sutil e não raramente as linhas se cruzam. É comum que livros de outros gêneros (ei, ficção literária, estou olhando para você) se apropriem de tropos da FC para dar um “gostinho diferente” aos seus livros. Esse hibridismo entre os gêneros costuma ser bastante benéfico para todos os campos, e são os gêneros da chamada ficção especulativa (terror, fantasia e FC) que mais favorecem as outras áreas.

Mas a FC ainda vai além e também se junta à física, à matemática e às demais ciências exatas para construir um mundo parecido e ao mesmo tempo diferente do nosso. Um mundo em que a Revolução Cultural Chinesa aconteceu, mas pode ter levado também ao primeiro contato com extraterrestres. Um mundo em que físicos passam horas jogando um vídeo game que talvez não seja exatamente o que aparenta ser. Essa é a história de O problema dos três corpos, livro do chinês Cixin Liu, lançamento da Suma de Letras agora em agosto. O livro é o primeiro volume de uma trilogia que vai explorar a ideia do primeiro contato da Terra com alienígenas — tema frequentemente entendido como uma exploração do lidar com o diferente. O autor, Cixin Liu, foi o primeiro escritor não anglófono a receber o prêmio Hugo (a principal premiação da FC) e pareceu a escolha perfeita para integrar o catálogo da Suma de Letras.

O catálogo do selo já conta com grandes livros de FC, como A guerra dos mundos, de H. G. Wells, e do terror, como It, de Stephen King, mas agora começamos um novo capítulo que trará para o nosso time autores contemporâneos (como Sylvain Neuvel e seu Gigantes adormecidos) e clássicos (Connie Willis e Shirley Jackson confirmadas para 2017!).

Esperamos que o selo abra portas para quem ainda não conhece o gênero e também agrade aos que já são fãs. Porque “a natureza nunca apela para a inteligência senão quando o hábito e o instinto são incapazes de resolver um problema. Não existe inteligência onde não existe mudança ou a necessidade de mudança.”. (Não sou eu falando, é o H. G. Wells em A máquina do tempo.)

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E não se esqueça: “Nunca dou ouvidos a quem critica meu gosto pela viagem espacial, eventos estranhos ou gorilas. Quando isso acontece, eu pego meus dinossauros e deixo a pessoa falando sozinha”. ― Ray Bradbury

Se você se interessa por FC, recomendo que siga a Suma de Letras nas redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram) para ficar por dentro de todas as novidades do selo. Muita coisa boa está por vir!

* * * * *

Luara França é editora dos selos Alfaguara e Suma de Letras.

20 Comentários

  1. Mariany disse:

    Ah Luara volta com o canal no youtube, da uma tristeza abrir a página do canal e não ter vídeo :(

  2. Liciane disse:

    Adorei Gigantes adormecidos – lendo em pé, no metrô, quase passei da minha estação! Tenho certeza de que o catálogo da Suma vai ficar cada vez mais incrível por ter pessoas como você, apaixonada pelos livros que faz, escolhendo o que vem por aí <3

  3. Regiane Winarski disse:

    Quando criança, eu também não lia FC, mas me apaixonei perdidamente pelo gênero nos muitos filmes que vi compulsivamente na adolescência. Claro que uma coisa levou à outra, e acabei descobrindo vários autores clássicos de FC. Mas há tempos tenho a sensação de que faltam livros contemporâneos de FC que me despertem o interesse, ou ao menos de cuja existência eu fique sabendo! Já estou curiosíssima para ler “O problema dos três corpos”, que ainda acrescenta o elemento cultural estrangeiro na mistura. Estou muito feliz com esse caminho que a Suma está seguindo agora. Espero muita coisa boa por aí.

  4. David Teixeira disse:

    Se ler FC É MÁGICO, ESCREVER É MAIS AINDA. Ao imaginar as possibilidades muitas imagens surgem na mente, as viagens e a argumentação brotam de forma mais rápida do que podemos escrever…
    As tramas explodem, os universos e mundos surgem do nada. Os personagens vão chegando, suas falas são próprias, é como se estivéssemos ali para digitar suas conversas. Seus pensamentos se misturam aos nossos e corremos para registrá-los. E TUDO ISTO ACONTECE DURANTE TODO O DIA, NO BANHO, NO ALMOÇO, DIRIGINDO, OUVINDO O VENDEDOR, FILHOS E ESPOSA. É COMO VIVER O SEU PRÓPRIO SERIADO EM N-DIMENSÕES…

  5. David Teixeira disse:

    Olá, por um acaso tem em vista algum autor brasileiro?
    No ano passado recebi um convite e um conto de FC meu foi aceito pelo selo Amazon.
    Desde então estou escrevendo. Se ler é magnífico escrever é o Nirvana…

  6. Alessandra disse:

    A Suma bem que poderia reeditar assim como lançar obras inéditas de Robert Silverberg, os livros de ficção cientifica dele são ótimos.

  7. Tainara disse:

    Incrível! FC é um gênero que tenho muita vontade de mergulhar, mas nunca sei por onde começar. Precisamos falar sobre gêneros incompreendidos como este, que ainda tem muitos preconceitos – ainda tem tanta gente que acha que FC e Fantasia são só para criança, vamos mudar isso daí!

    Ótimo texto! Me animei <3

  8. Camila de Araujo disse:

    Como você apontou, a FC oferece diversas possibilidades. Desde o universo estrutural do bom doutor Asimov, passando pela filosofia cientifica de Philip K. Dick até a distopia e o cyberpunk – entre outras viagens intra e interplanetárias deliciosas. Certamente o que contribui para que “atraia uma gama tão diversa de leitores” e os fascine por um gênero tão plural.

    Sucesso para a nova fase da Suma. “O Problema dos Três corpos”, de Cixin Liu, já está na minha lista como próximo da fila.

  9. Gustavo disse:

    Muito bom saber que a Suma está dosando clássicos com autores contemporâneos. Para mim, acerta em cheio! Gigantes adormecidos é uma ótima pedida, um livro que foge do usual, construído totalmente em cima de diálogos, em um ritmo empolgante. O problema dos três corpos tem passagens e personagens memoráveis, como Da Shi, um detetive que provoca as mais diversas reações. A conspiração é muito bem narrada e prende o leitor do começo ao fim. Agora resta saber quais serão os próximos lançamentos e fazer uma fé para que Bradbury se junte ao time, em novas e atuais traduções, nos moldes das dos livros mencionados acima. Seria ótimo!

  10. Emanuella disse:

    Excelente texto, Luara! Confesso que nunca fui uma grande fã de FC, mas a sua explicação sobre o gênero foi tão boa, tão atraente, que despertou em mim a vontade de me jogar mais uma vez nessas aventuras!

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