O zepelim, a Netflix e o Biscoito Globo: a poderosa alquimia da memória

Por Ana Maria Bahiana

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Tudo começou quando li um excelente texto do arqueólogo, egiptólogo e empreendedor britânico Tobias Stone sobre o papel da memória na narrativa histórica. Mais que na narrativa — na história em si. Por que a humanidade repete incessantemente os mesmos ciclos? Por que temos iterações periódicas dos mesmos arquétipos: as guerras religiosas e étnicas; os expurgos; as expansões imperiais; a ascensão de ditadores e tiranos? Stone, com sua formação embasada no estudo do antigo, oferece uma resposta intrigante: porque não nos lembramos. Sim, existe o registro. Mas emocionalmente, fisicamente, visceralmente não nos lembramos mais. “Minha teoria é que a perspectiva histórica da maioria das pessoas é limitada à experiência compartilhada por seus pais e avós, ou seja, uma média entre 50 e 100 anos”, Stone escreve.

É uma perspectiva fascinante, que sugere uma ideia ainda mais desafiadora: a de que apenas os relatos, o registro da história, não valem quase nada se não vierem acompanhados da memória afetiva e emocional que lhes dá contornos claros, quase palpáveis, quase uma realidade virtual. O que nossos antepassados imediatos nos contam a partir de suas experiências têm mais peso de verdade do que o que aprendemos na escola, nos livros, nos registros oficiais, porque formam um arcabouço que envolve outros elementos, com a carga emocional da experiência vivida.

Por isso, Stone continua, é perfeitamente possível encontrar, hoje, pessoas que duvidam, por exemplo, que o Holocausto se deu, ou que acreditam que Donald Trump e outras figuras da direita populista oferecem propostas inteiramente novas e válidas, nem um pouquinho semelhantes às de tiranos fascistas do século 20. Entre outras coisas.

Sempre fui fascinada pelo papel da memória, por seus processos, pelo modo como o que lembramos se constrói. Ver meu pai — memorialista nato, colecionador apaixonado, excepcional fotógrafo amador — sucumbir ao mal de Alzheimer foi ao mesmo tempo um horror e uma lição sobre o poder, a delicada alquimia da memória. Da presumida escuridão total das etapas finais da doença emergiam narrativas inteiras, intactas, tão vivas como da primeira vez que foram contadas. Seria o peso do afeto, a superposição com alguma outra energia mais sutil que guardaram até o fim a imagem do Zepelim flutuando sobre a praia de Copacabana? Será por esse mesmo motivo que me lembro do cheiro e da textura de uma determinada boneca, mas tenho a clara impressão de que nunca, realmente, brinquei de boneca?

Os produtores de entretenimento de massa conhecem muito bem esse poder da memória afetiva. “Nada apavora mais um executivo do que uma ideia inteiramente original”, um produtor independente me disse, uma vez. E é a pura verdade. A ideia original abre uma nova etapa e, portanto, não tem alicerce. Mas ah! Que coisa mais certeira do que aquilo que já foi visto e assimilado emocionalmente! Aquilo que já compôs sua própria narrativa na nossa cabeça e no nosso coração, que já está ancorado na nossa memória afetiva, só precisa dos botões certos, das espoletas que vão nos levar a, imediatamente, ver e apreciar como se estivéssemos lembrando. Como se estivéssemos vivendo de novo algo que pode ou não ter sido vivido desse modo — mas que é lembrado e, portanto, vale.

Stranger Things, a série da Netflix, sabe disso tudo muito bem. Seu imenso sucesso está em fornecer todas as espoletas certas, recriando o universo de memórias afetivas da geração que hoje tem entre 30 e 45 anos e cresceu vendo o cinema pop/fantástico da geração de Steven Spielberg, John Carpenter e George Lucas — que, por sua vez, estavam reciclando as suas próprias memórias afetivas dos anos 1950 e 1960. É um ciclo que, com o devido incentivo pecuniário, não termina tão cedo.

Fiquei pensando também se esse mesmo poder não explica a divertida controvérsia do Biscoito Globo. Como tantos outros cariocas, eu cresci comendo Biscoito Globo. Não saberia sequer descrever seu sabor com palavras exatas, mas sei muito bem o que ele é: praia, mate gelado, o som de “croc”, o farelo pelo corpo, o mergulho, o cheiro da maresia, a areia nos pés, a conversa com os amigos. Em termos de experiências meramente gustativas, jamais colocaria o Biscoito Globo no topo da lista. O que ele é é a minha infância, a minha adolescência, a liberdade, a alegria e os simples e poderosos prazeres de estar naqueles momentos, naquelas praias. É parte do que faz de mim o que sou — uma carioca de Ipanema, que se lembra afetivamente de tudo do seu bairro e, no entanto, talvez não seja capaz de recordar o que fez em determinada data.

Pobre rapaz do New York Times! Que memórias ele terá? Saltwater taffy em Coney Island? Eu provei uma vez. Achei um horror. Mas não era minha história.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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6 Comentários

  1. Ana Maria,
    Nunca tive oportunidade de conhecer você pessoalmente, mas tenho lido e aprendido muito com suas matérias, suas análises, suas recordações.
    Eu tenho 86 anos de idade e sou recentemente membro da UBE. Tenho muita coisa publicada – artigos, comentários, palestras, site na Internet desde 2005 muito vivo, graças a Deus e cinco livros publicados, mas tudo isso num campo meio estéril mas muito humano: tópicos e tecnologia relacionados à inclusão social dos assim chamados “indivíduos com necessidades especiais”: com ou sem deficiências, mas aquilo que nós, pretensamente “normais”, chamamos de “fora do padrão de normalidade aceitável” pela sociedade maior… Sei lá se essa pretendida “normalidade” tem alguma base no real, no dia-a-dia.
    Mas, na verdade, estou escrevendo estes pobres comentários sem eco para lembrar um comentário de Flavius Josephus, historiador romano/judeu do século I DC, que se preocupou demais em escrever sobre a evolução do mundo hebraico naqueles tempos em que ainda dava para sentir o cheiro de Jesus sobre a terra calcinada do atual Israel:”Quem se preocupa em escrever História pode fazê-lo por vários motivos! Um deles é que tomou conhecimento de fatos ou vivenciou situações que acham que não devem ser sepultados no eterno silêncio!…
    Você, Ana Maria, é uma dessas pessoas. Siga em frente. Não deixe seu computador sem o pão nosso de cada dia, por favor!
    Fique bem aó no seu recanto californiano.
    Otto

    Otto Marques da Silvamarquesdasilvaotto@gmail.com
    Site desde 2005: http://www.crfaster.com.br
    (sem qualquer financiamento, hein?)

  2. Ouriço e Pequi disse:

    eta texto bão :)

  3. Aluísio Barros disse:

    Eira! A mesma boa escrita que me encanta desde a revista Pop. Penso que comecei a te ler na Pop.

  4. fabiano disse:

    muito bom seu texto,nossa memoria afetiva é relmente incrivel,sabe o que eu lembro quando leio seus textos aqui? da revista bizz ,la em julho de 85 quando comprei o n°1 da revista,a emoçao de ver e ler grandes materias e textos tao diferentes pra época.
    E preocupante saber que esse ´´novos ditadores´´ podem assumir o poder no mundo.

  5. Abdalah Rached disse:

    Muito precisa como sempre a Ana…Esse lance do Netflix com Stranger Things é exatamente oque ela falou…E talvez por isso que gosto tanto dessa serie…

  6. Fabinho Flappers disse:

    Belo relato. Cada um sabe o que está gravado nas tábuas de sua memória e move suas engrenagens. :)

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