A elegância é a alma do negócio — ou o borzoi que foi criado por um imperador vienense e acabou nas mãos do silencioso guru indiano das edições

Por Luiz Schwarcz

luiz-knopf

Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42A lendária editora americana Alfred Knopf comemorou seu centenário em 2015. Como parte das celebrações, produziu um livro no qual consta uma lista completa com todos os títulos editados pelo selo, ano a ano. Na introdução, Charles McGrath — ex-editor da seção de livros do The New York Times e atual colaborador da New Yorker — fez um perfil, independente e isento, da editora.

Para mostrar como na época da fundação da Knopf os tempos eram outros, McGrath lembra o leitor da ausência de paperbacks, clubes de livros, cadeias de lojas e de qualquer tipo de edição eletrônica. Ele chama a atenção para o fato de que os livros eram todos compostos a partir de linotipias em metal, impressos em máquinas offset não digitalizadas e costurados, nunca colados. Também não havia leilões ou disputas entre editoras pelos direitos de um livro, até porque, para ser apresentado a mais de um editor, o manuscrito teria que ser todo redatilografado, já que ainda não era possível fazer múltiplas cópias dos originais.

Assim, diz ele, o mundo da edição era povoado por gentlemen — o que significa que as regras de competição entre as editoras eram menos selvagens e que as mulheres não eram muito bem-vindas, a não ser ocupando cargos menores na hierarquia. Além disso, se no início do século XX um judeu almejasse trabalhar no mundo dos livros, sobretudo em algum posto de direção, teria que montar sua própria editora.

Após ter se graduado pela Universidade Columbia, onde entrou com apenas dezesseis anos, Alfred Knopf começou sua vida editorial trabalhando na Doubleday, primeiro no setor de contabilidade e posteriormente no de propaganda e divulgação. Saiu de lá aos 22 anos e com cinco mil dólares no bolso para fundar a sua editora.

A Alfred Knopf publicou, durante muitos anos, mais autores estrangeiros do que norte-americanos, escolhidos por ele e por sua assistente editorial, Blanche Wolf, que depois de um tempo se tornaria Blanche Knopf. A escolha, aparentemente esnobe, dos livros que formaram o catálogo inicial da Knopf se devia muito ao gosto dos dois, principalmente ao de Blanche, mas também pode ser explicada por um motivo mais mundano. Com o antissemitismo reinante na sociedade americana da época, poucos autores nascidos no país aceitavam ser publicados por uma editora cujo dono era judeu. (É curioso notar que na biografia de Blanche Knopf*, recém-lançada nos Estados Unidos, esta aparece como cofundadora da Knopf, a quem foi prometida participação igualitária nas ações da companhia, tendo por fim recebido apenas 25%.)

Alfred Knopf era um editor peculiar. Com seu moustache proeminente, vestia-se como um dândi, sempre com ternos de seda e gravatas muito coloridas. McGrath diz que John Updike, de quem Knopf, com o tempo, ficou muito amigo, descrevia o editor como um misto de imperador vienense com pirata bárbaro. Pois o “pirata bárbaro” não gostava de livros que deveriam ser editados fortemente, desprezava, de certa forma, o trabalho de edição de texto, e achava que os editores eram pessoas que costumeiramente compravam direitos de livros que ninguém queria ler. Knopf em geral seguia as escolhas de sua mulher e indicações de amigos, como o sarcástico crítico cultural H. L. Mencken. Os releases escritos por ele mesmo para os livros que publicava soavam muito mais como “malhos descarados” de um gerente comercial do que sinopses editoriais. Aliás, ele mesmo gostava de vender os livros para parte dos clientes.

O imperador vienense mostrava-se presente no gosto acentuado pelo design gráfico, mais especificamente pela arte tipográfica. Parecia querer vestir seus livros tão elegantemente como ele próprio julgava trajar-se no dia a dia. Curiosamente, o terceiro e atual publisher da casa, o indiano Sonny Mehta, conhecido por sua extrema discrição, um dia ganharia menção como um dos homens mais elegantes de Nova York. Justamente Sonny, que trabalha quase sempre com o mesmo uniforme: calça jeans, tênis preto, blazer azul e suéter preto de gola rolê.

McGrath comenta, com muita graça, que Sonny, que não liga para moda ou qualquer tipo de badalação, ganhou justamente o prêmio que mais encantaria Alfred Knopf e que este nunca viria a receber.

O amor pela tipologia e pelo acabamento sofisticado nas impressões, associado às relações íntimas de Blanche Knopf com escritores europeus, como Albert Camus e Thomas Mann, fará com que Alfred consiga criar uma das marcas mais perenes de qualidade da história editorial de todos os tempos. Vem de Blanche também o interesse da Knopf por autores latino-americanos, como Gilberto Freyre e Jorge Amado, que acabou se tornando amigo do casal. A edição da única tradução de Grande Sertão: Veredas para a língua de Henry James também entra na conta dos méritos do casal Knopf, embora, segundo dizem, ela esteja longe de fazer jus ao original.

É justamente neste ponto que o exemplo da Knopf é singular. Seu proprietário respeitava tanto a aura gráfica dos livros — que venerava tátil e esteticamente —, quanto tinha noção de que através desse cuidado conseguiria fixar uma marca para sua empresa, fazendo que autores e leitores diferenciassem seus livros dos outros disponíveis no mercado. Buscava assim que os escritores escolhessem a Knopf, principalmente por conta do tratamento gráfico que a editora lhes proporcionava. O mesmo valeria para os leitores, que diferenciariam os livros bonitos e bem cuidados que exalavam um espírito de qualidade e se destacavam nos balcões das lojas e magazines. Curiosamente, os livros americanos, por tradição, não trazem o logotipo da editora nas capas, apenas na lombada e dentro dos livros. Mesmo assim, o cuidado gráfico de sua linha era tal que a marca da Knopf na capa tornava-se quase dispensável. E, de fato, os borzois — os esguios e elegantes cachorros russos, xodó de Leon Trotsky — que compõem o símbolo da editora nunca simularam caminhar elegantemente sobre as capas, apenas na lombada ou dentro dos livros.

Alfred Knopf, assim como Allen Lane — fundador da Penguin, cuja história já contei em outro texto —, tinha a clara noção de que precisava de um logotipo forte. Knopf seguiu a sugestão da esposa. Anos depois, Blanche chegou a comprar um casal borzoi, para tê-los também em sua vida doméstica. Segundo McGrath, o casal ficou com os animais por pouquíssimo tempo. Alfred e Blanche acharam que os cachorros tinham um comportamento covarde, estúpido e desleal. Curiosamente, a fidelidade que o editor conquistou para a sua marca foi adquirida utilizando a imagem de um animal que, com a convivência, lhe pareceu tudo, menos fiel.

Um aspecto muito importante para entender a personalidade da editora Knopf e a fama que mantém por mais de um século está no fato de a editora ter sido dirigida até hoje por somente três publishers: Alfred Knopf, Robert Gottlieb e Sonny Mehta. Do dândi fanático por tipografia, a editora passou às mãos de um editor excêntrico e dinâmico. Vindo da Simon and Schuster, Gottlieb agia por intuição, fazia reuniões deitado no chão, de meias, e pouco ligava para encontros ou trajes formais. Foi o escolhido para substituir Alfred Knopf no ano de 1972, quando a editora já pertencia ao grupo Random House. Extremamente centralizador, Gottlieb tinha um carisma diverso de seu antecessor. Falava muito nas convenções de venda e era conhecido por sua capacidade de convencimento. Tinha excelente relação com as maiores agências literárias, que muitas vezes escolheram a Knopf para seus autores mais importantes, graças ao contato próximo com seu publisher.

O indiano Sonny Mehta, atual diretor da Knopf, radicalizou as diferenças de estilo ao operar as engrenagens da editora com o uso de poucas palavras e de um estilo definitivamente antissocial. O carisma de Sonny Mehta vem do seu profissionalismo, assim como de seu silêncio.

A verdade é que, com estilos radicalmente diversos, os três editores souberam manter a aura que caracteriza a Knopf. O estilo dos publishers pode ter mudado, mas a marca da Knopf continuou intacta. Alfred gostava de chamar a atenção para seus trajes e gostos sofisticados — dizem que, ao convidar alguém para jantar em sua casa, pedia abstinência de cigarro por 24 horas para não prejudicar a degustação dos vinhos a serem servidos. Gottlieb, por outro lado, era informal, mas muito controlador. Já Sonny valorizou o silêncio e a introspecção, com enorme respeito à liberdade de seus editores. Na sua gestão, a Knopf voltou a elevar a criatividade gráfica, com designers de ponta, como Chip Kidd, entre tantos outros. Sonny, que se mudou para os EUA e assumiu o cargo na Knopf depois de ter realizado enormes mudanças no mercado inglês de paperbacks na Picador, é hoje uma lenda viva do mundo editorial. Como Alfred Knopf, um dos seus maiores prazeres é se dedicar à capa dos livros. Com ele, tive a sorte de criar uma amizade enormemente instrutiva para mim.

Assim, é curioso notar que o respeito ao design é algo que liga Alfred Knopf e Sonny Mehta. Ambos entenderam que o livro é um objeto com alma e carisma, um produto com personalidade singular.

Se a composição das marcas editoriais na Europa deu-se principalmente pela formação de catálogos literários fortes, de qualidade radical, como é o caso da Gallimard, da Suhrkamp ou da Adelphi, nos Estados Unidos a base literária para a constituição da fidelidade do autor e do leitor pode ser mais fluida. Na Knopf, a convivência de livros mais comerciais ao lado dos de maior peso literário nunca afetou a legitimidade da marca. Mas também entre os europeus, principalmente no caso da Suhrkamp, o design gráfico contribuiu fortemente para o carisma da empresa. Adelphi e Gallimard marcaram padrões gráficos fortes em suas capas, que são facilmente identificáveis em seu estilo, porém não especialmente bonitas ou criativas. A vanguarda que está nos textos nem sempre se espelha em capas especiais.

Um livro se lê, mas também se toca, se cheira, se guarda. O gosto por ternos de seda de Alfred Knopf explica por que ele cuidava de seus livros com tanto amor e vaidade. Já no silêncio e na elegante discrição de Sonny Mehta encontra-se outra explicação para a valorização do design. Como se para ele um livro devesse falar por si, com menos malhos de venda verbais e mais comunicação visual direta com o leitor. Essas são abordagens diversas, que levam, porém, a um resultado semelhante e explicam a alma da editora, que permanece intacta. Não há um só caminho para a confecção de livros de qualidade, mas todos eles passam por um componente fundamental de seus editores: a elegância, na mais ampla acepção do termo.

* * *

*Nota : The Lady with the Borzoi: Blanche Knopf, Literary Tastemaker Extraordinaire, de Laura Claridge. Farrar, Straus and Giroux, 2016.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

7 Comentários

  1. […] relação entre Alfred Knopf e sua mulher, Blanche Knopf, tratada brevemente num texto anterior deste blog, é bastante emblemática. Se estiverem corretos os dados da biógrafa de Blanche, ela teve muito […]

  2. Eduardo disse:

    Obrigado
    É importante que tal spoiler não conste na contra capa.

  3. admin disse:

    Olá, Eduardo!

    Muito obrigado pelo seu comentário, a atenção dos leitores é muito importante para mantermos a qualidade de nossos livros. Entraremos em contato com as lojas para alterarmos a sinopse. :)

  4. Eduardo disse:

    Boa noite Luiz,

    A respeito da oportuna e bem-vinda publicação da obra prima “Montanha Mágica” pela Companhias das Letras”, lendo o trecho da sinopse abaixo, disponível na amazon, gostaria de alertar que há um spoiler fundamental revelado, qual seja, o tempo que o protagonista Hans Castorp fica no sanatório. Penso que deveriam tirar esse trecho da sinopse antes de iniciarem as vendas.Não se trata de mero detalhe, é uma informação importante que Thomas Mann deixou para o final e, em hipótese alguma deveria ser revelada aos leitores antes da leitura.

    “Durante uma inesperada estadia de SETE ANOS em um sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços..

    grato

    Eduardo

  5. André Rehbein Sathler disse:

    Excelente texto! A menção aos primórdios, quando os originais não eram apresentados a múltiplas editoras porque teriam que ser redatilografados me fez pensar em Walter Benjamin, a reprodutibilidade técnica e o caráter dos livros como obras de arte. E logo depois foi mencionada a aura dos livros. Parabéns!

  6. Ouriço e Pequi disse:

    maravilha, Luiz!

  7. Cohn, Miguel disse:

    Luiz,
    Grato pelo teu brilhante e elegante texto!
    Enobrece tanto quanto a estirpe da Knopf quanta a da
    Companhia das Letras!
    Li com enorme prazer, assim como farei com a de vocês!
    Congrats!
    Cohn, Miguel
    Ex-consultor literário Siciliano Saraiva
    Banca Cidade Jardim 2004/2012
    Düsseldorf 14.09.2016

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