Acariciando as páginas que se vão — ou qual é o papel do papel

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42Vocês já sabem o que penso sobre o aspecto tátil do livro. Num dos primeiros posts desta série, falei sobre o momento em que um editor recebe o livro da gráfica e o cheira. Comentando sobre o carisma que os livros carregam, que deve ser respeitado quando se elabora uma capa, também destaquei o componente material da edição como parte fundamental do trabalho do editor. Na minha opinião, ao pensar no formato e no aspecto de um livro, estamos sempre tentando unir espírito e forma, de certa maneira por entender que o produto com o qual trabalhamos não é um objeto qualquer — ele permanece vivo e mutante mesmo depois de impresso.

Chego agora à questão que me foi colocada por Wellington Machado. Tentarei escrever algumas linhas sobre o papel do papel nas edições dos livros físicos, já que hoje convivemos também com o livro digital, aquele que liga no “on” do nosso tablet e some da tela sozinho quando vamos dormir. Aliás, é curioso pensar — e sem qualquer demérito para com as edições eletrônicas — que livro digital, imagino, cai menos da nossa mão quando adormecemos lendo. Suponho que por termos o costume de desligar o tablet ao finalizar a leitura — eu pelo menos desligo — a ocorrência de cair no sono com o livro digital na cama deve ser bem menor. Talvez terminamos a leitura do dia, quando utilizamos aparatos eletrônicos, mais despertos do que com o livro físico, com quem já nos acostumamos a passar a noite juntos.

Vários componentes do papel usado em um livro passam desapercebidos a muitos leitores, mas não são desimportantes. Creio que, dado o seu aspecto corpóreo, o livro físico valoriza mais essa relação carismática sobre a qual falei em outro post. Essa pode ser uma das razões de o hábito de ler edições no formato convencional ser tão duradouro, e o apocalipse do livro, como ouvimos dizer desde o advento do rádio, não ter acontecido como previam os mais chegados aos constantes temores com o final dos tempos.

Seguindo essa linha de pensamento, é interessante pensar em alguns aspectos materiais, por exemplo: por que será que, no contato com o livro físico, é tão melhor ler em páginas não tão brancas? Por que será que o toque com os dedos em um papel mais poroso cria uma sensação diferente para a leitura?

Recentemente lançamos o livro Viva a língua brasileira!, de Sérgio Rodrigues, e usamos um papel totalmente alvo, com a intenção de manter mais identificadas as cores das ilustrações em preto e laranja, que acompanham a edição. Ao receber o primeiro exemplar, confesso que tive um choque.

Desde o segundo ano da editora passamos a usar, de maneira crescente, o papel de cor creme, desenvolvido pela Suzano, em parte talvez devido a um pedido ou incentivo da Companhia das Letras. Naquela época eu já me incomodava com as edições brasileiras, todas impressas em papel offset convencional, onde as palavras vibram mais, devido ao contraste entre a tinta escura e a página tão branca. Nos outros países isso não ocorria. As edições em capa dura já há muito tempo eram impressas em papel de tonalidade creme, e os pockets usavam um papel-jornal mais caprichado, acinzentado. Sabe-se que o papel mais escuro, ou melhor, a diminuição do contraste entre papel e tinta que se dá com essa tonalidade, permite maior descanso para os olhos. Mas, para mim, não é só isso que ocorre. Ao marcar as páginas brancas com a tinta durante a impressão, aparentemente realizamos um ato definitivo. O que está impresso assim permanecerá para sempre, o que está dito não pode ser corrigido, apenas em uma futura edição, ou em um livro que contenha uma revisão das ideias expostas.

Nesse sentido, o preto no branco potencializa esse sentido peremptório inerente às edições físicas; o contraste exacerbado entre papel e tinta tem quase um toque de declaração, transforma o livro em statement, o que, no meu entender, está longe do ideal. Acreditar que algo escrito não passará por elaborações pessoais diversas ou imaginar que a página marcada pela tinta não será remarcada com a imaginação dos leitores é um erro típico de escritores donos da verdade, que querem permanecer senhores da sua própria criação. Embora a escolha do papel seja um atributo do editor, ele, o papel, de certa forma, representa os olhos ou a mente dos leitores, abertos para conhecer uma história ainda não contada. De alguma maneira, somos nós leitores os papéis em branco, é esta a posição na qual devemos tentar nos colocar previamente, antes de nos encontrarmos com a imaginação do escritor. Assim, um papel mais próximo da tinta, que diminua o contraste entre o que é dito e o que se espera ouvir, manifesta maior igualdade entre escritor e leitor, garantindo a harmonia necessária para que um livro solte também a imaginação de quem lê.

Seguindo a mesma linha, acredito que um papel poroso, menos liso e menos uniforme, tem também uma função importante. Ao tocarmos uma página antes de virá-la, sentindo na pele suas irregularidades, inconscientemente nos colocamos em contato com algo que pode mudar durante e após a leitura e lembramos que o livro traz imperfeições que o tornam mais humano.

Antigamente um livro tinha que ser aberto pelo próprio leitor com um cortador de páginas. Era necessário separar as páginas, uma a uma, já que estas vinham agrupadas, demarcando um trabalho final que cabia ao leitor, e não ao autor nem mesmo ao editor ou ao gráfico. Cada página trazia, assim, uma dimensão diferente, todas elas marcadas pela imperfeição do corte feito à mão. O livro visto de lado não era uniforme, cada folha tinha um tamanho, como que simbolizando as viradas de uma história e o percurso imprevisto da imaginação de quem lê. O livro apresentava-se como fisicamente mutante, nos intervalos assinalados pela mudança de página, se não a cada linha ou palavra.

Por vezes demoramos dias para voltar a um livro, e tudo que parecia imutável no papel mudou devido a uma nova condição do leitor ou da leitora. O desenrolar de um romance acompanha acontecimentos por vezes dramáticos em nossas vidas. Podemos começar uma história casados e terminá-la solitários, ou tendo nos despedido de alguém importante em nossa vida. Será que a página virada é diferente apenas pelo novo sentido agregado pelo autor, pela continuidade da história? Ainda hoje, algumas editoras americanas como a Knopf mantêm seus livros com acabamento irregular nas bordas das páginas, fazendo com que eles se assemelhem às edições que exigiam a abertura individual pelo leitor. Acho maravilhosos os livros que nos lembram desse tempo, que marcam fisicamente as diferenças que virão com a leitura, aos poucos.

Não quero dizer que o livro era irregular de propósito, para marcar o que imagino ser inerente ao ato da leitura, mas sim que esses sentidos poderiam ou podem ser atribuídos ao formato material de um livro, já que os símbolos não ganham existência por vontade ou intenção de alguém, mas pela riqueza espontânea de nossa vida interior e social.

Por tudo o que tenho dito neste espaço, é fácil verificar o quanto defendo o aspecto simbólico das edições, o quanto penso no livro como algo vivo, objeto de uma criação coletiva, que adiciona os leitores aos criadores originais, na posição mais igualitária possível. Se talvez os tenha cansado, caros leitores, com a repetição dessas ideias, com meu apego a detalhes aparentemente tão pequenos, peço que me desculpem. Não sei se as ideias começam a escassear, se esse espaço já começa a anunciar o seu próprio final. Quem sabe? Como editor, estou muito mais acostumado a ler do que a escrever. Por isso, por vezes me parece difícil ser sempre original ao tentar expressar o que penso. Sei, no entanto, que leio os livros como todos os leitores, de forma pessoal e única, assim como viro uma página tentando tirar dela o máximo que posso, acariciando o papel antes de me despedir dele, mesmo que por um brevíssimo instante, e assim partir para o que me espera logo a seguir.

* * *

Devido ao feriado do dia 12 de outubro, o próximo texto da coluna de Luiz Schwarcz será publicado na semana seguinte, no dia 19. 

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

9 Comentários

  1. André Rehbein Sathler disse:

    Lembro-me dos filmes apocalípticos, em que não sobram dispositivos eletrônicos de qualquer tipo. Mas os livros físicos resistiriam. Fico imaginando como seria o destino dos sobreviventes e como ele seria afetado se encontrassem uma Bíblia, o Alcorão, um livro do Stephen King, enfim…

  2. É curioso pensar que esperamos significados e significâncias em um livro quase que excusivamente através das palavras, quando o próprio meio físico no qual a linguagem escrita transita tem voz própria – uma voz que se escuta com as mãos.

    Se a palavra escrita é a materialização da linguagem falada, o papel se equivale à linguagem não verbal, possuidor de uma riqueza “muitas vezes desapercebidas a muitos leitores” – talvez devido à hegemonia do alto contraste nas publicações brasileiras.

    Embora o livro digital possua uma interatividade com apelo visual inegável, o potencial tátil do papel impresso me parece ainda pouco explorado, ansiando por um diálogo mais intenso com o leitor. Penso que quanto mais iniciativas nesse sentido, maior a sensibilização do público e melhor para a literatura como um todo.

    P.S: Dormir segurando um livro é um processo mágico, definitivamente.

  3. Rose Miranda disse:

    Oi! Eu gosto de, ao me deitar, ficar olhando longamente para a capa do livro e pensando sobre a história. Só depois de algum tempo abro e começo a ler. É um ritual. Na hora de comprar adoro deslizar o dedo pela capa e sentir a textura, como se fosse prenúncio da emoção que virá com a leitura. O livro é um produto e precisa de mercado. Nada mais natural do que ele ser tratado como tal, pensado para unir história a sua “embalagem”, e mais a capa, o papel das páginas, o cheiro, a textura, tudo acaba sendo sensorial e fazendo parte da experiência ampliada do ato de ler. Sou redatora de publicidade e roteirista, mas sempre pensei que um emprego bom seria trabalhar numa editora, perto dos livros, da sua criação e de tudo que isso envolve. Pessoas que têm esta oportunidade são privilegiadas e só podem ser felizes. Um abraço.

  4. José Agustoni disse:

    Como eu gostava dos livros cujas páginas nós tínhamos que separar com um cortador de páginas. As bordas ficavam suaves, o livro ficava macio.

  5. liege albuquerque disse:

    você descreveu muito bem a intimidade que temos com o livro de papel, que nunca teremos com o ebook. “Talvez terminamos a leitura do dia, quando utilizamos aparatos eletrônicos, mais despertos do que com o livro físico, com quem já nos acostumamos a passar a noite juntos.”

  6. RobertoEscritor disse:

    Dias atrás descobri o porquê de o cachorro de meu filho não me reconhecer quando me vê através do Skype, o que se dá em razão de não sentir meu cheiro, já que o olfato é um sentido de suma importância para os cães. Já nós humanos nos deixamos impressionar pelo sentido da visão substancialmente, o que não é diferente quando nos deparamos com um miolo de livro. Obviamente que o papel pólen é um papel de textura bem mais agradável, e suas cores menos alvas nos proporcionam certo conforto visual durante a atividade de leitura. Assim sendo, o livro todo faz-se passar por um objeto de arte, o que nos deixa mais à vontade para vasculhar seu conteúdo, seu cheiro, sua forma entre outros aperitivos.
    Suas considerações são de grande valia, Sr. Schwarcz, não apenas para leitores, e sim a todos profissionais da cadeia produtiva da literatura.
    Cordiais cumprimentos,

  7. Raul Soares disse:

    o texto saiu truncado, pois quis ser breve. Espero que tenha compreendido a essência.

  8. Raul Soares disse:

    Luiz Schwarcz,

    primeiramente Fora Temer. Depois, parabéns pelo texto. Não penso que os assuntos se encerrem em si mesmos ou tornam a repetir, esgotando-se, na Livre Editar. Na perspectiva de que os livros são de todo um processo, natural que alguns temas voltem como complemento de outro.

    Acompanho os posts desta coluna, desde a primeira publicação (alguns não li – honestidade). Sou grato ao conhecimento transferido. Corrijo-me aqui: conhecimento não, experiência. Considerando o Grupo Companhia das Letras, importante a voz (da cabeça dos leitores) de um editor com a sua bagagem, para os leitores dos selos. Mostrando que o universo é muito além de meramente ir à livraria e comprar um exemplar.

    Muito importante, também, é o resgate histórico dos grupos, editoras, editores, autores que você tem nos trazido.

    Gostaria de sugerir um tema para a coluna: a relação original x tradutor x público. Uma boa tradução é uma tradução em bloco, do original ou a recreação para que o leitor que não tem domínio do idioma de criação chegue a mesma sensação ao ler em sua língua?

    Ou mesmo autores produções próprias fantásticas e que, ao ler uma de suas traduções de outro, encontramos ali não só sua marca, como também uma influência; da importância de se falar mais de quem está por trás daquele texto vertido.

    Ao escrever estas linhas me veio um exemplo: Pergunte ao Pó, do Fante traduzido pelo Leminski e editado pela Brasiliense. Foi uma experiência que não consigo me valer aqui dos signos para explicar.

    Enfim… abraço!

  9. Hugo César disse:

    As ideias não me parecem repetidas. Fica a impressão de algo ter sido acrescido ou reinterpretado. Parece uma desses autores que tratam, reiteradamente, de um mesmo tema a cada livro (p.e., Philip Roth e o judaismo – ou a resistência diante do mundo que o tenta submeter). Por isso, volto sempre para ler as próximas colunas.

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