Bem-vindos ao baile de máscaras

Por Ana Maria Bahiana

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Eu prometi a mim mesma que não ia escrever sobre o Oscar. Porque é sempre um tema meio exausto, que se repete como Natal e Dia das Mães. E porque este ano estamos todos que nem as mulheres de Almodóvar, à beira de um ataque de nervos, emoções à flor da pele.  Então pronto, não vou falar sobre o Oscar — vou falar sobre a chuva de prêmios que vai começar em breve, e que significado e/ou importância eles tem além de nossas torcidas passionais.

Todo mundo gosta de torcer — todos temos alter egos onde colocamos nossas aspirações e desejos. O cinema vive em grande parte desse nosso impulso tão antigo quanto o teatro das arenas gregas: nossa vida nua não tem lá tanta graça mas, ah!, quantas portas se abrem com máscaras! Na nossa narrativa de plateia, esse monte de prêmios enfatiza essas paixões: queremos que as histórias/pessoas com que nos identificamos — nossas máscaras — saiam na frente, sejam laureadas (cobertas com coroas de louros ou, na falta destas, estatuetas douradas). Os programas de entrega de prêmios são chatos, arrastados, longos demais — não é à toa que sua audiência está em queda livre há anos. Mas ainda permanecem na casa dos milhões de espectadores, gerando uma mais que saudável receita de publicidade por conta de nossa alma de torcedores, curiosos para saber qual de nossas máscaras será glorificada desta vez.

Nesse momento faço um parênteses: eu entendo nossa frustração brasileira com o fato de nunca termos levado o mais dourado de todos os prêmios, o Oscar. É como, na minha infância, ouvir a litania de lamentações de meus pais e tios porque Frank Sinatra nunca tinha ido ao Brasil. Ao mesmo tempo desprezamos e queremos esse endosso, essa atenção, esse banho de ouro, esse dedo apontado dos céus, como no quadro de Michelangelo, dizendo: sim, aí estão vocês, em nossa imagem e semelhança, nós, o resto do mundo.

Como esse tal de cinema é complicado! Como ele é psicologicamente profundo, mexendo tanto com nossos desejos, com nossas angústias, as coisas não inteiramente resolvidas.

Objetivamente, um prêmio é só a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. É um registro tão emocional para quem vota quanto para quem acompanha e torce, e tem, no fim das contas, menos peso que a passagem do tempo. É a perspectiva das décadas que estabelece quem realmente deixa sua marca, muda o rumo, introduz novas ideias, novas técnicas, novos desafios, novas emoções. Que tal esta lista de 50 grandes filmes, cada um importante a seu modo, que jamais foram sequer indicados? Ou saber que Akira Kurosawa, Robert Altman, Stanley Kubrick e Jean-Luc Godard (entre muitos outros) jamais receberam um Oscar de melhor diretor?

Pronto, falei de Oscar.

Mudemos de assunto. Ou melhor: a grua sobe, temos agora um plano geral.

Do outro lado das emoções, angústias e vaidades, eis o poder que interessa na disputa desse monte de bibelôs dourados: a visibilidade que eles dão. Isso sim vale. Cada prêmio (e nessa leva estão também os grandes festivais) tem lá seu sistema para afunilar de modo administrável o vasto oceano da produção internacional (“internacional”compreendido como “o resto do mundo além do país que está dando o prêmio”).

Meu tempo de janela me diz que o real valor de se aventurar por esse mundo das premiações — onde a frustração é um prato muito mais frequente do que a deliciosa sobremesa da vitória — é a possibilidade de expandir as fronteiras do próprio cinema, chamando a atenção para realizadoras e realizadores trabalhando com outros idiomas, outras culturas, outras experiências, criando novas oportunidades para quem investe e quem precisa de investimento, gerando novas parcerias e novas colaborações. Cinema é caro e complicado — arriscar-se a colocar o fruto de tanto labor debaixo das lentes das escolhas alheias traz como compensação a abertura de portas que nem se sabia que existiam.

No final das contas, reduzido ao essencial, todo esse drama em torno de estatuetas e escolhas é isso: um baile de máscaras onde dançar é mais importante que ter o aceno do rei.

E sabem o que ainda é mais importante? Aquilo que a Argentina acaba de fazer, seguindo os passos da França: colocar a educação audiovisual no currículo da escola primária. Porque sem plateia não há cinema. E com uma plateia informada se faz sempre um cinema melhor.

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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