Carta a Mia Couto

Por Julián Fuks

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Foto: Fabio Uehara

No dia 28 de setembro, Mia Couto esteve no Brasil para lançar Sombras da água, segundo livro da trilogia As Areias do Imperador. Comemorando também os 30 anos da Companhia das Letras, o autor participou de um encontro em São Paulo que reuniu o escritor Julián Fuks e as cantoras Fabiana Cozza e Lenna Bahule. Entre leituras de trechos do livro e música, Mia Couto e Julián Fuks conversaram sobre as obras do autor moçambicano e também sobre sua parceria no Rolex Mentor and Protégé Arts Initiative, um projeto em que artistas de renome orientam novos nomes da literatura, música, cinema, teatro e outras áreas. Nesse encontro, Julián leu uma carta ao seu mentor, que você pode conferir agora aqui no blog.

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Estimado Mia,

Tudo poderia começar com um olá. Com um amplo meneio da mão eu fingiria estar abrindo as portas de todo um país, lhe daria cálidas boas-vindas, o acolheria com carinho como se entre milhares estivéssemos em família. Tudo poderia começar com um olá, mas não começa. Você ensina que tudo começa sempre com um adeus, e eu entendo que posso prescindir das formalidades, que as palavras têm que fugir desses agrados óbvios demais — e se fazer mais diretas, mais precisas, mais essenciais.

Escrever pode ser tão vital, você diz, que deixemos de sentir toda dor. Escrever é o gesto que se tece no vazio das mãos, que preenche de vazio o vazio, e que ainda assim nos assombra ao criar algo real, ao gestar algo maior. Na sombra das mãos sobre a folha branca parece que algumas palavras se antecipam. É pelas sombras das mãos que lhe digo quanto me alcança a dor através dos seus livros, quanto a dor se faz canoa que transpõe distâncias, que atravessa o largo rio que nos divide.

O meu ceticismo você já conhece, minha desconfiança de todo ímpeto ficcional, meu apego insistente ao mundo tangível. Preciso confessar, porém, que enquanto lia o seu livro me desertavam as precárias certezas, tremia o chão que nunca chegara a ser firme. A dor de Germano eu não sei se existiu, Imani talvez não seja mais que o sangue esquecido de uma mulher negra, o sangue convertido em tinta, e no entanto quão presentes se fizeram esses dois em meu mundo, quanto ainda agora me tangenciam.

Ninguém é uma pessoa se não for toda a humanidade, você diz, ou disse algum velho sábio de Nkokolani. Leio essa frase e me livro de todos os meus receios, me dispo dos meus pudores, me permito afirmar que uma verdade imensa se estampa aí. Imani é toda a humanidade, Germano é toda a humanidade, e é por eles que algo em mim se renova, é com eles que eu me faço mais humano. Têm esses seres, tão distantes no tempo e no espaço, um incrível poder evocatório: seus corpos são feitos de outro barro, outro é o século em que pairam suas vozes, mas quanto não guardam da nossa terra, dos nossos corpos. Não há sombra que não oculte outra sombra, você diz, e eu pergunto, já intuindo a resposta, se seremos nós as sombras ocultas em seus personagens, se eles existem para nos devolver a nossa humanidade.

Alguma vez você me contou, e isso eu não esqueceria, do seu primeiro encontro com Samora, o grande líder da independência moçambicana. Você era ainda muito jovem, imberbe, é provável, em seus olhos ainda não transbordavam tantas águas, e talvez por isso você não tenha sabido lhe oferecer as devidas respostas. Quem se lembra de alguma canção de infância?, perguntou Samora para silêncio geral. Quem se lembra de alguma história de infância?, insistiu para a sua estupefação. Pobre é quem não tem histórias — você disse que Samora arrematou –, o país que não tem histórias está condenado à morte.

Eu ouço essa história e me indago se Samora sabia, se intuía quem era o jovem que tinha diante de si. Depois percebo que isso não importa, que basta que você mesmo o soubesse, ou, menos ainda, basta que tenha se incumbido de recontar as muitas histórias de um povo tão rico, as muitas trajetórias a conformar uma única: a história de Moçambique. Depois me ponho ainda mais circunspeto e me pergunto quem um dia contará a história do meu país, desta ampla família que o recebe, quem percorrerá com as sombras das mãos as nossas cicatrizes. Não me refiro à história de qualquer tempo: hoje me permito indagar como será a narrativa deste presente que tanto nos inquieta, deste tempo de tantos golpes e ardis que nos afligem.

Mas isso já não lhe cabe responder, bem sei. A você talvez caiba perguntar se deve o escritor se ocupar do presente, e se é isso o que se alcança ao minuciar as infinitas dores de um tempo pretérito. É assim que podemos chegar a nos compreender, reescrevendo as muitas histórias ocultas debaixo da história oficial? Aqueles mortos cujas vozes você não deixou enterrar, aqueles mortos somos nós?

Tudo poderia terminar com uma palavra de admiração, apenas. Mas nada nunca termina: as palavras são muito imperfeitas; mesmo quando feitas para o adeus, só sabem ser um começo.

Julián

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Veja o vídeo completo do encontro com Mia Couto em São Paulo.

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Julián Fuks nasceu em São Paulo, em 1981. É autor de A resistência. Foi eleito pela revista Granta como um dos vinte melhores escritores brasileiros.

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