Colunistas

Minhas páginas antigas: a balada de Bob e eu

Por Ana Maria Bahiana

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O primeiro disco que comprei com meu dinheiro não foi nem dos Beatles, nem dos Rolling Stones: foi de Bob Dylan.  Chamava-se Os Grandes Sucessos de Bob Dylan e tinha uma capa muito feia, cinza com bordas azul-real, e aquele inesquecível odor da cola fedorenta que mantinha, precariamente, a integridade dos invólucros dos discos da CBS nos anos 1960. O repertório era uma mistura de faixas dos três primeiros álbuns norte-americanos de Dylan o que, para mim, recém-chegada na adolescência, não fazia a menor diferença: tudo o que eu queria ouvir estava ali — “Blowin’ in the wind”, “Don’t think twice, it’s alright”, “The times they are a-changin”, “It ain’t me, babe”, “Mr. Tambourine Man”. E, pouco tempo depois, num compacto (isso existia!) dos Byrds, a canção que sublinhou toda a minha vida até aqui, e que se apresentou para mim como uma quimera, uma esfinge, um quebra cabeças para ser decifrado apenas com o passar do tempo: “My back pages”.

Mas eu me antecipo. Eis o que era importante para mim naquele momento, o que justificou o dinheiro acumulado com esforço, guardado de mesadas, presentes de tios por minha participação na Feira da Providência e aulas extras para colegas: Dylan para mim era como um livro, só que com música. Era algo tão infinitamente prazeroso quanto sorvete de manga do Morais: era manga e era sorvete, suas qualidades intrínsecas de prazer e descoberta mantidas intactas, embora unidas.

De Ray Charles a “Satisfaction”, o rock, até então, tinha me feito dançar, twist and shout. Dylan me fazia pensar, me dava histórias para acompanhar, palavras para descobrir. Meu inglês era razoável (afinal tinha passado três anos numa escola americana) mas a voz fanha, a articulação rápida e a falta de letras impressas me pregava peças. Eu ouvia “crawls” e não “crows” em “Don’t think twice, it’s alright”, e, não sabendo o que era o “rooster”, imaginava o ser como um bicho fofo, crawling para longe at the break of dawn.

E aqui estavam os outros poderes mágicos de Robert Zimmerman: ele me oferecia poesia e prosa, alternadamente, disfarçadas e embutidas em suas paixões por folk, country e blues. Ou melhor: ele usava (e usa) as molduras de folk, country e blues, que por si mesmas já têm, simultaneamente,  tradições narrativas e impressionistas, e as punha em torno dos temas da sua geração, que a minha pegava de rebarba. Folk, country e blues sempre contaram histórias ou captaram sentimentos. Dylan fazia o mesmo enquanto documentava a eclosão, explosão e progressiva maturidade da mais vasta geração do século 20. (Mas ele sabia que ninguém cantava os blues como Blind Willie McTell…).

Ao longo de cada novo álbum (minha aquisição seguinte, muito mais ambiciosa, foi Blonde on Blonde, na versão norte-americana) Dylan ia alimentando minha alma de escritora com detalhes, truques, ossos do ofício. Eu ouvia, ouvia de novo, me detia sobre um verso, sobre outro. Dylan me ensinava como expressar e como omitir, como transformar raiva e desprezo em algo bem mais complicado em “Like a rolling stone”, ou como desenhar amor e paixão com todas as suas ambiguidades, de “Just like a woman” ao  dilaceramento completo que é todo o Time Out of Mind.

Era livro e era também cinema, como aquele súbito plano geral ao final de “All along the watchtower”, onde também se revela que ele estava contando a história toda de trás para frente. Ou “A simple twist of fate”, que vem completo com protagonistas e coadjuvantes, uma trama em três atos e detalhes de cada ambiente.

E aí voltamos a “My back pages”, a canção-código, feita para ser compreendida apenas quando a experiência substitui a inocência. Dylan tinha 23 anos quando a compôs, e 28 quando a interpretou ao vivo pela primeira vez. Tão jovem ele já tinha perdido o suficiente para compreender que nada é mais fácil do que ser velho — rígido, intransigente, monotemático, dogmático — quando se tem pouco tempo na crosta do planeta. Mais uma vez, Dylan estava usando o texto como uma narrativa ao contrário, em que tudo o que ele descreve — as admoestações, os discursos acalorados, as certezas absolutas — estão no passado, nas back pages, quando ele era muito mais velho do que é hoje.

Ele me propunha, assim, uma meditação para a vida toda. A cada momento em que ouvia “My back pages” Dylan me convidava a refletir sobre quais certezas eu estava pronta para deixar pelo caminho, me desafiava a reverter a flecha do tempo.

E assim ele me dá o contexto para uma de minhas memórias mais antigas. Eu no assento traseiro de um carrão americano deslizando por uma Avenida Vieira Souto deserta, a praia de Ipanema nublada e chuvosa, meus pais no banco da frente ouvindo Tito Madi interpretando “Ternura antiga”, de Dolores Duran. Devo ter, no máximo, a idade que minha neta mais velha tem hoje, 5 anos. A música termina e eu ouso perguntar algo que está na minha cabeça há muito tempo: “Mãe, toda música é sempre sobre amor?” Há um longo silêncio e ela afinal responde: “Você quer dizer os versos?” Eu: “É, os versos. É obrigado ser sempre sobre amor, toda música?” A pausa é ainda maior. Minha mãe responde: “Não. Não é obrigado não. Mas quase sempre é.”

Quase sempre. Mas quase, certo?

* * * * *

Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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O culto à personalidade do editor ou quais são as verdadeiras caras da Companhia das Letras — um post sinceramente feminista

Por Luiz Schwarcz

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Ilustração: Alceu Chiesorin Nunes

livre42A relação entre Alfred Knopf e sua mulher, Blanche Knopf, tratada brevemente num texto anterior deste blog, é bastante emblemática. Se estiverem corretos os dados da biógrafa de Blanche, ela teve muito mais responsabilidade na formação e no desenvolvimento de uma das mais importantes editoras americanas do que seu marido, pelo menos mais do que aparece em alguns textos oficiais da Knopf. Blanche teria aguardado durante toda a vida para ter seu nome fazendo parte da marca da editora junto ao do marido, assim como esperou pelo reconhecimento público de seu papel, o que nem sempre obteve.

A imprensa era cruel com Blanche, ignorava-a em muitos textos sobre a Knopf, principalmente por ocasião dos aniversários da editora. Blanche ficava furiosa, com razão, quando um autor editado por ela — e muitos dos mais importantes da Knopf faziam parte desse grupo — era considerado como “do marido”. Segundo Laura Claridge, autora de The Lady with the Borzoi: Blanche Knopf, Literary Tastemaker Extraordinaire, isso aconteceu inúmeras vezes. O casal não poupava os funcionários ou amigos e brigava violentamente, sem recato, expondo uma vida que era tão calcada numa parceria profissional profícua quanto em disputas de ego e profunda separação amorosa.

A vida infeliz do casal não me serve neste post a não ser para exemplificar o culto à personalidade dos editores, muito comum e danoso à prática editorial. Não tenho como julgar se a biografia de Blanche é parcial e acaba sendo injusta com Alfred. Pode ser. Em muitos casos, o biógrafo se aprofunda no sofrimento de sua personagem e termina privilegiando excessivamente o ponto de vista do biografado ou biografada. No entanto, não é incomum ver editores sendo cultuados, incensados como verdadeiros artistas que não são, ou melhor, que não somos. Montar uma editora e tocá-la com propriedade requer algum conhecimento intelectual e, no caso de editoras não literárias, talento para farejar best-sellers. É preciso ter noção comercial e de comunicação aguçadas e, principalmente, saber formar uma equipe coesa, disposta a uma dedicação muito superior à requerida em outros empregos, que não lidam com aspectos autorais a cada novo produto.

Nada disso justifica os editores se transformarem em estrelas ou serem equiparados aos seus autores, glamorizados por jornalistas e colunistas sociais.

O talento na formação de uma equipe que entenda bem a personalidade da editora e a incorpora é, sem dúvida, o grande mérito que pode ser atribuído a um editor. Porém, a não ser pelo fato de que trabalhamos com produtos múltiplos e tão delicadamente individuais, essa me parece ser uma qualidade necessária a todo empresário, afinal, já não vivemos mais na era dos primeiros empreendedores, do capitalismo que dependia mais da inovação individual do que da criação coletiva. Na Companhia das Letras, sinto que a equipe mais do que pensa como eu, pensa por mim e melhor que eu.

Aí está o ponto mais importante. Na biografia de Blanche ou no texto comemorativo dos 100 anos da Knopf, que também citei aqui no mesmo post, pouco aparecem os editores da casa, que tanto devem ter contribuído para o resultado final de cada livro e pela construção de um valiosíssimo catálogo. Assim, não é só Blanche que foi injustiçada e afogada no ego supostamente dilatado do marido. A equipe da Knopf talvez tenha sido a mais injustiçada, como são as equipes de todas as editoras com um culto a um chefe supremo.

Um outro exemplo está no livro Hothouse, de Boris Kachka, que conta a história da Farrar Straus & Giroux, sem prestar o devido valor a Jonathan Galassi, que, tendo começado como editor há décadas, hoje é o presidente da empresa.

Por isso, no aniversário da Companhia que se aproxima, quero estar onde um editor deve estar, no bastidor, ou animando meus autores a falarem, exibindo-os nos livros e em alguns casos no palco, com orgulho. Quero também ostentar a equipe, e este texto é o primeiro porta-voz dessa vontade. A Companhia das Letras não seria o que é sem todos os nomes que aparecem mencionados abaixo e que trabalham ou um dia trabalharam conosco. Espero que a pesquisa em nossos arquivos esteja aqui exposta sem lacunas ou falhas. Além deles, seria necessário colocar o nome de todos os revisores, designers e prestadores de serviço que não tenho como mencionar. Peço desculpas a eles por isso, mas gostaria que se sentissem igualmente homenageados neste texto.

Começamos Lili e eu a Companhia das Letras com poucas pessoas. Estávamos lá nos primeiros dias com a Gisela Creni e o Zé Lú (José Luís de Souza), além do Ricardo Braga de Andrade. Não havia outros editores nesses primeiros dias da nova casa, porém, sem as editoras Maria Emilia Bender, Marta Garcia e Heloísa Jahn, que chegaram logo depois, que estiveram na Companhia por tantos anos e definiram o modo Companhia de editar, nada teria sido como foi. Sem o Sergio Windholz, que entrou em 1991  e finalmente colocou a casa em ordem — depois de um sucesso inicial inesperado e para o qual não estávamos preparados —, hoje seríamos parte de uma história diferente. Sem a Elisa Braga, que entendeu a alma gráfica e visual da Companhia como ninguém, se transformando de certa forma em um dos grandes corações da editora, o aniversário de 30 anos comemoraria uma editora totalmente diversa da que temos hoje. Sem Matinas Suzuki Jr., com quem hoje compartilho em primeira mão parte significativa dos meus anseios e angústias profissionais, não teríamos como ter dado os passos que demos nos últimos anos. São esses três profissionais que participam comigo e com a Lili Schwarcz da diretoria da Companhia. Em grupo, nós tomamos as principais decisões, que em muitos casos são atribuídas somente a mim. As mais ousadas ou espinhosas passam pelo crivo dos sócios, e nesse caso contamos com o companheirismo e amizade do Fernando Moreira Salles, um entusiasta da editora desde o começo e dos representantes da Penguin Random House, que não interferem, só apoiam.

As decisões editoriais e estratégicas também passam hoje por um grupo de quatro jovens publishers, nome mantido em inglês apenas para diferenciá-los dos editores que com eles trabalham e por falta de equivalente em português. Júlia Moritz Schwarcz, Otávio Marques da Costa, Bruno Porto e Marcelo Ferroni são em muitos casos mais responsáveis por nossos acertos do que eu, embora seja a minha cara que aparece nas fotos. É injusto.

O culto à personalidade dos artistas ou escritores, embora ruim quando exagerado, é devido e correto. Existe como forma de reconhecimento do trabalho criativo e artístico do qual os leitores tanto dependem para viver. São assim os que leem avidamente: pessoas com a mente mais inquieta, que precisam de literatura para estarem felizes. Talvez sempre tenhamos sido menos numerosos do que o ideal, mas nós leitores agradecemos aos escritores transformando-os em nossos guias, gurus ou ídolos, numa atitude mais que compreensível.

No entanto, os leitores, como tenho dito incansavelmente aqui, também fazem a arte e a literatura existir. No caso dos livros, contribuem criando conjuntamente o produto final. Os leitores que cuidam da eternização dos textos, de sua compreensão e encaminhamento social. O culto midiático ao editor ou proprietário de editora é uma deturpação de sentido que só se explica pelo sistema de criação de mitos nas sociedades contemporâneas, pelas nossas fraquezas de ego, e pela necessidade de divulgar os livros e as nossas marcas num mercado que disputa novos títulos e autores furiosamente.

Na cerimônia de comemoração do 25º aniversário da Companhia, agradeci a Lili por ser a verdadeira editora da minha mente. A frase repercutiu até em órgãos que costumeiramente não dão atenção especial à minha pessoa. O agradecimento foi indevido, pela modéstia com que tratou a homenageada, por atribuir a ela apenas o papel de “editora”. A participação dela em minha vida é muito mais autoral que editorial, enquanto a minha em sua vida talvez seja de cunho mais editorial. A Lili sempre foi a autora da minha mente e do meu coração e coautora de todos os meus atos que optaram pelo caminho certo. Nossa relação frutificou em um casamento muito diferente daquele que usei como exemplo no começo deste post. Nada do que fiz e que pode ser digno de avaliação como parte de uma história coletiva de sucesso deixou de ter a marca pessoal destacada da Lili. A ideia que ouvi tantas vezes quando jovem, principalmente do meu avô, de que por trás de grandes empresários e empreendedores há sempre uma “grande mulher” é preconceituosa e machista. Faz parte da mentalidade de outros tempos, por sorte já passados. As mulheres não estão por trás, mas junto, ou na frente, antevendo, preparando o campo e realizando. Assim foi com tudo na Companhia. Mais uma vez a foto deveria ser coletiva, do casal neste caso, e não minha.

Aliás, é interessante aproveitar a ocasião para apontar o papel fundamental das mulheres no mercado de livros. Sabemos que as leitoras são majoritárias com relação aos leitores, e que influenciam mais que estes. A equipe de marketing da Penguin Random House dos Estados Unidos, ao receber como bônus do seu CEO Markus Dohle uma polpuda verba para desenvolvimento de ações promocionais, resolveu investir num site destinado às mães chamado readbrightly.com, atingindo assim várias áreas editoriais com uma tacada só.

Quando entrei no mercado editorial, em 1978, as mulheres já eram parte significativa da força de trabalho internacional das editoras. Concentravam-se, porém, principalmente nos departamentos de direitos estrangeiros. Hoje em dia, muitos dos cargos altos dos diversos departamentos das editoras são ocupados por elas. Dentro do grupo Penguin Random House dos Estados Unidos, os postos de presidente da Penguin, Crown e Random House são ocupados, respectivamente, por Madeline McIntosh, Maya Mavjee e Gina Centrello. As divisões de livros infantis, de marketing, e tantas outras são também de comando feminino. Barbara Marcus na Random House e Jen Loja na Penguin. Sem falar nos direitos estrangeiros, é claro. Talvez a maior concentração masculina ainda esteja no setor comercial, embora com certeza isso também esteja mudando. Curiosamente, muitos dos grandes editores ou proprietários de editoras destinam boa parte do seu trabalho na área comercial. Esse era o caso de Alfred Knopf e de Bennett Cerf, da Random House. Na Companhia, até o setor comercial hoje tem comando feminino, e a proporção de mulheres no campo editorial e de produção é bem maior que a de homens. Do total de funcionários hoje no grupo, praticamente 50% são mulheres. Se levarmos em consideração que na área de expedição e entrega a proporção de homens é de quase 100%, vemos o quanto o trabalho editorial é feminino. É uma alegria ver o espaço profissional dividido igualitariamente — ou majoritariamente — por mulheres, o que talvez nem sempre foi verdade, mesmo no mundo editorial. Seria ainda melhor se tivéssemos mais mulheres começando suas próprias editoras e galgando postos ainda mais altos na hierarquia das grandes corporações. É justo esperar que a força de trabalho das editoras, que avançam com um olhar especial para o público feminino, seja dominada pelas mulheres. Nesse aspecto, o mercado de livros é também diferenciado, privilegiado e especial.

Por fim, eu gostaria hoje de ilustrar este post com a foto de cada colaborador da editora, da família que trabalha diretamente ao meu lado,* dos sócios, dos funcionários, dos autores e artistas a quem tentamos homenagear diariamente com nosso cuidado editorial. Pense você mesmo em alguém que está ou esteve na Companhia, pense em você mesmo leitor, e se coloque na ilustração que abre o post, como meu homenageado. Muito obrigado a vocês todos, que são e formaram a verdadeira cara da Companhia das Letras.

Confira aqui os nomes de todos os funcionários que trabalham e já trabalharam na Companhia das Letras:

*Nota: Deixa-me especialmente feliz o fato de ter também meus filhos nesse time: a Júlia, a mais velha, é publisher de tantos selos fundamentais para a editora hoje, e o caçula, Pedro, tem hoje também papel importante na editora, coordenando as atividades sociais de divulgação da leitura em bairros menos favorecidos, em creches e no presidiário feminino, além dos clubes de leitura em livrarias em geral.

* * * * *

Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. Escreve pra o blog uma coluna quinzenal.

Carta de Amor

Por Luisa Geisler

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Meu Querido,

Não sei por onde começar. Nós nos falamos tanto e tão pouco. Talvez eu deva usar um começo clichê pra cartas como estas. Peço desculpas por isso, sei como é algo que te fere.

Mas sinto tua falta.

Tu, que aceitou e aceita minhas esquisitices, minhas escolhas gaúchas.

Um amigo me disse que a ideia de fazer um mestrado em Criação Literária, em Creative Writing era um pouco absurda. Ele mesmo se considerava fluente e dizia que não se sentiria confortável. A questão não era fluência em si, ele dizia.

Mas tu perdoou e compreendeu, como sempre, como até hoje. Tu sabe que comecei a me relacionar com outros muito cedo. Uma geração que nasceu ouvindo a lenga-lenga toda de globalização, uma geração de anjos alfabetizados em inglês.

Ignorei meu amigo, segui em frente com as applications. Achava que seria mais fácil. Tu sabe que trabalho e trabalhei com tradução do Inglês e do Francês. Só aí já te traio com tanta frequência. Já passei longos períodos de tempo longe de ti. Uso expressões gringas o tempo todo. Fiz 96,8% de acertos totais no TOEFL, Test of English as a Foreign Language. Mas, como já diria Wesley Safadão, aquele 1%… (No caso, 3,2%.) Não é o mesmo sem o teu calor em torno. Algumas palavras que em inglês pareciam ajudar a ilustrar um ponto agora parecem atrolhar tudo. Atrolhar, olha que linda palavra.

Não que faltem palavras, não que eu não consiga me expressar. Não me vejo como uma pessoa que inventa moda com linguagem. Ah, inventar moda, olha que bela expressão. Amo Guimarães Rosa, Manoel de Barros, mas meu vocabulário total em português deve ter umas trinta e cinco palavras — talvez cinquenta se contar as expressões pra comida. Uso no máximo três tempos verbais. Então não é o vocabulário, e não é a fluência, como disse meu amigo.

Consigo discutir com os coleguinhas em aula — e, ah, discutiria mesmo se não conseguisse em certos momentos. Escrevo meus assignments em inglês, os professores conversam comigo depois da aula, corrigem alguns ons que são ins, dizem que algumas coisas são bastante publicáveis e que eu deveria começar a pensar nisso. I can get the message across, entende?

Existem um milhão de memes sobre palavras em inglês e em francês e em alemão e em japonês que significam sentimentos específicos, ideias tão complexas. Como a famosa Schadenfreude — literalmente, alegria do dano — e traz a ideia de satisfação e alegria dado pelo sofrimento ou infortúnio de um terceiro. Como L’esprit de l’escalier, Tsundoku e a menos famosa Leidenschaft, que meu pobre editor Marcelo Ferroni conhece há tanto tempo.

Mas a gente tem tantas palavras for granted o tempo todo. Tipo atrolhar. Tipo chamego, dengo. Existem milhões de autores geniais em inglês, mas esses tempos quis mencionar um negócio que o Luiz Ruffato falou e fiquei parecendo a pessoa que lê as coisas mais underground do mundo. E Guimarães Rosa? E Machado de Assis? Referências indie, todos.

Não que nós não soubéssemos que ia ser assim. Era óbvio que seria. Não que eu esteja me queixando. Por mais que estejamos distantes, sei que nossa relação cresce, cresceu, vem crescendo e crescerá ainda mais. Mas fazes-me falta, entende? Preciso deixar claro.

Em agosto, não só tenho que entregar uma tese quanto tenho que entregar um projeto criativo, um romance. E vai ser sobre nós, sobre os deslocados, somos os emigrantes e imigrantes. Só que não sei se vou saber fazer sem a tua ajuda. Apesar de fazer tudo com o outro, ainda sonho contigo todas as noites.

Espero que não te ofenda, mas talvez mais do que de ti, Português, eu sinta falta da Língua Brasileira. Língua Brasileira, como diz no título do livro do Sérgio Rodrigues. Talvez mais do que tua falta, eu sinta falta de ser brasileira. Talvez não.

Fique bem.

Com saudades (essa palavra intraduzível),

Luisa

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira(finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

A vida contada

Por José Luiz Passos

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Recebi meu diagnóstico de câncer na mesma semana em que David Bowie morreu. Ao contrário da minha mãe, que havia recebido o mesmo diagnóstico no mês anterior, não postei a notícia no Facebook. A novidade me parecia injusta. Como assim? Tenho 44, um casal de filhos pequenos, corro toda semana, como salada. No telefonema, a médica me disse que eu estava fora da curva, não era um caso óbvio, tinha sido um acidente e eu teria boas chances depois da cirurgia. Desliguei, agradecendo não sei bem o quê, e, quando minha esposa chegou, falei que precisávamos conversar. Ela ficou com os olhos parados, o rosto lívido. Ligamos a tevê para as crianças e fomos até o quintal. Ela sabia que por esses dias deveria vir o resultado da primeira biópsia. Lá fora não achei outra forma de dizer isso, então falei que a minha bolacha tinha caído com a manteiga para baixo. Ela começou a chorar.

Os primeiros dias foram de grande confusão. Pensar nos filhos, como apoio, era pior. Arrumei as contas de casa e a minha mesa de trabalho. Pedi uma licença à universidade, clareei o horizonte. Restava o quê? Comuniquei o resultado à família e a alguns poucos amigos. Era fevereiro, mês de carnaval. Restavam os livros. Estava no meio d’O marechal de costas, um romance sobre Floriano Peixoto e uma cozinheira tocada pelo desmantelo da nossa política atual. Os meses seguintes foram difíceis. Perdi doze quilos. A cada manhã, penteando os cabelos, eles ficavam mais ralos. As minhas unhas, mais doloridas e finas. A urina mudou de cor. O suor ficou ácido. A caminhada para a escola, a dois quarentões de casa, me dava taquicardia. Os dedos das mãos e dos pés ainda hoje ardem, formigam vinte e quatro horas por dia. Há seis meses que não consigo escrever à mão.

Mas a cada semana também chegavam pedidos de mais notícias. Entre eles, os de Marcelo Ferroni me desejavam melhoras e perguntavam como ia o marechal. Essas perguntas me fizeram voltar ao romance, depois de já ter desistido dele várias vezes no ano.

O marechal de costas faz a crônica da vida íntima e política de Floriano Peixoto, no gosto das amizades e antipatias que guardou por décadas, das humilhações de juventude, da imaginação erótica desabrochada na guerra, de sua obsessão por Napoleão Bonaparte e pela meia-irmã com quem se casou. Em paralelo, há a história de uma cozinheira a quem é atribuído um suposto parentesco com Floriano. No curso de uma noite, após o jantar na casa de um advogado, ela participa de uma longa conversa com um professor falastrão, que ouve a história de sua vida enquanto enxerta casos e teorias sobre a relação entre a política e os afetos. A noite leva todos a participarem de uma passeata de protesto. Tentei mostrar como, aos poucos, a relação entre eles revela laços de dependência e ressentimento. Maltratados por traições e pela solidão, suas vidas denunciam, num eco sombrio, o paralelo entre a crise política presente e a era Floriano.

2016 não está fácil para ninguém. A frustração com o fato de não poder mudar minhas próprias circunstâncias se somou ao espanto com a nossa vida política recente. Essa soma foi o motor do romance. Em Nosso grão mais fino (2009) procurei retratar a ligação entre nostalgia e decadência agroindustrial a partir de uma relação amorosa marcada pelo tabu. Em O sonâmbulo amador (2012) figurou a confusão entre as várias formas de amizade diante de um quadro de perdas afetivas e da dignidade do trabalho. Com O marechal de costas busco mostrar o lado privado e perverso de indivíduos e palavras de ordem que se incumbem da promoção do bem comum. O início da República foi marcado por uma profunda polarização na política e nos costumes. O jacobinismo dos florianistas era, curiosamente, mais conservador do que a agenda liberal do Império. Enquanto escrevia o romance, me vinha uma sensação de déjà-vu. Alguém duvida de que, no presente, o ontem se impôs ao hoje?

Tenho grande interesse pelo gênero da biografia, embora não acredite na maioria das que já li. Na biografia de ficção, por outro lado, a vida de um indivíduo pode ser contada como soma de uma experiência coletiva. E o romance é o campo onde a complexa sensação de tempos entrecruzados pode ser pensada por dentro, enquanto acontece e se torna visível. Por isso escrevi essa pequena biografia de Floriano e da sua parente, a cozinheira. Eles me fizeram companhia nos dois anos mais difíceis da minha vida. Ambos reforçam a minha convicção de que os poemas, contos e romances que escrevemos são parte importante de nosso futuro, ainda mais quando ele se encontra verdadeiramente ameaçado.

* * *

marechal_de_costasO MARECHAL DE COSTAS
Sinopse: Por trás de um olhar imóvel e de um silêncio desconcertante, o marechal Floriano definiu o período mais turbulento da nossa República. Mas o marechal de ferro oculta o sonhador casado com a própria irmã e obcecado por Napoleão Bonaparte. Nascido em Alagoas, Floriano é a figura de maior importância política nos primeiros anos da República. Nas páginas deste romance, passado e presente se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos turbulentos do presente, por meio de uma antiga cozinheira que segue, de perto, as manifestações de 2013 e seus desdobramentos políticos. Um livro poderoso sobre a construção de nossa nação.

O marechal de costas chega às livrarias no dia 21 de outubro pela Alfaguara.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas(originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Lança em outubro o romance O marechal de costas.

Em tradução (Georgina Burns)

Por Caetano Galindo

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Uma das coisas com que eu tive que aprender a lidar durante o processo de tradução/edição de Um retrato do artista quando jovem e Dublinenses foi o paradoxo do anotador. Aquela coisa de que quanto mais você anota mais parece que precisa anotar. A imensa dificuldade de decidir onde parar.

Eu tinha uma carta na manga, ou um plano oculto, que era fazer com que as notas funcionassem não só pra leitura de cada um dos livros, mas também pra ampliar o acesso ao Ulysses. Já foi meio que uma linha de orientação.

Mas nem sempre resolve, e nem sempre fica claro onde é que você já está só mostrando tuas nerdices pros leitores (tipo: ó o que eu sei!).

Um caso que me pareceu especial foi o de Georgina Burns, citada uma única vez no conto Os Mortos, que encerra Dublinenses, e sobre o qual Don Gifford, o santo padroeiro dos anotadores de Joyce, disse apenas: “não conhecida”.

O contexto é o seguinte: no meio de uma discussão sobre ópera, alguém menciona Mignon, obra menor do compositor menor Ambroise Thomas, baseada na personagem do Wilhelm Meister, de Goethe (sim: isso tudo está nas notas), que inspirou canções a vários compositores do romantismo (não: isso não está nas notas… viu como é difícil?). Aí Gretta Conroy, mulher do “protagonista”, diz que foi ouvir a ópera mas só conseguiu pensar foi na “coitadinha da Georgina Burns”.

Hoje, com Google, é fácil suplementar o trabalho de Gifford (publicado em 1980) e descobrir que ela foi uma cantora lírica da virada do XIX pro XX.

Paro aqui?

Mas por que a “coitadinha”…? Fuçando mais em sites de amantes de ópera, dá pra descobrir que o fim da carreira dela foi tristíssimo, quase indigente, depois de um começo algo brilhante.

Paro aqui?

Fuçando ainda mais, acho uma referência ao fato de que ela era casada com outro cantor, Leslie Crotty, que também teve uma vida triste, assolada pela doença e pelo alcoolismo, e que morreu em abril de 1903.

Isso pode explicar o coitadinha… Mas a DATA pode ser relevante.

Porque um dos grandes problemas dos contos de Dublinenses, e especialmente deste Os Mortos, é a tentativa de se datar a ação. Os contos parecem acontecer entre o finzinho do XIX e o começo do século XX, mas um anotador de verdade quer saber mais. Especialmente nos contos que envolvem personagens do Ulysses, dezenas de personagens do Ulysses.

E é o caso aqui em Os Mortos: o casal Conroy e as senhoritas Morkan, Julia e Kate, serão citados no romance posterior.

Mais ainda, num dado momento será revelado no Ulysses que a senhorita Kate é madrinha de batismo de Stephen Dedalus (por que ele não está presente na festa do conto? Será que a festa acontece quando ele está na França, entre fins de 1902 e agosto de 1903?) e que ele lembra dela cuidando da irmã “moribunda”.

Julia está morta em 16 de junho de 1904?

Desde quando esteve “moribunda”?

Logo no começo do conto ficamos sabendo que estamos no “tempo do Natal”, mas que já é janeiro. Ou seja, estamos entre o dia primeiro e o dia 5, já que no dia 6, dia de Reis, encerravam-se as celebrações. Mas de que ano?

O fato de as personagens discutirem a a epístola “Inter sollicitudines”, de Pio X, era a marca mais convincente. Porque o documento papal, que proíbe as mulheres de cantarem nas igrejas (cinicamente publicado no dia 22 de novembro, festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos), é de 1903.

A menção ao estado de saúde de Julia parecia portanto ser o terminus ad quem, como se dizia antigamente. Se a ação tinha que ser nos primeiros dias de algum janeiro, agora a gente sabe que tinha que ser o janeiro de 1904.

A morte do marido da “coitadinha” da Georgina Burns só confirma esse dado.

Vale a nota?

Especialmente se você pensa que Gifford nem faz a articulação com a Julia “moribunda” do Ulysses?

Pra mim, valeu.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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