Ana Maria Bahiana

Minhas páginas antigas: a balada de Bob e eu

Por Ana Maria Bahiana

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O primeiro disco que comprei com meu dinheiro não foi nem dos Beatles, nem dos Rolling Stones: foi de Bob Dylan.  Chamava-se Os Grandes Sucessos de Bob Dylan e tinha uma capa muito feia, cinza com bordas azul-real, e aquele inesquecível odor da cola fedorenta que mantinha, precariamente, a integridade dos invólucros dos discos da CBS nos anos 1960. O repertório era uma mistura de faixas dos três primeiros álbuns norte-americanos de Dylan o que, para mim, recém-chegada na adolescência, não fazia a menor diferença: tudo o que eu queria ouvir estava ali — “Blowin’ in the wind”, “Don’t think twice, it’s alright”, “The times they are a-changin”, “It ain’t me, babe”, “Mr. Tambourine Man”. E, pouco tempo depois, num compacto (isso existia!) dos Byrds, a canção que sublinhou toda a minha vida até aqui, e que se apresentou para mim como uma quimera, uma esfinge, um quebra cabeças para ser decifrado apenas com o passar do tempo: “My back pages”.

Mas eu me antecipo. Eis o que era importante para mim naquele momento, o que justificou o dinheiro acumulado com esforço, guardado de mesadas, presentes de tios por minha participação na Feira da Providência e aulas extras para colegas: Dylan para mim era como um livro, só que com música. Era algo tão infinitamente prazeroso quanto sorvete de manga do Morais: era manga e era sorvete, suas qualidades intrínsecas de prazer e descoberta mantidas intactas, embora unidas.

De Ray Charles a “Satisfaction”, o rock, até então, tinha me feito dançar, twist and shout. Dylan me fazia pensar, me dava histórias para acompanhar, palavras para descobrir. Meu inglês era razoável (afinal tinha passado três anos numa escola americana) mas a voz fanha, a articulação rápida e a falta de letras impressas me pregava peças. Eu ouvia “crawls” e não “crows” em “Don’t think twice, it’s alright”, e, não sabendo o que era o “rooster”, imaginava o ser como um bicho fofo, crawling para longe at the break of dawn.

E aqui estavam os outros poderes mágicos de Robert Zimmerman: ele me oferecia poesia e prosa, alternadamente, disfarçadas e embutidas em suas paixões por folk, country e blues. Ou melhor: ele usava (e usa) as molduras de folk, country e blues, que por si mesmas já têm, simultaneamente,  tradições narrativas e impressionistas, e as punha em torno dos temas da sua geração, que a minha pegava de rebarba. Folk, country e blues sempre contaram histórias ou captaram sentimentos. Dylan fazia o mesmo enquanto documentava a eclosão, explosão e progressiva maturidade da mais vasta geração do século 20. (Mas ele sabia que ninguém cantava os blues como Blind Willie McTell…).

Ao longo de cada novo álbum (minha aquisição seguinte, muito mais ambiciosa, foi Blonde on Blonde, na versão norte-americana) Dylan ia alimentando minha alma de escritora com detalhes, truques, ossos do ofício. Eu ouvia, ouvia de novo, me detia sobre um verso, sobre outro. Dylan me ensinava como expressar e como omitir, como transformar raiva e desprezo em algo bem mais complicado em “Like a rolling stone”, ou como desenhar amor e paixão com todas as suas ambiguidades, de “Just like a woman” ao  dilaceramento completo que é todo o Time Out of Mind.

Era livro e era também cinema, como aquele súbito plano geral ao final de “All along the watchtower”, onde também se revela que ele estava contando a história toda de trás para frente. Ou “A simple twist of fate”, que vem completo com protagonistas e coadjuvantes, uma trama em três atos e detalhes de cada ambiente.

E aí voltamos a “My back pages”, a canção-código, feita para ser compreendida apenas quando a experiência substitui a inocência. Dylan tinha 23 anos quando a compôs, e 28 quando a interpretou ao vivo pela primeira vez. Tão jovem ele já tinha perdido o suficiente para compreender que nada é mais fácil do que ser velho — rígido, intransigente, monotemático, dogmático — quando se tem pouco tempo na crosta do planeta. Mais uma vez, Dylan estava usando o texto como uma narrativa ao contrário, em que tudo o que ele descreve — as admoestações, os discursos acalorados, as certezas absolutas — estão no passado, nas back pages, quando ele era muito mais velho do que é hoje.

Ele me propunha, assim, uma meditação para a vida toda. A cada momento em que ouvia “My back pages” Dylan me convidava a refletir sobre quais certezas eu estava pronta para deixar pelo caminho, me desafiava a reverter a flecha do tempo.

E assim ele me dá o contexto para uma de minhas memórias mais antigas. Eu no assento traseiro de um carrão americano deslizando por uma Avenida Vieira Souto deserta, a praia de Ipanema nublada e chuvosa, meus pais no banco da frente ouvindo Tito Madi interpretando “Ternura antiga”, de Dolores Duran. Devo ter, no máximo, a idade que minha neta mais velha tem hoje, 5 anos. A música termina e eu ouso perguntar algo que está na minha cabeça há muito tempo: “Mãe, toda música é sempre sobre amor?” Há um longo silêncio e ela afinal responde: “Você quer dizer os versos?” Eu: “É, os versos. É obrigado ser sempre sobre amor, toda música?” A pausa é ainda maior. Minha mãe responde: “Não. Não é obrigado não. Mas quase sempre é.”

Quase sempre. Mas quase, certo?

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Bem-vindos ao baile de máscaras

Por Ana Maria Bahiana

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Eu prometi a mim mesma que não ia escrever sobre o Oscar. Porque é sempre um tema meio exausto, que se repete como Natal e Dia das Mães. E porque este ano estamos todos que nem as mulheres de Almodóvar, à beira de um ataque de nervos, emoções à flor da pele.  Então pronto, não vou falar sobre o Oscar — vou falar sobre a chuva de prêmios que vai começar em breve, e que significado e/ou importância eles tem além de nossas torcidas passionais.

Todo mundo gosta de torcer — todos temos alter egos onde colocamos nossas aspirações e desejos. O cinema vive em grande parte desse nosso impulso tão antigo quanto o teatro das arenas gregas: nossa vida nua não tem lá tanta graça mas, ah!, quantas portas se abrem com máscaras! Na nossa narrativa de plateia, esse monte de prêmios enfatiza essas paixões: queremos que as histórias/pessoas com que nos identificamos — nossas máscaras — saiam na frente, sejam laureadas (cobertas com coroas de louros ou, na falta destas, estatuetas douradas). Os programas de entrega de prêmios são chatos, arrastados, longos demais — não é à toa que sua audiência está em queda livre há anos. Mas ainda permanecem na casa dos milhões de espectadores, gerando uma mais que saudável receita de publicidade por conta de nossa alma de torcedores, curiosos para saber qual de nossas máscaras será glorificada desta vez.

Nesse momento faço um parênteses: eu entendo nossa frustração brasileira com o fato de nunca termos levado o mais dourado de todos os prêmios, o Oscar. É como, na minha infância, ouvir a litania de lamentações de meus pais e tios porque Frank Sinatra nunca tinha ido ao Brasil. Ao mesmo tempo desprezamos e queremos esse endosso, essa atenção, esse banho de ouro, esse dedo apontado dos céus, como no quadro de Michelangelo, dizendo: sim, aí estão vocês, em nossa imagem e semelhança, nós, o resto do mundo.

Como esse tal de cinema é complicado! Como ele é psicologicamente profundo, mexendo tanto com nossos desejos, com nossas angústias, as coisas não inteiramente resolvidas.

Objetivamente, um prêmio é só a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. É um registro tão emocional para quem vota quanto para quem acompanha e torce, e tem, no fim das contas, menos peso que a passagem do tempo. É a perspectiva das décadas que estabelece quem realmente deixa sua marca, muda o rumo, introduz novas ideias, novas técnicas, novos desafios, novas emoções. Que tal esta lista de 50 grandes filmes, cada um importante a seu modo, que jamais foram sequer indicados? Ou saber que Akira Kurosawa, Robert Altman, Stanley Kubrick e Jean-Luc Godard (entre muitos outros) jamais receberam um Oscar de melhor diretor?

Pronto, falei de Oscar.

Mudemos de assunto. Ou melhor: a grua sobe, temos agora um plano geral.

Do outro lado das emoções, angústias e vaidades, eis o poder que interessa na disputa desse monte de bibelôs dourados: a visibilidade que eles dão. Isso sim vale. Cada prêmio (e nessa leva estão também os grandes festivais) tem lá seu sistema para afunilar de modo administrável o vasto oceano da produção internacional (“internacional”compreendido como “o resto do mundo além do país que está dando o prêmio”).

Meu tempo de janela me diz que o real valor de se aventurar por esse mundo das premiações — onde a frustração é um prato muito mais frequente do que a deliciosa sobremesa da vitória — é a possibilidade de expandir as fronteiras do próprio cinema, chamando a atenção para realizadoras e realizadores trabalhando com outros idiomas, outras culturas, outras experiências, criando novas oportunidades para quem investe e quem precisa de investimento, gerando novas parcerias e novas colaborações. Cinema é caro e complicado — arriscar-se a colocar o fruto de tanto labor debaixo das lentes das escolhas alheias traz como compensação a abertura de portas que nem se sabia que existiam.

No final das contas, reduzido ao essencial, todo esse drama em torno de estatuetas e escolhas é isso: um baile de máscaras onde dançar é mais importante que ter o aceno do rei.

E sabem o que ainda é mais importante? Aquilo que a Argentina acaba de fazer, seguindo os passos da França: colocar a educação audiovisual no currículo da escola primária. Porque sem plateia não há cinema. E com uma plateia informada se faz sempre um cinema melhor.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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O zepelim, a Netflix e o Biscoito Globo: a poderosa alquimia da memória

Por Ana Maria Bahiana

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Tudo começou quando li um excelente texto do arqueólogo, egiptólogo e empreendedor britânico Tobias Stone sobre o papel da memória na narrativa histórica. Mais que na narrativa — na história em si. Por que a humanidade repete incessantemente os mesmos ciclos? Por que temos iterações periódicas dos mesmos arquétipos: as guerras religiosas e étnicas; os expurgos; as expansões imperiais; a ascensão de ditadores e tiranos? Stone, com sua formação embasada no estudo do antigo, oferece uma resposta intrigante: porque não nos lembramos. Sim, existe o registro. Mas emocionalmente, fisicamente, visceralmente não nos lembramos mais. “Minha teoria é que a perspectiva histórica da maioria das pessoas é limitada à experiência compartilhada por seus pais e avós, ou seja, uma média entre 50 e 100 anos”, Stone escreve.

É uma perspectiva fascinante, que sugere uma ideia ainda mais desafiadora: a de que apenas os relatos, o registro da história, não valem quase nada se não vierem acompanhados da memória afetiva e emocional que lhes dá contornos claros, quase palpáveis, quase uma realidade virtual. O que nossos antepassados imediatos nos contam a partir de suas experiências têm mais peso de verdade do que o que aprendemos na escola, nos livros, nos registros oficiais, porque formam um arcabouço que envolve outros elementos, com a carga emocional da experiência vivida.

Por isso, Stone continua, é perfeitamente possível encontrar, hoje, pessoas que duvidam, por exemplo, que o Holocausto se deu, ou que acreditam que Donald Trump e outras figuras da direita populista oferecem propostas inteiramente novas e válidas, nem um pouquinho semelhantes às de tiranos fascistas do século 20. Entre outras coisas.

Sempre fui fascinada pelo papel da memória, por seus processos, pelo modo como o que lembramos se constrói. Ver meu pai — memorialista nato, colecionador apaixonado, excepcional fotógrafo amador — sucumbir ao mal de Alzheimer foi ao mesmo tempo um horror e uma lição sobre o poder, a delicada alquimia da memória. Da presumida escuridão total das etapas finais da doença emergiam narrativas inteiras, intactas, tão vivas como da primeira vez que foram contadas. Seria o peso do afeto, a superposição com alguma outra energia mais sutil que guardaram até o fim a imagem do Zepelim flutuando sobre a praia de Copacabana? Será por esse mesmo motivo que me lembro do cheiro e da textura de uma determinada boneca, mas tenho a clara impressão de que nunca, realmente, brinquei de boneca?

Os produtores de entretenimento de massa conhecem muito bem esse poder da memória afetiva. “Nada apavora mais um executivo do que uma ideia inteiramente original”, um produtor independente me disse, uma vez. E é a pura verdade. A ideia original abre uma nova etapa e, portanto, não tem alicerce. Mas ah! Que coisa mais certeira do que aquilo que já foi visto e assimilado emocionalmente! Aquilo que já compôs sua própria narrativa na nossa cabeça e no nosso coração, que já está ancorado na nossa memória afetiva, só precisa dos botões certos, das espoletas que vão nos levar a, imediatamente, ver e apreciar como se estivéssemos lembrando. Como se estivéssemos vivendo de novo algo que pode ou não ter sido vivido desse modo — mas que é lembrado e, portanto, vale.

Stranger Things, a série da Netflix, sabe disso tudo muito bem. Seu imenso sucesso está em fornecer todas as espoletas certas, recriando o universo de memórias afetivas da geração que hoje tem entre 30 e 45 anos e cresceu vendo o cinema pop/fantástico da geração de Steven Spielberg, John Carpenter e George Lucas — que, por sua vez, estavam reciclando as suas próprias memórias afetivas dos anos 1950 e 1960. É um ciclo que, com o devido incentivo pecuniário, não termina tão cedo.

Fiquei pensando também se esse mesmo poder não explica a divertida controvérsia do Biscoito Globo. Como tantos outros cariocas, eu cresci comendo Biscoito Globo. Não saberia sequer descrever seu sabor com palavras exatas, mas sei muito bem o que ele é: praia, mate gelado, o som de “croc”, o farelo pelo corpo, o mergulho, o cheiro da maresia, a areia nos pés, a conversa com os amigos. Em termos de experiências meramente gustativas, jamais colocaria o Biscoito Globo no topo da lista. O que ele é é a minha infância, a minha adolescência, a liberdade, a alegria e os simples e poderosos prazeres de estar naqueles momentos, naquelas praias. É parte do que faz de mim o que sou — uma carioca de Ipanema, que se lembra afetivamente de tudo do seu bairro e, no entanto, talvez não seja capaz de recordar o que fez em determinada data.

Pobre rapaz do New York Times! Que memórias ele terá? Saltwater taffy em Coney Island? Eu provei uma vez. Achei um horror. Mas não era minha história.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Reencontrando Janis: A vingança da menina triste

Por Ana Maria Bahiana

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Ao contrário de muita gente da minha geração (e anteriores), nunca fui fã de Janis Joplin. Nada nela me atraía musicalmente, meus ouvidos ainda cheios de descobertas recentes que faziam mais sentido para mim — Nina Simone, Billie Holiday, Bessie Smith, Ma Rainey, Big Mama Thornton, Etta James, Alberta Hunter. Eu me lembro de pôr Cheap Thrills na vitrola — portátil, daquelas que você tinha que clicar o braço para fazer o prato rodar — e ir pulando as faixas depois de um minuto. A voz me soava forçada, a banda, assim-assim. Gostava da capa, do imortal Robert Crumb. Parei o exercício de pular faixas apenas com “Summertime”, a única que ouvi até o fim (e que continuaria a ouvir até o fim, em companhia de outras em que Janis, para os meus ouvidos, soava mais como ela mesma: “Me and Bobby McGee”, “Mercedes Benz”).

Mas uma coisa sempre me fascinou em Janis: ela mesma. Que mulher era essa, eu pensava, que abria uma clareira tão grande naquele cerradíssimo Clube do Bolinha que era a cena de rock dos 1960-70? Que se apoderava do palco apenas com seu corpo e sua voz e ocupava todo o seu espaço — quando a vi no documentário Monterey Pop, não me importava o que e como cantava, era ela ela ela que tomava a tela toda, desarmada de guitarras e quetais, apenas ela, como que nua e gigantesca naquele palco, sobre aquela plateia, naquele lugar, no mundo inteiro. Blues cósmicos.

Lembrei de Janis por conta de outro documentário, Janis: Little Girl Blue, de Amy Berg, que veio direto do festival de Toronto 2015 para a Netflix. Baseado em grande parte na biografia de Janis do mesmo nome, escrita por sua irmã Laura (que está no filme, juntamente com o irmão caçula, Michael), Little Girl Blue não evita mas também não se detém sobre as drogas que, em última análise, levariam Janis aos fatídicos 27 anos. É um contrabalanço à primeira e única biografia que tínhamos ao nosso alcance nos 1970, Buried Alive, de Myra Friedman, que, escrita ainda à sombra da morte trágica e súbita, concentrava-se com quase fúria no assunto, e condenava veementemente a cena da contracultura como a facilitadora, quiçá a responsável direta pela overdose fatal.

E no entanto, com a vantagem do tempo e o equilíbrio dessas duas visões, o que fica claro é exatamente aquilo que ao mesmo tempo desafiou e tornou Janis Joplin grande: a pessoa que ela era, e a persona que ela inventou para resolver sua questão essencial — a de pertencer, fazer parte, ser incluída; a questão da identidade, de ser fiel a quem se é, tão essencial hoje, era o que movia Janis, o que a frustrava e desafiava e o que, em última análise, transformou-a naquela deusa descabelada e poderosa que, com apenas corpo e voz, ocupava cada centímetro do palco, do holofote, da fama até então povoada pelos machos, exclusivamente.

Descobrir, através do documentário e do livro de Laura Joplin, o quanto a vida de Janis foi sobre autodescoberta e aceitação me deu enormes chaves para entender um monte de coisas sobre ela, sobre a época, e sobre mim mesma — que, como ela, lutava tanto para descobrir quem eu era quanto que lugar haveria para mim no mundo.

A descoberta da voz, física e metaforicamente, veio tarde, depois de uma gangorra, tão conhecida minha, entre implorar desesperadamente para ser aceita e ostentar a rejeição com orgulho. Imediatemente antes e logo depois de Janis achar seu modo pessoal de expressão, aconteceram todos aqueles rituais de separação: as tentativas frustradas de ser como os outros, humilhações na escola e na faculdade, num último esforço para ser como o padrão da família e da cidade de Port Arthur, Texas, um noivado abortado.

Quando Janis chega a San Francisco, em 1966, ela já sabe quem ela não é. San Francisco e a efervescência dos 1960 lhe diriam quem ela era. Na cidade, na cena musical, na energia da mudança ela se sentiria aceita, afinal, e ao se sentir aceita seu poder emerge. Em Port Arthur e em Austin — onde tentou completar seus estudos — ela era alijada porque queria ser “um dos rapazes”. Em San Francisco ela era quem ela queria ser, moça e rapaz e nem um nem outro, apenas ela, aceita, completa, a voz, a energia, a potência, a alma enfim plena, nem que fosse por aquelas horas no círculo sagrado do palco, onde seu poder podia se manifestar, livre e inteiro. Tudo estava vingado, tudo estava redimido e transformado.

E ao ser incluída, afinal, Janis transcendeu. Sua voz liberou outras vozes e sua presença abriu essa trilha que virou avenida, por onde tantas outras mulheres passariam e ainda passam, donas de si, donas do palco, donas de suas vozes, protagonistas de suas histórias.

A história de Janis não teve um final feliz. Mas esse, quem sabe, é o preço de tê-la escrito tão intensamente na primeira pessoa.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964(Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Uma história de violência

Por Ana Maria Bahiana

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Estava pensando em um monte de coisas bacanas para atacar no post deste mês. Tantas, tantas opções. E aí vem a madrugada de domingo em Orlando. É mais, muito mais do que sou capaz de digerir, esses velhos monstros de sempre — o fácil acesso a armas de fogo; o ódio; o preconceito; a personalidade fraturada, de feridas abertas, incuráveis, sabe-se lá há quanto tempo. E os números: 49 pessoas mortas, 53 feridas. Filhas e filhos, irmãs e irmãos, primas, primos, sobrinhos, amigos de alguém. E Brenda McCool, de 49 anos, mãe de 11 filhos que criou sozinha, e que dançava com um deles quando aquele ser impensável e impensado roubou-lhes as vidas conquistadas com tanta luta.

E saber isto: que a chacina de Orlando, na madrugada de domingo, foi somente um de 133 ataques com armas de fogo e múltiplas vítimas, nos Estados Unidos, este ano apenas.

Há tanto o que dizer aqui e eu me sinto tão muda. A parte racional, que analisa os dados e encontra respostas, ainda que históricas e retóricas, se encolhe.

Eu compreendo a famosa emenda número 2 da constituição norte-americana, aquela que  diz “uma milícia bem regulada é necessária para a segurança de um Estado livre e o direito do povo em possuir e portar armas de fogo não será contrariado”. Filho direto do Iluminismo e irmão da futura Revolução Francesa, o então muito jovem Estado norte-americano ao mesmo tempo sonhava com e desconfiava do novo poder que estava inventando. A sombra da monarquia absoluta ainda pairava sobre as jovens cabeças dos responsáveis pela emancipação desses Estados Unidos, ainda tão poucos e tão frágeis. Como impedir que algum aventureiro se apossasse dessa república verde e esperançosa e se transformasse no tirano que queriam eliminar? Com, entre outras coisas, “uma milícia bem regulada”.

O tempo criou uma nova música em cima dessa ideia: a tônica foi para o final da emenda, a parte que reza “o direito do povo em possuir e portar armas de fogo…”. É uma migração compreensível numa nação que nasce ao mesmo tempo querendo e não confiando no estado que criou, uma nação que nasce pondo o indivíduo, em suas escolhas e responsabilidades, no centro de seu conceito de sociedade.

Mas daí para frente a história se complica: poderio militar, domínio geopolítico, intervenção militar como política externa, a maior indústria de armas do mundo, tantos interesses, tantos significados, tanto poder se aboletando sobre aquela segunda parte da segunda emenda.

Eu entendo tudo isso e nada disso tem importância nessa hora, porque a emoção toma conta mais uma vez, a velha narrativa do massacre, do indivíduo que se sente ungido pelo poder de vida e morte por motivos x, y e z que são todos sabidamente loucos e pervertidos e não fazem sentido em nenhuma trama alinhavada pela lógica.

Uma vez, não muito tempo atrás, um sujeito me deu uma fechada na freeway. Reclamei, acelerei. Ele saiu atrás de mim, emparelhou, começou a jogar coisas sobre o meu carro, coisas pesadas, sei lá o que eram, o ruído tum tum tum cada vez mais alto, eu tendo que manter o controle sobre o carro a mais de 110 quilômetros por hora, o cara no Honda branco rebaixado, tão jovem, tão enraivecido, olhos injetados, me xingando, uma arma de fogo, grande, silenciosa, implacável, bem ali no banco do carona.

Saí da freeway, parei na primeira rua, chorei tanto. De medo, de raiva, de impotência, do terror do não acontecido, do confronto com um relance do olhar do monstro sobre mim, sobre tudo o que eu compreendia tanto mas não compreendia nada naquele dia, naquela manhã, uma manhã tão bonita, tão azul, tão sul da Califórnia.

E assim não era a história que eu queria contar, mas acabou sendo a história que se contou sozinha, talvez como Sheherazade fazia com o sultão, deixando que monstros e gênios e príncipes e tiranos lhe sussurrassem ao ouvido como adiar a morte por mais uma noite, por mais um dia, por mais um dia.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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