Ana Maria Bahiana

Encontrando ídolos pela primeira vez

Por Ana Maria Bahiana

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Dizem que não se deve jamais encontrar nossos ídolos. Que ter contato direto com a carnalidade das pessoas que admiramos é o caminho mais curto para a decepção — os pés de barro, garantem, sempre aparecem primeiro.

No espaço de dois dias, no final do verão norte americano de 1980, tive as duas primeiras experiências poderosas no departamento “encontrar ídolos”. A primeira foi do estilo “pés de barro”: no legendário estúdio Electric Lady do Village de Nova York, onde Jimi Hendrix gravou o ainda mais legendário álbum Electric Ladyland, eu deveria estar nas mais altas esferas da felicidade, entrevistando uma banda pela qual era (e ainda sou…) absolutamente fanática: o Clash. Quem me lê há tempos (ou seja, desde a era jurássica) sabe o quanto London Calling foi marcante na minha vida (e, pelo jeito, na vida de um bando de gente que leu minha resenha publicada na revista SomTrês). Mas antes e depois de London Calling eu já era fã de Joe Strummer e sua turma, e encontrá-los em pessoa, conversar com eles sem restrições de tempo, sem mediação de assessores de imprensa, quiçá observar seu trabalho, seu processo criativo… Seria o céu!

Mas não foi. Como o próprio Mick Jones contaria, anos depois, 1980 foi um dos piores anos da banda, o começo do fim que se estenderia por mais seis anos até sua dissolução oficial em 1986. No estúdio para gravar o que viria a ser o álbum Combat Rock, os quatro Clashes jogavam tempo fora se drogando e brigando entre si. E esse foi, em essência, o que aconteceu naquela tarde/noite de setembro de 1980: em vez de encontrar meus ídolos e conversar com eles, presenciei sua decadência ao vivo. Foi de cortar o coração. E enfurecer. Eles estavam tão doidões que não conseguiam articular coisa com coisa, pensar, falar.

Fiz o que nunca tinha feito na minha vida até então e jamais faria depois: larguei a entrevista no meio e fui embora.

Dois dias depois — uma segunda-feira, feriado de Dia do Trabalho nos Estados Unidos — veio o reverso. Era meu último dia inteiro em Nova York, eu voltava para o Brasil no dia seguinte, carregando comigo a não-matéria do Clash. Fui afogar as mágoas como costumo fazer: procurando um bom café.

Nos anos 1980, os Estados Unidos ainda não haviam se convertido ao Culto da Cafeína; a maioria dos lugares oferecia apenas aquele café medonho, aguado, morno. Viciada como sou, eu havia feito um inventário dos poucos lugares que ofereciam espresso e cappuccino em cidades que eu visitava a trabalho. Ali, no Upper West Side de Manhattan, eu sabia exatamente onde encontrar o líquido sagrado: no La Fortuna, uma modesta trattoria num desses porões de brownstones típicas de Nova York.

E lá fui eu, descendo os degraus do La Fortuna em busca do do meu doppio espresso. Na volta, subindo a mesma escada da escuridão para a luz da manhã, um vulto, descendo, esbarra no meu ombro. E uma voz que eu imediatamente reconheço — britânica, anasalada — diz claramente: “Sorry. Excuse me.

Será? Será? Acabo de subir, paro ali na calçada da rua W 72, espresso na mão. Respiro fundo, espero alguns minutos. E sim: subindo as mesmas escadas, copo de papel na mão, de jeans, camiseta e jaqueta branca, vem John Lennon.

Olho para o meu lado: Yoko Ono está ali, esperando por ele. Os dois se dão os braços e seguem, conversando, rumo à Columbus Avenue.

Coração batendo forte, cabeça tonta, não consigo articular um pensamento sequer. O que fazer quando a pessoa que embalou sua adolescência desde a primeira espinha, que formou, em grande parte, seu gosto e suas noções de certo e errado, que para você era apenas uma voz desencarnada emanando do rádio ou dos sulcos do vinil, está ali, a dois passos de distância, um ser humano qualquer andando pela rua numa bela manhã de quase outono, cuidando da vida, tão igual a todos nós batendo perna pela Columbus?

Não há o que fazer, apenas estar presente.

Deixo uns bons dez passos de distância entre nós e, simplesmente, caminho. É um dia lindo, perfeito, céu muito claro, uma brisa fria vindo do rio, anunciando o outono. John e Yoko param numa banca de jornal, compram flores de uma bodega, John entra numa delicatessen e sai com um pacote. E assim vamos andando, ocupando o mesmo espaço na calçada, compartilhando a manhã que se transforma em tarde, duas pessoas comuns num dia comum no planeta Terra.

Assim se passa pouco mais de uma hora. John e Yoko finalmente tomam o rumo de volta para casa, para a Central Park West e o edifício Dakota.

Menos de três meses depois, John seria assassinado ali mesmo, na rua 72, em frente ao Dakota. Fiquei de luto por muito tempo. Graças em grande parte àquela manhã de setembro, ele agora era uma pessoa para mim, não mais um ídolo, uma pessoa que faz parte da minha vida e de quem se pode sentir saudade.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A confraria secreta das palavras

Por Ana Maria Bahiana

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Somos quatro num mesmo carro, presos no trânsito infernal de Beverly Hills, numa noite quente de verão. Somos amigos, companheiros de trabalho num projeto comum, mas ainda não sabemos o quanto somos parecidos, embora completamente diferentes. A motorista nasceu e cresceu em Mumbai, estudou numa das melhores universidades da elite norte-americana e hoje é vice-presidente da associação de imprensa à qual pertenço. Os dois passageiros no banco de trás trabalham com web. Um é especialista em mídias sociais, o outro é designer com vasta experiência em grandes projetos para estúdios. No banco do carona vou eu, cansada demais para dirigir depois de um dia longo e atarefado com uma média de temperatura de 38 graus, e grata pela oferta generosa da minha amiga ao volante de me poupar mais uma batalha nas ruas hiperlotadas de Los Angeles.

Estamos todos saindo dos estúdios da Fox, onde acabamos de ver Perdido em Marte, a sensacional adaptação do diretor Ridley Scott e do roteirista Drew Goddard para o best seller (que começou autopublicado como e-book) Andy Weir. Aí descobrimos nosso primeiro traço em comum: somos todos geeks apaixonados por ciência, cometemos nossos experimentos na infância e devoramos sci-fi em todas as suas formas. Debatemos o fino traço limítrofe entre especulação e delírio, possível e realizável, ou, em bom português, o quanto de livro e filme é chute, e o quanto é chute com previsão de gol, por ser teoricamente possível (Weir teria escrito o livro para demonstrar a viabilidade de uma teoria dele. Não digo qual porque não sei se você leu o livro… Depois do filme a gente conversa).

Gradualmente um outro assunto se aninha na conversa: a danada da exposição, tormento de qualquer pessoa que escreve, especialmente quem escreve para cinema ou TV. Eis o dilema da exposição: há coisas que não fazem parte da trama, mas que precisam ser compartilhadas com a leitora de um modo que não interrompa a narrativa. No meu curso Como Ver um Filme eu dramatizo um exemplo extremo de exposição mal resolvida personificando Samuel L. Jackson numa cena que é uma espécie de combo de todos os filmes ruins que ele já fez (e como ele é um dos atores mais solicitados do mundo, ele já fez muito…). Você sabe como é: aquela conversa tosca em que basicamente um personagem pergunta ao outro aquilo que nós, na platéia, precisamos saber para acompanhar a história. Há personagens criados especialmente com a função de serem os gatilhos da exposição: a melhor amiga, o melhor amigo, o cientista/soldado/espião/médico que foi adicionado ao time/tropa/time/hospital por último.

O carro, que está indo a lugar nenhum por uns bons 20 minutos no bonito mas insuportável Santa Monica Boulevard, começa a ficar decididamente animado. Debatemos se as soluções de Goddard/Scott são adequadas ― a média decide que sim, considerando a quantidade de informação científica que tem que ser jogada em cima do público.

E então começamos a suspeitar que, com todas as diferenças de formação, cultura, idade e ocupação, temos algo obviamente em comum: todos nós escrevemos. Todos nós nos definimos como “escritores” ― alguns escrevem como modo de pagar as contas, e mantém uma prática pessoal à parte (como eu); outros trabalham em coisas completamente diferentes mas pertencem a círculos de escritores, clubes de leitura, têm livros e roteiros na gaveta.

O carro preso no engarrafamento de repente se transforma numa confraria. Somos cúmplices em nosso amor por uma atividade profundamente pessoal, difícil e embriagadora que, tememos, poucos “lá fora” compreendem.

O assunto muda para Game of Thrones. Todos somos fãs da série da HBO. Todos lemos os livros. Todos temos comentários e notas pessoais a respeito de desenvolvimento de personagens, tramas com e sem becos sem saída, intenções do autor. O tom da conversa mudou substancialmente ― somos todos, agora, conterrâneos do país inventado e habitado por George R. R. Martin, e nos sentimos à vontade para debater suas intimidades, seus avessos, sua língua secreta. Somos todos espiões no mundo da imaginação e das palavras, conhecemos bem seus códigos.

Chegamos então a uma encruzilhada fatal ― aquela última cena do último episódio da temporada que foi ao ar este ano. Debate furioso no carro que, agora, avança len-ta-men-te, metro a doloroso metro, rumo ao cruzamento com a Doheny. O que realmente aconteceu? O que virá depois? Quais as ramificações para o passado e o futuro da trama? Um dos passageiros do banco de trás propõe comparações com o texto do livro. Há uma espécie de engasgo coletivo. E então me ouço dizer: ― Não podemos comparar. A imagem fecha e limita tudo, é tão definitiva. Mas as palavras… ah, as palavras… o poder das palavras é deixar todas as possibilidades abertas.

O carro fica em silêncio. Estamos quase chegando.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Duas ilhas num oceano de papel

Por Ana Maria Bahiana

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Foto: Alberto Bahiana

A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Às vezes eu acho que passei a minha vida toda lendo. Antes de saber ler eu “lia”, esforçando os olhos para ver em que aqueles rabiscos pretos correspondiam às figuras. Eu adorava aquela coleção de história infantis musicadas pelo Braguinha, porque eu podia ouvir a história e acompanhar o texto — e às vezes, que milagre!, os rabiscos faziam sentido.

Quando eu tinha 8 anos e o sarampo quase me matou (coisa que só fui saber depois), passei semanas me recuperando na nossa casa da serra fluminense, em Teresópolis, tomando sol e lendo. Para mim, foi o paraíso. As memórias da doença — que ainda tenho — tiveram a contrapartida perfeita, as horas e horas passadas em outros mundos, em outros tempos, com outras pessoas.

Foram tantos os livros da Penguin Classics que passaram por mim (e ainda passam — acabei de comprar uma edição recente de On The Road) que não consegui escolher só um para este post. São dezenas de títulos que marcaram minha vida, em tradução ou no original, cada um trazendo uma carga específica de memória, emoção, informação. Acabei pescando dois desse mar de papel, porque cada um deles balizou um marco da minha vida.

Contos de Andersen foi uma das minhas primeiras leituras de “menina grande”. Sempre me senti atraída por fábulas e contos de fada, e acho que, de Perrault aos irmãos Grimm, eu devo ter lido todos. Mas Andersen sempre foi meu favorito, o que falava mais profundamente comigo, o que mais me passava algo que, muito tempo depois, eu iria a compreender como a capacidade de usar a experiência mágica como uma metáfora para as limitações e anseios humanos. Alguma coisa na mistura de delicadeza, empatia e profunda tristeza dos Contos faziam completo sentido para mim, e abriam a possibilidade que os bons contos de fada possuem: pensar o mundo além do banal.

Como toda boa história de fadas, Andersen constantemente me dava medo. A menina que pisou num pão e A pequena sereia, meus favoritos, sempre me davam um frio na barriga. Um frio bom, que não mudava quando eu lia de novo e de novo e de novo, sempre, talvez, na esperança de que a menina não pisasse no pão, ou a sereia não se apaixonasse pelo moço terrestre, mas sabendo que elas jamais escapariam de suas sinas, porque esse é o poder de quem conta a história.

Acho que foi aí que se expressou claro, em mim, o desejo de ser alguém com esse poder, o de contar a história.

A adolescência trouxe Julio Verne, livros de aventura e os modernos norte-americanos. Ah, como eu amava a poesia brasileira e a ficção moderna norte-americana! Principalmente A leste do Éden, de John Steinbeck. Olhando em retrospectiva, é absolutamente fascinante que, aos 14 anos, eu tenha me apaixonado à distância por uma paisagem que eu nem conseguia localizar inteiramente, só para, um quarto de século depois, me apaixonar por ela de novo, ao vivo: a Califórnia.

Éden para mim teve o mesmo impacto de O Tempo e o Vento, de Veríssimo, ou Capitães da areia, de Amado (que li na mesma época), mas com a força extra de me apresentar algo que, ao contrário da Bahia ou dos pampas, eu ainda não conseguia imaginar por inteiro: uma outra terra, uma outra paisagem geográfica, humana, emocional e simbólica. Nem as aventuras de Jack London nem a imaginação de Julio Verne (para citar dois favoritos) me levaram tão longe quanto Steinbeck — e no entanto tudo o que ele queria era poder dizer a seus filhos e leitores como era o seu mundo ali perto, no vale de Salinas, no centro da Califórnia.

Creio que o impacto de Éden e de Steinbeck, para mim, foi essa integração do ser humano na paisagem, da paisagem no universo das ideias, do universo das ideias de volta ao ser humano, um círculo perfeito expressando o sonho do Oeste como liberdade, oportunidade, abundância, justiça, novos horizontes.

O vale de Salinas é lindo, as serras de Gabilan e Santa Lucia de um lado, as baías e despenhadeiros de Monterey e Big Sur do outro. É uma terra de imigrantes e migrantes, de trabalho duro, sol a sol, de terra boa e fértil e gente de muitos idiomas, culturas e tons de pele, unidos ainda pelo mesmo sonho que moveu as famílias de Steinbeck em Éden. Quando estive lá pela primeira vez, ouvindo viras portugueses na rádio local e com o aroma de alcachofras e laranjas no ar, eu deixei um beijo escondido ao pé de um  carvalho do canyon, numa curva de uma estradinha de terra, por entre as videiras, as ovelhas e os açudes — para John Steinbeck, que me levou até lá.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Amando o monstro: John Logan e o profundo romantismo de Penny Dreadful

Por Ana Maria Bahiana

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Cena de Penny Dreadful.

Nessa minha tarefa de ficar aqui na janela vendo o que se produz para alimentar nossa imaginação e nossas (aparentemente infinitas, pelo volume de oferta) horas vagas, algumas coisas sempre me intrigaram. Por exemplo: como alguns trechos de nossa caminhada pelo tempo, neste planeta, repetem-se ciclicamente como fonte de inspiração. Não fiz uma pesquisa a fundo (porque se eu fosse fazer não estaria aqui escrevendo… pesquisa é areia movediça pra mim…), mas vejo um constante retorno ao Império Romano, à Europa do final do século 15 a meados do 16, e a duas grandes ebulições que desaguam uma na outra para criar nosso conceito de “modernidade”: o trecho da estrada que vai do meio do século 18 até o início do século 20, o berço da nossa ideia de “modernidade”, o embate entre razão e emoção; império e liberdade; campo e cidade; artesanato e indústria; Estado e indivíduo; destino, autoridade e livre arbítrio.

Olhando apenas para a produção que está disponível entre agora e o final do ano, a era Vitoriana está no comando. Entre dois Sherlocks — o de Sir Ian McKellen em Mr. Holmes e o de Benedic Cumberbatch no “Especial Vitoriano” da série da BBC — e um mergulho de cabeça no horror vitoriano com A colina escarlate, de Guillermo del Toro, e mais um Frankenstein, desta vez com James McAvoy como o atormentado Victor, estamos de volta ao lugar de onde parece não queremos sair, nem quando sonhamos com galáxias distantes.

Uma pessoa que tive o prazer de encontrar recentemente me ofereceu um verdadeiro city tour do fascínio por nossos últimos 250 anos: John Logan, um roteirista de primeira categoria, que une uma habilidade instintiva para a estrutura com um imenso arcabouço teórico, emocional, de pesquisa. Seus créditos vão de Gladiador a Rango, includindo dois James Bonds (Skyfall e Bond 25), um Star Trek (Nemesis, de 2002), adaptações para a tela de Hugo Cabret, Sweeney Todd e Coriolano, de Shakespeare. E três indicações ao Oscar, mais seis Tonys por sua peça Red, sobre o artista plástico Mark Rothko.

Logan, americano nascido em San Diego de pais imigrantes irlandeses, cresceu em Chicago e vive parte do tempo em Londres e Dublin, onde a série que criou, produz e escreve, Penny Dreadful, é filmada.

E porque Penny Dreadful, em sua fusão de todos os temas e personagens da literatura fantástica britânica do século 19, é uma verdadeira canção de amor a tudo o que o romantismo representa de mais passional e terrível, ouvir Logan é um modo de entender um pouco o nosso fascínio por esse pedaço da nossa história como espécie.

O papo foi longo, porque é difícil querer parar de ouvir Logan. Mas aqui está um bom resumo.

Qual foi a gênese de Penny Dreadful?
Venho pensando neste projeto há 13 anos, porque adoro monstros, sempre adorei. E eu sempre fui admirador dos românticos, estava numa fase em que eu lia muito William Wordsworth, e através dele voltei ao Frankenstein de Mary Shelley, que desde garoto eu sempre achei extremamente comovente. Relendo como adulto eu vi que a questão essencial que Shelley está colocando é: quem é o monstro? A criatura ou Victor Frankenstein? Foi refletindo sobre essa dualidade que finalmente cheguei a Penny Dreadful. Incialmente eu vi o projeto como um filme, mas foi Sam Mendes, com quem trabalhei em Skyfall, que me convenceu a transformar o projeto numa série.

Alguma atração especial pelo gênero “terror”?
Nenhuma. Não me interessei e não me interesso em escrever segundo os cânones do terror. Para mim o coração do projeto é a literatura romântica —  Wordsworth e Keats e Shelley, tanto Percy quanto Mary. Um dos temas essenciais do romantismo é a questão do amor: o que é ser amado e o que é não ser amado. Esta é a base da narrativa e dos personagens. Minha história é sobre pessoas que podem ser humanas ou não humanas, mas que estão sempre às voltas com o drama infinito de ser amado.

Como você chegou ao clima de terror e sobrenatural partindo dessa premissa?
Através da pesquisa que me levou ao ocultismo, outro elemento essencial do século 19, especialmente da era Vitoriana. Que tem uma conexão clara com as questões do romantismo, da busca de soluções radicais para o problema existencial. Ao extremo chegamos à necromancia e ao Satanismo… Como eu poderia resistir? (ri). Mas o essencial para mim, seja em necromantes, vampiros, lobisomens, é a pergunta: “quem é o monstro?”.

Como nasceu sua atração pelos românticos?
Quando me dei conta de que eu era gay. O momento em que realizei que eu era diferente de outras pessoas numa época em que isso era muito menos aceitável para a sociedade. Estou com 53 anos e é notável como tudo mudou no espaço da minha vida. Quando me assumi como gay eu me senti alienado do meu irmão, da minha família, dos meus amigos. Tive que me reconciliar com a ideia de que aquilo que era perfeitamente natural e legítimo para mim era algo considerado maléfico pela sociedade. Havia algo na minha própria natureza, na essência do meu ser, do qual eu não podia fugir, que era repelente para a sociedade, para minha própria família. Para que eu pudesse ser um homem e um artista eu tinha que abraçar profundamente essa questão. E essa é uma questão romântica. Quando comecei a ler Wordsworth e Keats era como se eles estivessem falando comigo, como se me conhecessem.

O que é “penny dreadful”?
Eram folhetins baratos que circulavam na Inglaterra vitoriana, com histórias sanguinolentas sobre crimes, monstruosidades, coisas sensacionalistas. Eram vendidas em charutarias, estritamente para adultos. A venda era de fato controlada, porque o conteúdo era considerado escandaloso demais para crianças e adolescentes. Foram incrivelmente populares, o que fala ao espírito da época, essa atração pelo monstruoso, pelo horrível, pelo freak, em contraste com o extremo rigor social. As histórias eram publicadas em capítulos, em série , como nossas séries e novelas de hoje. Me pareceu a referência exata para minha série. Algo que provoca, espero, reações fortes, na fronteira entre o medo e o erótico.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Uma conversa na luz, nas trevas de Nic Pizzolatto

Por Ana Maria Bahiana

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Cartaz da segunda temporada de True Detective.

Quando a primeira temporada de True Detective pegou todo mundo de surpresa e se tornou verdadeira obsessão (um comportamento que tem tudo a ver com a série, como veremos a seguir…), eu só conhecia Nic Pizzolatto como o autor de Galveston, um livro que tinha ficado na minha cabeça pelo poder de conjurar um universo inteiro a partir de partículas. A surpresa de achar um autor, no sentido literário do termo, com uma sólida base acadêmica escrevendo para a TV norte-americana só me reforçou a noção de que nem nós, o público, nem a TV, somos mais os mesmos.

Pizzolatto tem um physique de rôle mais para boxeador do que para escritor. Tem fama de espinhoso nas lides do trabalho, mas numa conversa  é uma pessoa extremamente amável, que jamais levanta a voz e fica sinceramente empolgado quando a interlocutora manifesta interesse ou faz comentários pertinentes sobre seu trabalho.

Ele apareceu de mansinho, numa tarde promocional agitada num hotel de luxo em Beverly Hills, enquanto os atores da segunda temporada de True Detective — que  estreia mundialmente dia 21 de junho na HBO — posavam para fotos e câmeras de TV. Foi uma aparição quase miraculosa, eu tinha acabado de mencionar para uma pessoa da HBO que quem eu realmente queria entrevistar não era nenhum ator —  embora Colin Farrell, Vince Vaughn, Taylor Kitsch e especialmente Rachel McAdams estejam sensacionais nesta segunda temporada —, mas a mente criadora de True Detective, e eis que de repente ouço uma voz, vinda de um canto da sala, atrás de mim: “Ei, eu estou aqui!”

Sentamos numa mesa longe do frisson das estrelas para conversar sobre a escuridão do outro lado da luz dourada da Califórnia, cenário deste segundo conto/série, que envolve três policiais e um homem de negócios numa dança de corrupção, crime e redenção.

Embora em Galveston você tenha personagens femininas fortes, a primeira temporada de True Detective foi basicamente uma história de homens. Agora temos, no centro da trama, uma personagem muito forte, a Ani de Rachel McAdams. De onde ela veio?
Eu não sou um escritor tão bom assim a ponto de escrever algo que não pertença ao meu universo imediato, ao que posso imaginar. Eu só sei escrever sobre homens sendo muito, muito maus. Mas ela apareceu inteira e eu comecei a ficar obcecado com ela. Eu simplesmente tinha que escrevê-la.

De onde vêm suas histórias?
Eu acho que vêm de lugares que aparecem nos meus sonhos. É como se eu inspirasse o mundo, e partes do mundo me tocassem e me afetassem, e daí surgem os personagens que vivem nesse mundo. Para mim pessoas e lugares são uma unidade só, indivisível. O mundo nos influencia na mesma medida em que nós o influenciamos — ele é uma projeção de nossas vidas.

E daí veio esta segunda temporada de True Detective, que se passa no seu mundo de agora, a Califórnia?
Sim. Muita coisa vem da minha vida aqui, da minha experiência aqui e da pesquisa que fiz para complementar essa experiência.

Qual foi o objetivo da sua pesquisa?
Eu queria compreender exatamente como funcionam as várias municipalidades independentes e que fazem parte do que podemos chamar de “Grande Los Angeles” ou “Califórnia do Sul”, e sua relação com empresas e negócios. Tivemos recentemente muitos escândalos de corrupção em algumas dessas cidades com concentração industrial e isso me ajudou a completar a visão.

Você lê muito o noir da Califórnia?
Eu não leio tanto quanto gostaria, tanto quanto eu costumava ler, por conta do meu trabalho. Mas sim, sempre fui um fã do noir americano, do noir ensolarado da Califórnia, um lugar de fantasia, de fachada, para onde as pessoas vêm se reinventar. Eu acho a Califórnia uma grande fonte de inspiração. O Oeste é o lugar da eterna reinvenção, onde tudo está sempre se movendo, onde você pode mudar de nome, se tornar uma outra pessoa… Mas como seria esse Oeste esgotado, exausto?

O detetive é um personagem popular universalmente, na literatura, no cinema, na TV. Por quê?
Eu tenho algumas teorias. Para começar, ele é um ser inquisitivo, com livre acesso a todas as faixas sociais. Em termos de estrutura narrativa, a metodologia do detetive é em parte a encarnação da angústia existencial que existe em toda alma humana. Não temos evidências claras e absolutas, mas temos indícios, pistas, traços físicos e experiências que vamos unindo para formar uma narrativa. O detetive, usando apenas fragmentos materiais e elementos da personalidade humana, tem que compor uma narrativa que conte a história do que aconteceu no mundo. Além disso eu acho que, como leitores e espectadores, nós adoramos acompanhar personagens autenticamente obsessivos, porque nós mesmos somos todos obsessivos em alguma escala… espero que em coisas inofensivas… Detetives nos dão um canal por onde escoar muitas de nossas questões e angústias a respeito da vida e de onde estamos no mundo.

Um dos aspectos mais fortes de True Detective é o seu rigor e coerência visuais. Você está envolvido no processo?
Totalmente. Eu escolho os enquadramentos, eu faço a montagem. Trabalho diretamente com T-Bone (Burnett, músico, compositor e diretor musical de True Detective) na trilha musical. Escrevi um manifesto visual de 12 páginas para toda a série antes mesmo que uma única cena fosse filmada. E a abertura também — trabalhei a fundo na abertura das duas temporadas. 

Você se considera um autor de um gênero específico, o policial?
Não creio. Para mim o que escrevo é a manifestação de um ponto de vista, e não das sombras expressionistas do cinema do pós-guerra. É uma extensão das questões existenciais criadas pelas duas guerras mundiais e a resposta do mundo a essas questões, uma resposta ao caos e ao horror que pode brotar a qualquer momento. Ou seja, como o nível macro reflete o nível micro da experiência humana.

Com relação à minha carreira, não tenho ambições de continuar contando apenas histórias de policiais e bandidos. E mesmo esta série, para mim ela é uma série de retratos íntimos de personagens conectados a uma história mais ampla. Estou sempre interessado sobretudo em personagens, sejam eles policiais, carteiros ou cowboys.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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