Ana Maria Bahiana

Da Madison Avenue à beira do Pacífico: a jornada imaginária dos Mad Men pela América do século 20

Por Ana Maria Bahiana

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Cena de Mad Men (AMC).

Posso falar de Mad Men de novo? Por conta daquele maravilhoso episódio final?

Quando uma jornada desse fôlego chega ao final — e a um final que seu criador sempre afirmou estar planejado desde o início — minha vontade é sempre rever/reler tudo, como se faz com um bom livro, procurando arcos e curvas, ritmos expressos e ocultos, temas recorrentes. E é o que estou fazendo agora, revendo/relendo os 92 episódios da obra de Matthew Weiner (e seus colaboradores) à luz do ponto final.

Muita gente aqui nos Estados Unidos achou defeito em “Person to Person”, o episódio final que foi ao ar no domingo, dia 17 (e exibido uma hora antes, para uma seleta plateia de convidados, no Ace Theater de Downtown LA). Não sei bem o que essas pessoas queriam, ou esperavam. Eis o que Matthew Weiner fez: depois de ir dando adeus, progressivamente, à maioria das personagens principais ao longo dos episódios da sétima e última temporada (com um telefonema, um fechar de porta, eles literalmente saíam de cena), ele se preocupou em dar o nó final nos arcos que foram a viga mestra da série. Com a própria agência independente desmantelada, física e emocionalmente, no antepenúltimo episódio, cada personagem essencial foi colocado brevemente em queda livre para fazer as opções necessárias ao seu futuro — aquilo que, definitivamente, extingue o passado.

Restou o, digamos assim, núcleo duro. Revendo as temporadas anteriores, e consultando a lista de 10 filmes que Weiner usou como guias de sua inspiração, duas coisas me pareceram bem claras no universo de Mad Men — que é a compressão imaginária dos Estados Unidos da Guerra Fria —, os homens parecem dominar, mas na verdade andam em círculos, rosnando uns para os outros na defesa de seu território profissional e sexual; são as mulheres que, da sombra de seus papéis subalternos como conquistas/enfeites/administradoras da pax domestica, emergem e marcham adiante, na direção de algo novo, desconhecido, inebriante.

Vi o episódio final pensando nisso. Quatro mulheres fecharam a narrativa em pleno controle de suas vidas. Sally, com quem me identifico demais, assume a liderança de sua família e, como sempre ao longo da série, explica ao pai os comos e porquês de tudo o que ele se recusa a entender. Joan, que sempre foi a dona absoluta de seu corpo e de sua sexualidade na selva dos homens, traça uma linha no chão: sim, quero me divertir; não, não abro mão de minhas ambições e minha independência.

Betty sempre foi uma personagem misteriosa, complicada, fácil de detestar — especialmente quando vista fora do contexto comum para as mulheres dessa geração, ou seja, alguém que se casou assim que se formou no colegial, que nunca teve tempo de crescer, que foi enclausurada na jaula doméstica do ideal de família classe média dos anos 1950 antes de descobrir quem ela realmente era. Se Don Draper e seus colegas de agência eram os “swinging bachelors” (apesar de casados…) do meio do século, a outra face do puritanismo da época, Betty era a “dona de casa exemplar”, a santa dos subúrbios, com o jantar sempre pronto e as crianças limpas e sorridentes quando o marido à casa volta. A jornada de Betty começa com a desilusão profunda, o desencanto desse mito, e prossegue passo a passo, penosamente, até a volta à faculdade, o encontro furtivo com o ex-marido — basicamente para lhe dizer que tudo mudou — e, finalmente, a tomada das rédeas das decisões de vida e morte que sua geração — onde o cigarro tornou câncer e enfisema males de proporções epidêmicas — conheceu tanto.

Peggy, a personagem mais emblemática da nova geração de mulheres que abriu clareiras no mercado de trabalho, causou polêmica por aqui por ter respondido com um entusiástico “sim” à observação de seu diretor de arte/futuro namorado Stan Rizzo de que “nem tudo na vida é trabalho”.  Com todo respeito à opinião contrária, não vejo nada na jornada de Peggy rumo à independência que possa ser ameaçado ou diminuído por um relacionamento saudável e alegre com alguém que a conhece bem e respeita mais ainda. Nenhuma de suas conquistas desaparece diante dessa escolha — sim, em 10 anos é muito provável que ela seja a diretora de criação de uma grande agência, ou dona de sua própria empresa, a Roger Sterling do final do século, com ou sem Stan a seu lado.

Além do mais, o relacionamento da dupla — que foi sugerido pela equipe de roteiristas da série, e, no começo, rejeitado por Weiner — sempre teve todo tom de uma das referências estéticas de Mad Men: as comédias românticas do mestre Billy Wilder, nas quais o pugilato verbal é sempre o aquecimento para um desenlace feliz.

E os rapazes? Espalham-se aos quatro ventos, seguindo as versões possíveis de suas fantasias. E ficamos com o mistério supremo que é Don Draper/Dick Whitman. A dualidade do protagonista sempre foi central para a série — Weiner aponta North by Northwest, de Hitchcock, como uma viga mestra da trama, com seu publicitário (Cary Grant) que toma o nome de outra pessoa. Nos derradeiros episódios a dualidade tornou-se uma fuga, não de adversários externos, como no filme de Hitchcock, mas de demônios interiores.

Numa progressão cada vez mais intensa, os últimos episódios de Mad Men levaram Don/Dick a revisitar metaforicamente sua infância pobre e infeliz, o hobo que lhe deu a ideia de uma vida aventureira, a mulher que provavelmente ele amou de verdade (a poderosa e decidida Rachel Menke), sua passagem nada heroica pelo exército. Em outras palavras, a última temporada, para Don Draper, é a primeira temporada, uma oitava acima.

E finalmente, nada mais resta. Sozinho na fronteira final da América, no alto de uma falésia sobre o Pacífico, não há mais para onde fugir. Primeiro vem a dor do reconhecimento do abismo. Depois, como costuma ser, a paz.

Ao nascer do sol, ao som de um ommmm, Don e Dick se encontram e se fundem. Não há mais dualidade ou conflito na Era de Aquário pessoal do nosso anti-herói. Agora ele sabe quem ele é, e o que sabe fazer: vender absolutamente qualquer coisa a qualquer pessoa. Não há mais inocência.

Isso é que é.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A arte de escrever para TV, segundo Matthew Weiner

Por Ana Maria Bahiana

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Uns anos atrás, nem tanto tempo assim, passei um mês dentro da cabeça de Matthew Weiner. Ou quase. Foram semanas maravilhosas no sítio de uma amiga querida, na serra fluminense, estudando, desconstruindo e remontando Mad Men, a joia suprema da criação de Weiner. Não foi adiante, mas me valeu um momento de intensa e concentrada criatividade, e o privilégio de aprender diretamente na fonte.

Dois anos depois dessa aventura — que hoje mora num grosso caderno enfurnado num depósito, como tantos projetos que não encarnaram — encontrei Matthew Weiner em pessoa, no set de Mad Men, aqui no centro de Los Angeles. Ele riu muito quando disse que eu tinha passado um bom tempo dentro da cabeça dele, e que versões de seus personagens agora assombravam meus sonhos. Conversamos um tanto e, desde então, tive o prazer de entrevistá-lo algumas vezes. Weiner tem fama de difícil, perfeccionista, exigente. Imagino que seja mesmo. Mas nossas conversas sempre foram deliciosas, e sempre terminaram com ele me desejando boa sorte com um projeto que, para mim, acho, jamais sairá do papel. “Sou um otimista nato”, ele me disse da última vez. “Esperei sete anos para Mad Men ser realizado. É impossível manter a sanidade sem ser otimista.”

Nosso último encontro foi no dia da estreia dos derradeiros episódios de Mad Men. Weiner tinha seu smoking pendurado no quarto de hotel que servia de base para o dia — entrevistas e sessões de foto de manhã e de tarde, festa de gala comemorando o final da série à noite, no Dorothy Chandler Pavillion. A conversa, apropriadamente, foi em tom de memória e história — olhando no espelho retrovisor para a arte de escrever para TV.

Este é um adeus definitivo? Você contemplaria a hipótese de voltar à série?

Quem sabe? Hollywood vive de roubar a si mesma e a voltar e voltar e voltar às mesmas coisas, então não me surpreenderia… Pessoalmente, agora, não tenho a menor vontade de revisitar essa história. De nenhum modo. Eu me orgulho do fato de que cada episódio foi construído um a um, representando algo claro dentro de cada temporada, que também foi construída uma a uma. 92 horas de televisão. Sopranos tem 85 horas. É muita coisa. Esgotamos tudo o que queríamos dizer sobre os personagens, sobre um pedaço imenso das vidas deles. Vamos deixá-los na hora certa, para ficarem flutuando na memória e na imaginação do público.

No coração de Mad Men está um anti-herói por excelência: Don Draper, um narcisista, enganador, manipulador, que bebe demais, fuma demais, tem mil casos ao mesmo tempo… Qual foi sua inspiração para compor esse personagem?

Ele é um poço de contradições, e é preciso uma habilidade sobre-humana para ser tudo isso. Ele foi modelado a partir de pessoas que realmente existiram, pessoas importantes do século 20, que influenciaram e ainda influenciam nossas vidas. Nem todos os nossos líderes e inovadores são Steve Jobs, veganos, austeros. Jobs era isso e também tinha uma personalidade singular, um pique, uma determinação imensa. E do outro lado do espectro você vê essa mesma determinação em indivíduos com apetites extraordinários que são, na verdade, as pessoas que decidem e moldam nossas vidas como uma sociedade. Quantas horas essa pessoas dormem? Eu acho que não aguentaria o ritmo de vida deles. Quando escrevo um personagem eu não tenho, eu não posso ter, julgamentos morais. Eu acredito neles como são, por inteiro.

Mad Men é com certeza um marco na história da TV. Será que esta era tão produtiva vai continuar?

A TV é e sempre foi um veículo de escritores. Enquanto houver interesse em narrativa, a TV vai existir. Mas também vão existir o livro, o cinema. Foi o que aprendi estudando história nos últimos 10 anos. Lembra quando disseram que a palavra escrita ia morrer? E hoje escrevemos e lemos mais mensagens do que nunca — é e-mail mas, fora isso, é palavra escrita. No coração da TV estão escritores — desde o princípio você tem Norman Lear, James Brooks, Garry Marshall, Carl Reiner, Sheldon Leonard. O showrunner existe desde sempre na TV, é a pessoa que garante a entrega do material com o nível de qualidade necessário. Os prazos é que eram brutais, o ritmo de produção dos primórdios da TV era absolutamente insano. E isso continua com Steven Bochco e David Milch e David Kelley. O que mudou foi a possibilidade de um modelo financeiro que permitisse uma produção para fatias de mercado em vez de um produto para um mercado genérico. No momento em que a HBO mostrou que era possível fazer bilhões de dólares atendendo um segmento pequeno do público, abriram-se as portas da criatividade para os criadores. Mas é leviano dizer que a grande produção da TV começou agora, recentemente. Quem faz uma lista de 30 grandes séries de TV e não inclui Além da Imaginação não sabe o que está fazendo. O que temos hoje são mais oportunidades para falar com o público de modos diferentes. Quem sabe… Se Charles Dickens aparecesse por aqui hoje, acho que ele ia querer escrever para a TV… e seria sensacional.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Jornada pelo coração da galáxia de Gutemberg: uma fábula

Por Ana Maria Bahiana

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Foto: Francis Bourgouin

Por onde começar?

Talvez com um preâmbulo: três dias esvaziando um galpão nos cafundós de uma zona industrial de Los Angeles, onde eu havia estocado remanescentes de várias vidas passadas. Se objetos podem contar uma história, o que estes diriam? O depósito continha, essencialmente, fotos, LPs de vinil e livros. Muitos, muitos livros.

Meu filho, que cresceu cercado por essas três coisas — mais “o som da (minha) máquina de escrever”, ele me disse, um dia — e tem a sua coleção privada de todas elas, rolou os olhos. “Mãe, o que você vai fazer com tudo isso? Não cabe mais nada na sua casa! Vamos doar tudo!” Mas aí começamos a abrir as caixas… Monteiro Lobato completo. Uma edição de 1914 de Tales from Shakespeare, de Mary e Charles Lamb, encadernada em couro vermelho. Gatos: A Emoção de Lidar, da Dra. Nise da Silveira. Um bom sortimento de Mark Twain e Charles Dickens. Batuque, Samba e Macumba, 1926-1934 , desenhos e textos de Cecília Meirelles. As coleções de contos de fada e fábulas de Perrault que marcaram minha infância. Um tomo lindo, encadernado em couro azul, de uma Histoire de France que foi do meu avô, o Professor Gastão Bahiana, a quem devo meu nome.

Não se falou mais em doações em massa.

Semanas depois, atarefada com uma tradução do português para o inglês de um texto sobre escritores — um escritor, na verdade: Arthur Rimbaud e suas peripécias pela África — vou de manhã cedo, café em punho, dar partida ao meu fiel computador para iniciar os trabalhos do dia. Rapidamente noto que algo está errado. Muito errado. Letras sem nexo atravessam o campo livre onde minha senha de acesso deveria aparecer. Depois de algumas tentativas, o computador aceita minha senha mas… a felicidade não dura muito. Como um robô possuído por uma força maligna, letras e sinais absurdos continuam a pipocar na tela, e meu teclado simplesmente não responde aos meus comandos.

Em pânico, temendo que a Coréia do Norte tenha me posto na mira, desligo tudo e começo a pesquisar a qual loja da Apple eu poderia levar a tralha toda para ser devidamente exorcizada. Apenas uma tem horário livre no Genius Bar — a mais longe de todas, lá no extremo noroeste do vastíssimo Vale de São Fernando, na fronteira da quebrada com o município de Ventura e as montanhas onde vivem pumas e ursos pretos e vários episódios da série Jornada nas estrelas foram filmados.

Que remédio? Lá vou eu.

É um longo périplo por um emaranhado de freeways, ruas e avenidas pontuadas por coisas como “Aulas de tango para idosos!”, “Culinária salvadorenha e filipina!”, “Boliche cósmico!”. O matraquear do rádio me faz uma companhia indiferente… até que reconheço uma voz: a de Naomi Baron, linguista e diretora do Centro de Estudos da Leitura e Aprendizado da American University.

Se eu não tivesse caído no caldo grosso do jornalismo, linguística teria sido uma boa opção — sempre tive e ainda tenho uma tremenda curiosidade sobre o processo de aquisição da linguagem, e o que o tempo, a distância, a necessidade e a cultura fazem com o bordado dos sons e signos. Para quem está indo tentar resolver o drama de uma tradução abortada por um computador com verborragia espontânea, a calma voz da Dra. Baron é quase um acalanto.

E ela está falando de livros. Do seu livro, o recém-lançado Words Onscreen: The Fate of Reading in a Digital World, e dos livros em geral, em papel ou não. As conclusões, que ela apurou de vários estudos realizados nos últimos anos em diversos países, são consistentes e fascinantes: os livros de papel, que deveriam ter morrido com a explosão digital, estão mais vivos do que nunca. A razão, Naomi diz, que todas pesquisas concluem é simples: para a aquisição rápida de informação, preferimos as telas de computadores, tablets, smartphones; para a leitura profunda, aquela que, nas palavras dela, “mudam vidas, que é o que os bons livros devem fazer”, optamos pelos livros.

Não pensem que essas são conclusões extraídas de pesquisas com gente de meia idade, da geração anterior à era digital. Muito pelo contrário: a pesquisa mais recente e mais vasta, que Naomi usou como coração da sua obra, envolveu adolescentes e jovens entre 17 e 26 anos. E não deixou a menor dúvida. O livro, segundo eles, oferece imersão, experiência individual, “sem interrupções”, diz um dos pesquisados, “sem barulhinhos na tela”, “obrigando a pensar”.

A entrevistadora pergunta a Naomi se isso não vai mudar no futuro, com a permanência das obras digitais e gerações com cérebros diferenciados, programados para as tarefas múltiplas e simultâneas. Ela diz que não. Mudanças substanciais na “fiação” do cérebro humano demoram milênios, acrescenta. Estamos operando com a mesma fiação dos clássicos gregos — compreendemos a narrativa e a linguagem do mesmo modo, e é essa experiência, íntima e pessoal, que o livro traz.

Chego em casa com a tranquilidade da missão cumprida, e mais. Na minha cabeceira uma cópia usada, abusada, amassada e anotada de O pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, em inglês, resgatada da noite sem fim do depósito, me aguarda.

(O computador? O problema era o teclado, a moça do Genius Bar me diz. Algum líquido caiu nele? Não, eu respondo de imediato mas… tenho duas gatas. Ah, ela retruca. Então tudo pode ter acontecido…)

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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O prêmio, essa força estranha

Por Ana Maria Bahiana

Oscars

Imprensada entre a discussão sobre o resultado dos desfiles das escolas de samba no Rio de Janeiro (vergonha) e a panela de pressão dos Oscars que se aproximam, no domingo (curiosidade amena), eu fico pensando que prêmio é uma coisa mesmo muito esquisita. Desde que saí da escola eu não ganhei nenhum. Já estive em alguns painéis e júris, entre festivais da canção (quando eles existiam) e de cinema. Nunca é uma situação confortável para mim, e sempre acabo aprendendo mais sobre meus colegas de escolha do que sobre as peças sendo escolhidas.

Aqui onde vivo, no olho do furacão da indústria de entretenimento, prêmios são mais que um ritual: são uma estação do ano. Assim: de setembro a novembro fala-se em quem pode ser que ganhe um prêmio; de novembro a fevereiro fala-se de quem tem mais chances de ganhar um prêmio e/ou congratula-se quem ganhou um prêmio e/ou gasta-se tempo e espaço para explicar/protestar quem não ganhou um prêmio.

De março a maio nada acontece. Em maio tem Cannes. Entre junho e agosto vende-se muita pipoca e muito refrigerante enquanto a garotada foge do calor no ar condicionado dos cinemas, na companhia de super-heróis, alienígenas e tartarugas ninja.

E aí o ciclo recomeça.

Nem sempre foi assim. O Oscar, a quem se deve a epidemia de estatuetas que se seguiu, começou em maio de 1929 como um jantar altamente etílico nos salões do Roosevelt Hotel em Hollywood (a um quarteirão de onde as estatuetas são distribuídas atualmente). Durante os comes e bebes rápido e rasteiro, distribuíam-se algumas láureas. A coisa era tão informal que os resultados eram anunciados duas semanas antes. Tudo muito simples, já que os Oscars eram escolhidos por 36 pessoas, os sócios-fundadores da Academia, e os convidados da noitada não passavam de 270.

Como esse convescote entre amigos transformou-se numa indústria dentro da indústria, dando origem a uma miríade de outros prêmios (um dos quais sou culpada de escolher) é uma longa história que não caberia, fisicamente, aqui. Simplificando: tem a ver com televisão (que entrou na história em 1953, quando os Oscars foram transmitidos pela primeira vez, apenas para os Estados Unidos); com a capacidade de renda através da televisão; e com a necessidade de encontrar novas ferramentas de marketing num mercado consumidor cada vez maior, mais complicado e mais internacional.

Cobri a cerimônia do Oscar mais de 20 vezes (perdi a conta) e a do Globo de Ouro, idem (trabalhei na festa, como parte da equipe de produção, quatro vezes). Sempre me divirto, de um modo ou de outro, e provavelmente não pelos motivos que a maioria das pessoas se diverte. É preciso certo distanciamento, o distanciamento do fã, para ter a completa experiência do glamour cintilante dessas festas. Isso eu já perdi faz tempo — o que me interessa e me diverte nessa orgia de premiações é acompanhar as marés interiores desse monstro, suas ambições, frustrações, ressentimentos, culpas, manias.

Sempre digo que esta indústria, que toca diretamente as vidas de milhões de pessoas pelo mundo afora, não é uma máquina: é um ser vivo, altamente adaptável, um primor de evolução que Darwin estudaria com afã. Ao escolher e entregar suas láureas anuais, essa criatura brevemente oferece suas entranhas à apreciação de quem sabe para onde olhar. Não importa quem ganhe, isso é sempre fascinante. (Uma exceção: em 1999, quando Roberto Benigni levou o Oscar que deveria ter ido para Central do Brasil, eu me retirei do recinto — o curral da imprensa — e fui afogar as mágoas com os colegas australianos que choravam a perda de Cate Blanchett para o vestido rosa-chiclete de Gwyneth Paltrow.)

Ainda torço: torço às vezes por amigos, ou por amigos de amigos, ou por coisas tão lindas, ou tão inesperadas, que, por seu triunfo, poderiam alimentar mudanças e aberturas. Torço sobretudo pelos forasteiros e pelos estranhos. Torci muito por Central do Brasil, Cidade de Deus e O tigre e o dragão, por Fernanda Montenegro e Marion Cotillard e Lupita Nyong’o e Javier Bardem, além do que fizeram nas telas, pelo simples fato de que suas presenças talvez possam ser agentes de transformação. O monstro, sendo vivo, muda. Como Dustin Hoffman diz no final de Pequeno grande homem, às vezes a magia funciona, às vezes não.

Prêmios são mesmo coisas esquisitas. Não creio ser possível apontar uma única entidade como melhor que todas as outras e, assim, premiá-la. É uma questão ontológica — há que se definir “melhor” e “todas as outras”. Aí complica.

Mas todos os anos, querendo ou não, entendendo ou não, lá vem ela de novo: a estação dos prêmios. Eis o melhor que consigo fazer, à guisa de definição do que realmente é um prêmio: é simplesmente a opinião de um grupo de pessoas num determinado momento. Mas como vende sabonete!

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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O oceano e o dedal: meu problema com as biografias no cinema

Por Ana Maria Bahiana

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Cena de Jimi: All Is By My Side.

Nesta época do ano, aqui como aí (e pelo mundo afora), os multiplexes se enchem de um tipo muito específico de filme. Aqui nas internas ele é conhecido como “Oscar bait”: isca de Oscar. É aquele filme muito bem feito (mas jamais ousado ou irreverente), com excelente qualidade de produção e bons atores, em geral em papéis opostos à sua imagem pública (um ator conhecido pela comédia num papel dramático, uma atriz muito bonita vivendo uma personagem despojada ou feia) e/ou com sérios problemas físicos.

Tudo isso é tão previsível que já deixou de me incomodar. Como votante de um desses prêmios grandões, eu procuro estar absolutamente consciente das “iscas”. Para compensar, procuro os filmes que são o oposto dessa fórmula, numa tentativa de contrabalançar as escolhas de quem morde o anzol (às vezes consigo…). E às vezes até voto numa “isca”, não por seu sabor formulaico, mas porque ali dentro tem, de verdade, um grande filme.

O meu grande problema não é nem essa repetição de elementos manjados: é o fato de que grande parte dessas “iscas” são biografias.

Lembram aquela conversa toda, aqui mesmo, sobre a extrema dificuldade de adaptar um livro para o cinema, pelo puro fato de que é como colocar um oceano num dedal? Com biografias é ainda mais complicado.

Vidas são longas narrativas, complexas, repletas de nuances, atalhos e contradições, e os 90-120 minutos de um filme exigem clareza, simplicidade, estrutura. Mesmo quando leio uma boa biografia, sempre me vejo com mais perguntas do que respostas, eternamente me perguntando se os fatos são o suficiente para compreender o mistério de uma trajetória pelo planeta Terra. E isso é num livro, com o tempo e a pausa que a leitura proporciona. Como, então, empacotar esse mistério no curto tempo de tela?

Por isso tantas cinebios andam em círculos, reduzem, compactam e, em última análise, distorcem narrativas ricas, complicadas. E lá vem os cinco personagens em um só. E lá vem as frases de efeito. E as montagens… ah, não vou nem falar das montagens…

Eu compreendo que tudo isso é essencial para a compressão da narrativa de uma vida num filme. Eu é que sempre espero uma solução mais elegante.

Existem, por exemplo, as biografias imaginárias. Todd Haynes tornou-se quase um especialista nelas, com Velvet Goldmine (David Bowie + Lou Reed nos anos 1970, à clef) e I’m Not There (Bob Dylan por qualquer outro nome ainda é Bob Dylan). Pode-se argumentar que a Marie Antoinette de Sofia Coppola pode estar nesta lista — a trágica rainha da França como uma adolescente entediada do século 21. E o delicioso Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson é quase a biografia imaginária de um momento da vida de Stefan Zweig.

Aliás, escolher um momento numa vida é uma das melhores soluções para o enigma da biografia na tela. Em vez da compressão, o instante definidor, a escolha que ilumina e define uma trajetória.

A safra 2014-2015 tem alguns bons exemplares desse tipo de opção. O minúsculo Jimi: All Is By My Side, estreia na direção de John Ridley, roteirista premiado de 12 anos de escravidão (que por sua vez é uma excelente adaptação de uma obra literária centrada num momento definidor) consegue o milagre de flagrar o complicadíssimo Jimi Hendrix no momento mais misterioso de sua vida —  a transição da obscuridade para a fama, e daí para o mito (e faz tudo isso sem colocar uma única música de Hendrix na trilha, coisa impossível para quem estava trabalhando com um orçamento diminuto).

Outro bom exemplo é Selma, de Ava DuVernay: como o Lincoln de Steven Spielberg , que não tentou comprimir a vasta vida do décimo sexto presidente dos Estados Unidos, e sim expandir o momento em que ele se definiu na batalha pelo fim tanto da escravidão quanto da guerra civil norte-americana. Selma foca no ano de 1965 e em Martin Luther King como um jovem pastor e líder comunitário e sua decisão de enfrentar as estruturas racistas do sul dos Estados Unidos com um simples gesto: caminhar da cidade de Selma até a cidade de Montgomery, no coração do estado mais segregacionista da união, o Alabama, tendo como ponto final o escritório de registro eleitoral, que se recusava a cadastrar eleitores negros. É uma provocação, e ele sabe disso: a provocação que, ele pensa, forçará a mão do presidente Lyndon Johnson na direção de um conjunto de medidas que tornará ilegal qualquer ato de discriminação racial.

É um pedaço de história e um pedaço de vida, mas, tratados com sensibilidade e inteligência, iluminam tantos cantos diferentes, aquelas esquinas onde o pessoal e o histórico se cruzam. Muito, muito melhor que tentar comprimir o oceano de uma vida no dedal de um filme.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do BrasilFolha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.