André Conti

No esquenta do Ulysses

Por André Conti

Por muitos anos tornou-se uma convenção dizer que Ulysses é um livro chato. Seja pela dificuldade ou pelo tamanho, seja porque Finnegans Wake, o romance seguinte de Joyce, sedimentou de vez a fama do autor de inacessível, cifrado e esotérico. Como se ler Ulysses fosse pedante ou sinal de pretensão e o diabo.

Às vezes a reputação que antecede uma obra pode ser muito prejudicial. Toda a história da publicação do Ulysses e a própria personalidade espalhafatosa do autor colaboraram para isso. O livro passou anos proibido por acusações de indecência, e teve defensores (Ezra Pound, T.S. Eliot) e detratores (Virginia Woolf, Gertrude Stein) de peso. Passados quase cem anos de seu lançamento, ele ainda carrega o fardo dessas polêmicas.

O tipo de fama a qual Joyce foi alçado depois do Ulysses também era bastante incomum para a época. A discussão extrapolou o campo da crítica: gostar ou não do livro era quase como se posicionar politicamente nas eternas questões do nacionalismo irlandês. O autor, que ademais era um pândego, se aproveitava da situação. A um amigo, declarou que os críticos passariam décadas sem decifrar Ulysses. A outro disse que, depois do romance, sentia que podia fazer “o que quisesse” com a língua inglesa.

No caso do Joyce, é praticamente impossível dissociar vida e obra do autor. Quando foi convidado pelo poeta W.B. Yeats para um café — a maior distinção literária da época —, aguentou alguns minutos do encontro até declarar, joyceanamente, “O senhor está velho demais para ser influenciado por mim”. Há dezenas de anedotas como essa, que lançam luz no tipo de humor que é parte integral do livro.

Porque a verdade é essa: Ulysses é antes de tudo um livro engraçado, como seu autor foi em vida. A mulher de Joyce, Nora Barnacle, lembra de ouvir o marido rindo sozinho durante a escrita do romance, o que é um indicativo poderoso das intenções do autor. Ainda voltarei ao processo de edição do livro, já que ficarei nisso pelos próximos meses, mas a intenção agora era dizer isso. Que não há nada de pedante em ler e gostar do Ulysses. Que a dificuldade (e ela existe, claro) é amplamente recompensada, de um modo que poucas obras literárias tiveram ambição (e sucesso) em alcançar.

O crítico Declan Kiberd disse algo muito verdadeiro sobre o livro: Ulysses te dá de volta exatamente o esforço que você deposita nele. É possível lê-lo como um romance, cruamente, e tirar algo disso. É possível, numa segunda camada, lê-lo ao lado da Odisseia, traçando todos os paralelismos entre as duas obras. É possível ainda embrenhar-se na realidade social irlandesa do início do século XX e tirar ainda outra leitura. É possível ler São Tomás de Aquino e Aristóteles e se perder menos no terceiro capítulo. Cada degrau desses amplia os significados do livro, expande suas possibilidades narrativas, conduz o leitor ao (prazeroso) labirinto ficcional que é o Ulysses.

A operação que torna isso possível é relativamente simples. Seja quão profunda você decidir que será sua leitura, Ulysses funciona porque é um livro sobre nós. Ao recriar de maneira meticulosa um dia específico de uma cidade específica na vida de um homem específico, Joyce bateu o mais preciso retrato que conheço de quem somos enquanto espécie. No 16 de junho de 1904 em que se passa a ação do livro, tudo que é possível existir numa vida acontece: pessoas nascem e morrem, se apaixonam, são traídas, cometem pequenos e grandes delitos, levam suas vidas públicas e voltam-se à mais particular vida íntima.

O sr. Bloom não é um homem comum que representa a todos nós. Ele é, única e exclusivamente, o sr. Bloom. Mas o acesso que Joyce nos permite a ele — por meio de uma série de manobras estilísticas — universaliza a experiência humana e nos insere, com toda nossa mesquinhez, com nossas manias abjetas, nossos grandes (e secretos) fracassos e nossas vitórias microscópicas, no centro do que é estar vivo e apreender a realidade a nossa volta. Tudo isso, como eu disse, num humor desconcertante e muitas vezes pueril (e dá-lhe piada com peido, dedo no nariz, micção pública e afins).

Como em qualquer livro, para ler Ulysses basta abri-lo na primeira página e seguir até a última. Esqueça os paralelismos com a Odisseia. Esqueça que o conjunto dos dezoito episódios forma um corpo humano. Esqueça as dezenas de variações de estilo, o exibicionismo linguístico, as referências cifradas a acontecimentos obscuros e esquecidos. Ulysses não foi escrito para revolucionar o romance moderno. Ele revolucionou o romance moderno porque coloca todas essas questões a serviço de algo maior: falar, da maneira mais cândida e terna e divertida possível, de quem você é. O resto fica para uma segunda (e terceira) leitura.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.

Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

A outra volta da volta do parafuso

Por André Conti

Acho que não tem coisa pior do que saber que você vai perder um trocadilho ou uma informação quando se edita um livro estrangeiro. O jogo de palavras está lá, você reconhece o significado, mas não há maneira de dizer aquilo em português. E aí toca explicar tudo em nota de rodapé: você perde a graça mas não perde a piada. Para quem já contou uma piada e teve que explicá-la na sequência, a sensação é a mesma.

Pior é quando não se pode recorrer ao rodapé. Estou fechando agora o Asterios Polyp, quadrinho brilhante do David Mazzucchelli que publicaremos esse ano. É um livro com uma estrutura muito rígida, cheio de paralelismos ocultos, detalhes reveladores, um troço realmente extraordinário. O Mazzucchelli, que é um sujeito detalhista e obsessivo, passou anos trabalhando no Asterios. E nós demoramos mais de um ano para conseguir contratar o livro e convencê-lo de que faríamos uma edição de qualidade. Ele só topou quando viu o Jimmy Corrigan.

De modo que foi com certa dose de pânico que enviamos o PDF para aprovação do autor. Como o livro será impresso no exterior para garantir a fidelidade das cores, os prazos não podem ser prolongados. Se ele detestasse, só poderia fazer o que faço melhor: chorar.

Foi um dos e-mails de aprovação mais bacanas que já recebi. Ele gostou do resultado, felizmente, mas fez umas tantas observações. Palavras que precisam se repetir em determinados momentos, uma gravata do Asterios que saiu sem cor, uma cena em que a fonte precisa ir gradualmente do itálico para o redondo. O grau de atenção confirmou o que eu achava: Asterios Polyp é um trabalho sério, pensado em todos os detalhes, e não uma obra do acaso. Mesmo que o leitor não perceba o artifício, ele está lá.

O que eu não imaginava é que ele fosse dar falta de uns trocadilhos. Há três momentos intraduzíveis no livro, jogos de palavra e sentido que simplesmente não acontecem no português. Dois não são graves e passam despercebidos. Mas um deles penalizou demais a mim e ao tradutor, o Daniel Pellizzari, e acabou ficando em inglês. Quando o livro sair, vou escrever de novo sobre o assunto e entro em detalhes. Basta saber que o Mazzucchelli foi compreensivo. O que não diminui em nada a nossa dor.

No título é pior ainda. Eu não estava aqui quando publicamos o Mystic RiverSobre meninos e lobos, mas posso imaginar as discussões infinitas. O Gone, baby, gone ficou em inglês mesmo, mas o filme se chamou Medo da verdade. O próximo Javier Marías se chama Los enamoramientos. Boa sorte ao editor.

Esses dias peguei duas situações curiosas na Penguin. Vamos lançar agora A outra volta do parafuso, clássico de terror do Henry James. O livro se chama The turn of the screw, mas em português pode ficar ambíguo: a volta do parafuso? Para onde ele foi? Aqui, o livro sempre se chamou A outra volta do parafuso, mas queríamos resgatar o título original. Preparamos o material promocional, enviamos aos livreiros, imprimimos o folheto de divulgação.

Eis que minha chefe aparece com um livro de diálogos entre o Ernesto Sabato e o Borges, onde eles falam sobre Henry James. No meio da conversa, o Borges elogia a solução espanhola para o título: A outra volta do parafuso. Quem somos nós para discordar do homem? Voltei atrás, rabo entre as pernas, e o livro ficou com o nome aprovado pelo Borges. Mas o material de divulgação já tinha sido enviado. Minhas desculpas ao bom povo que vai ter de recadastrar o título nos sistemas das livrarias.

A outra foi com o Oscar Wilde. Vamos fazer um volume com três peças, entre elas a famosa The Importance of Being Earnest. O título em si é um trocadilho: Earnest é tanto o nome de um personagem da trama quanto um adjetivo, que significa alguém “sério, ativo, diligente, atento, cuidadoso, sincero, convicto etc”. Usamos uma solução mais ou menos consagrada no título: A importância de ser prudente. Mas, olhando a capa final, bateu a dúvida? Esse “prudente” entra como adjetivo (e, portanto, em minúsculas) ou nome?

O padrão inglês e americano deixa o título inteiro em maiúsculas, o que preserva a ambiguidade. Pensamos, pensamos, discutimos, consultamos: nada. E, como bem notou meu chefe, a solução estava na nossa cara. A peça vai se chamar A Importância de Ser Prudente, em maiúsculas e minúsculas, fora dos padrões da editora. Dói demais, eu sei. O que a gente não faz pelos leitores?

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

Liberdade à propinquidade

Por André Conti

A convivência com tradutores é muito importante para o dia a dia na editora. Conhecer os gostos, estilos, manias e defeitos de cada colaborador é a melhor maneira de saber com que tipo de livro ele vai se dar bem. Há tradutores com mão para livros teóricos, biografias, ensaios. Outros que se dão bem exclusivamente com ficção. E mesmo em cada gênero, há subdivisões: se for uma ficção labiríntica e enciclopédica, vai para um tradutor. Se for mais lírica e poética, outro. Se for urbana, carregada em gírias, de diálogos ágeis, um terceiro. Isso sem falar em poesia, divulgação científica etc.

Há tradutores especializados — que trabalham com apenas um autor, por exemplo —, e outros que transitam por diversos idiomas e gêneros. Ninguém vem com bula, infelizmente, e descobrir o estilo de cada tradutor é algo que leva tempo. E por mais que troquemos e-mails, telefonemas e nos encontremos, é só na leitura de uma tradução que essas características se tornam mais evidentes.

De modo que, quando passei o Liberdade, premiado romance de Jonathan Franzen, ao Sergio Flaksman, sabia que a tradução ia ficar boa. Trabalho com o Sergio há quase seis anos — todo meu tempo de editora —, e sei o quanto ele se dedica a cada livro. E o Sergio já encarou o As correções, romance anterior do Franzen, e conhece os cacoetes do autor, os parágrafos intermináveis, os trocadilhos intraduzíveis.

Mas eu já tinha lido o Liberdade no ano passado, e sabia que ia dar um trabalho imenso. A cada parágrafo, dezenas de orações coordenadas sem conectivos, caminhões de pronomes e advérbios, um fuzuê de nomes científicos de aves e plantas. Fora a trama, que avança e volta no tempo, muda de tom, o diabo. E o tradutor, além de se preocupar com tudo isso, ainda precisa traduzir o livro em si: acertar a voz do narrador, a cadência das frases, o jeito de falar de cada personagem, o senso de humor, o drama. E descobrir como diabos se chama um cerulean warbler em português. Pra mim, é tudo “passarinho”.

Quando recebi a primeira parte da tradução, alívio. O Sergio acertou a mão no livro, estava tudo lá. As várias armadilhas que me deixaram sofrendo por antecipação haviam sido resolvidas. Tanto que, nessa segunda leitura, passei a gostar ainda mais do livro, me envolvi com os personagens, enchi o saco de deus e o mundo falando da Connie Monaghan, minha coadjuvante favorita. O texto tinha passado pela preparadora, então li a tradução acompanhada das sugestões e dúvidas dela. É uma negociação tripla: a voz do autor, as opções do tradutor, a leitura da preparadora. Experimente acordar indeciso.

As pessoas costumam associar edição à correção de erros gramaticais e ortográficos, mas a verdade é que os tradutores derrapam muito pouco na gramática e na ortografia. Algumas coisas de sentido acabam passando — ainda mais num livro de seiscentas páginas —, mas o grosso do trabalho é adequar o texto ao original. Uma tentativa (eternamente frustrada) de recriar em português a experiência que o leitor do original teve. É necessário, portanto, adaptar o vocabulário e a sintaxe: as palavras precisam pertencer ao mesmo universo semântico, ou seja, a frequência de uso na língua e o significado precisam ser os mais próximos possíveis, e o registro do narrador tem de ser o mesmo.

É aí que as pessoas discordam, claro. São envolvimentos diferentes com o livro. O tradutor passa meses debruçado, faz pesquisas, consulta colegas e amigos, recorre centenas de vezes ao dicionário. O preparador tem três, quatro semanas para cotejar o original, ver se o tradutor não pulou alguma linha, checar nomes de pessoas, lugares, manter a coerência interna do texto, acertar pontuação, levantar dúvidas, descobrir o nome do cerulean warbler (é mariquita-azul). E o editor tem duas semanas para ler as duas versões (integradas num mesmo documento de Word), bater com o original, resolver e levantar dúvidas, importunar um monte de gente.

Mas a diferença de tempo não se traduz numa escala de propriedade sobre o texto (partindo do pressuposto que o texto é do autor). E todos esses leitores, e mais os dois revisores, apontam questões pertinentes, bolam soluções miraculosas, fazem essa e aquela frase funcionar direitinho. Mas também podem errar, se confundir e perder referências, portanto essas leituras precisam se complementar de alguma forma, atendendo ao original. É um processo quase sempre pacífico, mas aqui e ali as visões sobre o texto simplesmente não batem. Quantas amizades não foram ceifadas pelo mais antigo (e pertinente) dos argumentos: “Esse personagem nunca falaria assim.”

Terminei a leitura mas senti que tinha deixado passar alguma coisa, então pedi à Maria Emilia, diretora editorial e fã do Correções, que lesse também. Enquanto isso, o Sergio relia o texto com as minhas anotações e as da Lenny, a preparadora. No fim, incorporei as sugestões do Sergio e da Maria, repassei as emendas, e esse é o texto final. Gostei demais do resultado: todo mundo se envolveu e foi atrás de soluções que dessem conta de um original denso — a história se passa ao longo de quarenta anos — e intricado, já que as próprias vozes dos personagens vão sofrendo mudanças ao longo da narrativa.

Nesse meio tempo, continuei conversando com o Sergio, que além de colaborador de longa data da editora, é também meu amigo. Já fizemos altas caminhadas pelo Rio de Janeiro falando de ficção científica e edição de dicionários (ele foi da equipe original do Houaiss), mas também já tivemos vários arranca-rabos de trabalho. O Sergio é muito zeloso de suas traduções, um pouco territorial às vezes, e briga até o fim quando acha que está certo. Numa das trocas de e-mail, ele desconfiou que a Maria ia mudar uma palavra em específico, a temida “propinquidade”, que significa “proximidade”, e que gerou uma longa e aguerrida discussão por e-mail.

O argumento do Flaksman era que “propinquity” era tão obscura e pouco utilizada em inglês quanto “propinquidade” é em português. Isso é um problema comum: o inglês tem mais vocábulos, o que o torna uma língua bastante específica, e somos obrigados a recorrer a termos mais abrangentes. Nesse caso, não havia consenso. Caí na besteira de apontar que, no Google, havia apenas oito mil ocorrências para “propinquidade”, enquanto “propinquity” batia nos duzentos mil. Claro que não se decide uma coisa dessas pelo Google, estava só tentando apontar um dado, enfim, mas claramente escolhi a hora errada e sobrou pra mim também.

Nem sempre é fácil encarar tudo profissionalmente, então ainda trocamos uns tantos e-mails de paz — o meu era bem cafona —, sobretudo porque estávamos apenas fazendo nosso trabalho. No volume final, nada disso estará aparente. Para quem lê, espero, prevaleceu o Franzen, e o livro tem engenho o suficiente para obscurecer esse trabalho todo. Outros colegas da editora já estão lendo e gostando, e todos os comentários foram sobre os personagens (“Pobre Walter Berglund!”) e sobre a história — ninguém se importa com nosso sofrimento. E quem chegar mais ou menos na metade do livro vai se deparar com a inexorável propinquidade, claro. Às vezes você ganha, às vezes você perde.

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Editando seu autor favorito

Por André Conti

Para quem gosta de livros, há algumas vantagens inegáveis de se trabalhar numa editora: acesso a manuscritos inéditos, notícias direto do front, a possibilidade de dar pitaco no texto dos outros. Mas, como em qualquer trabalho, isso rapidamente se torna parte do dia a dia, e não estou dizendo que você fica insensível nem nada, apenas cria uma relação diferente com tudo que diz respeito ao livro.

Há uns três anos, quando eu acreditava que essa couraça estava mais que consolidada, a Ana Paula, nossa diretora de direitos estrangeiros, deixou um singelo presente em minha mesa. O tijolo, de mil e tantas páginas, era todo branco, com um detalhe em marrom na capa, e quando vi de longe bateu um temor. Fui até a mesa pensando que não queria editar o Corão, a Bíblia, nada disso, já tenho problemas demais. Todavia, era de fato um presente e tanto, a edição antecipada de Contra o dia, do Thomas Pynchon, que seria lançada no mês seguinte nos Estados Unidos.

O livro tinha sido anunciado pouco tempo antes, num release escrito pelo próprio Pynchon, onde ele prometia um elenco de “anarquistas, balonistas, apostadores, magnatas corporativos, entusiastas das drogas, inocentes e decadentes, matemáticos, cientistas loucos, xamãs, físicos, ilusionistas, espiões, detetives, aventureiras e assassinos profissionais. Com participações especiais de Nikola Tesla, Bela Lugosi e Groucho Marx”.

Como tudo que diz respeito ao autor, o release veio coberto de mistério — primeiro subiu num site, depois foi tirado do ar, voltou, e só então confirmaram que havia sido escrito pelo próprio Pynchon. Terminava assim: “Enquanto isso, o autor faz o de sempre. Personagens param para cantar canções, em sua maioria estúpidas. Práticas sexuais estranhas acontecem. Idiomas obscuros são falados, nem sempre idiomaticamente. Ocorrências contrárias aos fatos ocorrem. Se não é o mundo, é o que o mundo seria depois de uns ajustes. Segundo algumas pessoas, esse é um dos maiores propósitos da ficção. Que o leitor decida, que o leitor tenha cuidado”. Recebi o release pelo mailing PYNCHON-L e entrei num processo imediato de autocombustão.

Cabe dizer que os fãs do homem são bastante organizados: há o mailing (que existe desde 1993), e também diversas enciclopédias e glossários, com listas de personagens, temas, referências, tudo. E tem o sujeito que fez uma ilustração para cada página do Arco-íris da gravidade (são quase oitocentas). Mais: os sete romances foram anotados à exaustão por uma rede de comentadores, e há índices, listas de discussão, não acaba nunca. Como os livros são coalhados de alusões históricas, fatos obscuros, conhecimentos arcanos, fórmulas matemáticas, princípios físicos e (inúmeras) canções obscenas, é preciso um exército de gente para esmiuçar as citações e referências. E a cada lançamento essa comunidade se mobiliza, troca notícias, mapeia as livrarias que vão abrir as vendas à meia-noite. Harry Potter para assinantes da Barsa.

O último livro dele, Mason & Dixon, tinha sido publicado onze anos antes, em 1997. Mas eu só fui saber da existência do Pynchon no ano seguinte, quando saiu a tradução do Paulo Henriques Britto para o Arco-íris da gravidade, romance de 1973. Li por conta de uma resenha, meio no escuro, e fiquei doente. O livro era tudo que o resenhista dizia: engraçado, enciclopédico, necessariamente longo, intricado (são mais de quatrocentos personagens, e sabe-se deus quantas vozes narrativas), profundamente estranho e incomum.

Mas havia algo a mais ali, para além do mar de referências e da bossa formal. O livro era acima de tudo comovente, e o humor e o absurdo e as conspirações e as músicas tolas serviam, no fim, para falar de Temas Grandes, de coisas comuns a todos nós — morte, vida e o que está no meio—, e de certas mudanças nas pessoas e no mundo que raramente percebemos, e que quase nunca os escritores conseguem registrar em prosa. Era o livro mais ambicioso que eu já tinha lido, no melhor dos sentidos, o mais bonito e, com certeza, o mais engraçado.

De modo que, entre o Mason & Dixon e o Contra o dia, eu já estava convertido. Tinha assinado o mailing, lido as anotações da comunidade e acossado estranhos na fila do quilo, com teorias sobre a procedência do frapê de banana. Ler o Contra o dia um mês antes não significava, portanto, vantagem sobre os outros fãs, apenas diminuía um bom tempo de espera e ajudava com as minhas questões de ansiedade. Que baita presente foi aquele. Resolvi guardar para quando chegasse em casa (era sexta), e dei só uma espiada na epígrafe: “É sempre noite, do contrário a gente não precisaria de luz — Thelonious Monk”. Foi o momento de um telefonema bastante emocionado e, em retrospecto, constrangedor, para a Ana Paula.

Mas foi só depois de ler e gostar demais do Contra o dia que caiu a ficha: eu ia editar o bicho. Mesmo sabendo que contaria com uma vasta rede de colaboradores (o meu alô ao bom povo da Pynchon Wiki), e com a tradução do Paulo Henriques, confesso que deu medinho. Não que você não vá caprichar nos seus outros livros, longe disso. Mas estávamos falando do meu autor favorito, e eu queria fazer direito. Pior que insisti para editar, numa clara alusão ao quarto provérbio dos paranoicos, do próprio Pynchon: “Paranoicos não são paranoicos porque são paranoicos, mas porque sempre se colocam, os imbecis, deliberadamente em situações paranoicas”.

Adiei a ansiedade durante a tradução. Depois, apareceu o Vício inerente, que acabou sendo lançado antes. Embora seja um livro excelente, não tinha o escopo do Contra o dia, e a edição correu com incidência mínima de lágrimas. Com a tradução do Paulo entregue, ainda foi-se um bom tempo nas mãos do preparador de texto, e mais o meu trabalho em outros livros que vinham antes na programação. Mas o Contra o dia está marcado para o segundo semestre, então precisei começar agora a leitura.

Entre ontem e hoje, passei pelos dois primeiros capítulos e lembrei exatamente por que gosto tanto do Pynchon. As tramas foram voltando e o fio condutor — uma saga familiar que, na falta de uma palavra melhor, é um bocado contundente — já começou a se insinuar. Como é um clássico moderno, ou pelo menos eu acho, não fico com muita vergonha de já roubar assim na segunda coluna. E vou passar um tempo nisso, então é provável que volte ao assunto. Não é sempre que a gente edita o livro favorito do autor predileto. Bivér.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.

Editando clássicos

Por André Conti

A Penguin foi uma novidade muito grande para a editora, e desde o início aproveitamos para testar uma porção de ideias na divulgação, no marketing, em vendas. Todos os departamentos foram incitados a bolar novos modos de trabalho, novos processos, enfim, estou evitando usar a palavra laboratório, mas é bem por aí.

Uma vez por semana, pessoas de todos esses departamentos se reúnem para conversar sobre a Penguin, traçar planos e ações. Cada um chega com sua pauta de propostas, sempre com um sentimento geral de que para trabalhar com clássicos é preciso apostar e arriscar, fora do habitual da editora.

Foi há umas duas semanas. O pessoal apareceu com umas ideias ótimas, e a reunião estava ficando animada. Coisas que sempre quisemos fazer, mas que o perfil de trabalho da Companhia não deixava, agora eram possibilidades concretas, e cada um foi colaborando com sugestões, apoiadas em pesquisa e trabalho duro.

Eu estava com o meu caderninho, cheio de ideias furadas e com nada que se equiparasse àquela torrente criativa. Duas ou três coisas sobre livros específicos, mas sem pensar no plano geral, como todos ali estavam fazendo. Conforme minha vez de falar se aproximava, fui rabiscando mais e mais planos inúteis. Falei das coisas específicas mas senti pelos olhares dos colegas que faltava algo. Tomei fôlego e propus, bravamente, uma coluna quinzenal para o blog da editora, chamada Editando Clássicos, que traria um pouco os bastidores da Penguin-Companhia, no limite do possível, bem como um apanhado dos problemas (e soluções, esperemos) que surgem durante a edição de um clássico.

Todo esse vigoroso nariz de cera, portanto, serve para apresentar este espaço aos leitores do blog. Pretendo falar não só do trabalho em livros específicos, mas também de coisas gerais, como a escolha dos tradutores, dos aparatos que vão acompanhar a obra, de volumes organizados aqui na editora.

O primeiro passo, no entanto, é a escolha de títulos. Normalmente, os livros chegam pelos agentes internacionais e nacionais, por indicação, por sorte, os caminhos de sempre. No caso de clássicos pré-Penguin, eles chegavam por acadêmicos próximos à editora ou pelos tradutores, quando são especialistas nesse e naquele autor. É um sistema que vem funcionando bem há vinte e cinco anos.

A Penguin exige um trabalho novo. Nos estrangeiros, começa no catálogo de quase dois mil livros da matriz. Selecionados os títulos, nova pesquisa, agora de clássicos já publicados no Brasil. É preciso avaliar as traduções existentes, o número de edições no mercado, a necessidade de existir ainda outra versão da obra.

Alguns desses livros têm dezenas de edições no Brasil, mas precisam ser editados mesmo assim. Como ter um selo de clássicos que não inclua Balzac, Proust, Maquiavel? Antes de editá-los novamente, portanto, também é preciso repensar a edição: o que a tornará diferente das outras? A tradução? Uma nova introdução, encomendada a um especialista? Ou resgataremos um texto clássico, porém esquecido, sobre a obra? Cada livro apresenta suas próprias respostas a essas perguntas.

O nacionais são ainda mais complicados. Com exceção dos volumes organizados por nós (seleções de contos, de peças etc.) e de algumas pérolas esquecidas, são livros de ampla circulação, com literalmente dezenas de edições, em alguns casos. De novo: não se pode ter um selo de clássicos que não inclua Machado e Lima Barreto, por exemplo.

Para que se tornem interessantes ao leitor, essas edições precisam trazer algo de novo sobre o livro, invariavelmente. Seja uma reinterpretação ou um trabalho de contextualização (nas notas de rodapé), é preciso que esses livros ofereçam uma visão diferente da que se tem da obra. Para tanto, o editor pode se rodear de bons especialistas, acadêmicos, enfim, alguém capaz de realizar essa leitura.

Do ponto de vista do editor, é um desafio e tanto. Cada livro desses vem com décadas e eventualmente séculos de leituras, e não quero ofender ninguém, deus me livre. Mas é também a oportunidade de realizar um trabalho diferente dentro do meu dia a dia, o que costuma ser bom. Só não me façam ler o Guarani de novo, por favor. E cuidado com o que você pede.

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André Conti é editor da Companhia das Letras. Trabalha nos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia, entre outros projetos.
A partir de hoje, ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal chamada Editando Clássicos.