Andréa del Fuego

Atravessar

Por Andréa del Fuego

Shadow

A primeira vez que entrei num avião foi com vinte e poucos, de São Paulo para o Rio de Janeiro, sozinha. Trabalhava como assistente de produção de elenco em filmes comerciais e o diretor queria um teste com modelos cariocas. Que sensação extraordinária aquela lata de funcionamento desconhecido se erguendo com meu peso. Motor, turbina, asa, janela, meu nariz no vidro, velocidade desumana para atingir um colchão invisível e seguir em linha reta. A segunda experiência foi para Buenos Aires, ganhei de uma amiga generosa que achou que era hora de eu cruzar pela primeira vez uma alfândega. Três horas sem turbulência, nada, voamos sobre um tampo de vidro.

O tormento veio anos depois, eu e meu marido fomos passar uns meses na França à base de baguete com água. Logo na ida caímos mil metros, um vácuo, um troço sem fim para baixo que me fez gritar e acordar o avião no meio da madrugada. Eu seguia a rota pelo vídeo, vi onde foi a queda — em cima do Atlântico, na parte mais escura do Tenebroso. Logo pensei ali ser mais fundo, e por isso mais gelado. Com a mudança de temperatura embaixo, mudança de temperatura em cima e consequente adaptação entre motor, frio e magnetismo. O avião caiu do ar sobre o ar, a estabilidade seguinte me deixou em alerta constante e agudo. Seguimos estáveis até a França. Demorei semanas para esquecer aquela quedinha simples, abraçando o chão pela solidez.

No meio da viagem conseguimos uma semana em Milão, na casa de uma amiga tradutora. Ela estava trabalhando numa antologia e pediu que eu lesse o trecho de um conto, tinha dúvida sobre uma palavra. No meio de uma frase senti tontura, me levantei apalpando a mesa, as paredes ficaram flexíveis como papel, o lustre rebolou. A labirintite não era minha, estávamos sofrendo um terremoto. Alguns segundos depois e pelo resto da madrugada ouvimos sirenes. Não houve vítimas, mas pessoas com medo de um tremor rebote pediam auxílio e informação aos bombeiros pela noite afora. Toda a solidez da terra foi para os ares, emocionalmente fiquei órfã de qualquer coisa que não se mexa até que eu morra.

Um dia antes de voltar para o Brasil fui numa farmácia pedir um tranquilizante. Ofereceram-me uma homeopatia usada por adolescentes em semana de provas, para diminuir a ansiedade. Não deu conta, meu marido aterrissou mordido, a cada oscilação mínima eu enfiava o dente no braço dele. Daí por diante eu não podia ouvir qualquer notícia sobre avião. Nem falo de acidente, mas um simples atraso, reforma, aumento de passagem, qualquer menção gelava minha caixa torácica. Recusei vários convites de viagem a trabalho, aquela recusa humilhante: a mala na porta, o táxi na rua, a perna bamba. Comecei a aceitar que não voaria e isso não era um problema, o que pudesse ser por terra já era muito mundo. Barco não.

Lá estava eu, grávida de seis meses, quando um convite para Lisboa chegou fulminante: receber um prêmio. De cara neguei, uma grávida não viaja, ainda mais com a decisão de vida já tomada sobre o assunto. Mas a situação era incomum, resolvi consultar a médica. Contei do pânico e ela imediatamente recomendou não ir, isso abalaria a mãe que abalaria o bebê. Quando disse o motivo, ela fez uma receita de Dramin e botou na minha bolsa: você VAI. O remédio pode ser tomado por gestantes, sem problema algum para o bebê, e prometia tranquilizar — ainda mais que eu nunca tomo remédio e o efeito seria estonteante.

Fiquei semanas refazendo na mente o trajeto da minha casa até o aeroporto, tentando ofegar menos com o desenho do avião nas placas. Ainda no check-in, tomei um comprimido antroposófico que também prometia aliviar a ansiedade. Não era cão bravo, mas quando o pânico chegasse ele me encontraria superior, sem deixá-lo atravessar o portão — eu nem precisaria do Dramin lá na frente. A tripulação passou por nós, o comandante (o que tem quatro faixas na manga do uniforme) era baixinho e parecia um navegador ancestral, com andar soberano.

Começou a chamada pelos passageiros e a fila ficou parada naquela minhoca, o último elo entre a terra e a espaçonave. Muita gente na minhoca deixou o ar abafado, minha pressão desceu uns pontos, dali vi a cabine e achei o cômodo pequeno demais para o comandante. A fila andou. Na porta, o baixinho nos recebia com gentileza: o baixinho não era o comandante, eu errei a conta das faixas, ele tinha só uma, minha vista já estava embaralhada. O comandante era outro homem, vá Deus saber quem. Achei meu assento e perdi o controle. O avião ia cair comigo grávida a caminho do prêmio. Portas trancadas, duas rodinhas nos distanciavam da minhoca. Francisco deu uma cambalhota dentro de mim (conhecendo bem ele hoje, foi uma volta que ele não faria nem agora aqui na sala, não é da sua natureza). Apertei o braço do marido, minha mandíbula travou, a respiração curta. André pegou o Dramin e botou dentro da minha boca. Eu fui murchando com a mente ainda no medo, mas o corpo cedia. Foi cedendo e o avião subindo, uma força para baixo, outra para cima. Apaguei. Acordei sozinha numa fileira sem ninguém, deitada, amanhecendo sobre Portugal. Levantei e lembrei de mexer as pernas, as tais meias contra trombose não couberam, eu estava imensa. Caminhei entre os passageiros que dormiam — com o avião em franca turbulência, eu estava completamente fixa, firme, estável como o carvalho. Sarei.

Desde então tenho cruzado o céu com o filho no pescoço, fiz e farei muitas travessias. Nunca mais tive pânico de voar, só medo. Há muitas explicações para essa mudança — que eu saiba o Dramin não tem efeito permanente e nem a ocitocina da maternidade é tão valente, ou é? Incrível conseguir escrever isso hoje, distanciada do pântano. Soube depois que o medo do avião pode ser filhote de um medo maior, e há medos distintos e conjugados como o medo de altura e a claustrofobia.

Não fosse a literatura eu não teria saído do bairro, é ela que me arranca de casa. Não a escrita, evidente, mas a vida mesma do livro, ele em pessoa. Lá atrás, bem antes da gestação, antes mesmo de recusar convites, ainda fui para Buenos Aires outra vez, mas com um grupo de autores convidados pelo Itaú Cultural. Os colegas sabiam que eu estava com medo, mas não o quanto. Já havia tomado o comprimido antroposófico (amigo antigo), mas ao meu lado estava meu querido amigo, o escritor Marcelino Freire. Ele apontou a turbina e me cutucou: tinha um parafuso a mais ali quando a gente saiu. Conheci a temperatura do inferno enquanto o danado ria de mexer a barriga. Aquela brincadeira deu o falso alerta que é bom justamente por isso: lembrar que o medo não é falso, mas a causa pode ser.

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Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura. Em 2013 a Companhia das Letras lançou seu romance mais recente, As miniaturas.
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Dois palitos

Por Andréa del Fuego

Double Exposure: Trees

[Novos colunistas no Blog da Companhia!]

Não tenho memória para a filosofia, nem para a história. Minha memória parece uma caixa de fósforo com os últimos dois palitos. Leio, releio, e só com sorte consigo usar esse conteúdo a tempo de ele não se perder. Para onde vão os livros que li? Para onde foi o curso sobre Husserl que fiz exclamativamente, embriagada por cada parágrafo de sua investigação? Lembro da voz do professor, o uruguaio Mário Porta, lembro de seu terno de veludo, da pasta que poderia ser de um médico — de couro, preta, gorda de papéis —, lembro de ele não ter paciência com minhas perguntas, achava sempre que eu fosse chegar na existência de Deus, qualquer menção ao fundamento estaria ainda impura por essa premissa.

Eu queria era justamente afastar esse personagem, queria que ele mesmo o tirasse para meu deslumbre e descanso. De Husserl a Deus vai um mundo, mas é preciso se afastar do tema da aula para entender onde estão inscritas as perguntas de um autor, indo para trás e para os lados até chegar às perguntas fundamentais. Cada professor faz esse percurso de um jeito, no caso do Mário Porta, tudo se mostrava em espiral. Eu delirava. Foi botar Deus de lado e no lugar da causa veio uma cachoeira, sempre a água nova pela primeira vez. Isso daria um quadro de restaurante chinês, mas eu estava diante da exposição de pensamentos profundos. Lembro de mais nada. O assustador: isso faz pouco tempo.

Já percebi que há reservatórios e reservatórios. Alguns mais acessíveis, outros não e esses são interessantes — pois não sei o que há nele, mas sei dele, sei do curso do Husserl, mas não sei do conteúdo exato e por extenso. No caso do reservatório acessível, tampouco posso contar com a exatidão. Lamento demais, porque no ato da absorção, uma orquestra acontece na minha mente, mas sou incapaz de mantê-la. Uma pena! Queria tanto poder ter a certeza de que entendi.

Faz tempo que não vou à cartomante, sempre fui. Toda a confiança é depositada na chegada, na saída escolho uma ou outra frase — tem uma tia sua que vai ficar louca, fixei essa, por exemplo. E ficou mesmo, meses depois, lá no meio da roça em Minas Gerais: a vaca mais velha da minha tia se suicidou, ela mergulhou na água de Furnas e não houve quem conseguisse trazê-la de volta. A cartomante depois explicou que a vaca pegou a loucura da minha tia, para o alívio dos parentes.

Sua tia vai ficar louca. Uma coisa dessa não esqueço, mas todo o livro que achei na biblioteca, aquele livro bomba que estourou meu tímpano, aquele sobre o sonho que Descartes teve antes de escrever seu cogito. O francês foi chacoalhado por um sonho onde um homem lhe mostrava um livro em branco, suou litros, acordou e começou a obra que o fez conhecido. Não confie em mim, isso já pode estar deturpado, incluindo o sonho. Mas o que lembro é só de uma frase, Descartes não era cartesiano quando sonhou.

Do que me serve essa frase sem tudo o que a explica e a dimensiona? Evidente que posso procurar nesse instante os dados no Google, melhor ainda, abrir os livros que estão atrás de mim, inclusive esse da aluna de filosofia que fez uma tese sobre os sonhos de Descartes — pausa, fui buscar o livro. Agora sim, livro em mão, a tese se chama “Sonhos sobre meditações de Descartes” de Luci Buff, está confirmada a frase. Quanto ao sonho, tinha sim um homem desconhecido, mas os livros eram dois, um dicionário e uma antologia de poemas.

Não recuso o conhecimento, desejo esse mel, mas o esquecimento é uma operação mental que não controlei até aqui e não vejo solução a nenhum prazo. Por vezes a ficção é o lugar que resta para pessoas como eu, e há os deuses, os que estão na ficção e tem memória, a memória de um comerciante fenício que sabe a história de cada habitante de cada canto que seu barco alcançou. Para vocês, todo o sal que eu puder oferecer.

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Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura.
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Dos órgãos para os dedos

Por Andréa del Fuego

White painted plastic animals

“O corpo é o primeiro a saber”, escreveu o teólogo francês Jean Leloup. Nasci com um olho de cada cor, um é escuro, o outro fica mais claro na presença do sol. O escuro tem estrias que uma iridóloga diagnosticou como marcas de doenças infantis, coqueluche, por exemplo. Tive das feias, com visita de parentes sobre meu corpo curvado em tosse, só amenizada por um benzedor que colocou um copo sobre minha cabeça, a voz grossa e velha repetindo um Maria olhe por nós. Quem estava presente jura que da água saíram bolhas, minha doença ferveu o copo, dali a água foi jogada ao pé de uma roseira, onde também ficava o cocô dos gatos. Dia seguinte eu estava no colo da minha avó comendo pamonha com banha de porco, aquele sol clareando um olho só. Corta para o fim da adolescência. Já casada com o fotógrafo André de Toledo Sader, fomos com sua mãe geógrafa para as terras de Guimarães Rosa. Um ônibus que saiu da universidade lotado de senhoras leitoras vindas da antropologia, da economia, do cinema, entre elas Bernadette Lyra, escritora capixaba (é dela Tormentos ocasionais, publicado pela Companhia das Letras). Lá pelas tantas, saindo da cidade Morro da Garça, local onde se passa o conto “Recado do Morro”, alguém resolve sortear camisetas com o logo da cidade que a prefeitura havia dado de presente aos viajantes. Bernadette pediu meu nome, sei lá que troço me deu, resolvi dizer ele inteiro: Andréa Fátima dos Santos, claro que não me chamo Andréa del Fuego. Bernadette passou mal e, com o ônibus sacolejando sobre um talco vermelho, ela me entregou uma moeda dobrada ao meio. A moeda havia sido entregue a ela pelo mágico Thomaz Green Morton na ocasião da morte da neta, com a qual eu teria uma relação revelada em sonho: vó, agora sou Andréa Fátima, entregue essa moeda para ela. Corta para depois de muita interpretação e digestão. Bernadette é minha avó cósmica, um conectivo que a lógica reconhece como ligação entre sentenças. As sentenças: um nome e uma moeda. Nada fora do real, nem para lá, nem para mais longe, é tudo aqui mesmo, mas também ninguém é louco de achar que o que surge aos olhos tem sua origem na retina. Volta para a infância. Minha mãe adorava dizer os sonhos que tinha, num deles a nossa sala era um aquário, nós nadávamos e éramos vermelhos, a janela ficava aberta e nem por isso fugíamos. Corta para os vinte e tantos anos. Com a morte de minha avó materna resolvo escrever sobre a origem da minha família. O ponto de partida é recente, pois se desconhece o que veio antes. Meus bisavós foram eletrocutados por um raio, Minas Gerais é um dos lugares com maior incidência de raios do mundo, veja o ranking no INPE. A partir daí meu avô fica órfão e meu tio-avô virou anão por conta dessa luz fulminante, esse pequeno senhor foi o parteiro da minha avó, minha mãe chegou ao mundo num par de mãos infantis. Corta para os trinta anos. Inicio uma graduação de Filosofia, comecei na PUC e me transferi para USP, a faculdade estava cara, mas consegui pagá-la com a bolsa que ganhei da Petrobrás para escrever As miniaturas. Foi naquele convento puquiano que a professora chilena Yolanda Gloria Gamboa apresentou-me um grego do século II que interpretava sonhos. Ele escreveu um manual para enfrentar opositores e ensinar a arte da onirocrítica ao filho. O manual se chama Sobre a interpretação dos sonhos e teria sido referência para Freud tantos séculos depois. Meu segundo romance, As miniaturas, é dedicado ao Artemidoro, foi ali que surgiu. Tive um filho, ele se chama Francisco José, esse José por sugestão de Pílar del Rio, viúva do Nobel, com barrigão estourando fui recebida por ela na cerimônia do Prêmio José Saramago. Fui corpo para o primeiro que rasgou a mãe, como diz Raduan Nassar em Lavoura arcaica. Publico há nove anos, todos os livros, incluindo contos e juvenis, surgiram de impactos no meu corpo, que é o primeiro a saber, também o primeiro a escrever. Desde a coqueluche, tento costurar as camadas que surgem e vão embora, os humores negros e transparentes que os órgãos jogam para os dedos.

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Andréa del Fuego nasceu em São Paulo, em 1975. Escritora e jornalista, publicou os volumes de contos Minto enquanto posso (O Nome da Rosa, 2004), Engano seu (O Nome da Rosa, 2007) e Nego fogo (Dulcinéia Catadora, 2009), além de diversos livros juvenis e infantis. Seu primeiro romance, Os malaquias (Língua Geral, 2010), foi ganhador do Prêmio Saramago de literatura.
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AS MINIATURAS
Sinopse: Depois de vencer os elevadores do Edifício Midoro Filho, o cliente entra na sala e é acomodado em uma cadeira. A decoração lembra a de um consultório, mínima e asséptica. O cliente fecha os olhos e, do outro lado da mesa, o oneiro dá início à sessão. Com suas miniaturas plásticas, reproduções de objetos e animais corriqueiros, ele conduz o cliente por um sonho tão real quanto fugidio. Entender a dinâmica dessa relação, seus desdobramentos e consequências é o jogo que Andréa del Fuego propõe a seus leitores neste romance poético e delicado sobre a tênue fronteira que separa o sonho da realidade.

Evento de lançamento:

São Paulo: Quarta-feira, 7 de agosto, às 19h30 – Loja da Companhia das Letras por Livraria Cultura – Avenida Paulista, 2076 – Conjunto Nacional