Caetano Galindo

Em tradução (Georgina Burns)

Por Caetano Galindo

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Uma das coisas com que eu tive que aprender a lidar durante o processo de tradução/edição de Um retrato do artista quando jovem e Dublinenses foi o paradoxo do anotador. Aquela coisa de que quanto mais você anota mais parece que precisa anotar. A imensa dificuldade de decidir onde parar.

Eu tinha uma carta na manga, ou um plano oculto, que era fazer com que as notas funcionassem não só pra leitura de cada um dos livros, mas também pra ampliar o acesso ao Ulysses. Já foi meio que uma linha de orientação.

Mas nem sempre resolve, e nem sempre fica claro onde é que você já está só mostrando tuas nerdices pros leitores (tipo: ó o que eu sei!).

Um caso que me pareceu especial foi o de Georgina Burns, citada uma única vez no conto Os Mortos, que encerra Dublinenses, e sobre o qual Don Gifford, o santo padroeiro dos anotadores de Joyce, disse apenas: “não conhecida”.

O contexto é o seguinte: no meio de uma discussão sobre ópera, alguém menciona Mignon, obra menor do compositor menor Ambroise Thomas, baseada na personagem do Wilhelm Meister, de Goethe (sim: isso tudo está nas notas), que inspirou canções a vários compositores do romantismo (não: isso não está nas notas… viu como é difícil?). Aí Gretta Conroy, mulher do “protagonista”, diz que foi ouvir a ópera mas só conseguiu pensar foi na “coitadinha da Georgina Burns”.

Hoje, com Google, é fácil suplementar o trabalho de Gifford (publicado em 1980) e descobrir que ela foi uma cantora lírica da virada do XIX pro XX.

Paro aqui?

Mas por que a “coitadinha”…? Fuçando mais em sites de amantes de ópera, dá pra descobrir que o fim da carreira dela foi tristíssimo, quase indigente, depois de um começo algo brilhante.

Paro aqui?

Fuçando ainda mais, acho uma referência ao fato de que ela era casada com outro cantor, Leslie Crotty, que também teve uma vida triste, assolada pela doença e pelo alcoolismo, e que morreu em abril de 1903.

Isso pode explicar o coitadinha… Mas a DATA pode ser relevante.

Porque um dos grandes problemas dos contos de Dublinenses, e especialmente deste Os Mortos, é a tentativa de se datar a ação. Os contos parecem acontecer entre o finzinho do XIX e o começo do século XX, mas um anotador de verdade quer saber mais. Especialmente nos contos que envolvem personagens do Ulysses, dezenas de personagens do Ulysses.

E é o caso aqui em Os Mortos: o casal Conroy e as senhoritas Morkan, Julia e Kate, serão citados no romance posterior.

Mais ainda, num dado momento será revelado no Ulysses que a senhorita Kate é madrinha de batismo de Stephen Dedalus (por que ele não está presente na festa do conto? Será que a festa acontece quando ele está na França, entre fins de 1902 e agosto de 1903?) e que ele lembra dela cuidando da irmã “moribunda”.

Julia está morta em 16 de junho de 1904?

Desde quando esteve “moribunda”?

Logo no começo do conto ficamos sabendo que estamos no “tempo do Natal”, mas que já é janeiro. Ou seja, estamos entre o dia primeiro e o dia 5, já que no dia 6, dia de Reis, encerravam-se as celebrações. Mas de que ano?

O fato de as personagens discutirem a a epístola “Inter sollicitudines”, de Pio X, era a marca mais convincente. Porque o documento papal, que proíbe as mulheres de cantarem nas igrejas (cinicamente publicado no dia 22 de novembro, festa de Santa Cecília, padroeira dos músicos), é de 1903.

A menção ao estado de saúde de Julia parecia portanto ser o terminus ad quem, como se dizia antigamente. Se a ação tinha que ser nos primeiros dias de algum janeiro, agora a gente sabe que tinha que ser o janeiro de 1904.

A morte do marido da “coitadinha” da Georgina Burns só confirma esse dado.

Vale a nota?

Especialmente se você pensa que Gifford nem faz a articulação com a Julia “moribunda” do Ulysses?

Pra mim, valeu.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Tim Minchin)

Por Caetano Galindo

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Tim Minchin é um gênio. Pronto. Ponto. Taí.

Ele toca um piano do demônio, canta direitinho (toca o piano do demônio ENQUANTO canta direitinho! Veja lá em “Mitsubishi Colt”, por exemplo), escreve letras com umas sonoridades que não ficam devendo nada aos bons rappers, compõe umas harmonias e umas melodias pra lá de lindinhas e… como se não bastasse isso tudo, é engraçado pacas.

Minchin, que é australiano, é representante de uma tradição bem forte no mundo anglófono (que vem forte desde Gilbert & Sullivan) e que aqui, fora, sei lá, o Juca Chaves, nunca teve muito gás: o cantor-cômico ou comediante-cantor. Longe da baixaria Mamonas Assassinas (sim, eu sei, eles morreram novinhos e isso é mega triste: não, isso não faz eles terem sido menos bostas), sofisticado pacas, em todos os níveis. E, no que me interessa aqui, um excelente exemplo de intraduzibilidade. Só pra mostrar que não precisa ser poesia hermética torre de marfim pra ser impossível, só pra dar um exemplo mais a fundo de uma coisa que eu já mencionei aqui também, que é o fato de que tudo se aproxima do intraduzível quando um texto tematiza a própria realidade, a própria materialidade da língua em que ele está escrito.

Vou dar uns exemplos a partir de uma única música (tem no youtube, claro), chamada “Prejudice”. Preconceito.

É fucking brilliant.

Dizem que ela existe porque Minchin usava demais a palavra nigger no palco e, como se sabe: não rola. Você tem que ser membro da comunidade em questão pra usar sem problema. É como, sei lá, bicha?

A música começa com uma discussão sobre palavras tabuizadas e diz que uma delas, de apenas seis letras, tem mais poder que as espadas…

Aí ele soletra, e diz que a palavra em questão tem dois Gs, um I e um E, um R e um N… ele parece estar dançando em volta do tabu…

(Não vou nem mencionar que ele diz “a couple of Gs” e aí segue com “Jees”…)

E aí, depois de já quase três minutos de música e de suspense (será que ele vai dizer a palavra!), ele entra num groove mais funkeado no piano, começa a soltar uns yeah, uh, meio de rapper e se prepara pra atacar o refrão, que diz…..

Only a ginger can call another ginger ginger!

Ou seja, só um ruivo (como ele!) pode chamar um ruivo de ruivo. Porque, claro, agora você se dá conta, ginger é um anagrama perfeito de nigger.

E aí ele entra numa série louquíssima de piadas e trocadilhos com ruivos (os ruivos são espertos, diz ele, porque são “well read, o que só funciona graças à homofonia entre lidos (read) e vermelhos (red); ele menciona os riscos da gingervitis, trocadilhando com gengivite, sendo que, claro, gengivas são “ginger” )… sério, é hilário e denso demais pra analisar tudo de uma vez aqui.

Mas, além desse detalhe totalmente intransponível na brincadeira ginger/nigger, quase no fim da música, quando o “suspense” meio que tinha deixado de existir (ele adora guardar esses “presentinhos” pro fim das músicas), ele vem com a ideia de que só os ruivos podem se chamar de ruivos, exatamente como only a ni… e rola uma prolongada nessa vogal… e você fica “pô, agora ele vai dizer!” e o verso termina sendo “só um ninja consegue pegar outro ninja desprevenido”.

Sem nem contar que, na pronúncia de um australiano, ninja rima perfeitamente com ginger.

Já imaginou traduzir?

E fazer caber na métrica?

E arrumar um ruivo pianista endiabrado pra cantar?

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Joyce)

Por Caetano Galindo

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Recentemente eu li o belíssimo romance The Crimson Petal and the White, de Michel Faber. Na semana anterior eu tinha lido The Book of Strange New Things, que me deixou encantado. Aí li correndo Under the Skin e depois encarei o romanção histórico. Sabe como, né? Quando você quer ler tudo de um autor.

Depois de terminar o Crimson Petal, eu descobri que ele tinha escrito alguns contos, de início pra aquietar os leitores que queriam um “volume dois”. São contos com personagens do romance, às vezes em momentos anteriores, às vezes depois da ação descrita ali. Até o destino da personagem principal, a prostituta Sugar, fica mais ou menos iluminado.

Me deu vontade de sair recomendando pra tudo quanto é autor bom esse negócio de reaproveitar as personagens.

Claro que Balzac meio que inventou o jogo, nem que pra isso tivesse, como teve, que mudar o nome de personagens de obras já publicadas anteriormente. Claro que Shakespeare (Henrique, Falstaff) tinha feito isso antes. Claro que Conan Doyle fez Sherlock Holmes virar grife. Claro que, no Brasil, Rubem Fonseca já brincou disso, Dalton Trevisan e, mais recentemente, Cristovão Tezza com a sua Beatriz, que já esteve em dois livros (um romance e um de contos) e deve voltar em novo romance este ano.

E em todos esses casos me parece que a gente encontra uma maneira bem poderosa (talvez precisamente por ser “fraturada”) de conhecer mais a fundo aquelas personagens… Uma maneira que, no nosso tempo obcecado por séries de televisão, me parece ter alguma coisa a ver com a dinâmica da “longa duração” dessas narrativas que duram 5, 7 anos…

Curiosamente, Joyce também participou da brincadeira.

Claro que ele foi diferentão, e fez a coisa ao contrário. Se tivesse escrito o Ulysses e aí saído reaproveitando as personagens, tudo bem, a gente estaria em casa. Mas o que ele fez foi escrever seu grande romance usando como protagonista o herói de seu romance anterior, Um retrato do artista quando jovem, e usando como figurantes, ou pessoas mencionadas de passagem, cerca de trinta personagens de seu livro de contos, Dublinenses.

Os três livros foram publicados num intervalo de oito anos. Para o leitor de hoje, no entanto, que pode ter os três à mão ao mesmo tempo (aguardem a minha tradução de Dublinenses!), eles podem funcionar em qualquer ordem.

Como os dois livros menores são em alguma medida “mais simples”, é normal recomendar que eles sejam lidos antes. Mas a experiência de usar os dois como “consolo” depois do fim do Ulysses, mais ou menos como eu fiz com os contos do Faber, também é muito interessante…

No caso de Um retrato… que será lançado este mês aqui na Penguin-Companhia, o que rola é uma verdadeira explosão das ideias que o leitor elabora a respeito de Stephen Dedalus durante o Ulysses. Como eu acho que já disse aqui, depois de traduzir e anotar o Retrato, depois dessa leitura “funda” que é a tradução, cada vez menos me parece que ele seja um livro que “prepara” o Ulysses: ele é efetivamente a primeira parte do Ulysses, que, na medida em que seja possível, fica “mais perfeito” se lido junto com seu irmão “menor”.

Menor?

Bom… não é crime ser menor que o Ulysses.

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Dublinenses)

Por Caetano Galindo

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Estou dando tratos razoavelmente finais à tradução de Dublinenses, único livro de contos de James Joyce, publicado em 1914, dois anos antes de Um retrato do artista quando jovem e oito anos antes do Ulysses.

Com a publicação do guia de leitura Sim, eu digo sim, no começo do ano, essa tradução encerra todo um projeto de dar ao leitor brasileiro a mais completa via de acesso ao Ulysses. Pois se o Retrato é a apresentação de Stephen Dedalus (e, em vários sentidos, pode ser considerado mesmo como a “primeira parte” do Ulysses), Dublinenses apresenta mais de TRINTA personagens que o leitor vai reencontrar no romance de 1922. E se em alguns casos se trata apenas de um nome que recorre, em outros acabamos tendo acesso a visões mais profundas e quase contraditórias, se comparadas ao que pudemos ver de cada um deles no Ulysses.

Tanto o Retrato quando esse Dublinenses devem sair com notas de leitura, pra facilitar o processo de se lidar com uma cultura cem anos e milhares de quilômetros distante, e também pra apontar essas conexões entre os livros. São ao todo mais de 400 notas, mais prefácios e “notas introdutórias” do tradutor. Quando os quatro livros estiverem nas livrarias, Ulysses, Guia, Retrato e Dublinenses, o nosso Kit-Joyce estará pronto. (E pensar no Finnegans Wake, pro futuro curto…?)

Mas, propagandas e autocongratulações à parte, lidar com os contos de Dublinenses me deixou pasmado. Como sempre.

Joyce gostava de correr riscos, e normalmente bancava os riscos e saía triunfante de cada experiência. O Retrato já é um livro arriscado: pense naquela primeira página, escrita toda no que seria o discurso indireto livre de uma criancinha, sem maiores explicações. Do Ulysses, nem preciso falar! Mas em Dublinenses, o que o leitor encontra é aquele que talvez seja o maior prosador da história da língua inglesa exercendo todo seu talento em chão e com regras muito mais firmes. É como se ele estivesse fazendo alongamentos pra saltar mais longe, testando suas forças, vendo o que é que poderia fazer na linguagem “tradicional” do conto tchekhoviano, flaubertiano.

Isso, claro, ainda tem que levar em conta que ele escreve os contos quase todos entre 1904 e 1906. Só “Os Mortos”, aquela pérola absurdamente linda, vem de 1907. E, veja bem, ele tinha 25 anos em 1907. Ele conseguiu escrever um conto incrível como “Eveline”, que envolve um mergulho sem freios na consciência de uma mulher, antes de completar 23 anos. Não é só de prosa que se fala aqui. É dessa capacidade de ser outras pessoas, de forçar os limites da empatia e, no fundo, os limites do “eu”. Daquilo que faz a grande literatura.

E é um prazer tremendo lidar com esse Joyce joalheiro, esse Joyce que, antes de se deliciar com uma estética de arestas, de riscos e furos, de excessos e faltas controladas, parece ter se dado o direito de ser perfeito.

Desculpa, parece chato, parece bobo, mas era só nisso que eu pensava enquanto traduzia. O que ele queria com esses contos era a “perfeição”. E conseguiu, com sobras, uma dúzia de vezes.

Fique aqui com uma amostra elegantíssima da abertura do conto “Uma Mãe”:

A srta. Devlin se tornou sra. Kearney por despeito. Tinha sido educada num convento de alto nível onde aprendeu francês e música. Como era por natureza pálida e de modos inflexíveis fez poucas amigas na escola. Quando chegou à idade de casar foi enviada a várias casas onde seu piano e seus modos ebúrneos foram muito admirados. Ficava sentada no centro do gélido círculo de seus talentos, esperando que algum pretendente tomasse coragem e lhe oferecesse uma vida luminosa. Mas os rapazes que encontrava eram comuns e ela não os encorajava, tentando consolar seus desejos românticos comendo não pouco manjar turco às escondidas. No entanto, quando foi chegando ao limite e suas amigas começaram a soltar a língua a respeito dela, ela as calou se casando com o sr. Kearney, que fabricava botas no Ormond Quay.

Era muito mais velho que ela. Sua conversa, que era séria, surgia esporadicamente de sua grande barba castanha. Depois do primeiro ano de casada a sra. Kearney percebeu que um homem desse tipo ia envelhecer melhor que uma pessoa romântica mas ela nunca deixou de lado suas ideias românticas. Ele era sóbrio, econômico e devoto; ia até o altar toda primeira sexta-feira do mês, às vezes com ela, mais normalmente sozinho. Mas ela nunca diminuiu sua religiosidade e era uma boa esposa para ele. Em alguma festa numa casa desconhecida quando ela erguia a sobrancelha só um tiquinho ele levantava para se despedir e, quando a tosse dele incomodava, ela colocava um acolchoado sobre seus pés e lhe fazia um ponche de rum bem forte.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (O Livro de Aron)

Por Caetano Galindo

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Como eu tinha mencionado antes, esse O livro de Aron, de Jim Shepard, que deve sair daqui a pouco, além dos problemas previsíveis da tradução de uma narrativa em primeira pessoa, feita por um adolescente do gueto de Varsóvia (tipo representar uma voz virgem de literaturices, marcada diacronicamente por esses 70 anos de distância, sem ao mesmo tempo alienar os leitores mais jovens que são parte relevante do público aqui… e sem também apelar pra algum tipo de “populismo” discursivo), foi o texto que me apresentou ao drama da tradução (ou não tradução!) de um trocadilho multilíngue de língua incerta e não sabida!

What…?

Pois é. Isso mesmo.

A questão é a seguinte, e pode ser um belo exemplo não só das diversões da tradução literária, mas também do tipo de cabelo em ovo que os tradutores são meio que condicionados a enxergar: num dado momento da história, o narrador (o Aron do título: aliás, altas discussões entre este que vos bloga, o scefigno André Conti e a santa Ciça Caropreso, que preparou o texto, pra definir se traduzíamos o nome do rapaz e se aportuguesávamos seu apelido hebraico, Shemaiá…) diz que um outro personagem vivia o tempo todo repetindo uma oração que, por causa da sua sonoridade, lhe gerou o apelido de cheap fish.

Parece simples, né? A gente traduz tudo, inclusive o “peixe barato”. E pronto.

Mas começa que se tratava de “sonoridades”. E NADA que neste mundo soe como cheap fish soa a algum outro ouvido como “peixe barato”. E, pra te falar a verdade, tem mais aqui nessa peixaria: porque você vai ler o livro em português, eu estava lendo em inglês, mas a convenção da narração nos faz supor que a realidade linguística daquelas pessoas era em polonês… Mas, além de tudo, eles eram judeus…

Então de repente a coisinha fácil (fui conferir: até o google tradutor verte tranquilinho cheap fish por peixe barato) está agora nestes termos: a oração do rapaz (que ele pronuncia em iídiche? em hebraico? em polonês?) soa como “peixe barato”, ou cheap fish, ou tanie ryby?

(Aliás, essa última, a polonesa, me VEIO do google tradutor: eu, como todo xadrezófilo [por causa de um programa de computador famoso] até sei que RYB é o radical eslavo de peixe, mas…)

Deu pra sacar?

Algo, dito em uma de três línguas possíveis soa como algo dito em uma de duas. O que o autor quer? Quebrar a quarta parede e se referir aos sons do inglês quando aquele povo não teria bases pra fazer trocadilho na língua de Shakespeare? E, se sim, isso me autoriza a fazer a mesma coisa e buscar os sons no português? Aí o apelido do cara ia ser “tipo fixe”? (Brincadeira…)

Ou ele quer dizer que a oração soava como tanie ryby, e aí eu, como ele, só traduzo, e o apelido do cabra é mesmo Peixe Barato. (Lembrando ainda que o som final podia ser o do iídiche, bilik fish….)

E a curiosidade, agora? Como fica?

Escrevo pro autor?

Mas era meio que a única dúvida que ainda me irritava… E tem uma coisa de orgulho profissional…

Então vamos fuçar.

O que eu soneguei até aqui é que o autor menciona (de novo, em tradução? Isso não aparece nas traduções inglesas da bíblia ou dos textos hebraicos… eu fui ver…) a tal oração do rapaz. Ela seria ‘let our days be multiplied’… ‘que se multipliquem nossos dias’.

Então vamos aos alfarrábios digitais.

Fuça que fuça e eu (bronco irreligioso) topei com o Deuteronômio 11: 21 (‘para que se multipliquem vossos dias’) que numa edição hebraica transliterada em alfabeto romano (porque eu não sei ler hebraico) me deu justo uma palavra que lembrava aquele radical RYB, de peixe…

E o Deuteronômio, claro, além de ser livro canônico entre os cristãos, também faz parte do Tanach, da Torá, entre os judeus.

Tá bom pra vocês?

Pra uma piadinha, um detalhe do livro?

Me satisfiz que o tal trocadilho era entre hebraico e polonês, e que o autor estava “traduzindo” o polonês tanie ryby por cheap fish.

Se lá traduzia ele, pois traduzo eu cá.

“Peixe barato” ficou.

Porque, claro, agora as legiões de leitores que quiserem ir a fundo vão poder encontrar aquele versículo do Deuteronômio…

:)

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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