Caetano Galindo

Em tradução (Infinite Jest)

Por Caetano W. Galindo


E aí mas então a ideia de fazer essa coluna aqui pro blog é ir falandinho do andamento da tradução do maior romance de David Foster Wallace.

Que se chama Infinite Jest (mais sobre isso nos próximos fascículos).

Que quem está traduzindo sou eu. (Neste momento: 151 páginas vencidas; 830 pela frente. Cinquenta e duas notas encaradas, 336 esperando [de novo, espere os próximos episódios].)

Sei lá eu se tem interesse pra vocês, mas o negócio é que não é um projeto comum, sabe? O livro, afinal, vem conquistando um espaço de ‘culto’ muito semelhante ao de um romance como o Ulysses. E eu estou cansado de saber que esses ‘cultos’ podem ser deletérios, então acaba que ir falando do livro pode ao mesmo tempo mostrar o que ele tem de encantador e diminuir certas auras de intangibilidade.

Ao mesmo tempo mostrar que yes we can e decantar os méritos de uma coisa preciosa.

Sabe, tem uma cena de um dos primeiros filmes do Nanni Moretti (lembro qual, não…? e no fim não é meio mais chique citar assim sem certeza? dá uma aura de erudição relaxada… [e reconhecer agora que eu queria atingir a tal aura não dá uma aura ainda mais sofisticada? {bem-vindos ao mundo de David Foster Wallace}]) em que a mulher do cara dá à luz e toma uma anestesia, e ele fica encantadíssimo com o fato de que se pode anestesiar um parto normal e sai gritando pelo hospital porque, na opinião dele, “o mundo precisa saber!”.

Eu, e uma caterva de leitores, há anos me sinto assim com Infinite Jest. O mundo precisa conhecer.

E agora ter a chance de traduzir o livro, portanto, é uma coisa realmente bacana. Dar o bichinho pra quem quiser ler.

E aí este espaço aqui é pra ser usado pra isso mesmo. Pra ir mantendo um ‘diário de tradução’, pra falar das maravilhas maravilhudas de um livro maravilhante, pra eventualmente pedir socorro aos universitários (e tenistas, e junkies, e engenheiros) em questões abstrusas de vocabulários específicos, pra falar da mega viagem que há de ser traduzir Infinite Jest.

Sob a égide de St. Diana de Passy, padroeira deste blog.

Com a efígie da famiglia de Don Andrea Conti, scefigno di tutti scefonni.

Com a colaboração de Mr. Mojo e d’El Rancho Carne.

Com a proteção da musa degli Stropari e a revisão de Mona Bice.

Prepare-se, portanto, pra ir sabendo de manadas de hamsters selvagens, de uma nova América do Norte fundida numa só nação de curioso nome ONAN, do mais curioso meio de matar baratas, de um travesti que rouba um coração, de um drogado que imola gatos, de um homem que recolhe no corpo imenso os pecados dos outros, da mulher mais linda de todos os tempos (que talvez tenha tido o rosto desfigurado por ácido).

De Hal, Gately, Joelle e do cara-que-nem-usava-o-primeiro-nome.

De TUDO.

O trajeto é calombudo mas a paisagem é bonita.

Dá a mão que eu tento te levar.

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E hoje é 12 de setembro.

Exatos quatro anos da morte de Wallace.

Hora, como sempre, como em todo broomsday (nome de um site-tributo que eu, o André, o Galera e o Pellizzari montamos às pressas em 2009), de desejar que a família dele encontre a paz possível e que nós, leitores, continuemos (subj.!) nos servindo da obra dele pra entender o mundo, as pessoas, e inclusive a pessoa que a escreveu, e o seu fim.

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[Esta quinta-feira transmitiremos ao vivo um bate-papo sobre Jane Austen e tradução entre a editora Vanessa Ferrari e o tradutor Alexandre Barbosa de Souza. Acompanhe e mande suas perguntas aqui pelo blog a partir das 17h.]

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna quinzenal sobre a tradução de Infinite Jest, cujo lançamento está previsto para o 2º semestre de 2013.