Caetano Galindo

Em tradução (a ágora)

Por Caetano Galindo

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Foto: Bethany L King

Eu tinha outras ideias pra coluna deste mês (ainda quero escrever sobre aquele probleminha que eu encontrei no Livro de Aron: um trocadilho multilíngue em que as línguas em questão eram incertas, que eu mencionei no Facebook e gerou perguntas…), mas a coluna anterior teve uns comentários e, tipo, por que não responder?

Então vamos.

Um é coisa recorrente, sobre horários de trabalho, rotinas e tal. Basicamente uma coisa tipo “como que rola fazer um livro de mil páginas nas horas vagas” etc…

Não sei como funciona exatamente a rotina dos outros tradutores literários. Conheço o exemplo do Paulo (Henriques Britto), que é colega e funciona basicamente como eu… Conheço o do Christian (Schwartz), que não é nada como eu (longas madrugadas intensivas são mais a praia dele). Fora isso, por mais que eu conheça vários tradutores, nunca conversamos demais sobre isso.

No meu caso, e no do Paulo, tem que dar uma avaliada nessa coisa das “horas vagas”. Eu sou professor universitário tempo integral numa federal grande, vinculado a um programa de pós-graduação de alto nível nessa mesma universidade: tenho alunos, orientandos, compromissos internos e externos, burocracia e, eventualmente, cargos administrativos (já fui vice-diretor do Centro de Línguas, chefe do Departamento, Vice-Coordenador do Curso). Além disso, eu tenho uma “bolsa produtividade” do CNPq, o que significa que eles acham que eu produzo acima da média, mas também significa que eu tenho que manter esse nível, além de cumprir com as obrigações (pareceres, especialmente) que vêm com a bolsa. E aí a gente é avaliado em termos de produtividade, na universidade e no CNPq: quantos orientandos? Quantos capítulos de livro? Quantos livros? Quantos artigos em periódicos indexados? (E, não, tradução não vale igual.)

Ninguém me dá, nem devia dar, folguinha a mais por causa da tradução. Ok, acho até que essa atividade se reverte num ganho pros alunos, especialmente os que cursam o Bacharelado em Estudos da Tradução, claro. Mas o que eu faço aqui com a Companhia é lateral, extra. Em todos os sentidos.

Mããããs, pô, Caetano, comé que aí rola fazer o tal livro de mil páginas? Você não dorme?

Opa. Durmo. E como.

Mas eu sou disciplinadinho, organizadinho (todas aquelas coisas que os teus pais vivem te dizendo, e que os meus me diziam) e, mais do que isso, eu sou rápido.

Não que isso seja um objetivo, uma meta, uma vantagem. É só o entortar do pepino. Eu não sei trabalhar devagar. Eu sou concentrado porque sou desconcentrado, sabe como? (Tipo 100% de intensidade no trabalho pra evitar olhar pro lado.) Eu sou rápido porque sou preguiçoso. Esse tipo de coisa.

E eu curto muito traduzir livros bons. Me divirto mesmo. O que tira todo um peso psicológico da coisa.

Explica?

Provavelmente não. Mas ninguém disse que era pra esperar coisas “lógicas” dessa raça aloprada que são os tradutores literários.

:)

(Outra pergunta: sobre O sumiço do Perec, e sobre por que o tradutor escolheu escrever o romance em português sem usar a letra “e”, como no original. Primeiro, não li o livro, mas acho divertida a ideia de um romance “policial” que tem como grande mistério o “sumiço” de uma letra do texto. Segundo, eu também achava que o desafio seria traduzir sem o “a”, pelo fato de ser esta a letra mais comum no português, como o “e” é no francês. Mas o tradutor, o Zéfere, que eu conheci num congresso quando ele ainda estava lidando com o texto, me garante que há razões internas, na “trama” do livro, que cravam a coisa no “e”. Mas, repito, não li o livro. Boto toda fé na tradução, mesmo, mas não li pra saber.)

* * * * *

Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Cidade em chamas)

Por Caetano Galindo

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Os últimos meses foram movimentados aqui na oficina Galindo de tradução de horas vagas (nem vos conto, oh leitores, do que andou rolando na Universidade nesse intervalo…).

Entre o dia 15 de outubro de 2015 e o primeiro de abril, agora há pouco, foram quatro romances entregues… Ou seja, depois daquela primeira entrega, dá mais ou menos um a cada dois meses.

O mais recente de Ali Smith, Como ser as duas coisas, foi entregue no dia 27 de novembro. Um retrato do artista quando jovem foi no dia 2 de fevereiro, aniversário de James Joyce. E agora, sem mentira, no primeiro de abril foi O livro de Aron, de Jim Shepard, que nem estava nos planos.

Isso tudo além do lançamento (o que inclui revisões finais e tal) de Sim, eu digo sim, a nossa “visita guiada” ao Ulysses, de Joyce.

Se tudo der certo, dou um tempo nas traduções até o segundo semestre, quando preciso finalizar O rei pálido, de David Foster Wallace. Tenho umas publicações universitárias precisando da minha atenção. Desculpa.

Mas se eu pude fazer tudo isso nesse tempo, por outro lado (poroutroladissimamente!), entre 23 de abril de 2015 e aquele 15 de outubro, quase seis meses redondos, essas minhas horas “vagas” só respiraram Cidade em chamas, só serviram aos esforços de trazer o grande Garth Risk Hallberg até o leitor brasileiro.

Agora, o livro está em produção, e tem lançamento previsto pro dia 29 de abril.

São 1040 páginas de um passeio fascinante pela cidade de Nova York em seu grande momento de crise, antes da retomada de crescimento econômico e da “limpeza” promovida por Ed Koch, Giuliani e Cia Ltda. Punks, arte de rua, decadência.

Muita música, muita ideologia radical, muita angústia adolescente.

Um mundo que era a semente de muito o que nós seríamos hoje, e que ainda por isso nos parece radicalmente estranho (ou deveria). O mundo dos Ramones, de Patti Smith, Lou Reed e das fitas piratas do Clash. Mas o mundo também dos falanstérios, das comunidades alternativas apocalíptico/anárquicas. Um mundo de leitores de Foucault e seguidores de Johnny Rotten.

E ao mesmo tempo um mundo em que os grandes conglomerados estão, como na literatura de Pynchon, de DeLillo, de David Foster Wallace, literalmente comprando a cidade, alterando sua paisagem, e um cenário onde o profeta do caos e da redenção pode ser um radialista chapado que tem um programa de madrugada onde vocifera para a cidade ir para as ruas e recobrar o que é seu.

Eu vivi seis meses com a família Hamilton-Sweeney (diga-se de passagem, há VÁRIAS referências a Sweeney Todd no romance: foi até um aluno meu [oi, Guilherme!] quem me fez ver que mesmo o título vem de uma canção do musical…). Eu passei seis meses com a angústia de William, o herdeiro milionário que prefere virar artista plástico marginal, de Regan, a irmã mais velha, personagem mais profunda do livro. Passei meio ano com Charlie, o adolescente obcecado pela antiga banda de William, com Samantha, o mito por trás de tudo. Passei meio ano com a história dos fogos de artifício, dos Estados Unidos, da música pop e da grande literatura americana.

Agora fica com vocês.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Ulysses?)

Por Caetano Galindo

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Com a perspectiva do lançamento de Um retrato do artista quando jovem (cf. coluna anterior), eu já vou dando os pontos finais no meu “projeto Ulysses”.

Tudo bem que final-final nunca vai ser.

Se pros leitores, pros bem-aventurados leitores, o livro nunca há de acabar, e vai sempre ser motivo de releitura e rediscussão (e espero que essa nova tradução do romance que o antecede gere ainda mais releituras e rediscussões, como rendeu pra mim), imagine como é que seria pro humilde tradutor.

Mas mesmo assim tem mais.

Tinha mais.

Lá no prefácio à tradução do Ulysses (no que já me parece o longínquo ano da graça de 2012), eu prometia um Guia de Leitura da obra. Afinal, se a gente estava apresentando naquele momento uma tradução nova do romance na crença de que isso fazia parte de uma tentativa de propiciar um acesso mais amplo e mais pleno a um romance cuja leitura a gente considera fundamental (a gente aqui é plural de verdade, ok?), ainda restava o problema de que o leitor brasileiro do Ulysses se vê alijado daquilo que vem facilitando, ou tentando facilitar, a vida dos leitores anglófonos desde 1930, com a publicação de James Joyce’s Ulysses, de Stuart Gilbert: guias, explicações, glosas, estudos… a bibliografia de interpretação e de apoio nunca parou de crescer.

Mas aqui ela ainda é limitada. E eu meio que achava que precisava dar esse pitaco, pra tentar inclusive botar no papel coisas que eu venho desenvolvendo em sala de aula, em palestras, em cursos, de 2002 pra cá.

Pode ter demorado (a vida… a universidade… outras traduções…) mas agora em março a Companhia das Letras publica Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce.

!YAY!

O livro tem uma introdução beeeem generosa, que dá conta de um monte de questões gerais (biografia, Homero, estrutura…), e depois uma leitura do livro, episódio a episódio, sob uma ótica bem singular (a gente acha mesmo que até na comparação com todos os outros guias em inglês e em outras línguas esse ficou diferentinho): uma coisa de ficar o tempo todo dizendo “preste atenção”, veja bem…

Ainda tem um resumo da bibliografia disponível em português, que é pra garantir, e mais uns comentários sobre o indispensável em inglês. (No meu site, onde normalmente ficam as informações das minhas disciplinas, vai ter uma seção mais atualizada e hiperativa de notas e referências).

Enfim.

Ufa, né?

É isso.

Como diz o grande scefigno André Conti, divertido pensar que alguém que hoje está na escolinha pode daqui a dez, quinze anos, decidir encarar o Ulysses e usar esta nossa tradução, com o apoio do “nosso” retrato e do meu Guia.

Acima de tudo divertido pensar que você aí, lendo agora, pode tirar alguma coisa útil disso tudo. É pra isso que devia servir.

Boa leitura.

(E agora toca eu pensar em coisas diferentes pra dizer em sala de aula!)

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Joyce! De novo!!)

Por Caetano Galindo

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Traduzindo Um retrato do artista quando jovem, cujo lançamento completa cem aninhos agora em 2016 (esperem lindas edições comemorativas por aí!), topei com conhecidos e novos problemas joyceanos.

A primeira coisa (eu já tinha lido o livro mais de uma vez, mas traduzir é ooooutra história…) é o quanto é nítido que o Ulysses não apenas dá continuidade à narrativa da vida de Stephen Dedalus. Em trocentos sentidos, de continuidades de temas, técnicas, obsessões, imagens, de fato o Retrato e o Ulysses são um livro só. Contínuo.

A flexibilidade do narrador que vai se moldando à voz e à visão de personagens diferentes, uma das marcas mais famosas do Ulysses, já está também devidamente prefigurada no conhecido estilo mutante do Retrato, que a cada pequena seção apresenta uma prosa um pouquinho diferente, na mesma medida em que Dedalus vai passando de menino a adolescente e adulto.

Mas coisas mais pontuais também surgem pro coitado do tradutor. E uma delas faz parte daquele imenso arsenal de coisas, às vezes delicadas, às vezes divertidas, às vezes meio cínicas e/ou sádicas, que a gente faz, coisas que dão um trabalho da mulesta, e que a gente sabe, ainda enquanto faz, que quase ninguém vai ver.

Mas aí os cabras te dão uma coluna no blog da editora, certo?

Então aguentem.

Tudo começou com um diálogo entre dois estudantes universitários, pernostiquíssimos, Dedalus e seu amigo/nêmesis Cranly (que é citado de passagem no começo do Ulysses). Dedalus começa falando inglês, mas Cranly em suas primeiras réplicas só fala latim! (E veja que Mulligan, o amigo/nêmesis de Dedalus no Ulysses, também abre a boca primeiro em latim.)

Mas, mais (ou menos) que latim, o que ele fala é um latinório forjado e forçado, montado em cima das estruturas do inglês.

Dedalus, por exemplo, de cara pergunta se ele assinou uma petição: have you signed. E ele responde ego habeo.

Ora, ego habeo quer dizer eu tenho. O que não faz o menor sentido, a não ser que seja lido como tradução direta e meio porca do inglês I have, que responderia àquele have you da pergunta. Eles estão se divertindo com o latim.

Todo mundo que estudou seu latim faz isso às vezes. Piadinha pra iniciados. Nerdice.

Mas o fato é que as traduções tendem a deixar intocado e meramente transferido o ego habeo de Cranly, o que pura e simplesmente não faz sentido. Cranly diz que dedalus é um sanguinarius mendax, que só faz sentido como tradução de bloody liar. Ele diz que Dedalus está in damno malo humore, que seria in a damn bad humor. Isso tudo teria que ser reescrito em latim.

Na nossa (esperem pra ver), o latinório dos dois (Dedalus depois entra na dança) é todo baseado em construções aportuguesadas.

E como eu se diverti fazendo isso!

E como lembrei do Ulysses, onde outro estudante pernóstico diz diabolus capiat posterioria nostria, que é latinório pra and the devil take the hindmost, e que, novamente, tende a ficar inalterado nas traduções.

Mas não no Ulysses 2012, Companhia das Letras!

Ah, não!

Lá a gente tem qui ultimusque sacerdotis uxorem.

Quem chegar por último é a mulher do padre!

:)

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (artes)

Por Caetano Galindo

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Cy Twombly, “Untitled”, 1968/1971

Na coluna deste mês, Caetano Galindo escreve para a série de textos A primeira vez

* * *

Eu tenho cabeça de músico. As minhas “primeiras vezes” mais encantadoras vieram de música. Asyla ao vivo na sala São Paulo. Os Toy Dolls ao vivo no AeroAnta. Raphael Rabello no Teatro Guaíra. O “adagio” do primeiro Concerto de Brandemburgo no primeiro vinil que eu comprei.

Mas se o espírito geral dessa coluna é falar de tradução, vou ficar com outra arte. Eu, camaradinha cuja sensibilidade visual é míope na mesma medida das faculdades oftálmicas. Mas mesmo os ogros têm seus momentos, e eu, nessa última década-e-quase-meia com a Sandra, fui a mais museus e aprendi mais sobre artes plásticas do que em toda a minha vidinha prévia.

Dessa trajetória, eu tiro alguns nomes. Bernini. Turner. Twombly.

Bernini eu vi pouco ao vivo. Turner, bastantinho. E a exposição Turner and the Sea, em Greenwich (fomos juntos, mas no dia seguinte eu encarei a viagenzinha de novo, sozinho, pra ficar sem mais ninguém diante das marinhas que ele pintou no fim da vida, bem na hora de abrir a exposição) é uma “primeira vez” pra ninguém botar defeito.

Agora o Twombly…

Eu tinha visto uns quadros dele. Lembro especificamente de um, que a bem da verdade é meio que a única coisa de que eu lembro bem de toda a Bienal de São Paulo de 1996, pra onde eu me mandei de busão pra tentar ser um cabra civilizado.

Mas, em tempos pré-Google & -Wikipédia (sim, jovem leitora, jovem leitor…), e se você ainda fatora aquele ogrismo pré-confessado, não pude ir atrás de mais nada. Só guardei a imagem da tela, que parecia uma lousa verde de escola rabiscada de giz, e esse nome meio difícil de esquecer.

Catorze anos depois, já com a Sandra, em Munique, a gente tirou um dia pra ir ver o museu Brandhorst.

Eu fui meio assim…

Arte contemporânea às vezes me deixa meio desinteressado. Mas fui. Diga-se de passagem, só o prédio do museu já vale o ingresso.

Vimos o térreo, vimos o subsolo e tal. Coisas boas. Nomes sólidos. Tudo muito interessante. Mas aí a gente subiu pro último andar, que é todo dedicado a Twombly.

Eu não tenho como te descrever o que aconteceu comigo nessa hora. Na verdade, ainda acontece. Está me deixando de queixola trêmula aqui, agora, enquanto escrevo. Enquanto lembro.

Tudo ali em cima é sublime.

Esculturas, telas isoladas. Mas aí você entra numa sala retangular imensa que tem basicamente rosas. Aquelas rosas inimitáveis que só ele sabia pintar, no limite do figurativismo infantil e barato e do abstracionismo mais “conceitual”. O efeito daquela sala já é uma pancada.

E além de tudo ele rabisca uns textos nas telas, e um deles é o all shall be well, and all shall be well, and all manner of thing shall be well que o velho T.S. Eliot copiou de Juliana de Norwich, uma mística inglesa da virada do século XV, e que de alguma maneira sempre faz vibrar o meu coraçãozinho mirrado.

Acabasse ali, aquela visita já ia ficar marcada aqui na vida das retinas fatigadas deste que vos tecla.

Mas a sala mais recolhida, no extremo daquele andar, como que o último canto do museu, foi originalmente projetada, inteira, pra receber um conjunto de obras. Há ali duas esculturas, também, mas a longa parede branca daquela sala em formato de meia-lua, toda a curva que te encara encantadora no momento em que você pisa ali dentro, é dedicada a um ciclo de 12 telas pintadas para “narrar” a batalha naval de Lepanto, em 1571, entre a “Liga Santa” e o Império Otomano. A batalha onde Miguel de Cervantes acabou ferido.

É isso que eu não sei contar. É isso que eu não sei se consigo tentar dizer.

O efeito daquilo.

O branco total daquele arco, que espelha os arcos negros que iconizam os barcos envolvidos na batalha, o lindo azul do mar, o sol e o sangue. A cada tela mais sangue. Mais violência. E no entanto o conjunto todo transmite um esplendor, uma leveza…

Ver aquilo ali, no que hoje é pra mim talvez o meu lugar preferido no mundo (ainda não voltei… ainda não voltei…), foi a coisa mais próxima de uma experiência religiosa que um fato não-musical gerou em mim. O choque de morte e arte, de beleza e fim, de encanto e pasmo. Awe, como dizem os ingleses.

A estranha sensação de que do meio daquilo tudo saía a notícia de que de fato tudo ficará bem, e tudo ficará bem, e toda sorte de coisas ficará bem.

Não sei se foram escamas. Mas alguma coisa me caiu dos olhos naquele caminho que me levou até Lepanto.

Tente ir ver.

Não acredite em mim.

Eu não consigo te dizer. Nem aqui nem aqui.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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