Caetano Galindo

Em tradução (Melancolia)

Por Caetano Galindo

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[Uma VERSÃO desse ‘treco’ DEVE estar no livro que DEVE se chamar Se eles não estão sozinhos, que DEVE ser lançado ainda este ano…]

Era lá no filme do Lars von Trier. Aquele do meteorão. Foi num daqueles cinemas mais metido a besta, daqueles que têm lugar marcado e tudo. Só eu mesmo. Sei lá. Sozinho. E começou errado porque eu fui tudo empolgadinho e comprei ingresso direto naquelas máquina de vender ingresso, pra não ficar na fila do ingresso do caixa. Não, não tinha pilhas de gente querendo ir ver o do Trier. Na mesma hora começava sei lá mais uns dois filme desses cheio de gente querendo ir ver. E tinha pouca gente no caixa. E tudo analfabeto. Atendendo. Tudo lobotomizado. Uma lerdeza que era um poema épico albanês. Aí que eu fui direto na maquininha, porque nunca tem muita gente na maquininha, acho que as pessoa acham que sei lá o que que elas acham, mas o que eu sei é que nunca tem muita gente na maquininha. Tinha só uma pessoa na minha frente. Uma tia meio lobô também. Que ficava com o dedo assim meio parado coisa de meio centímetro na frente da tela. Parado no ar, pensando antes de cada toquinho na tela. Parecia até que tipo o dedo dela era que tinha um cérebro não-lobotomizado ali. E que era o dedo que ficava olhando pra tela e tipo ponderando as decisões. Como se ela carregasse aquele dedo pensante e tivesse que esperar o processo decisório do dedo. E isso com uma coisa na tela tipo ‘confirmar compra’. E eu numa neura, que eu sempre tenho essas neura, por mais que eu saiba que é só neura, eu sempre tenho, por isso que é neura, né? Eu numa neura disgramada que podia acabar os ingresso e eu ficar sem. Que claro que não, né? No fim tinha tipo oito ou dez neguinho na sala. Oito ou dez e olha lá. Mas eu ali meio com pressa, e querendo já quase dar um tapa no cotovelo da tia pra atochar o dedo pensante direto na tela. Mas ok. Mas vá lá. E nem foi isso. O que deu errado, que já começou tudo esquisito, foi que sei lá o que que me deu na hora, se de repente foi que eu não entendi assim aquele mapinha da sala que aparece na tela da máquina de ingresso, sei lá. Só sei que eu acabei comprando uma cadeira na primeira fila! E eu queria na última. Na última! Mas acabei comprando na primeira fila. Tipo A7. Uma coisa. Mas fui lá e sentei, meu. Força na peruca. E tal. Porque eu comprei aquela, né? Aí era aceitar. Porque nem era tão ferrado assim, porque o cinema, esse cinema gourmet e tal que eu te falei, tinha aquelas cadeira bacanona que inclinam pra trás e levantam o pezinho do caboclo. E acabou legal. Deitadão ali. Vendo o meteorão assim na cara e tal. Até gostei, sabe? Bacana. Mas nem todo mundo. E nem todo mundo, aliás, tem esse tipo de fortitude moral e de retidão de caráter. De ficar bem quietinho no lugar que comprou. Espera e verás. Porque tem gente que aparentemente gosta é da primeira fila. Sempre. E tem mais gente além que parece que não entende direito o tal do mapinha da máquina. Espera só. Mas antes teve a da velha. Ali na primeira mesmo. Do meu lado, tipo A8. Chegou uma velha tudo manquitola, de bengalinha, detonadaça mesmo, com uma tia. E a velha era tia da tia, pelo jeito. Que era como a tia chamava a velha. De tia. E ela chegou tipo, então o teu é aqui tia, eu tou ali mais no meio, e a Neuzinha ficou mais lá pro fundo, tá? Que, tipo, qualquer coisa é bom a senhora saber onde que a gente está e tal. E a sala vazêa!!! E me larga a velha ali. Tudo repolhuda na cadeira. Fazendo aqueles barulhinho com a boca que os velho fazem. E no que eu ia começar a pensar que ia ser foda assistir ali o filme com a velha boquejando do lado, me entra em cena a Neuzinha, que veio lá do fundão tipo em altos brados Não mas só deixa eu dar uma olhada na mamãe pra ver se ela tá confortável. E Mamãe a senhora está confortável? E a velha muxoxeia alguma coisa tipo Na boa, nem se incomode, guria. E a Neuzinha, Mas mãe a senhora sabe que aqui nesse cinema, que era o tal do cinema gourmet, não esqueça, a cadeira ela dá pra gente inclinar assim pra trás pra erguer as perna? Mas não precisa, Neuza, que eu não estou habituada. E ela disse habituada mesmo. Subiu no meu conceito, a velha. Não precisa, que eu não estou habituada, está bom assim. Mas a Neuzinha necas. A Neuzinha: lhufas. Ela queria era erguer os gambito da mãe. E fuçava que fuçava com o botão do lado da cadeira e nada. E aí uma menina atrás diz, Olha, a senhora tem que puxar assim pra trás ao mesmo tempo que a senhora aperta ali o botão do lado. E prestimosíssima que era, ela me dá o tar do puxão no encosto da cadeira da velha bem no que a Neuzinha aperta o botão. Isso com a velha tipo exercendo nenhuma resistência física. A velha era só um molambão largado ali se habituando e talecoisa. E na hora que a guria deu o puxão enquanto a Neuza apertava  eu só ouvi… porque eu estava ali comendo a minha pipoca e tentando fingir que nem estava acompanhando… eu só ouvi a velha dar um grwaaf! e vi um tamanquito que foi parar quicando lá perto da tela enquanto a bengala que a velha estava segurando meio contra o peito assim deu bem na gengiva da guria metida da fila B, que caiu sentada direto e soltou uns barulhinho meio de hamster estupefato enquanto a amiga dela dizia, Ai amiga, Ai amiga, que que foi, mas ai meu deus… Aí acaba então que agora a velha está esticada ali habituando e a Neuzinha tudo afobada com a gengiva da guria e com a mãe que aparentemente quer voltar mas nunca que vai ter força de fazer a cadeira baixar, enquanto ela, a Neuzinha, aperta toda doida o botão achando que vai pôr a mãe de novo sentadinha. Só que não, né. Que claro que não. Porque a velhinha não tinha mais nenhum músculo no corpo. Aí como é que ela ia baixar lá o treco das perna enquanto a Neuzinha apertava o botão. Levantei o olho da pipoca, olhei meio comprido pra Neuzinha, que nem dava por isso e, nesse momento, na verdade, decidiu mudar assim o ângulo de abordagem e virou o buzanfão bem pra cima da minha cara enquanto fuçava que fuçava no botão. E a velha lá. Zen. Sem nem mais nem nem por isso. E a Neuzinha falando sem parar e fuçando. E a menina lá atrás, a da gengiva sangrando, se arrastando pelo chão junto com a amiga, parece que procurando alguma coisa, mas ao mesmo tempo dizendo, fem fe fafer forfa com a ferna, e a Neuzinha, como? Fem fe fevir fa ela fafer forfa com a ferna. Hilário. Não fora tão trágico. Eu tava tipo super solidário com a velha ali. Aí eu levantei, contornei o fonfão da Neuzinha, me abaixei direto ali na frente da velha e falei Aperta ali que eu empurro. E acho que ela não tinha entendido. E nem ia entender. Mas como ela estava aperta que aperta aquele botão, acabou que na hora calhou de eu dar um empurrão bem quando. E a velha desceu. Tipo a abutre pousou. Ainda com a maior cara de nem foi comigo. E não é que a Neuzinha, antes ainda de ir lá buscar o sapato da mãe pertinho da tela, me agradece esfregando a palma da mão no meu cabelo? Sério. ‘Bom menino’. E deixou a velha em paz. Pelo menos. E foi aí. Foi aí que a coisa estranha mesmo aconteceu. Mesmo. Peralá! Porque tem gente, que nem eu te falei, porque tem gente que não se aquieta nisso de ficar no lugar que escolheu e tal. Tem gente que troca. Eu não troco. A retidão e tal. Mas tem gente que troca. E até aí até que tudo bem. Por mais que eu não troque, e tal, a gente aceita que os outros são diferentes. Por aí. Só que na hora que apagou a luz, com a velha ali do meu lado respirando meio rápido e com uma mancha meio de sangue na bengala que pra te falar a verdade nessa hora eu me liguei que tinha uma coisa cravada em cima com uma puta cara de dente. Tipo um incisivo. Parecia sei lá. Parecia um xamã da morte. A velha. E é aí que apaga a luz e é hora dos trailers e tal. E nessa hora, que é quando os caras mais bárbaros que compraram o ingresso errado que nem eu provavelmente porque viram tudo de cabeça pra baixo na bosta da maquininha de comprar ingresso vai ver que porque estavam putos com a tia lobotomizada, então que é nessa hora meu. A invasão. Porque trocar de lugar ok. Vá lá. Mas sei lá o que que tava acontecendo ali. Só sei que na hora que apagou a luz eu ouvi tipo um grito primal tribal barbaral tipo uuaaaaahhhh! Vindo lá do fundo da sala. E no que eu (e todo mundo, todos os outros 10 ou 12 na sala) e no que eu viro pra trás eu vejo uma dupla. Uns tipinhos. Parecia um pai e uma filha. Aparentemente civilizados. Pô, os caras tavam indo ver Lars von Trier! O cara careca e gordão. Assim com uma pança mesmo, assim meio vazando na frente da camiseta. E a menina magrinha esquelética, com uma faixa amarrada na cabeça que parecia, sei lá, parecia sabe aquelas gravata de tio bêbado em fim de festa de casamento de prima brega? Na testa? E o grito foi da menina. E os dois levantaram na hora do grito e desceram o corredor lateral do cinema, pra trocar de lugar, muito nitidamente pra trocar de lugar. Se bem que na hora eu sabe deus o que que eu pensei. Eu e a velha, que só apertou a manopla ossuda em volta daquela borduna de dente. Porque eles vieram descendo lá da última fila da sala, e vieram descendo os dois junto fazendo aquele barulho com a língua daquelas árabe em enterro sabe? Cara, parecia um caminhão de granja de peru descendo uma ladeira de pedrisco. Grulururgurlugurlruururg!. E eles desceram meio correndo, meio abaixadinho pra não atrapalhar (mas sério, cara, quem que simula uma invasão Tabajaro-palestina ao mesmo tempo que se abaixa pra não atrapalhar? E eles meio que corriam mas assim tipo na pontinha do pé), e vieram tipo um destacamento de hipster doido em dia de lançamento de iPhone, e tipo tomaram posse das cadeiras ali do lado da velha. A9 e A10. Mas de jeitos bem diferentes. Porque o cara, o gordão, essa hora o cara tava mais era rindinho que nem uma anã orgasmática, apesar de ainda fazer uns glulugugle vez em quando. Era tipo uma piada dos dois. Bonding. Mas a menina não. Ah… a menina não era assim tão simples.

E o trailer começou assim. A velha lívida. A guria do dente ainda rastejando atrás da cadeira. E a menininha subida na poltrona, olhando pro resto da sala atrás da dela, com a coisa amarrada da testa, um saco de pipoca esparramada na mão esquerda e batendo o peito com a direita. E dando um grito cara…Que nem bicho. Nem bicho, meu.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Wesley So)

Por Caetano Galindo

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Eu sou um cara otimista. Profundamente.

Por duas razões. Três, ok. Uma porque eu meio que percebo que os pessimistas tendem no fundo a ser otimistas frustrados. Explico: o cara tende a achar que a coisa está feia porque, no fundo, no fundo esperava que estivesse melhor. Achava que DEVIA estar melhor. Ele tem um horizonte de expectativa irreal e, logo, se frustra. Enquanto que os otimistas são a versão realista do pessimismo. Quando você pensa em tudo que podia estar pior do que está, não pode deixar de achar que tudo está bem decentinho…

Outra é que a gente tem um viés, né? Entre 10 notícias o ser humano típico sempre presta mais atenção na ruim. Notícia boa não vende jornal. Catástrofe traz popularidade. Catastrofismo é sinal de inteligência/informação… o caralho! (sorry…) Prefiro olhar os dados.

A terceira é que de fato acho que a gente tem dados objetivos pra estar contente. Não vou entrar nisso, mas recomendo uns livros pra quem quiser, a começar por Os anjos bons da nossa natureza, do Pinker. Nas melhores lojas do ramo. Editado por esta mesmíssima e galunfante casa publiqueira.

* * *

Uma das grandes razões pra otimismo no futuro, segundo um camarada chamado Diamandis, por exemplo, é a internet. Não só o fato de que ela está aí, mas de que em mais dez anos deve ter atingido mais de dois terços da população do mundo. Como ele mesmo diz, hoje um pescador da Indonésia com um smartphone (e eles têm smartphones, que operaram uma pequena revolução por lá) tem acesso a mais informação do que Bill Clinton quando era presidente.

Ah, mas a qualidade dessa informação! Diz o pessimista chique.

E pra cada fulano que me reclama da imperfeição da Wikipédia eu lembro o lá de cima. Só reclama disso quem espera que ela fosse perfeita. Quem pensa no quanto ela podia ser pior, e no quanto é encantadora como possibilidade, só pode ficar feliz.

Exemplo da possibilidade que representa o acesso desses bilhões de indivíduos a essa rede toda? A ideia de que hoje os talentos são mais acháveis, o talento é mais democratizado.

No momento em que eu estou escrevendo, os dez maiores jogadores de xadrez do mundo incluem, na ordem: um norueguês, um italiano, um búlgaro, um armênio, um indiano, um russo, um holandês, outro russo, um americano e um filipino! Cadê aquela concentração de russos de vinte anos atrás? Ela era sintoma de um mundo em que o talento (professores, livros, estrutura de treinamento) estava centralizado. A internet e os programas de computador explodiram totalmente a centralização do xadrez. Aqueles dois primeiros, aliás, têm 23 e 22 anos de idade. Nasceram na internet. O primeiro deles, Magnus Carlsen (cujo eu possuo um autógrafo dele! aos 15 anos!!), não tem tabuleiro em casa.

* * *

Mas o diabo da coluna não é de tradução?

Pois é…

Eu, aos 41, sou um tradutor geração internet. Não posso (ninguém mais pode) imaginar o que seria traduzir sem acesso, por exemplo, àquela dita Wikipédia. Mais ainda, graças à rede e à digitalização do processo, posso fazer tudo o que faço daqui, do Alto da Glória, centro de Curitiba. Com o mesmo acesso à informação que tem qualquer um em qualquer lugar. Com a mesma chance no jogo.

Nós, quase todos, somos Wesley So, o filipino de 21 anos que é o décimo maior jogador de xadrez do cerúleo planeta internético.

A tradução literária no Brasil vive hoje talvez seu melhor momento.

E será coincidência?

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (recomendações)

Por Caetano Galindo

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Pois não é que numa das últimas colunas do ano passado uma leitora, Cíntia G., meio que me botou na parede? Da melhor maneira possível, reconheçamos (neguinho LÊ essas colunas!!)…

Emparedados pois sejades todos vós!

O negócio é que no texto eu mencionava que Graça infinita originalmente era um livro daqueles de que, na época pelo menos, se você não tivesse os amigos certos e tal, arriscava nem ficar sabendo. E ela me perguntou se eu tinha outros desses na manga.

Quer saber? Claro que sim.

Sempre lembro do personagem do Nanni Moretti (em Aprile, me informa o brodinho, que é quem tem memória cá na dupla…) que, ao descobrir as maravilhas que a anestesia peridural fez pela sua mulher na hora do parto, sai colando cartazes pelos corredores do hospital porque, pra ele, todos precisam saber!

Acho que todo leitor tem lá seus livros peridurais. Como é que esse mundão de meu deus não lê mais Ali Smith! É uma das coisas que eu mais me pergunto… E Lydia Davis! Putz! E Lydia Davis!!!

Delas não se trata nem de livros. São as obras. São coisas monstruosas!

Agora, o primeiro livro que eu li e fiquei com a sensação de ter sido injustiçado porque ninguém me avisou antes (tipo eu descobri a peridural depois de dúzias de partos infelizes) foi The Recognitions, de William Gaddis, nunca traduzido por aqui (Hel-lo-ooo). É um livro atordoante. Uma pancada, uma coisa incrível que possibilitou muito do Pynchon e muito do Wallace.

E esse Henry Green que o Britto me recomendou ainda mês passado. Que PUTA escritor diferente, sô!

E o P.G.Wodehouse, delícia das delícias!

E Wittgenstein’s Mistress, do David Markson, que eu fui conhecer justamente com o Wallace dizendo que era desmerecidamente ignorado?

E o megamestre que era o Wilkie Collins, que normalmente é só citado como “o cupincha do Dickens”… The Woman in White é brilhante!

E essa Kate Atkinson (Life After Life) que eu li ainda semana passada e que a Celina Portocarrero me diz que deu mais trabalho traduzir do que Proust! Eita livro diferente, sô… fico enternecidinho e empolgado só de pensar no bicho…

E já que estamos no assunto (filme pode?), como é que TODO MUNDO não conhece a sequencinha Caro Diario e Aprile: dois dos momentos mais encantadores do cinema.

Mas só livro de língua inglesa, Caetano. Não. Não necessariamente, né?

E Os Ratos, do seu Dyonelio Machado? E os romances do Diogo Mainardi, que agora que todo mundo rotulou como capetossauro da direita acha que não vale um merréis de mel coado, mas que produziu pelo menos dois grandes romances nos anos 90, com O polígono das secas e Contra o Brasil.

E o Trevisan, inteiro gênio, que vai aqui representando todos os contistas do mundo, eternos sub-lidos, eternos desconsiderados…

Enfim… lógico que eu vou mandar esse texto pra Taize e vou imediatamente começar a lembrar de tudo de fundamental que eu esqueci. Lógico que isso é mais ilustração, Cíntia, que enumeração definitiva. É um exemplo. Desculpa.

Mas obrigado por perguntar. E, please, cartas para a redação!

(Ah! e a Emily Dickinson! Hmmmmm! E o G.M.Hopkins!)

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Detalhes)

Por Caetano Galindo

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Tradutores são buscadores de detalhes. A nós todos interessa-nos tudo. Até, e às vezes principalmente, o que ninguém vai ver mesmo.

Porque o nosso trabalho é garantir que SE alguém for prestar atenção exatamente naquele cantinho, vai encontrar precisamente o que devia encontrar. Só garantir que esteja lá, aquela e qualquer possibilidade.

Numa aula do bacharelado de tradução aqui da UFPR, um dos alunos (Yuri Kulisky) apresentava o original de Berlin Alexanderplatz pra gente, que não lê alemão, ir propondo uma tradução conjunta. Uma das coisas que a gente comentou era que o primeiro parágrafo menciona três cores: nessa ordem, um casaco amarelo, um muro vermelho e um portão preto. E, ora, não é que são as cores, de baixo pra cima, da bandeira alemã?

Detalhe.

O curioso foi que o Yuri lembrou que na adaptação cinematográfica (onde o visual devia pesar) do Fassbinder, o casaco era marrom.

E foi-se a bandeira.

Pra um tradutor, erro impensável.

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Nisso de detalhes, queria então só deixar aqui meio que um presentinho de férias pra todo mundo.

É uma sonata (curtinha, facinha de ouvir, não temais!) do compositor/pianista turco Fazıl Say (detalhes… o “i” não tem pingo). Eu gosto muito da música e (acredite em mim) podia ficar muito tempo aqui falando de “detalhes” musicais.

Mas vou fazer outra coisa.

Justamente porque eu gosto de detalhes musicais, eu tendo a ouvir música, mesmo em público, mesmo em sala de concertos, de olhos fechados. Mas esse vídeo justifica uma exceção. Tanto o Say quando (especialmente!) a Kopatchinskaja (e que nome!) são uma alegria de se ver tocando. Ele, em outros vídeos, gesticula muito, fala, resmunga, olha pra plateia. Aqui, acompanhante, está mais contido.

Mas ela é um prazer de se ver.

No segundo movimento, a fúria. A explosão… Duvido que tenha muito guitarrista de metal aí que seja mais roquenrol que ela! E como ela sempre se inclina pra esquerda nas notas mais agudas. E como o corpo todo dela parece terminar em violino. E o gesto acostumadíssimo de tirar e pôr o violino no ombro. E o cuidado ao tirar a surdina sem fazer barulho. E aquele cabelo doido pulando!

Dá pra ouvir o vídeo no mudo, só se divertindo com as caras maníacas dela.

Mas, puxa, aí você perde a música… Mas e vale também ganhar a música e perder o detalhe? Vale deixar de ver a bandeira na cena do livro?

Sei lá.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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Em tradução (Graça Infinita)

Por Caetano Galindo

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Estamos a poucos dias. Mais duas semaninhas e o livro deve estar nas livrarias.

Estava, agora há pouco, dando uma entrevista sobre ele. Ok, lançamento de certa visibilidade sempre gera esse tipo de coisa. Na boa. A vingança do fofinho: a “celebridade” do anônimo: a voz do tradutor…

Mas, hmmmm, essa entrevista em particular era em inglês, feita pra sair lá fora. Pois uopa e iepa, ai peralá!

O que é que os gringos podem querer saber de uma tradução brasileira de um romance deles? E de um romance de quase vinte anos de idade?

No fundo é disso que eu queria falar aqui, hoje. Porque nem todo livro gera esse tipo de atenção, esse tipo de (quase) devoção de parte do público leitor (do original, nesse caso). Os leitores de Wallace quase formam um clube tão unido quanto, sei lá, o dos leitores de Harry Potter!

E eu sou um deles, não me estranhe… (um dos leitores de Wallace, que formam um clube quase tão unido quanto, sei lá, o dos leitores de Harry Potter, bem entendido, não um dos leitores de Harry Potter…) Mas esse tipo de amor, de ligação violenta com um romance de “alta literatura” não é uma coisa que a gente vê acontecendo todo dia.

Em grande medida, isso tem a ver com a própria inacessibilidade do livro. Não é qualquer leitor que fica sabendo dele, você precisa ter os amigos certos, ler os jornais ou blogues certos. Não é qualquer leitor que dá conta das mais de mil páginas às vezes pesadas do livro…. (Não se engane, o livro não é um Ulysses de complexidade e, página por página, é provavelmente mais divertido do que qualquer coisa que você já tenha lido, mas ele simplesmente não subestima a tua inteligência, e não se encolhe diante de temas doloridos, doídos, dolorosos… É um livro grande, de gente grande.)

E aí quem chegou ao fim sempre exulta quando encontra outros leitores.

E é por isso que os americanos podem estar interessados na gente (e, creio eu, morrendo de inveja da nossa capa! [não posso dar nomes, mas estou em contato com outros tradutores do livro, pra outras línguas, e essa inveja é generalizada!]). Eles estão vendo o seu pequeno clube aumentar. E querem saber de vocês.

De nossa parte (sei que falo por mim e pelo André, e imagino que fale por todo o pessoal envolvido com o projeto), essa é precisamente a razão que faz o lançamento de Graça Infinita ser um evento pessoalmente até mais “pesado” que o do Ulysses.

Joyce tem um século da mais sólida reputação. Mesmo que a minha tradução fosse uma merda, ele ia sobreviver. Di-rei-ti-nho.

Mas Wallace ainda está sendo gradualmente apresentado ao público brasileiro.

Trata-se de um escritor que não faz feio na comparação com o autor do Ulysses e este Graça Infinita é o seu maior cartão de visitas. E eu estou morrendo de curiosidade pra saber se vocês vão achar que eu fiz (e a gente fez) um bom serviço nisso de trazer, se tudo der certo, alguns milhares de leitores novos pro clube dos que tiveram sua vida alterada pela Graça Infinita.

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de Tom Stoppard, James Joyce e Thomas Pynchon, entre outros. Atualmente está revisando a tradução de Graça infinita, que tem lançamento previsto para 2014. Ele colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.
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