Carol Bensimon

Isso realmente aconteceu assim?

Por Carol Bensimon


(Foto por Ricardo Duarte)

Eu estava comendo um pastel com uma amiga que vou chamar de Joana. Sexta-feira, pelas dez horas, mesa na rua, num bairro escuro e quieto. Era mais ou menos o meio do pastel e Joana tentava me convencer de que eu devia dançar. Não ali, na pastelaria do uruguaio, mas algum dia desses, um sábado à noite, por exemplo, numa casa do ramo, cheia de gente fazendo exatamente a mesma coisa. Eu nunca danço. Tenho absoluta vergonha de fazer em público qualquer movimento que lembre uma dança. Comecei então a me sentir a estranha de sempre (eu com 18 anos sentada na escada de uma boate, tomando martini). Felizmente, o assunto logo acabou. Joana perguntou do meu livro, e eu disse que estava andando. Ela perguntou algo sobre a história, e como Joana é uma grande amiga, apesar de nossas discordâncias, eu disse a ela algo sobre a história. Foi aí que Joana riu com certa maldade, numa espécie de “te peguei” generalizado, e isso porque 15% do que eu acabava de contar sobre o romance parecia bater com a minha vida. Joana estava feliz por ser capaz de fazer essa correspondência entre a (futura) obra e a vida real da autora. Quanto a mim, eu sentia uma certa culpa por misturar ao bolo um pouco de material verídico.

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É claro que não havia nenhuma razão para eu me sentir culpada. De toda a forma, não era a primeira vez que isso acontecia. Eu perdi um amigo em um acidente de carro e, dois anos depois, publiquei um romance sobre uma garota que morre em um acidente de carro. Um bocado de gente conheceu esse menino, estavam lá no cemitério em estado de choque, consolando uns aos outros sem muita certeza, guardando aquelas memórias que os machucariam para sempre. No lançamento do meu romance, revi algumas dessas pessoas com quem tinha perdido o contato. Senti um constrangimento estranho. Elas sabiam, tanto quanto eu, o que estava na gênese daquele livro. “Te peguei”. Às vezes parece mesmo que você está trapaceando, que a sua literatura deve nascer de uma folha completamente em branco, que você tem que criar vidas que em nada lembrem a sua. Sei que isso não faz o menor sentido. Em todo o caso, é uma sensação difícil de evitar.

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Outras vezes, os pontos de contato entre a ficção e a realidade não me causaram nenhum desconforto, ao contrário, me divertiram à beça. Mas isso porque EU tramei o encontro dos dois mundos, ao invés de ser surpreendida por ele. O primeiro desses casos foi com meu primeiro livro, Pó de parede. Esse livro é uma espécie de tríptico onde crianças e adolescentes em fase de crescimento dividem seu protagonismo com elementos arquitetônicos. Na primeira história, há uma casa modernista e, bem, digamos que ela existe de fato, ou ao menos a casa que acabou por inspirá-la, que ficava perto do meu trabalho, e cujos ocupantes eu jamais vira. Quando o livro ficou pronto, escrevi à mão uma carta (“Olá, família”), adicionei um exemplar do livro, coloquei tudo num envelope de papel pardo e, zás, por baixo da porta. Passaram-se meses e ninguém fez contato. Um belo dia, quando eu já não morava mais em Porto Alegre, recebi um e-mail da proprietária da casa, convidando-me para uma visita. Lamentei o fato de que não estava mais na cidade, e prometi que ia entrar em contato em outra ocasião. Queria tanto conhecer aquele pátio interno que eu tinha imaginado. Mas então o tempo passou, o e-mail sumiu, perdi as referências. Talvez tenha sido melhor assim.

O outro caso partiu da relação entre o fictício bar do Polaco, do Sinuca embaixo d’água, com o antológico Timbuka, bar portoalegrense às margens do Lago Guaíba. Jamais tive problema em admitir que um era o gêmeo do outro, o que levou inclusive o jornal Zero Hora a achar que era uma boa ideia me fotografar nas ruínas do bar em ocasião do lançamento do livro. Não me opus. Agradava-me imaginar o dono do falecido Timbuka abrindo o jornal no dia seguinte e surpreendendo-se com aquela matéria. Não sei o quanto isso pode parecer egocêntrico ou até mesmo infantil, mas eu queria realmente que minha homenagem chegasse até ele, ele que, alguns meses antes, tinha assistido as retroescavadeiras da prefeitura colocarem abaixo a parte mais fundamental de sua vida.

Passado algum tempo, uma amiga (não a Joana) me levou ao novo bar desse sujeito, que também se chama Timbuka, mas sem a alma, a vista e a história. Jogamos sinuca, bebemos vinho, comemos batatas fritas. O dono do Timbuka viu minha amiga crescer, de modo que se conhecem muitíssimo bem, trocaram palavras carinhosas, perguntaram um ao outro sobre terceiros. Lá pelas tantas, ela contou a ele sobre meu romance. Ele disse que já sabia, tinha visto no jornal. Saquei um exemplar da bolsa e o autografei. Ele agradeceu imensamente. Lembro pouca coisa desse contato (o vinho, a emoção). Ficou, de toda a forma, a boa sensação de que o círculo tinha se fechado.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Algumas revoluções escolares possíveis

Por Carol Bensimon

Estudei doze anos na mesma escola. Com o nome de um papa, mas laica. Nunca entendi se isso era um disfarce ou o quê, embora o nome remetesse ao “papa bom”, aquele que acusaram de maçom, aquele que acusaram de esquerdista, aquele que fez minha bisavó (judia) desligar o fogo, sentar e chorar quando sua morte foi anunciada pelo rádio. Por doze anos meu pai me levou e me buscou nessa escola que não era nada perto de onde a gente morava, mas que tinha uma proposta pedagógica convincente e diferenciada. O caminho era: Goethe, Silva Só, Princesa Isabel, Azenha, Carlos Barbosa, Sepé Tiaraju. No início, contávamos os carros amarelos que víamos no trajeto. No fim, ouvíamos meus CDs de soft rock dos anos 90.

As pessoas costumam perguntar a escritores há quanto tempo eles escrevem. Se eles escrevem “desde sempre”. Nunca perguntam aos engenheiros se eles desenhavam carros ou pontes quando crianças ou se os administradores tinham planilhas de gastos com bala e paçoca. Eu não escrevi “desde sempre” ― salvo um ou outro caso pontual, como o poema sobre a cor roxa ―, mas fui uma leitora desde quando foi possível. Meu colégio tem pelo menos a metade da responsabilidade por isso. A outra metade deve-se aos pais bacanas que tive.

Muito antes da inserção da disciplina chamada Literatura na grade escolar, as professoras de português já tinham nos feito ler um bocado de livros. A coisa degringola um pouco quando você é obrigado a vencer José de Alencar para ir bem no vestibular, mas nessa altura, por sorte, já haviam nos dito que literatura podia ser algo bem diferente daquilo. Na quinta, sexta e sétima série, havia um sistema engraçado, as chamadas entrevistas, que funcionavam mais ou menos assim: a cada trimestre, recebíamos uma lista com uma dúzia de obras, dentre as quais devíamos escolher três. Depois disso, em dias determinados, a professora chamava os alunos individualmente e pedia que eles lhe contassem sobre o livro escolhido. Era na verdade um bate-papo com pouca cara de avaliação, o que colocava a literatura em seu devido lugar (menos institucionalizada possível). Lembro de estar sentada com as costas apoiadas no marco da porta, esperando minha vez enquanto olhava para fora, para todo aquele espaço aberto que havia no colégio ― e que fazia com que ele fosse tão diferente dos outros colégios que, aos meus olhos, pareciam uns conventos ou uns hospitais ―, uma espécie de colégio para os filhos de quem tinha sido hippie ou votava no PT ou tinha uma grande biblioteca em casa, embora dissessem naqueles dias que ele já não era mais o que tinha sido antigamente. Bons tempos.

Dessa época, o livro que eu jamais esqueci foi O último mamífero do Martinelli (Marcos Rey), talvez porque tenha sido o primeiro que tendia mais para o adulto que para o infantojuvenil, onde havia o mistério que você espera encontrar nos livros quando tem treze anos, mas também uma certa sutileza, aquele vazio dos conjuntos abandonados, aquelas vidas retraçadas pelo protagonista, tudo isso era muito bonito e foi uma verdadeira revolução.

Depois vieram outras revoluções. Às vezes isso não é mérito de uma proposta pedagógica, mas da motivação, da competência e sobretudo da coragem de um ou outro professor, o que pode acabar fazendo toda a diferença na sua vida. Na oitava série, lemos O apanhador no campo de centeio e A revolução dos bichos. Acho que foi também nesse ano que tivemos contato com os contos do Poe.

Recebi um email dessa professora outro dia, dizendo que acompanha minha carreira e etc. Eu na verdade estava há anos à procura dela nas redes sociais da vida. Com frequência, também reconheço rostos de ex-alunos por aí. Um número considerável deles está envolvido com cultura. Ou pode ser que eu esteja vendo as coisas pela lente da idealização e esquecendo de colocar na conta aqueles que não foram influenciados por nada disso e também aqueles que estudavam lá simplesmente porque era o colégio mais perto de suas casas. Mas eu sinceramente prefiro acreditar que aquelas paineiras e aqueles livros e aquele caminho comprido por avenidas feias e intermináveis formou boa parte do nosso caráter.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

Paris e todos os outros lugares do mundo

[Estamos felizes em anunciar que, a partir de hoje, Carol Bensimon entra para o nosso elenco de colunistas. Ela escreverá quinzenalmente às sextas-feiras, alternando com Tony Bellotto.]

Por Carol Bensimon

Em julho do ano passado, eu estava subindo uma rua em direção ao Panthéon e encontrei um set de filmagem. Não era propriamente estranho encontrar coisas sendo filmadas em Paris. Houve o caso da rua estreita convertida em século 16 (com barro), a modelo atravessando uma esquina repetidas vezes, e o cara dentro do Sena gritando “você é louca ou o quê?” e levando mais água na cabeça. Ainda assim, aquele set parecia grande e complexo: todas as ruas dos arredores estavam fechadas e havia uma dúzia de postes falsos esperando para serem instalados. Postes falsos = cinema americano, pensei com certa simplicidade, decidindo perguntar o que estava acontecendo para alguém que estivesse com um walkie-talkie ou algo semelhante. Era o novo filme do Woody Allen, Midnight in Paris. Que tal isso? Eu e um filme de Woody Allen dividindo o mesmo espaço, quase ao mesmo tempo. Não, ele ainda não havia chegado, só viria à noite, o que parecia fazer algum sentido. Carla Bruni tampouco estava lá.

Por meses e meses, fiquei pensando em como seria a Paris de Woody Allen. Não era por nenhuma espécie de fanatismo em relação a ele, mas porque naquela época eu também estava buscando a minha Paris, a Paris que apareceria em meu próximo romance, e eu estava falhando miseravelmente nisso.

Paris parecia perfeita demais, perfeita em excesso. Um consenso. A candidata natural numa competição das cidades mais lindas do mundo. O oposto do lugar onde você precisa cavar e cavar para achar o belo, e que nisso tem o seu valor. Comecei a pôr em dúvida se era mesmo a melhor cidade para meu livro, ou ao menos para parte dele. Tenho uma predileção — litéraria, é bom ressaltar, porque Paris como LAR era algo incrível — pelos lugares desencantados, desinteressantes, e minha obra pouco extensa está aí para provar isso. Em resumo, insira um adjetivo com o prefixo des-, esse é o lugar sobre o qual eu quero escrever.

Tudo parecia me dizer que eu devia abandonar o romance, ou no mínimo mudar o eixo da ação para algum outro lugar, com o punhado de adaptações que isso acarretaria na história. Mas o fato é que perdi bastante tempo afundada em todas essas ideias sobre Paris e sobre a impossibilidade de injetar melancolia onde tudo parece ordenado, cartesiano, ideias que, se são verdade, são apenas uma ponta da verdade. Afinal de contas, desde quando o universo representado coincide com o universo real? E onde eu estava quando esqueci de tudo isso? Você se apropria de um punhado de coisas que interessam para o clima que quer criar, e joga todo o resto fora. Não é muito diferente do bloco de mármore que se transforma em cavalo. Ou em lince, ou em urubu. Na obra de Patrick Modiano, por exemplo — um grande escritor francês, com traços particulares muito bem marcados —, não há um único turista andando pelas ruas de Paris. Em outras palavras: os pedaços que você escolhe acabam sendo muito mais significativos que o todo de onde eles foram retirados. O todo não existe mais.

Logo, eu podia ter qualquer Paris (talvez o que tenha me sobrado no início foram pudores de manipulá-la como me convinha, o peso dos séculos, o peso das n representações literárias, pictóricas, cinematográficas). Perceber isso, que, posto assim, parece simples, não foi exatamente um estalo repentino e poderoso, a partir do qual tudo começa a dar certo. Digamos que é zerar mais uma vez o cronômetro do imensurável tempo da gênese de um romance. Mas tudo está andando. Tudo tende a andar.

Semana passada, vi o trailer de Midnight in Paris. Não vou cometer a insanidade de avaliar um filme pelo trailer, mas, com relação à cidade, bem, a Paris de Woody Allen não pareceu muito diferente da de um guia de viagem a cores. Gosto muito do Woody Allen, mas é preciso admitir que ele não é um cara “de lugares”, como é, por exemplo Wim Wenders (que eu adoro) ou Jim Jarmusch (que eu detesto).

Me ocorre agora que Woody Allen está naturalmente associado a Nova York. No entanto a Nova York de seus filmes está nos personagens, nos diálogos que eles travam, mas dificilmente em uma parede de tijolos à vista ou no luminoso de um bar decrépito. Me ocorre também outra coisa: nada pode ser mais humano que um lugar sem pessoas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008, e no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Ela contribui para o blog com uma coluna quinzenal.