Carol Bensimon

A vida fora da tela

Por Carol Bensimon

25448625704_cc9e042e3e

Foto: Dirk Marwede

Estou lendo Romance moderno, de Aziz Ansari, um livro que se propõe a falar sobre relacionamentos na era digital. Não sei se gosto dos toques engraçadinhos de Ansari (o cara é comediante, eu ia esperar o quê?), mas os temas que ele toca e os dados que coletou são interessantíssimos. Por exemplo: eles — Ansari e o sociólogo Eric Klinenberg — pegam um grupo de pessoas e os separam por geração, filhos à esquerda, pais à direita. Querem começar uma discussão sobre relacionamentos, sobre como aquela gente conheceu seus namorados, namoradas, maridos, esposas, mas, antes de o assunto sério ter início, algo revelador acontece. No grupo dos pais, o papo rola solto. No grupo dos jovens, cada um está abduzido pela tela de seu celular. “Isso me fez pensar se nossa habilidade e nosso desejo de interagir com estranhos não seria [um] músculo que corre o risco de atrofiar no mundo do smartphone”, escreve.

A ideia de que estamos perdendo a habilidade de lidar com o mundo real é tão verdadeira quanto assustadora. Por “mundo real”, estou entendendo qualquer atividade offline, que contempla desde a interação com estranhos na frente de casa até o plantio de uma muda de rosinha-de-sol. Isto é, toda a existência até meados dos anos noventa. Para alguns, trata-se de uma mudança de hábito perfeitamente aceitável, e seria estúpido tenta resistir a ela. Para outros, há um certo desejo de resistência — ainda que poucas dessas pessoas estejam interessadas em abdicar completamente da tecnologia. De qualquer maneira, me parece que o natural é estarmos conectados a toda hora; trocar mensagens, procurar músicas em algum serviço de streaming, consultar avaliações sobre um restaurante antes de decidir experimentá-lo. Isso quer dizer que fazer algo diferente disso requer algum esforço de nossa parte. Segundo Ansari, o norte-americano passa em média sete horas e meia por dia diante de uma tela. Em países emergentes como Brasil e China, esse tempo é ainda maior.

Eu estou. Digo, tentando aumentar o tempo de vida offline, embora me sinta um pouco ridícula ao perceber a dose de consciência e de não-naturalidade que precisa ser empregada nisso.

Algum tempo atrás, escrevi nesse espaço que a literatura era a maior das transgressões do mundo contemporâneo porque parecia um dedo médio erguido para a velocidade absurda das coisas. Em um mundo em que as pessoas não conseguem se concentrar em uma mesma atividade por mais de quinze minutos, sentar para ler um romance é com certeza um ato de resistência. E escrevê-lo, mais ainda.

Para quem quer aumentar o tempo de sua vida offline, eu digo: leia. Leia sozinho na sua poltrona, mas não só isso (embora isso já seja incrível o suficiente). Tente evitar que aquele músculo da interação com estranhos — no mundo real — se atrofie. Vá a clubes de leitura e compartilhe suas experiências. Tem um monte deles pipocando por aí. Faça um clube de leitura com os amigos. Ok, não serão estranhos, mas encontrar amigos pessoalmente talvez seja algo que precisamos exercitar mais também.

Vocês conhecem a TAG, um clube de assinatura de livros? Você se associa e recebe na sua casa um livro por mês. Um livro surpresa, escolhido pelo curador do mês. E, aqui em Porto Alegre, estão rolando encontros para discutir esses livros na Casamundi Cultura. Custa menos que um ingresso de cinema e ainda exercita o tal do músculo da interação com estranhos.

É só um exemplo. Jardinagem. Desenho. Violão. Caminhada. Discos.

Cozinhe. Vai perder tempo? Vai. Mais tempo do que pedir comida pelo telefone? Aham. O que é perder tempo? Como se pode medir perdas e ganhos quando se trata de tempo? E, me diga, nós estamos salvando minutos para que mesmo?

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Vontade de ordem, vontade de caos

Por Carol Bensimon

david_lynch_mulholland_drive_boite_bleue_blue_box

A caixa azul em cena de Cidade dos Sonhos, de David Lynch.

Estou escrevendo um livro e alguém me pergunta, depois de ler todas as páginas que tenho: quem é o Arthur (o protagonista) para você? Isso me deixa pouco à vontade pois não quero ser grosseira, mas tenho a convicção de que a pergunta não faz o menor sentido. O personagem é o que está expresso no texto. Pensamentos, ações, memórias, as roupas que usa, a forma como se comunica com os outros, etc. Não existe nenhuma versão mais “completa” de Arthur ou de quem quer que seja na minha cabeça. Se existisse, isso me acenderia a luz piscante amarela. Porque, ao longo dos anos, passei a acreditar em algo bastante simples: se um ficcionista é capaz de falar horas e horas para seu público sobre o personagem que ele criou, mas, ao ler/assistir a obra em questão, você não vê mais do que 1% de toda aquela vida interior descrita anteriormente com tanto entusiasmo e propriedade pelo seu criador, bem, a única conclusão que podemos tirar disso é a de que algo saiu muito errado no caminho.

*

Isso é completamente diferente de uma boa conversa entre leitores sobre um personagem complexo. Não consigo ver nada mais recompensador, aliás, do que produzir esse tipo de efeito nas pessoas. Acabo de terminar Pastoral americana e seria ótimo se eu tivesse alguém com quem conversar sobre o intrigante Sueco, mas a última pessoa com quem eu gostaria de fazer isso seria o próprio Philip Roth. Não acredito que ele saiba mais sobre o Sueco do que a gente sabe, quero dizer, que ele saiba mais do que fez questão de expôr. Além do mais, qual seria a vantagem em ouvir do próprio Deus o por que de um camelo ter sido feito com aquelas corcovas? A última coisa que eu quero numa discussão desse tipo é que alguém exerça um papel de autoridade. Se David Lynch estivesse acessível para responder nossos enigmas sobre caixinhas azuis e caubóis, seria o fim de toda a mágica e de toda a insônia.

*

Deve haver n razões para uma pessoa escrever romances, e não compor canções em um banjo, pintar quadros abstratos ou fazer performances que envolvam nudez, jejum e facas de serrinha. Uma delas tem de ser a vontade de criar um mundo aparentemente organizado. É claro que há diversos níveis de organização, ou melhor, escritores mais ou menos apegados aos aspectos apolíneos da criação, mas algum tipo de ordem faz parte do processo de escrita de qualquer texto ficcional longo. Zadie Smith, em um ensaio chamado That crafty feeling, divide os romancistas em macro planejadores e micro administradores. Os primeiros, segundo Smith, são aqueles que tomam notas, definem um enredo, organizam uma estrutura. Os segundos – grupo no qual Zadie Smith se inclui – escrevem frase a frase sem saber muito bem onde vão chegar. Talvez isso seja perceptível nos romances de Zadie, ou ao menos em Dentes brancos, como ela mesma admite nesse ensaio, uma narrativa que começa maravilhosamente bem e vai se perdendo ao longo das suas quinhentas e tantas páginas (minha opinião).

*

Se alguém souber qualquer coisa sobre o processo criativo de Pastoral Americana, por favor, me conte.

*

O fato é que existe um macro planejador e um micro administrador em cada romancista. Só que os dois termos de Zadie Smith, no fim das contas, estão falando de ordem, de organização, montagem; o primeiro da grande estrutura, o segundo do detalhe, da sintonia fina. Para abarcar tudo de maluco, inconsciente e não planejado que surge em um romance, talvez a gente possa dizer que duas forças antagônicas atuam na cabeça do escritor: uma está louca para criar um mundo e poder controlá-lo, dar a ele a lógica que não se encontra na vida real, enfim, todas essas coisas que ficam bastante óbvias quando a gente deita no divã de um psicanalista; a outra tem a ver com a clara sensação de que você não sabe o que está fazendo, sobre o que está falando e onde afinal toda aquela história vai parar.

*

Donald Barthelme, em um ensaio meio estranho para quem não se interessa tanto pelo pós-modernismo, escreve que “não-saber é crucial para a arte” (Not-knowing é o título do texto, mas ele escorrega para dezenas de outras reflexões que não têm uma relação tão direta com isso). De fato. Uma dose de não-saber é crucial tanto para quem produz arte quanto para quem recebe arte. O que é engraçado é que frequentemente os escritores reclamam disso, se sentem angustiados, inseguros, perdidos em becos sem saída. Como se não fosse também extremamente delicioso tatear às cegas e encontrar o inominável.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

A montagem de um universo complexo

Por Carol Bensimon

3089541727_9b4f1fc699

Um romance é um troço maluco. Há tanto que acontece antes de se escrever a primeira linha: diagramas, fotografias, canções, um diálogo na sua cabeça, a intenção de discutir certos temas, leitura de livros que você não tem certeza se irão ajudar, pedaços de memória, histórias roubadas de pessoas que estiveram na sua vida por vinte minutos, um lugar e como o lugar se parece quando a neblina toma conta dele e o que pode acontecer quando dois caras marcam de fazer uma transação ilegal numa estradinha enevoada dessas. Alguns podem argumentar que o inconsciente deveria tomar conta de tudo, inclusive do sentido e da ordem, e que planejar qualquer coisa é estúpido e limitador. Minha crença é de que isso é válido para alguns livros, geralmente do tipo que mergulha na cabeça de um personagem, privilegia a forma em detrimento da trama, e que portanto vê muito pouco do mundo exterior. Podem ser livros bons ou ruins, mas eu sinceramente acredito que essas escolhas têm um enorme potencial para esconder mediocridade e preguiça.

Abraçar uma forma mais “clássica” (não sei se esse é o termo adequado), por outro lado, exige a compreensão e a criação de um universo complexo: vários personagens e várias visões de mundo orquestradas, histórias pessoais ricas, talvez um contexto histórico e político, cenários detalhados que despertam sensações. Exige mais páginas, inclusive. Dá muito mais trabalho, mas trata-se de uma escolha que vai ao encontro do que John Gardner (autor do clássico A arte da ficção) chamou de “sonho ficcional expressivo e contínuo”. Adoro isso. “Sonho ficcional expressivo e contínuo” é o que faz o leitor se sentir dentro da história, mesmo que os personagens, situações e lugares representados estejam tão distantes de sua realidade pessoal. Envolvimento, em resumo, no sentido mais expressivo do termo.

Desconfio que o escritor que se propõe a tomar esse caminho — não o da exibição técnica, o da piscadela literária, o que mostra as engrenagens de propósito (todas essas opções válidas, claro) — está aceitando automaticamente o fim do mito da genialidade, esse anjo que fica em nosso ombro soprando frases maravilhosas e montando uma história sem que a gente precise se esforçar muito. Nunca é fácil abrir mão disso. Sentar a bunda no chão diante de um monte de fichas pautadas que representam a estrutura de um romance pode parecer tão “não artístico” em uma primeira olhada, mas me parece que a arte, nesse caso, está em conciliar um certo rigor com o mágico e o inexplicável. O romance precisa ser domado tanto quanto precisa ter o seu espaço para sair correndo.

Ele corre quando o escritor senta diante da folha ou da tela e o branco começa a ser preenchido com imagens e ações que ele não sabe ao certo de onde vêm e por que vêm, mas que provavelmente vão fazer sentido depois. É impressionante como se dão esses processos inconscientes. Quando eu decidi colocar a palavra “caubóis” no título do meu livro, eu não fazia muita ideia do que estava fazendo. Mais tarde, tudo me pareceu claríssimo.

Estou montando uma oficina chamada A arquitetura do romance, e desde o início eu tive certeza de que queria começar o curso falando de tudo que antecede a primeira frase de uma narrativa longa. Acho fascinante isso que estou chamando de “a montagem de um universo complexo”, que envolve muita leitura, esquemas, anotações dispersas e um pouco de teatro mental, o que para mim parece tudo, menos frio e engessado. Deve ser parecido com ser uma criança e tocar em uma coisa felpuda pela primeira vez.

Talvez não seja simpático o que vou dizer, até porque ter opinião, acreditar em alguma coisa, sempre pode soar pretensioso, mas tenho a impressão de que estão faltando “universos complexos” na literatura brasileira contemporânea. Há muitas razões para isso, e acho que levantei alguns deles nessa antiga coluna que fala sobre livros extensos. A de natureza prática não pode com certeza ser ignorada: em um país onde o mercado literário não lida com grandes cifras, dedicar-se a um romance enorme por anos a fio não é a coisa mais viável do mundo (ainda que escrever ficção não seja simple$ em país algum). Outra hipótese: falta técnica? Não sei exatamente o que pensar sobre isso. E ainda outra: é menos arriscado fazer, por exemplo, um livro que seja uma grande tiração de onda com o mundo literário do que tentar manejar a vida de três pessoas (faxineiro, guia turístico, deputado) que trabalham no Congresso Nacional durante a Era Lula? Sim, é.

 

Narrativas de menos fôlego podem ser sensacionais. Michel Laub e Lourenço Mutarelli são pessoas que fazem isso muito bem. Mas acredito que não nos faria mal nenhum ter uma versão local do Jeffrey Eugenides ou do Jonathan Franzen.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

Carol e Therese

Por Carol Bensimon

carol

Cena do filme Carol, com Cate Blanchett e Rooney Mara.

(O texto contém spoilers.)

Achei Carol um filme arrebatador. A cena da loja de departamento me fisgou e me levou meio sonâmbula para todo o resto. É sutil, tenso, sincero e visualmente acachapante. Como todo filme de época, acredito que há esse olhar contemporâneo que se funde com o retrato de certo recorte do passado, criando uma obra de arte que flutua entre dois tempos. Então a Therese, para mim, é uma menina de 20 anos de hoje, o que faz ainda mais sentido quando percebo — lendo o livro — que a personagem passou de aspirante a cenógrafa para aspirante a fotógrafa. Totalmente 2016. Em um nível mais profundo, a própria construção da relação amorosa que se estabelece entre as duas mulheres diz tanto sobre aquele tempo (as dificuldades, inclusive no plano jurídico, o preconceito) quanto sobre o nosso (a ideia que todos têm direito ao amor e de que ele, no fim, sempre vence).

Provavelmente a maioria vai discordar, mas acho que o filme de Todd Haynes com roteiro de Phyllis Nagy é melhor do que o romance de Patricia Highsmith, publicado em 1952 sob pseudônimo e cujo título original era The Price of Salt. Acontece às vezes. Aconteceu intensamente com Pecados Íntimos (baseado no romance Criancinhas) e O Iluminado. Carol é um bom livro que gerou um filme maravilhoso.

Tenho essa sensação sobretudo por dois motivos. O primeiro envolve distância e ponto de vista. No romance de Highsmith, somos postos dentro da cabeça de Therese e, para minha surpresa, sabemos desde o início que ela está apaixonada pela mulher loira de casaco de pele que cruzou seu caminho às vésperas do Natal. A questão, em resumo, é clara para Therese: ela se encantou perdidamente por uma mulher mais velha e vai fazer de tudo para se aproximar dessa mulher. Ao mesmo tempo, até certo ponto da narrativa não é possível dizer para onde Carol está conduzindo aquela história, se é que está conduzindo de fato. O livro todo nos faz acreditar que os sentimentos de Therese por Carol são mais fortes do que os de Carol por Therese.

Na adaptação de Nagy e Haynes, a distância que o espectador mantém das duas personagens cria uma espécie de equilíbrio de forças. Será que Carol aproximou-se de Therese na loja para flertar? Será que Therese entendeu naquele minuto que estava se sentido atraída por uma mulher e que isso era bem estranho em 1952? O que ela estava pensando quando enviou pelo correio as luvas esquecidas? Quem está seduzindo quem? Essa atmosfera de dúvidas dá uma grande força dramática ao filme, enquanto no livro a certeza de Therese e um certo tom piegas da narração prejudicam a excelente história.

O segundo motivo que me faz gostar menos do livro: embora ele seja um romance lésbico com um final feliz e isso tenha uma importância histórica absurda, não se pode negar que o amor das duas é retratado como um amor passional no pior sentido do termo, carregado na obsessão, no controle e numa negatividade latente. Com certeza não se trata de uma história bonitinha, e nem poderia se esperar outra coisa de uma escritora que ficou mundialmente conhecida por seus thrillers. A Carol de Patricia Highsmith é uma mulher um pouco perversa que lançou um feitiço em Therese, e nem o desfecho positivo do romance conseguiu me tirar essa sensação.

O filme, por outro lado, quer mostrar um amor puro, sincero e que tem tudo para superar as adversidades. Tudo bem, há uma dose de interpretações freudianas possíveis na relação que se estabelece entre as duas mulheres, mas isso não chega a abalar o tom romântico que perpassa toda a narrativa.

Aqui talvez possamos voltar ao que eu disse no início: o olhar de Patricia Highsmith deve ter ainda algum resquício de uma percepção da época — os anos cinquenta — sobre homossexualidade, embora em muitos sentidos o romance seja revolucionário, enquanto o filme está interessado sobretudo em tratar aquele amor com toda a normalidade que ele merece. O que não impediu que, duas poltronas à minha esquerda, uma mulher fizesse questão de dizer “que nojo” toda vez que uma cena erótica se insinuava. Para certas pessoas, algumas épocas nunca terminam.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Saída de cena

Por Carol Bensimon

philip-roth

Esse cara chamado Philip Roth. Um dia uma grande fã dele me deu Patrimônio de presente, mas eu demorei muitos meses para ler porque se tratava de um livro sobre o fim da vida de um homem, o pai de Roth. Sou medrosa com livros ou filmes que colocam doenças no centro da trama e, convivendo naquele momento com uma doença incurável em meu pequeno núcleo familiar, a última coisa que eu podia pensar era em ler sobre alguém que estava prestes a morrer página após página. Quando me senti finalmente preparada, foi devastador. Era um livro irreparável, sem dúvida, que acabou me ensinando uma grande lição: as verdadeiras obras de arte, mesmo quando tematizam a morte, contêm uma grande potência de vida.

Mês passado, meu pai começou a me falar sobre Fantasma sai de cena (meu pai, aliás, já leu muito mais livros de Roth que eu). Contou-me que, nesse romance, o famoso narrador Nathan Zuckerman discorre sobre uns tais de “momentos irrefletidos” (rash moments, no original), momentos esses nos quais tomamos em segundos, baseados em nada, uma decisão que pode definir/influenciar os próximos anos ou décadas de nossas vidas. Não sei por que meu pai começou essa conversa sobre os momentos irrefletidos, mas no dia seguinte ele apareceu aqui em casa com o tal livro, e eu me lembrei uns instantes depois que eu já tinha na verdade uma edição paperback desse mesmo romance, Exit ghost, e que ela devia estar soterrada por outros livros na parte de baixo do meu criado-mudo. Estava.

Você pode estar cansado, como eu, de ler livros cujos protagonistas são escritores, mas outra lição que Roth nos dá é que isso só é ruim quando o escritor é ruim. Quando ele é o Philip Roth, o que está posto em cena faz sentido para mais do que um pequeno grupo de escritores que se consome e se elogia porque aqui estamos tratando não de picuinhas ou de detalhes da vida literária que não interessam a quase ninguém, mas de dramas humanos com os quais todo mundo está inclinado a se identificar.

Zuckerman tem setenta e poucos anos em Fantasma sai de cena. Passou os últimos onze isolado em uma casa no meio do mato, tendo pouco contato com pessoas e absolutamente nenhum tipo de relação amorosa ou sexual. Não lê os jornais, não vê televisão, não dá entrevistas. Está distante, quer escapar, como diz muitas vezes no livro, do momento presente, encontrando refúgio na natureza e na arte. Mas o livro começa quando ele precisa ir a Nova York a fim de se submeter a uma pequena cirurgia. Então um dia abre o jornal em um café e lá está um anúncio que imediatamente chama sua atenção: um casal de escritores na faixa dos trinta anos quer trocar, durante um ano, um apartamento em Nova York por uma casa isolada em algum lugar. Nathan decide responder o anúncio.

O seu momento irrefletido número um aconteceu mais de uma década antes, quando decidiu trocar a cidade pelo campo. Agora o momento irrefletido número dois trata do caminho inverso, o impulso absolutamente injustificável de voltar à cidade, bem como de se aproximar de Jamie Logan, a texana aspirante a escritora que faz de pano de chão a racionalidade do septuagenário.

Estou deixando de lado outros personagens e detalhes da trama pois essas questões  vida mundana x vida dedicada à arte, cidade (momento presente) x isolamento (tempo imensurável), mais a irracionalidade temporária causada por um amor passional  já me são suficientes. Ainda acho impressionante como certas obras, lidas em determinados momentos da vida, têm o poder de balançar nossas estruturas ou de reorganizá-las com um sopro de lucidez, dependendo do caso. É curioso que as pessoas procurem “soluções” nos conceitos duros e nas afirmações categóricas dos livros de auto-ajuda, enquanto o contato via ficção com o ridículo, o sublime, a dúvida parecem ter um efeito muito mais eficaz (talvez justamente pelo fato de a literatura não estar comprometida com a ideia de “um efeito eficaz”).

Obrigada, pai.

* * * * *

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.