Carol Bensimon

Escovadas suaves e longas

Por Carol Bensimon

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Eu gostaria de ver vídeos em time-lapse de escritores na frente do computador. Provavelmente seriam os vídeos mais entendiantes do mundo, porque o escritor ficaria quase todo o tempo lá parado não digitando coisa alguma, olhando para a tela em branco ou para a paisagem que vê da janela. Claro que, nesse tempo, ele estará pensando no almoço ou na catástrofe da sua vida, mas também em diálogos entre seres fictícios, paisagens de papel e em como coordenar tudo isso ao mesmo tempo. Uma palavra depois da outra.

A grande estrutura da trama costuma ser desenhada em outro momento, anterior a esse, ou pelo menos assim parece ser o método de quem escreve narrativas longas. A maioria dos detalhes, por outro lado, aparece na hora da escrita. Detalhes são a base de tudo, e provavelmente a coisa mais negligenciada por quem entra em uma oficina literária. E isso não é exatamente uma visão muito pessoal ou o conselho de quem ainda é jovem demais para dar conselhos. Se você for atrás do que dizem grandes escritores ou críticos, vai descobrir que, de maneiras diferentes, eles estão dizendo a mesma coisa.

Em Como funciona a ficção, James Wood diz que a narrativa moderna tem como uma de suas características mais marcantes o apelo aos sentidos, a sensação de que estamos lendo algo “cinematográfico”. E uma outra característica dessa narrativa — que começa com Flaubert —  é que “o pavoroso e o comum sejam notados ao mesmo tempo”, o que, de certa forma, é uma consequência da riqueza de detalhes. Um trecho de O emblema vermelho da coragem, de Stephen Crane, exemplifica:

“Olhava para ele um homem morto, sentado de costas contra uma árvore que parecia uma coluna. O cadáver estava metido num uniforme que um dia fora azul, mas agora estava desbotado numa triste tonalidade esverdeada (…) Sobre a pele cinzenta do rosto passeavam formigas. Uma delas arrastava algum tipo de carga ao longo do lábio superior.”

Autor de O romancista ingênuo e o sentimental, um ótimo livro sobre processo criativo, o romancista turco Orhan Pamuk também entra na questão primordial dos detalhes. Segundo ele, nenhum personagem nasce na cabeça de um romancista como um ser psicologicamente complexo cujo temperamento responde aos estímulos externos; na verdade, o personagem se constitui pela observação que faz do mundo ao seu redor.

O que torna Anna [Kariênina] inesquecível é a precisão de muitos pequenos detalhes. Chegamos a ver, sentir e nos ligar a tudo da mesma forma que ela — a noite nevada lá fora, o interior do compartimento, o romance que ela está lendo (ou em vão tentando ler). Vemos, sentimos e nos interessamos como ela. Um motivo para isso talvez seja a maneira como Tolstói molda seu caráter: em contraste com a maneira como Cervantes retrata Dom Quixote, Tolstói apresenta Ana como suave e ambígua, deixando espaço suficiente para que nos identifiquemos com ela. Quando lemos Anna Kariênina, não somos deixados do lado de fora, como quando lemos Dom Quixote. O aspecto mais distintivo da arte do romance consiste em mostrar o mundo tal como os protagonistas o percebem, com todos os seus sentidos. E, como a ampla paisagem que vemos de longe é descrita através de seus olhos e de seus sentidos, colocamo-nos no lugar deles, comovemo-nos profundamente e migramos da perspectiva de um à perspectiva de outro para compreender a paisagem geral como um sentimento experimentado desde dentro. A paisagem em que as figuras caminham não lança sombras sobre elas; ao contrário, os protagonistas do romance foram imaginados e construídos para o preciso propósito de revelar os detalhes dessa paisagem e iluminá-la. Para isso têm de estar profundamente envolvidos com o mundo que percebem.”

Hoje alguém compartilhou um conselho de Chuck Palahniuk nas redes sociais e, pronto!, lá estava a mesma ideia em uma nova roupagem.“Evite os ‘verbos de pensamento’”, dizia Palahniuk (a dica na íntegra pode ser lida aqui). O que ele quer dizer com isso (estou tomando uma certa liberdade) é que verbos como pensar, saber, entender e acreditar podem ser atalhos para expressar certas coisas da narrativa, e que esses atalhos não são bons, mas o contrário disso; são preguiçosos e acabam fazendo com que não mostremos todos os detalhes que poderíamos mostrar.

Em vez de fazer seus personagens saberem qualquer coisa, você deve agora apresentar detalhes que permitam que o leitor os conheça. Em vez de fazer seus personagens quererem alguma coisa, você deve agora descrever a coisa para que seus leitores passem a querê-la também.”

Então Palahniuk não está dizendo que menos é mais. Mais é simplesmente mais. Por isso é que torço o nariz quando falam em “concisão” nas oficinas literárias (e fora delas também). Claro que concisão é importante em muitos sentidos, mas não me parece que essa precise ser a ideia mais forte a ser transmitida para um grupo de pessoas que deseja escrever ficção.

Para fechar, mais Palahniuk:

“Por exemplo: ‘Enquanto esperava pelo ônibus, Mark começou a se perguntar quanto tempo a viagem tomaria…’. 

Uma construção melhor seria: ‘A programação dizia que o ônibus chegaria ao meio dia, mas o relógio de Mark dizia que já eram 11:57. Dali dava para ver até o fim da rua, até o shopping, e ele não via nenhum ônibus vindo. Sem dúvidas, o motorista estava parado em algum retorno no fim da linha, tirando uma soneca. O motorista estava dormindo e Mark estava atrasado. Ou pior, o motorista estava bebendo e, quando ele parasse ali, bêbado, cobraria setenta e cinco centavos por uma morte horrível em um acidente de trânsito.’ 

Um personagem sozinho deve mergulhar em fantasia em memória, mas mesmo nesses casos você não pode usar ‘verbos de pensamento’ ou qualquer um de seus parentes abstratos. 

Ah, e você não pode se esquecer dos verbos lembrar e esquecer. Nada de frases como ‘Wanda lembrou-se de como Nelson costumava escovar seu cabelo’. Em vez disso, diga: ‘Quando estavam no segundo ano da faculdade, Nelson costumava arrumar o cabelo dela com escovadas suaves e longas’. 

Outra vez: desmembre. Não utilize atalhos.” 

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Neblina

Por Carol Bensimon

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Adam Granduciel, vocalista do War on Drugs, compôs o álbum mais bonito de 2014 e talvez o álbum mais bonito da década depois de episódios de depressão e paranoia. Leio isso em uma matéria velha do Guardian e meio que não quero acreditar; costumo ter a impressão de que períodos de excesso — seja tristeza ou euforia — são péssimos para a arte. Qualquer coisa que o deixe paralisado na cama ou com vontade de saltitar a cada segundo não vai ajudar em nem uma linha de um romance. Ou talvez ajude posteriormente (“depois de episódios de depressão e paranoia”), ou talvez um romance seja algo um pouco menos cravado no seu coração e um pouco mais dependente de filtros de calma e auto-controle. No fim de tudo isso, de qualquer maneira, o desconforto existencial do artista vai estar lá. Adam Granduciel escreveu Lost in the dream depois de terminar com a namorada e eu fico torcendo que eles tenham voltado e às vezes meio que achando que ela devia voltar com ele após algo tão bonito quanto esse disco, o que é um bocado ingênuo da minha parte porque a namorada ou Adam não tem mesmo nada a ver comigo aqui sozinha nessa estrada de terra sendo engolida pela escuridão das árvores.

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Fico imaginando o trailer de um filme e um narrador dizendo: “às vezes temos que ir muito longe para nos encontrarmos”. Quantos trailers já resumiram as coisas assim? Quantos filmes já foram feitos sobre a busca do verdadeiro eu e etc.? O cenário é essa estrada no meio das árvores, 10 milhas que devo percorrer para ir até a cidade de 470 habitantes na costa norte da Califórnia. Ontem no fim de tarde fui com E., uma amiga que fiz por aqui, até um dos dois únicos bares da cidade. Na semana anterior tínhamos experimentado a noite do karaokê; ontem era uma banda de jazz, três mulheres e dois caras, mas o lugar estava quase vazio e deu pra entender o que as pessoas querem dizer quando falam que esse condado tem problemas econômicos graves. Quando saio do bar e tomo o caminho de “casa”, a neblina vai chegando meio em golfadas e eu me lembro de War on Drugs e de como Adam Granduciel parecia obcecado com algumas imagens quando compôs o último disco da banda. Haze, essa névoa que pra mim é algo palpável desde 5 de setembro, era uma delas.

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Não sei o quanto é necessário um certo isolamento para que a gente possa escrever ou assentar ideias. Também não sei o quanto esse isolamento é uma imposição da escrita ou da vida (coisas que já estavam me confundindo no post anterior), e às vezes eu gostaria de ser capaz de separar as coisas com um giz. Vida: não ultrapasse. Literatura: não ultrapasse. O que sei é que oito semanas podem chacoalhar todas as estruturas de uma vida/literatura, por mais que pareçam uma fatia insignificante de tempo. Não se pode voltar ao mesmo lugar. E quem ficou talvez já não nos reconheça. Mesmo cenário da estrada: estou voltando da noite do jazz e parece que esse lugar me aguça os sentidos de um jeito tão forte e bonito que é quase impossível de aguentar. Meu mantra pessoal agora vem de uma música da adolescência: we can drive it home / with one headlight. Embora eu não saiba exatamente o que quero dizer com isso.

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Uma garota em São Francisco me pergunta se eu mantenho um diário. Se alguma vez na vida eu tive um diário. Não. Nunca. Começamos a falar sobre isso e de repente o namorado dela (somos três na rua) diz que o diário da garota é muito bom, mas provavelmente seria uma outra coisa se ela não estivesse escrevendo com a consciência de que ele vai lê-lo depois. Alguns diários sabem que vão ser lidos, outros não. A escrita é diferente em um caso ou no outro, ela comenta. Por algum motivo, essa garota, além de escrever um diário, é uma ávida leitora de diários.

Será estranho eu nunca ter tido nada parecido? Na minha cabeça, escrever um diário sempre esteve relacionado a um certo processo catártico de escrita. E a escrita nunca foi catártica pra mim. Quando preciso ~afogar as mágoas~ ou seja lá o que, a última coisa que penso é em sentar e escrever sobre isso. Até minhas anotações são meio contidas. Acho que estou desperdiçando ótimas tramas simplesmente porque pareço mais interessada em vivê-las do que em escrever sobre elas. Tudo bem. Estou me acostumando com isso.

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Esses posts são um tipo de diário? Sim. Mas não são exatamente os telefonemas com os amigos. Não são exatamente a minha cabeça voltando de um show do War on Drugs em Los Angeles. Será que um diário não passa de um grande “quero me lembrar como eu me sentia quando…”? Escritores têm maior ou menor tendência a escrever diários se comparados a não escritores? Minha amiga E. começou a escrever um diário. Professora aposentada. Faz dois ou três anos que ela largou a vida na cidade grande e veio morar aqui nesse condado, e eu simplesmente acho estranho que ela não cuide direito do jardim ou não sente naquela cadeira verde que está lá fora. Ela disse outro dia, na noite do jazz, que tem a sensação de que vive um momento “entre” uma coisa ou outra. Do tipo a vida que tinha e a vida que vai ter. Um livro de um neurocientista que estuda a interação dos seres humanos com o espaço me informa que, segundo uma pesquisa, 25% dos americanos não consideram o lugar que estão vivendo “casa”. Quando leio isso, me lembro de E. e seu comentário. E. leu uns três livros do T.C. Boyle em sequência quando estávamos morando juntas e me disse que escreveu no diário sobre suas impressões. Eu lamento que eu não tenha grande habilidade em inglês para poder discutir livros com pessoas. Eu devo parecer bem idiota em inglês, de modo geral. Essa é minha última semana aqui e eu já passei pela fase de tatuar uma redwood no braço, embora isso não seja exatamente original.

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No meu caderno, há apenas duas notas que nada tem a ver com ficção. Nota 1: “chocolate / pão / tomates.” Nota 2: “quando a pessoa tem um ‘eu’ mais sólido, tem por consequência maior capacidade de recuperação diante das crises com o Outro”. Melhor continuar na ficção.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Tentar e tentar de novo com paciência

Por Carol Bensimon 

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Tenho certeza de que com o tempo os escritores desenvolvem uma tática a respeito de quais livros podem ser lidos durante o processo de escrita e quais devem ser evitados a todo custo. Não ler não é uma possibilidade. Livros a serem evitados podem ser os muito ruins. O temor da má influência. Certos escritores, porém, se sentirão pelo contrário estimulados com literatura que consideram de baixa qualidade (no sentido de “ei, eu posso fazer melhor”), acreditando que a paralisia criativa vem do encontro com uma grande obra (“nunca vou conseguir, socorro”). Certa dose de aleatoriedade, de qualquer maneira, não pode ser evitada. Nunca se sabe o que há num livro até que a gente comece a lê-lo.

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Aos poucos, vai se matando a ilusão do “posso escrever qualquer livro”. Não posso. Tenho um estilo, temas, obsessões. Às vezes encontro um bom livro e penso: poderia ter escrito esse (se tivesse vivido essa vida, se tivesse mais talento, etc.). Outras vezes, com outro bom livro, concluo: não poderia ter escrito esse (é tão diferente do que tento e do que posso fazer e do que quero fazer. A ênfase aqui está no diferente). Ou seja, o livro, antes que a gente comece a escrevê-lo, não é exatamente uma tela em branco. Não se pode ir em todas as direções. Nós somos a limitação.

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Ao mesmo tempo, há essa ideia fixa, esse temor constante de que se acabe escrevendo o mesmo livro repetidamente. Análises maleáveis podem provar que, sim, isso sempre acontece. Lá dentro, no núcleo. Mas queremos evitar que seja o mesmo livro também na superfície, até porque seria muito chato se dedicar por anos a um projeto que não é exatamente novo e, por consequência, nada estimulante de ser executado.

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E a vida vai acontecendo. As questões são sempre as mesmas diante disso: gastar menos energia com a vida e mais energia com a arte? As perguntas  também são as mesmas diante dos pequenos dilemas da escrita: quem vai contar essa história? De que maneira? Sobre o que mesmo estou falando? Não há muita originalidade nos pequenos dilemas ou nas questões vitais. É inútil buscar conflitos originais, na vida ou na arte. Meio desesperador, em resumo.

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Ganhei um livro chamado Dept. of Speculation (Jenny Ofill). A personagem é uma escritora. Mas o livro é sobre casamento. Maternidade. Crise conjugal. E sobre como esse rumo que a vida tomou tinha algo de decepcionante e inesperado para a narradora: “Meu plano era nunca me casar. Em vez disso, eu ia ser um monstro da arte. Mulheres quase nunca viram monstros da arte porque monstros da arte só se importam com arte, nunca com coisas mundanas. Nabokov nem fechava seu guarda-chuva. Vera lambia os selos para ele.”

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Claro que isso explica muita coisa, sobretudo em uma perspectiva histórica. Mas Jenny Offill escreveu um dos dez melhores livros do ano segundo o New York Times.

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Agora estou lendo o novo romance do australiano Steve Toltz. É um de meus escritores favoritos, e se enquadra naquela categoria de “artistas que não posso nem almejar ser”: engraçado demais e com uma tendência absurda a englobar todo o universo e questões vitais em livros de 400 páginas. Tudo que não sou (sem ressentimentos). O narrador de Quicksand, novo livro de Toltz, é um escritor frustrado (quantas milhões de vezes já vi essas duas palavras juntas?, penso agora) que decide escrever um romance sobre seu melhor amigo, Aldo Benjamin. “Olho para as minhas anotações e penso: eu ficaria chateado se, depois de escrever um livro inteiro, uma fotografia de seu rosto em agonia desse igualmente conta do recado.”

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Estou tirando fotografias.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

 

Tempo de compartilhar

Por Carol Bensimon

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Ainda lembro do professor Assis Brasil falando sobre tempo em sua famosa oficina literária. Segundo ele, por trás de qualquer fragmento narrativo havia ao menos três tempos, na maioria das vezes fluidos, imensuráveis: o tempo que o autor levou para escrever o texto em questão; o tempo que transcorre na narração propriamente dita (um ano na vida de Fulano, dois minutos entre o abrir de uma porta e o início de uma discussão, etc.); e o tempo que alguém leva para ler aquele fragmento.

O primeiro tempo é certamente o mais misterioso. Nem o autor sabe às vezes dizer quantos anos levou para escrever tal livro, e acho que é ainda mais difícil saber o que colocar e o que deixar de fora dessa conta. Aqueles meses de idas à praça e eventuais notas num caderninho vermelho, eles contam? E o tempo que levei para ler todos aqueles livros sobre ___________ (insira aqui um assunto que supostamente não deveria interessar ninguém tanto assim)? E quanto àquela noite com amigos que, sem eu desconfiar, acabou inspirando um diálogo decisivo do romance? Não é tão fácil separar ofício e vida, em resumo, o que não raras vezes se transforma em uma fonte de angústia e comparações inúteis com a dinâmica de outras profissões. Não sei se todos sofrem disso, mas, enfim.

A velocidade do mundo contemporâneo (sempre me sinto uma idiota usando esse tipo de expressão) também tem uma influência bem perceptível no tempo da escrita. Para não perder o fio do tempo, para amenizar nossa ansiedade – mesmo sabendo que isso de nada adianta — a gente faz o que todo mundo faz: compartilha. Compartilha o processo. Compartilha a foto de uma pilha de livros-úteis-para-pesquisa como alguém compartilha um corpo deitado na areia branquíssima de Punta Cana. Compartilha fichas-de-estruturação-da-trama como alguém compartilha um magret de canard com purê de mandioquinha. Compartilha o final de um conto ainda não escrito como alguém compartilha a possibilidade de arranjar um novo emprego. Herói aquele que consegue ficar em silêncio durante a longa gestação de um livro.

Mas a verdade é que é muito difícil fingir que não é com a gente, que podemos viver um tempo próprio e que não estamos inseridos nessa meleca chamada contemporaneidade, que obviamente nos traz um monte de benefícios, ao mesmo tempo em que nos deixa ansiosos, confusos e apressados.

As rápidas revoluções do mundo não afetam apenas o tempo da escrita e a concentração dos escritores. Antes fosse. Os próprios assuntos a serem tratados num romance podem se tornar velhos ou, no mínimo, desatualizados antes de a gente colocar o ponto final. Tudo bem, as coisas sempre podem valer como um retrato de uma época, mas propor-se a fazer um retrato do agora e acabar com um retrato de ontem pode ser meio frustrante.

Olhando com uma lupa para o texto, há também os pequenos momentos de dúvida entre ser específico ou ser genérico no que diz respeito à tecnologia. Claro que ignorá-la é uma má ideia (se o objetivo é falar do mundo de hoje). A tecnologia traz consequências narrativas, e seria ingenuidade fingir que essas consequências não existem. É só olhar para os celular no cinema, quero dizer, na tela do cinema: alguns conflitos desaparecem com a possibilidade de você falar com alguém a qualquer momento, outros só são possíveis por esse mesmo motivo. Mas eu estou falando de algo como citar o Craiglist nominalmente, por exemplo. Ou mesmo o Facebook. É uma boa ideia eu escrever, na primeira página de um romance, que o personagem comprou um carro usado porque viu um anúncio no Craiglist? Daqui a dois anos talvez o Craiglist seja substituído por outro site, outra ferramenta. Não sei se quero que meu romance seja um fóssil em tão pouco tempo.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Lolita

Por Carol Bensimon

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A coluna deste mês fala sobre um clássico da literatura em comemoração aos 80 anos da Penguin.

Quando li Lolita pela primeira vez, ainda não entendia o que me fazia gostar ou não de um livro. Eu tinha uns 18 anos e aquele romance só tinha me caído nas mãos porque era o primeiro volume dessas coleções que às vezes os jornais lançam (ou lançavam): pelo valor da assinatura mais tantos reais, você ganha uma incrível biblioteca de clássicos da literatura universal. A versão intelectualizada dos utensílios de cozinha de Caras. Lolita era o primeiro livro, mandaram-no como amostra grátis. Meu avô não se interessou em pagar pelo resto.

Li Lolita assim, por acaso. Foi como conhecer uma grande banda porque ela está tocando nos corredores de um supermercado.

O que havia lá? Naquela idade, eu não sabia dizer direito (a diferença para hoje é que talvez eu me esforce mais tentando explicar, mas continuo ignorando a maior parte da origem e dos caminhos malucos que fazem os arrebatamentos). Lolita me fisgou. Me deixou colada no sofá com a sensação de que eu esperava sempre uma coisa, a próxima coisa, a próxima coisa incrível. Senti asco, desejo, culpa, empatia, e a mistura de tudo isso me deixou tonta, empolgada, na ponta dos pés, na corda bamba da imoralidade.

Lolita foi o terceiro livro escrito em inglês que Nabokov, um russo, publicou depois de emigrar para os Estados Unidos. Me perdoem os fãs de Nabokov, mas acredito que nenhum outro de seus romances chega aos pés desse, escrito aos 56 anos. Ele passou cinco anos escrevendo-o e dizem que tinha fichas extremamente organizadas, e dizem também que andava em ônibus com pré-adolescentes para anotar num caderno a cadência de suas falas e as gírias que usavam. Durante aquele período, todos os modos, o kitsch, o consumismo da cultura americana dos anos cinquenta eram uma fonte de inspiração para o imigrante europeu que sobrevivia na América dando aulas de literatura em escolas de pouco prestígio. No livro The Annotated Lolita, Alfred Appel Jr. nos apresenta a reprodução de um anúncio de época — o anúncio de um roupão — que teria servido a Nabokov como referência para o físico de Humbert Humbert.

A publicidade também parece ter ajudado na criação da dona-de-casa suburbana Charlotte Haze. Havia um anúncio em particular que Nabokov adorava mostrar aos seus alunos e que envolvia colheres de prata e uma mulher com as mãos entrelaçadas. Ambos anúncios — o do roupão e o das colheres — podem ser vistos nesse artigo da New Yorker. Curiosamente, Nabokov não deixou para trás nenhuma referência visual da menina Lolita, essa personagem que a cultura pop e as adaptações cinematográficas transformaram numa garota de cerca de 16 anos, mas que de fato tinha apenas 12. Vender Lolita como uma figura sexualizada, aliás, era uma ideia que seu criador desaprovava; Nabokov não queria que as capas das edições de Lolita fizessem qualquer referência à personagem principal, algo que teve dificuldade em controlar sobretudo depois do lançamento do filme de Stanley Kubrick.

A primeira edição do livro data de 1955 e foi publicada, em inglês, na França. O livro apareceria somente três anos depois nos Estados Unidos, e teve imediatamente um sucesso estrondoso; foi o primeiro livro, depois de E o vento levou, que vendeu 100.000 cópias em três semanas. Bons tempos.

Lolita seria publicado hoje? Não podemos saber. Se não há uma censura declarada a obras literárias, há sem dúvida uma onda moralizante e politicamente correta que condena os personagens cujos valores são distorcidos ou diferentes dos nossos. É sintomático também que nosso tempo coloque na lista dos mais vendidos uma saga em que a perversão (sado-masoquismo) passou por uma limpeza enorme, uma adequação social e comercial, deixando tudo com o aspecto de uma longuíssima propaganda de perfume.

Cinquenta tons de cinza não faz mal a ninguém. Enquanto isso, Lolita mantém intacto seu potencial de choque e de desestabilização, mesmo depois de passados sessenta anos. Tanto é que o romance foi recentemente censurado na universidade de Columbia.

Mas o que seria da literatura sem os maus e sem os loucos?

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.