Carol Bensimon

Fator Toto

Por Carol Bensimon

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Lembro de ser adolescente em um mundo de escolhas limitadas. Doze, treze anos, eu queria ouvir rock, mas não dava para chegar sozinha, alguém precisava te levar até lá. Eu não tinha irmãos mais velhos. Meu pai ouvia Stan Getz, minha mãe James Taylor, eu e meus colegas nos virávamos como podíamos com o que tocava no rádio, e o que tocava no rádio era Skank, eurodance, às vezes Patience. Se eu soubesse que existia uma frequência tocando Led Zeppelin! Mas não dava para chegar sozinha nessa rádio, alguém precisava te levar até lá. Da mesma forma, a MTV não pegava na minha anteninha VHF sobre um prédio de esquina dos anos noventa em Porto Alegre. Eu não podia chegar sozinha a uma antena UHF (essa tinha MTV). Mas ninguém chamado Virgílio pertencia ao meu círculo de amigos. Então um dia eu disse pra minha mãe que eu queria ouvir rock. Ela me levou à seção de discos do Zaffari e me comprou um CD do Toto. I bless the rains down in Africa não era bem o que eu tinha imaginado quando eu disse “rock”.

Até hoje me lembro desse episódio do Toto porque de vez em quando me sinto assim ao escolher minha próxima leitura. Com a diferença de que hoje há um milhão de jeitos de não errar tanto: adaptações cinematográficas que nos levam ao livro de origem com aquela cara de “já gostamos”, recomendações de sites baseadas em similaridades, fotos do Instagram em que todos seus amigos estão lendo o tal romance com a caveirinha na capa. Mas, por mais que a gente queira se proteger da completa frustração literária, e o mundo seja hoje esse mundo compartimentado onde você pode evitar ao máximo o contato com o desconhecido e com o que não lhe agrada, por mais que eu lamente não ter conhecido mais cedo muitas bandas que fariam sentido para mim depois, bem, eu ainda vejo algum sentido em cultivar o fator Toto, essa escolha aleatória, ou quase, que pode te levar ao céu ou ao inferno.

Acho que às vezes eu sinto medo de ser tragada pelas leituras obrigatórias de todo escritor contemporâneo e/ou leitor um pouco acima da média. Parece que David Foster Wallace é genial, Knausgård é certamente genial, e, no entanto, o que vai ser se todo mundo estiver lendo somente isso? A gente não pode fingir que não vive no aqui e no agora e com isso dar as costas para os nossos gênios, mas cultivar algumas excentricidades faz tanto sentido quanto esse exaustivo acompanhamento das grandes mentes das últimas décadas. E isso não tem nada a ver com se obrigar a cultivar uma excentricidade para parecer interessante e autêntico e etc. (aliás, mais um sinal dos tempos), mas apenas a permitir-se errar, ser obcecado com coisas ou épocas específicas que não dizem nada para os outros, admitir gostar de coisas tidas como não-tão-boa-literatura-assim etc. etc.

O fator Toto me levou a um romance escandinavo horroroso (a capa era boa), mas também ao Giovanni de James Baldwin, ao Nó na garganta de Patrick McCabe e a um livro de estreia extremamente bonito chamado Se ninguém falar de coisas interessantes. Hoje eu estou lendo um monte de livros estranhos por conta de uma pesquisa para um novo romance. Às vezes são livros-quase-relatos de gente que nunca escreveu na vida. E o fato de eu estar lendo no Kindle, sem contato com capa, quarta capa ou qualquer coisa do tipo, só amplifica essa sensação estranha de território desconhecido. Uma ótima sensação. Inclusive para, às vezes, lembrar porque uns são celebrados, enquanto outros precisam ser descobertos em algum lugar bem, bem fundo.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

Romances a jato, competições estranhas e a carta dos Beats

Por Carol Bensimon

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Kazuo Ishiguro escreveu sobre escrever um romance em quatro semanas. Em um texto originalmente publicado no Guardian e reproduzido neste blog, o autor conta como concebeu Os resíduos do dia em um rígido esquema que previa 10 horas de escrita diária, nenhum convívio social e a suspensão temporária de todas suas obrigações domésticas (como cozinhar e limpar a casa). Quem leu Os resíduos do dia sabe que esse é um livro ambientado no interior da Inglaterra, período entreguerras, com foco na rotina segregada de um mordomo, na acepção mais britânica e radical da palavra. Estou dizendo isso para que ninguém se iluda com essa sensação de que um-livro-ótimo-foi-escrito-em-quatro-semanas, eu também posso fazer etc.: o próprio texto de Ishiguro deixa claro que ele havia sido tragado anteriormente por uma extensa pesquisa (“livros de e sobre mordomos britânicos; sobre política e relações exteriores no entreguerras; muitos panfletos e ensaios da época, notadamente o de Harold Laski sobre Os perigos de ser um cavalheiro. Havia pilhado as prateleiras de livros usados da livraria do bairro [Kirkdale Livros, ainda uma próspera independente] em busca de guias sobre o interior da Inglaterra entre os anos 1930 e 1950”). Além disso, foi preciso tempo depois (ele não especifica quanto) para que suas “frases horríveis, diálogo dantesco, cenas que não davam em nada” fossem transformadas no romance que conhecemos hoje.

O.k., esse livro então não foi escrito em quatro semanas. Mas vamos supor que sim, que o que conta de fato é essa espinha dorsal da obra, não a pesquisa anterior, não o trabalho de formiga de depois, mas o jorro das quatro semanas em que todo o resto da vida parou. A questão que me deixa a pensar a partir disso é: por que nos importamos tanto com o fato de que esse livro foi escrito em quatro semanas? Por que o fato de Kazuo Ishiguro, ótimo, reconhecido autor de relativo sucesso comercial, ter escrito um de seus livros (não todos) em quatro semanas subitamente parece significar que qualquer um pode fazer a mesma coisa com qualquer livro? Será que não é mais fácil para qualquer um tentar escrever um livro em dois ou três anos, uma vez que esse tempo de escrita parece ter gerado mais livros significantes do que as raras quatro semanas de imersão?

Algumas coisas — escrever romances é uma delas — nos demandam muito tempo. Isso é mais difícil de aceitar hoje do que foi em qualquer outra época. É a época do TED, em que pessoas ficam num palco feito baratas tontas e com a fala acelerada tentando transmitir “uma ideia geral” sobre algo que provavelmente consumiu boa parte de suas vidas. E é como se pedissem desculpas o tempo todo por estarem ocupando tanto tempo (15 minutos?) das nossas vidas!

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Existe um evento nos Estados Unidos chamado National Novel Writing Month. Ele acontece em novembro desde 1999 e convoca as pessoas a escreverem um romance de 50.000 palavras em um único mês. Segundo um artigo da crítica literária Laura Miller, que contesta fervorosamente essa competição pueril e sem sentido, 21.683 pessoas cumpriram a meta em 2013.

As considerações de Miller valem a leitura porque, além de demonstrarem o quanto é infrutífera uma ação que prevê a escrita alucinada de novelas ruins, tratam de um tipo que eu, ingênua, acreditava mais presente no mundo literário brasileiro: o aspirante a escritor que não lê.

— O que você lê?

— Ah, eu não tenho tempo para ler. Estou me concentrando na minha escrita. 

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Difícil encontrar na internet o tempo que grandes clássicos da literatura universal levaram para ser escritos, mas as dicas para elaborar um romance em poucas semanas estão por todos os lados. Não tenho a mínima paciência para elas, no entanto me senti impelida a clicar em um link que listava seis romances famosos escritos em menos de um mês (de novo a lógica TED de encarar a vida: por que não nos preocupamos mais com os romances famosos que demoraram anos para chegar a sua forma final?). E lá estava On the road.

Ora, claro que eu já ouvi muitas vezes aquela história sobre o rolo de papel interminável e Jack Kerouac por sei lá quanto tempo datilografando sem parar. Mas acontece que, nos últimos meses, por conta de uma série de leituras (isso, leituras!), acho que entendi melhor uma porção de coisas envolvendo esses caras da Geração Beat. E inclusive, numa sincronia quase irreal, descobri uma história fascinante: em 1950, Jack Kerouac recebeu de Neal Cassidy uma carta. O.k., isso não era propriamente um acontecimento, uma vez que eles trocavam cartas com regularidade. Mas essa carta específica em que Cassidy descreve seu relacionamento com uma mulher chamada Joan Anderson ia entrar para a história porque a prosa de Cassidy no documento alucinado de 18 páginas causou uma pequena revolução na literatura de Kerouac e de Allen Ginberg. De repente, eles entenderam que era daquele jeito que tinham de escrever. Nessa altura, Jack já tinha escrito sobre suas aventuras na estrada. Então, em 1951, ele sentou e reescreveu tudo sob influência da Joan letter de Cassidy. Mas tudo tinha começado em 1948.

O final dessa história eu relato apenas porque é uma boa história, ainda que ela também nos diga alguma coisa sobre tempo, sobre descontrole e a aceitação de tudo isso. Kerouac emprestou a carta para Ginsberg, que estava igualmente fascinado por ela. Em algum momento, Ginsberg mandou a carta para uma editora de São Francisco. A carta se perdeu, era única, ninguém mais além de um punhado de pessoas jamais leu essa carta. E então foi achada dois meses atrás. Dois meses atrás. Alguém morreu, a filha vasculhou as coisas do pai, lá estava a carta. Depois de mais de 60 anos. A carta ia a leilão, mas há alguma discussão nesse momento a respeito de direito autoral, sabe-se lá o que vai acontecer agora. De qualquer maneira, espero que a carta esteja acessível para o grande público em breve. E que nenhum aspirante a escritor assista a uma futura apresentação do TED sobre ela em vez de ler a maldita carta de 18 páginas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Bestas

Por Carol Bensimon

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Na semana em que uma cruz gamada apareceu nos fundos de uma piscina do interior catarinense, eu estava lendo HHhH. De pronto lembrei de um caso de 2009 envolvendo suásticas, piscina, mansão na Gávea e festa da Adidas. Acho que a história terminou com um pedido padrão de desculpas por parte da empresa que alugou o local. Também lembrei do meu choque ao ver, em um evento militar de Jaraguá do Sul, Santa Catarina, réplicas de uniformes da SS sendo vendidos com a maior naturalidade. O dono da piscina com a enorme suástica, essa da semana passada, é professor de História. Talvez isso tenha me assustado mais do que qualquer outra informação sobre o caso (inclusive a de que a investigação não será levada adiante). Todas essas três histórias parecem ter um tom anedótico, o que condiz bem pouco com a desumanidade do regime que os protagonistas das anedotas, de algum modo incompreensível para mim, vangloriam.

HHhH, escrito pelo francês Laurent Binet, não tem nada de anedótico (mas às vezes de farsesco, talvez?). O romance ganhou o prestigiado Goncourt na categoria para autores estreantes, em 2010. Ao dizer que HHhH é um romance, tenho medo de estar fazendo tudo o que Binet não queria que fizessem, ou seja, considerar a obra sobre o oficial nazista Reinhard Heydrich (o açougueiro de Praga, a besta loira etc.) e os dois paraquedistas resistentes da Tchecoslováquia uma peça de ficção. Por outro lado, não posso duvidar em momento algum que Binet sabia exatamente onde estava se metendo ao construir uma narrativa que se vale, em igual medida, dos fatos históricos e de uma reflexão sobre a gênese/montagem dessa narrativa.

Não sou uma grande leitora de livros que tratam, em parte, do próprio livro que estamos segurando nas mãos, alguém que o escreve e cujo processo acompanhamos, permitindo assim que a trama — a trama principal — ganhe muito mais camadas de significação etc. Em geral, esses livros me deixam bocejando e eu acabo por abandoná-los sem remorso, convencida de que a crença do próprio autor naquela trama “engenhosa” é visível demais (daí vem a vergonha alheia), e de que sequer os personagens da obra em questão devem acreditar em sua própria existência.

Alguém pode argumentar que essa vem a ser precisamente a intenção de uma obra desse tipo: escancarar o que há de artificial na linguagem e na estrutura usual do romance. Mas uma narrativa tão bem acabada e de efeito tão poderoso como HHhH parece provar que ver a máquina por dentro não deve diminuir o efeito dramático da leitura (como muitos livros que se debruçam sobre si mesmo acabam fazendo), mas, ao contrário, deve aumentar esse efeito.

Talvez eu precise me explicar melhor. Nos capítulos curtos do romance de Binet, há uma oscilação muito marcada entre 1) fatos históricos e 2) tentativas, vacilos, questionamentos sobre como organizar esses fatos históricos, em resumo, sobre que romance escrever. Mas o fato de o autor estar, em pessoa, escancarando seu processo de pesquisa ou refletindo sobre como apresentar tal figura histórica não faz com que, dez linhas depois, o monstruoso Heydrich entre em cena e deixe de nos convencer de que ele está ali, real, que ele é este, que aquilo que se desenrola aconteceu daquela maneira etc. Em resumo, a alternância entre a suspensão da descrença e a descrença generalizada é conduzida de modo magistral.

Particularmente engraçada e eficaz é a maneira como Binet joga com obras que tratam do mesmo momento histórico (As Benevolentes, de Jonathan Littell, é citado, assim como uma série de telefilmes, documentários e romances obscuros); ele rejeita os mecanismos dessas obras, classificando-as como fantasiosas e imprecisas segundo o rigor da História e, ao fazer isso, digamos que o autor acaba por legitimar sua própria obra em construção (como a obra precisa, a obra exata, a obra real). Ao mesmo tempo, várias passagens do texto parecem estar lá para provar o quanto a História está cheia de contradições e lacunas, injetando em HHhH um espírito inquieto que questiona quase tudo, menos a crueldade dos oficiais nazistas. De maneira que, na orelha do livro, Laurent Binet está lá, sorrindo, olhando de baixo para cima como quem diz: sabe aquela diferença entre romance e História? Pois é, acontece que não é bem assim.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Arizona uma vez mais

Por Carol Bensimon


Nesse momento, estou em uma varanda no Arizona, com uma vista de quase 3600 sobre o Verde Valley. O rio Verde é um dos três únicos rios do estado que não secam em nenhum momento do ano. Passarinhos do tamanho do meu dedo indicador estão brincando de pega-pega bem na minha frente.

Dois dias atrás, eu quase perdi um anel de turquesa e prata em algum lugar do Grand Canyon, e eu achei que isso ia ser muito irônico, perder um anel de turquesa e prata, um anel navajo, dois anos depois de tê-lo adquirido, bem no meio do Grand Canyon, que foi um território indígena, que tem ruínas, artefatos em salas escuras, que tem todo o tipo de quinquilharia navajo com turquesas nas lojas de souvenir, mas no fim o anel estava dentro do carro, e então é o que eu digo: não há mágica. No entanto, se por acaso eu tivesse perdido o anel navajo no meio do Grand Canyon, isso podia ser mais do que irônico, afinal de contas, podia ser um claro recado, uma comunhão, uma história que se conta com a certeza de que existe algo de sobrenatural nela, e ninguém da audiência ia ter dúvida de que os índios se vingam desse jeito: com anéis navajo voltando para o lugar de onde não deveriam ter saído.

Uma bandeira budista se sacode num mastro à minha esquerda. Toni é a proprietária dessa casa que eu eu aluguei no airbnb. Na descrição, ela dizia que sua filha podia fazer massagem a tantos dólares a meia hora. Tem um monte de coisas budistas pelos cantos aqui. Eu estou há três semanas nos Estados Unidos. Califórnia e Arizona. Nesse tempo, eu acho que cruzei com um monte de gente maluca, do tipo que enfeita e pinta seus carros com paisagens áridas ou com o rosto da Hillary Clinton, ou que toca harpa dentro de um supermercado de produtos orgânicos. Mas nem o pessoal da contracultura consegue simplesmente ser ateu. Sempre tem alguma dose de religiosidade dentro desses caras. Parece que é fácil largar a Pátria, mas não se pode abdicar de Deus. Eu acho que ainda estou tentando entender.

Uma frase corrente aqui no norte do Arizona é: Deus criou o Grand Canyon, e então foi morar em Sedona. Sedona é um desses lugares que você se pergunta porque não ouviu falar antes. Rochedos gigantes e avermelhados com formas bizarras cercam toda a cidade. Talvez seja mais impressionante que o Grand Canyon. O Grand Canyon é grandioso demais, um passeio convencional nunca vai conseguir apreender aquele monstro geológico. Sedona é mais ou menos a capital New Age do planeta porque supostamente há um monte de vórtex por aqui (representados nos mapas por uma espiralzinha meio ridícula), mas essa mistura de misticismo com capitalismo violento têm um resultado estranho: malls terracota, provavelmente construídos com gesso acartonado, cheios de lojinhas de cristais e gente que promete tirar uma foto da sua aura. A cidade toda cresceu ao redor da rodovia 89A, então essa é basicamente uma cidade centrada no carro, num diagrama totalmente norte-americano, de maneira que aquela ciclofaixa subutilizada da direita parece só mais uma hipocrisia dessa economia voltada para o invisível.

Mas provavelmente estou sendo dura demais.

O Arizona é um lugar legal, em Jerome tem uma menina gay dona de um café de esquina que serve comida fresca e saudável, sendo que Jerome é uma cidade de 448 habitantes, então você fica se perguntando como seria possível uma menina gay morar em um pequena cidade brasileira e cozinhar suas coisinhas ali, e a cidade nem precisaria ser tão pequena assim para a inviabilidade desse caminho. Mas o Arizona é também o estado que aprovou a lei mais dura para combater a imigração ilegal, e onde você pode encontrar um carro com palavras escritas em branco no vidro de trás, ocupando todo o vidro mesmo, que diziam mais ou menos assim: “Obama e Ebola: duas pragas que precisam ser combatidas”.

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Cheguei ontem em Los Angeles e tive a oportunidade de conversar com os alunos do querido José Luiz Passos na UCLA. O nome oficial da disciplina que o Zé ministra me foge agora, mas é impressionante pensar que 95% daqueles jovens não faz graduação em letras, há um monte de gente das ciências biológicas, e mesmo assim eles estão ali me lendo, lendo Daniel Galera, Elvira Vigna, Vanessa Bárbara, Carola Saavedra, Adriana Lisboa, discutindo mil e um aspectos do Brasil, vendo o Zé traçar um mapa no quadro e fazer comentários simpáticos sobre Recife, sua cidade natal, explicar para eles a “relação” entre caubóis e gaúchos, enfim, o Zé diz que esse é um curso para “complexificar o Brasil”. Melhor definição possível.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Foi assim, mais ou menos, ou nunca aconteceu?

Por Carol Bensimon


Não estou falando nada de novo se eu disser que alguns escritores tiram o grosso de sua literatura da vida real, outros nem tanto. Para os primeiros, os acontecimentos da vida viram as pedras fundamentais de uma futura obra: enredo, personagens, conflitos, quase tudo já está ali. Ok, Wittgenstein disse que não é mais realidade no momento em que você muda a cor da parede na descrição de uma cena (ou isso é alguém tentando me explicar Wittgenstein?) e, de qualquer forma, a própria transposição para a linguagem escrita seria o suficiente para ficcionalizar os fatos. Mas admitamos ao menos que existem vários graus de ficcionalização? Que Karl Ove Knausgård é uma coisa e Jeffrey Eugenides provavelmente outra? E não custa esclarecer: não estou fazendo aqui um julgamento de valor, mas apenas comparando métodos criativos distintos. Adoro Knausgård e adoro Eugenides.

O que fiquei me perguntando durante toda a semana foi: o que faz com que escolhamos um jeito de criar, e não outro? Ainda estou falando do quanto nos apropriamos das coisas vividas (se totalmente, se nada, ou em qualquer nível entre esses dois extremos). Talvez uns tenham talento nato para uma coisa, outros pra outra, o que corre o risco de ser também a mais ingênua das explicações. Outra hipótese é que a escolha seja orientada pelo prazer do ato criativo. Em outras palavras: para determinado escritor, o prazer pode estar em levar esses episódios vividos para dentro do livro, em um processo que muitas vezes é psiquicamente libertador; o mundo fechado da literatura dá sentido a algo que, na origem, era confuso. Para outros, a graça está justamente em tomar distância da própria vida, “viver”, pela via da criação, outras situações, épocas, e ainda com outro corpo, gênero, idade, temperamento etc. Acrescenta-se a isso o prazer da pesquisa: enquanto os do primeiro grupo tendem a cavoucar a própria memória, os do segundo têm prazer em descobrir fatos do mundo concreto — mas apartado deles — para então poderem fazer uso disso em um romance. Estou falando em estudar um episódio histórico, a filosofia hippie, ciclos lunares, o funcionamento de estruturas acadêmicas ou de uma cafeteira francesa, a moda dos anos oitenta etc. etc.

A última razão para um escritor optar por tal jeito de criar, e não outro, me parece a mais imensurável, e tem relação com o quanto você está disposto a comprometer da sua vida real em nome da arte. Em todo o caso, é muito difícil saber se você não escreve sobre sua família porque isso já toma espaço demais na vida real (só faltava ainda escrever sobre isso!), ou se aí entram os pudores de não querer expôr aqueles que você ama.

Mas será que essa precisa ser uma escolha entre arte e vida? Tem aquela pergunta recorrente (e meio babaca): se a casa está pegando fogo, você salva o gato ou a tela do Rembrandt?

Alguns episódios da minha vida dos últimos meses teriam rendido bons contos. Tentei escrever sobre eles, mas foi um desastre completo; digamos que o ato serviu pra dar vazão a um certo impulso de colocar coisas no papel, mas, depois de uma página e meia daquilo, eu estava de saco cheio. Não era uma questão das histórias não serem boas o suficiente, ao contrário, elas estavam cheias de conflitos, lugares e personagens interessantes, mas havia algo que me impedia de ir adiante. Ética pessoal? Ou apenas eu não via nenhuma graça em pegar histórias tão prontas? Provavelmente as duas coisas.

Avance alguns dias. Começo a ler uma porção de livros sobre o que provavelmente vai ser o pano de fundo do meu próximo romance. Não é algo que está diretamente relacionado à minha vida; vou estudar feito louca, depois vou ao encontro do lugar/tema, e finalmente teremos um romance sendo escrito (ao menos essa é a ideia). Isso me deixou bem mais entusiasmada do que a perspectiva de jogar minhas memórias no papel com aqueles contos (o problema é o confronto entre conto e romance, e minha predileção pelo segundo? Bem, isso fica para outro texto). Não é que minha vida seja um tédio, pelo contrário. Mas, pelo jeito, em caso de incêndio, coloco o gato debaixo do braço e a tela do Rembrandt debaixo do outro. É possível que todos acabem queimados. Mas, ei: eu só quero ter o direito de não escolher.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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