Emilio Fraia

United Colors of Branco

Por Emilio Fraia

Na próxima quinta, dia 20, o DW Ribatski e eu lançamos nossa graphic novel, Campo em branco. Além de ser uma história sobre dois irmãos que se reencontram e decidem refazer uma viagem de infância (com toques de montanhismo, corridas de cachorro, física quântica e um carro chamado Urso), é também uma história sobre o branco. No quesito cor, um verde-limão poderia ser mais empolgante, é bem verdade. Todavia, durante o processo acabamos meio que obcecados por esta que é a cor da falta, daquilo que não se diz ou não se entende, da ambiguidade e da incompletude, da bolinha de pingue-pongue e do silêncio.

Escrever (ler) um livro é diferente de fazer (ver) um filme que é diferente de encenar (assistir a) uma peça. A máquina da graphic novel também tem seus parafusos próprios. Nela, para além do enredo, o que se quer dizer está no traço, nos enquadramentos, no tamanho e na disposição dos quadros (que puxa o leitor de um desenho a outro), no processo de virar páginas, na interação das cores. E nos espaços em branco — há uma sintaxe muito particular, e é ela que vai determinar o ritmo, o foco narrativo, o tom e produzir significados e dialogar com a trama.

Nos últimos anos passei a colecionar cenas e histórias em que a cor branca cumpre alguma função ou simplesmente aparece de um jeito bonito. Em determinado momento, fui cair (perdão) n’A pista de gelo, do Roberto Bolaño. É uma espécie de falso livro policial, que se passa num verão em Z, pequeno balneário fictício na costa catalã. O romance é narrado por três personagens, alternadamente, como se prestassem depoimento à polícia: o que está em jogo é um assassinato, ocorrido numa pista de gelo.

Plasticamente, nada parece melhor para um assassinato do que uma pista de gelo — o designer japonês Kenya Hara em seu interessantíssimo livro White escreveu que “o círculo vermelho da bandeira japonesa fica brilhante como o sol não pelo vermelho do círculo, mas por ter o fundo branco”. Sangue, gelo. É o tipo de coisa que Hitchcock aprovaria.

Quando encontra o cadáver, o narrador de Bolaño fica arruinado, suando frio. O que se segue é uma cena de cromatismo intenso, que mistura branco e os pantones 485 M e 304 U: “O sangue, de diversos pontos do corpo caído, havia escorrido em todas as direções, formando desenhos e figuras geométricas que à primeira vista tomei por sombras. Em alguns setores, o fio de sangue quase chegava à beira da pista. Ajoelhado, talvez por sentir náuseas e vontade de vomitar, contemplei como o gelo endurecido começava a absorver a totalidade da carnificina”.

O que acontece é que Enric Rosquelles, um dos narradores, braço direito da prefeita da cidadezinha, se apaixona por uma patinadora, a bela Nuria Martí. Pouco depois de se conhecerem, Nuria sofre um duro golpe: perde sua bolsa da Federação Espanhola de Patinação. A história maltrata demais o coração de Rosquelles. Sem o dinheiro, ela tem que viver permanentemente em Z, longe das viagens e dos treinos (no máximo ir, de trem, uma vez por semana, à pista de patinação de Barcelona).

Rosquelles arma então um plano megalomaníaco: com verba da prefeitura, aciona operários e constrói uma pista de gelo clandestina nos fundos de um palácio público abandonado. Bolaño observa a existência de um gerador que trabalha a toda potência e, num dos cantos da pista, um feixe de fios elétricos coloridos que some debaixo da “camada branco-azulada” em que a magnética Nuria passa a treinar e fazer suas piruetas.

O sangue mancha o branco. Mas é o branco da pista, em pleno verão da costa catalã, a verdadeira mancha aqui. Há suor, mosquitos, mato crescendo. O branco é um branco artificial, uma pequena ilha em meio a uma escuridão de personagens à deriva e sonhos mortos.

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“O secreto argumento desse romance é o medo e a vilificação do branco”, escreveu Borges, em seu ensaio “A arte narrativa e a magia”, sobre o único romance de Edgar Allan Poe, A narrativa de A. Gordon Pym.

Poe é mais cruel que Bolaño. No livro, o narrador, um jovem bem-nascido, chega ao limite da fome e da privação a bordo de um baleeiro, numa viagem ao extremo sul do continente. É encontrado, na parte final do romance, “no imenso e desolador oceano Antártico, numa latitude de mais de 84º, numa canoa frágil e sem provisão além de três tartarugas”.

Poe vai nos mostrar que o terror é a cor branca. O segredo que se intui, em meio ao longo inverno polar, é que o branco se relaciona a uma força selvagem, arcana e recôndita que no fundo nunca poderá ser explicada. “Mas eis que em nosso caminho ergueu-se uma figura humana velada, bem maior em suas dimensões que qualquer habitante da terra. E a cor da pele da figura era da perfeita brancura da neve”, escreve.

O romance é de 1838. O que faz pensar na história do explorador inglês Ernest Shackleton. Em agosto de 1914,  Shackleton e sua tripulação partiram do hemisfério norte com a intenção de serem os primeiros a atravessar a Antártida: em 18 de janeiro de 1915, a apenas 160 quilômetros de seu objetivo, o seu navio, o Endurance, ficou preso entre as placas de gelo no mar de Weddell.

A agonia durou nove meses. Junto à tripulação (homens recrutados a partir de um anúncio publicado num jornal britânico — “procura-se homens para uma viagem perigosa. Soldo baixo. Frio extremo. Longos meses de completa escuridão. Perigo constante. Não se garante retorno com vida. Honra e reconhecimento em caso de êxito”), estava um fotógrafo, Frank Hurley. As imagens noturnas feitas por Hurley são brutais: o barco preso no oceano de gelo; tudo branco, muito branco.

Existem muitos outros livros brancos. Alguns deles são brancos sem nem mesmo fazer referência ao branco — A consciência de Zeno, por exemplo. Porque às vezes, quando pensamos em cenas e histórias, elas têm uma cor. Guerra e paz é vermelho. O grande Gatsby é azul. Ulysses é verde-catarro. Espero que minha próxima fase cromática seja mais colorida. Talvez ir em busca do grande romance fúcsia de nosso tempo.

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Emilio Fraia nasceu em São Paulo, em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., 2013, em parceria com DW Ribatski) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e é colaborador da editora Cosac Naify, onde edita livros de ficção contemporânea, e da revista Bravo!
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Evento de lançamento de Campo em branco:

Quinta-feira, 20 de junho, às 19h30:
Sessão de autógrafos com Emilio Fraia e DW Ribatski e exposição de originais. Compre a HQ no local e ganhe um pôster exclusivo.
Local: Espaço Revista Cult – Rua Inácio Pereira da Rocha, 400 – Pinheiros – São Paulo, SP

Um relato sobre o diário escrito quando eu tinha nove anos durante seis meses em 1992

Por Emilio Fraia

Quando tinha nove anos, durante seis meses, mantive um diário. Escrevia todos os dias. É uma agendinha velha, preta e com adesivos de marcas de surfwear na capa (Hang Loose, Sea Club e Ocean Pacific). Cada entrada possuía doze linhas, que eu preenchia inteiramente, o que pensando agora devia fazer apenas para não deixar espaço vazio.

O caderninho ficava na casa dos meus pais, num armário abarrotado de pastas. Nunca dei muita bola para ele, até ler aquele que se tornaria o meu conto favorito da Lydia Davis.

Em 2009, a Farrar, Straus & Giroux publicou uma edição com os contos reunidos da autora norte-americana, um volume de capa salmão, 733 páginas e 197 histórias. O conto chama-se “We Miss You: A Study of Get-Well Letters from a Class of Fourth-Graders” (“Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, que integra Tipos de perturbação, primeiro livro da autora publicado no Brasil, com tradução da destemida Branca Vianna).

O relato é exatamente o que diz o título: uma dissecação linguística e sociológica de vinte e sete cartas que alunos de uma classe do quarto ano escreveram para um coleguinha, Stephen, enquanto este se recuperava no hospital. Em dezembro de 1950, Stephen teve uma grave osteomielite (espécie de inflamação óssea, causada por uma bactéria) e foi internado. Após as férias de fim de ano, as aulas recomeçaram e a professora pediu, como tarefa de classe, que cada um dos alunos lhe escrevesse uma carta.

Como em praticamente todos os contos de Tchekhov, a tensão aqui não está dirigida para o desfecho. Logo no início, o narrador de Lydia diz, sem alarde: “Após algumas semanas de muita preocupação por parte de médicos, família e amigos, Stephen se recuperou, graças em parte a […]”. Já sabemos, portanto, que nada de pior vai acontecer, que Stephen saiu dessa, que não precisamos passar a história tensos torcendo pela sua melhora.

A linguagem do conto é clara, direta, o que contribui para o efeito maravilhoso de relatório. No mais, nada acontece — ou pelo menos não aparentemente. O narrador descreve a escola (um edifício grande, de tijolinhos, com salas de aula bem iluminadas), fala sobre a aparência geral das cartas (a maioria das crianças usa papel tipo carta, apenas quatro optam pelo tamanho ofício), analisa a caligrafia dos alunos (a letra cursiva “é consistente, toca na linha inferior e tem espaçamento regular”) e a extensão dos textos (“variam de três a oito linhas e de duas a oito frases”).

Seus comentários abrangem estilo, coerência, uso de verbos, conjunções e metáforas, além de categorizar tipos de saudações e expressões de simpatia — “volte logo/ queria que você estivesse aqui” aparece dezessete vezes.

À medida que as cartas vão sendo esmiuçadas, detalhes do cotidiano das crianças, de sua personalidade, seu estado de espírito e a relação delas com Stephen são revelados.

Algumas crianças falam do clima e de seus animais de estimação, outras relatam brincadeiras na neve e o que ganharam de presente no Natal. Cynthia, por exemplo, escreve: “Fui brincar de trenó uma vez e foi divertido. Fiz bonecos de neve mas eles caíram todos”. Joseph abre seu texto com uma expressão de empatia generosa: “Sei como você se sente”. E completa, de maneira 100% coerente: “Vou ganhar um casaco novo com capuz”.

Através desses fragmentos (e suas elipses), Lydia Davis apresenta essa pequena comunidade de crianças de nove anos, confrontada com a morte, a possibilidade da perda e o tédio. Ao terminar a leitura, a pergunta parece ser: quem é o narrador do conto? Por que ele está analisando essas cartas? É alguém que em posse de cartas antigas tenta descobrir ou lembrar algo de sua infância ou de algum irmão ou amigo? Não há nenhuma evidência de que o narrador seja homem ou mulher, mas talvez pelo fato da autora ser mulher, leio sempre como se fosse uma narradora.

Há uma frase de Tchekhov que poderia se passar por uma frase de Lydia: “mandem-me que escreva sobre esta garrafa, e sairá um conto intitulado ‘Uma garrafa’”.

É nas coisas e episódios pequenos, triviais e aparentemente sem importância que recai o interesse da autora, que na semana passada ganhou o prestigioso Man Booker Prize — o que podemos entender como a vitória cabal das garrafas, dos diários escritos aos nove anos, das cartas dos amigos de Stephen, das histórias sem desfecho nem fábula e, sobretudo, de uma outra frase de Tchekhov (que poderia se passar por uma frase de Lydia): “nada de pensamento: as imagens vivas e verdadeiras criam pensamentos, e um pensamento jamais criará uma imagem”.

Quando li “Saudades: um estudo de cartas escritas por alunos de uma classe do quarto ano primário desejando melhoras a um colega”, pensei que o conto talvez tivesse me ensinado a ler o meu diariozinho — prestando atenção nas lacunas, no que não está lá. Por que meu amigo voltou chorando da diretoria? Por que não gostei das pinturas? Que pinturas eram aquelas? Em que praia estávamos?

Num levantamento rápido, praticamente todas as entradas começam com “Hoje acordei/ Levantei/ Tomei café” e terminam com “vi televisão e fui dormir/ tomei banho, jantei e dormi”. As ações mais recorrentes são: jogar videogame, nadar, ver filmes, jogar bola e gravar programas de tevê. A conjunção mais comum é a inexpressiva aditiva “e”. Quase não há vírgulas nem pontos. Há, todavia, momentos de superação, como em 15 de janeiro: “hoje levantei notei que meu dente estava mole mas não liguei”.

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Emilio Fraia nasceu em 1982, é editor, jornalista e escritor. É autor da graphic novel Campo em branco (Quadrinhos na Cia., em parceria com DW Ribatski, que será lançada em junho) e do romance O verão do Chibo (Objetiva/Alfaguara, 2008, com Vanessa Barbara). Foi repórter das revistas Trip e piauí e é colaborador da editora Cosac Naify e da revista Bravo!
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