Érico Assis

Sopa de Eduardo Medeiros

Por Érico Assis

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Sopa de salsicha, de Eduardo Medeiros, começa com o próprio e a esposa, A Baixinha, mudando-se de Porto Alegre para Florianópolis. Os dois estavam cansados da cidade onde nasceram e cresceram, cansados dos malucos dos prédio onde moravam, queriam uma sacada com vista para alguma coisa que não outro prédio e, como 98% dos gaúchos, queriam morar na grande praia gaúcha de Santa Catarina.

Quis o destino, uma proprietária autoritária e os advogados desta que, quando Sopa de salsicha foi lançado, com sua declaração de amor à tranquilidade que encontraram na Praia dos Ingleses, o casal não estivesse mais morando em Florianópolis. No início deste ano, eles voltaram para o Rio Grande do Sul. Mas não para Porto Alegre. Foram para Imbé, no litoral, quase no meio do caminho entre Porto e Floripa.

“Eu fui criado em Capão Novo, que é outra praia perto daqui”, Medeiros me disse numa conversa via Facebook, “e tenho uma relação de nostalgia que me agrada mais que a quase solidão que sentia em Floripa. Resposta meio fruta, mas é verdade.”

Sim, Floripa também estava cansando — como acontece com 98% dos gaúchos que vão para lá. Eles estão se adaptando à nova casa e gostam que a proximidade de Porto Alegre rende cerveja com os amigos da cidade natal. Mas a solidão não é necessariamente uma coisa ruim. “A característica do litoral gaúcho é de ter três meses de uma super população absurda de gente e nove meses de uma solidão até que boa”, escreveu ele em uma HQ recente.

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GRAPHIC NOVEL é quando nós, artistas, fazemos histórias em quadrinhos com mais de 100 páginas, totalmente dedicadas a falar de nós mesmos e problemas mal resolvidos de nossas vidas”, Medeiros diz nas primeiras páginas de sua… graphic novel. Outras características da gréfic nóvel segundo o gréfic novelista: finalização com pincel para aumentar o status, contar tristezas e, se possível, falar de doenças para aumentar as vendas.

“Às vezes tenho a impressão que o termo graphic novel só é aplicado a um seleto time de artistas. Esses fazem graphic novel, os outros fazem quadrinhos”, Medeiros disse na nossa conversa. “Daniel Clowes faz graphic novel, o Zezinho faz HQ.”

Sopa de salsicha trata do problema mal resolvido de Medeiros com seus dreads (check), com gente que cospe na rua (check), com a sunga verde que seu pai marombado passou a usar depois do divórcio (check), parece finalizada em pincel (check), mostra receitas com banana (check) e fala de depressão (jackpot).

“Mas acho que é mais como o artista vende o seu material, né. Na real acho que é tudo pompa do artista mesmo. Não que aquele não seja eu, mas é tudo mais exagerado”, ele me diz na conversa. “Pelo personagem é uma graphic novel, mas por mim tanto faz, cara. Mesmo.”

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“Perdi meu HD tem uns dois anos, quando caiu um raio na minha rua lá em Floripa”, ele conta. Algumas páginas se foram. Ele continua com alguns projetos que vem tocando desde antes do HD perdido. Neeb e Open Bar, duas HQs que publicou independente, vão ganhar continuação. Não me mande flores, colaboração com o escritor Paulo Scott sobre a história da banda DeFalla, terá 300 páginas — um terço está desenhado, mas ele quer redesenhar. E sua História mais triste do mundo deve ganhar versão ampliada e em inglês.

Publicar em inglês para chegar a outros mercados faz parte do seu plano de carreira. Ele já colaborou em um álbum lançado nos EUA (Mondo Urbano) e teve pequenas histórias na Marvel e na DC (a do Homem-Aranha é sensacional). Os dois amigos que ele mais cita em Sopa de salsicha, Mateus Santolouco e Rafael Albuquerque, estão ajudando no processo — também porto-alegrenses, eles trabalham exclusivamente para o mercado norte-americano.

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“A internet cria essa ilusão de que tu tem muita gente acompanhando teu trabalho, mas a parcela de pessoas que realmente vê e comenta é muito pouca”, Medeiros diz. Cada comentário tem seu valor, porém: “As poucas resenhas que saíram foram ótimas, o que me deixou mais tranquilo, porque sempre bate aquela vergonha/incerteza que dá vontade de me esconder.”

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Sopa de salsicha terá lançamento em Porto Alegre no dia 15/10, a partir das 14h, na Galeria Hipotética (Visconde do Rio Branco, 431), com participação do autor.

Eduardo Medeiros publica suas HQs mais recentes em http://sopadesalsicha.com/.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

Maus, 30 anos

Por Érico Assis

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Neste agosto, faz 30 anos que Maus — A Survivor’s Tale I: My Father Bleeds History saiu em forma de livro. Ou de graphic novel, se preferir. Art Spiegelman não preferia, mas com o tempo topou. Maus saía desde 1980 em fascículos encartados na Raw, revista que ele e a esposa Françoise Mouly editavam. Reunir os seis primeiros fascículos em graphic novel-livro-coisa-que-para-em-pé-lombada-quadrada mudou tudo.

Faz 44 anos que Spiegelman publicou “Maus”, uma HQ de três páginas sobre um filho ratinho que ouve do pai rato os apuros que este passou nas mãos dos gatos. Gatos que prenderam sua família, que levaram pai rato para Mauschwitz e que mataram vários e vários ratos.

Faz 80 anos que Vladek (Zev) Spiegelman e Anja (Andzia) Zylberberg noivaram. Casaram-se um ano depois. Richieu, o primeiro filho, nasceu em oito meses. No ano seguinte, o casal viu a primeira bandeira nazista. No seguinte, Vladek foi convocado a lutar pelo exército polonês. Nos seguintes, eles e família são realocados entre guetos, campos de trabalho forçado e de concentração. Ficam separados. Richieu é envenenado junto a outras crianças sob os cuidados de uma parenta que teme o pior nas mãos nazistas — ela também se suicida. Vladek e Anja reencontram-se, não mais prisioneiros, há 71 anos.

Faz 68 anos que Art Spiegelman nasceu, em Estocolmo, Suécia.

Faz 38 anos que Spiegelman começou a gravar longas entrevistas com o pai, em rolo de fita, pensando em transformar sua história de vida em quadrinhos. O que se registrou foi não só a história, mas a relação conturbada entre pai (rato) e filho (rato).

Faz 24 anos que Maus II – A Survivor’s Tale II: And Here My Troubles Begin ganhou um Prêmio Pulitzer. Foi a primeira HQ a ganhar o prêmio. Até hoje a única.

Faz 29 anos que um jornalista alemão, na Feira de Frankfurt, perguntou se Spiegelman não considerava um gibi sobre Auschwitz “de mau gosto”. Spiegelman: “Não, eu achei Auschwitz de mau gosto.”

Faz 25 anos que Spiegelman mandou uma carta ao New York Times solicitando que Maus passasse a figurar na lista de best-sellers de Não-Ficção. E não, como estava, na de Ficção. O Times respondeu: “Vamos todos à casa do Spiegelman e só passamos para a lista de não-ficção se um rato gigante atender a porta!” Provavelmente foram, pois o livro passou para a lista de Não-Ficção.

Faz apenas 15 anos que Maus foi publicado na Polônia. Poloneses, que não curtiram ser desenhados como porcos, protestaram em frente ao local de trabalho do editor. Vestindo uma máscara de porco, o editor abanou da janela para os manifestantes.

Faz 28 anos que saiu o primeiro artigo acadêmico sobre Maus. Não há, pelo menos em inglês, HQ mais analisada, pormenorizada, dissecada pelo mundo acadêmico em artigos, livros, aulas e palestras. Há cinco anos, Spiegelman colaborou com os estudiosos publicando Metamaus, um arquivo de referências em torno de Maus.

Há quatro anos, quando Spiegelman era convidado de honra do Festival d’Angoulême, as banquinhas de editoras independentes vendiam Katz, uma reprodução quase exata de Maus em que a única diferença era rostos de gatos colados sobre todos os personagens. O détournement criado pelo grego Ilan Manouach motivou um processo da editora francesa de Maus, a Flammarion. Sem dinheiro para se defender nos tribunais, Manouach e editores decidiram recolher o livro e destruir todos os exemplares. A pilha de papel picado é capa de Metakatz, livro que documenta e comenta todo o processo.

Há 20 anos, o livro Comics, Comix & Graphic Novels reproduziu quadros de Maus em tamanho ampliado — “tamanho de livrão de arte”, diz Spiegelman — sem autorização. Spiegelman processou a editora. “Os ratos gritando de agonia ao serem queimados vivos num fosso haviam virado uma coisa impactante demais, totalmente fora de contexto. (…) [Maus] é feita para ser impressa no tamanho em que foi desenhada.”

Há um mês, Nadja Spiegelman, filha de Art e Françoise, publicou seu primeiro livro de memórias. Chama-se I’m Supposed to Protect You From All This [Era para eu proteger você dessas coisas]. Embora não se tenha Holocausto nem (a princípio) ratos, há pelo menos um paralelo com Maus: o tema é a relação entre ela e a mãe.

Há 34 anos, Vladek Spiegelman faleceu. “Fiquei menos afetado pela morte do que achei que ia ficar”, diz Art, “talvez porque já estivesse por acontecer, talvez porque não havia mais espaço para mudar aquela relação. Fui ao funeral quase como um repórter tentando descobrir como era o fim da pauta. Mas minhas emoções foram mais rudimentares do que qualquer coisa que rendesse uma anedota.”

No ano passado, Spiegelman alertou que Maus fora recolhido das livrarias da Rússia em função de uma nova lei que proibia propaganda nazista. “É óbvio que não acho que Maus tenha sido o alvo da lei”, disse o autor. “Mas não queremos que as culturas apaguem suas memórias.”

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

“Tenho todos os dentes”

Por Érico Assis

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Geneviève Castrée em Susceptible. 

Quando Geneviève Castrée tinha uns 4 ou 5 anos, seu pai disse que ia ficar uns dias fora, visitando amigos em outra parte do Canadá. À mãe, ele disse que ela saberia se virar bem, sozinha com a criança.

“Quando voltou, falei que ele tinha razão: eu não precisava mais dele”, a mãe conta à filha crescida. Pai e mãe nunca mais se viram. A filha levou dez anos para rever o pai, que foi morar no meio do mato em uma ilha de Vancouver.

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Geneviève Castrée faleceu no último dia 9 de julho. Tinha 35 anos. Ela descobriu um câncer no pâncreas pouco depois do nascimento da primeira filha, um ano atrás. Em junho, seu marido montou uma campanha GoFundMe para pagar o tratamento. A campanha continua ativa.

Castrée — que às vezes assinava Geneviève Elverum — produziu cinco álbuns, participou de algumas antologias e tinha carreira paralela como cantora. Na música, identificava-se Woelv e, depois, Ô PAON. O marido, Phil Elverum, também é músico e os dois organizavam festivais de bandas indie. Pamplemoussi, um dos álbuns de Castrée, vinha com um LP.

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Aos 15 anos, nos dias em que passou com o pai depois de uma década sem se verem, os dois entraram em uma loja de quadrinhos e Castrée encontrou um gibi de Julie Doucet. Disse ao pai: “Se eu fosse menina, eu fazia quadrinho ASSIM!”

Ela já lia Tintim desde criança, e também se dizia influenciada pela Mafalda do Quino — que, embora quase desconhecida na América do Norte, tinha sua cota de fãs francófonos no Québec.

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Depois de vários minicomics, Castrée publicou seu primeiro álbum em quadrinhos aos 19 anos. Um editor sugeriu que ela produzisse um álbum mais pessoal, quem sabe autobiográfico. Ela levou onze anos para atender o pedido.

Susceptible mostra principalmente a relação entre ela e os pais, da infância ao fim da adolescência. A mãe, envolvida com drogas e namoros complicados. O pai, distante emocional e geograficamente.

Uma página é dedicada ao seu primeiro amor: “Ele e eu montamos um forte com cobertores. Lá dentro a gente desenhava e fazia outras coisas que não tão sérias assim mas que ainda quero deixar em privado.” Seguem-se três quadros de um emaranhado de cobertores se mexendo, soltando balões de risadinhas.

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Anders Nilsen, também quadrinista, escreveu no site do Comics Journal sobre a amiga. “Ela devia ter tido mais cinquenta anos para exibir para o planeta esse gênio particular que tinha — como música, contadora de histórias, mãe, esposa e amiga.”

Também mostra um dos últimos desenhos que ela fez: sorrindo, desenhando, junto com a filha. Há um balão de fala apontando para Castrée, que não diz nada.

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No final de Susceptible, Castrée reencontra a mãe depois de passar uma temporada de seis meses com o pai. É o momento em que decide sair da sombra e dos problemas dos dois. Como Miranda July diz na quarta capa, é o final simples e perfeito. Castrée espaça sua declaração final em três páginas:

“Tenho dezoito anos.”

“Tenho todos os dentes.”

“Eu faço o que eu quiser.”

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

 

Woody Allen, diretor de Tubarão

Por Érico Assis

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Foto: Ari Evergreen

Eu estava fazendo uma palestra sobre quadrinho nacional. Comparei a trama de uma HQ — acho que foi Aos cuidados de Rafaela, de Marcelo Saravá e Marco Oliveira — aos filmes do Woody Allen. Nenhum dos sete componentes da plateia (justificando: era uma palestra sobre quadrinho nacional) expressou reação facial. Na dúvida, perguntei:

— Woody Allen, diretor de cinema…?

Um garoto, aí pelos 18 anos:

— Ah, acho que eu sei. É o que dirigiu aquele filme velho, Tubarão, né?

Sem desculpas aos que se ofendem por tratar Tubarão como “filme velho”. Objetivamente, eu e o garoto somos mais novos que Tubarão, o que objetivamente faz ele entrar na categoria filme velho.

Em relação a Woody Allen ser diretor de Tubarão, compreendo a dificuldade dos entendedores em conectar a filmografia do Allen ao que é Tubarão. Mas eu me contive. Talvez tenha ficado um segundo de olhar fixo no garoto, tentando controlar o meu rosto e o sarcasmo borbulhante. Mas:

— Hã, não. O Woody Allen é um diretor que faz comédias, dramas, histórias mais intimistas. Ele estrelava muito os próprios filmes, um carinha mirrado de óculos. Agora ele está com mais de 80, não aparece tanto, mas continua fazendo filmes…

Me senti bem adulto.

Um amigo que estava na palestra, da minha idade, veio conversar comigo mais tarde. Ficamos inventando tramas de “Woody Allen’s Jaws”. Mas isso foi depois.

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O caso é que quando eu tinha os (supostos) 18 anos daquele garoto, acessei uma filmografia do Woody Allen via internet discada, fui à única locadora da cidade com busca em banco de dados por título estrangeiro (depois me disseram que tinha busca por diretor) e assisti à filmografia woodyallenesca. Em VHS.

Não é só o Snap, o PS4 e o catálogo do Netflix que desincentivam qualquer ser humano a fazer algo parecido hoje. Os gostos são muito fragmentados para chegar nessa idolatria — meio brega — de pesquisar e zerar filmografia de um diretor. Aliás, acho que a minha conclusão da experiência, naquela época, foi que eu não precisava nem devia ter visto todo Woody Allen.

Uma pessoa de 18 anos, mesmo levemente interessada por cultura pop — ei, o cara foi numa palestra sobre quadrinho nacional — tem opções demais, interesses demais e tempo de menos para se dar ao trabalho de saber quem é o Woody Allen. E outra: é uma coisa do tempo dos pais dele. O último Allen que eu acho genial, Descontruindo Harry, é de 1997: mais velho que o garoto.

Seria o caso de eu ter dito “Mas nem Zelig? Nem Manhattan? Nem o final do Memórias?” Oras, também ouvi coisas assim da geração acima da minha. Ou riram na minha cara. Algum velhão deve ter dito que eu precisava ler Hemingway para ser gente. Fui até o fim de Adeus às armas e minha vida não mudou. Embora eu tenha tido alegrias com as sugestões de velhões (Ardil 22, sim, mudou minha vida), o ponto é que nem todas as referências de uma geração cabem para a outra. Com sorte, devem haver pilhas de Woody Allens-youtubers na dieta cultural do garoto que eu nem conheço.

O ponto também é que estou velho e vou ter que começar a selecionar para quem cito Woody Allen como ponto de referência. Ou para contar piadas sobre “Woody Allen’s Jaws”.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.

Palmas, Teresinas e massas críticas

Por Érico Assis

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Hipster Civil War, de Caio Oliveira.

Na capa de A Passeio, Daniel dos Santos e Ciro Gonçalves estão à beira de um precipício. Um diz: “Vamo nessa?”; o outro: “Bora!”. As HQs de Daniel são recortes autobiográficos sobre seus 25 anos: conversas sobre namoro, sobre trabalho, sobre descobrir responsabilidade. Pontos na vida recente em que ele tomou choques de realidade.

Ciro, o parceiro de Daniel no precipício, também faz recortes da própria vida. As experiências como desenhista de feira — “e aí, vão querer que eu faça bonito ou parecido com vocês mesmo?” — parecem autobiografia fantasiada. “Um dia seremos como o amigo que foi embora” termina em uma foto de uma turma de crianças em que a legenda provavelmente conte a vida do Ciro, mas também a minha, a sua: “1- Brigamos por alguma bobagem que fiz. 2- Está de mudança. 3- Perdemos o contato. 4- Tá em cana. 5- Trabalha na concorrência. 6- Casou comigo. Somos todos amigos.”

Caio Oliveira é conhecido pelos mash-ups. Às vezes são de personagens: Turma da Mônica com Batman, Angry Birds com Birdman, Street Fighter com X-Men, Thor com Chapolim. Às vezes são misturas de temas: All Hipster Marvel, sua coletânea sobre heróis que já usavam barbicha e fedora antes de ser cool, circula entre fãs globais de Homem-Aranha e companhia. Panza, a última história de Sancho Pança, mash-upa Dom Quixote e Frankenstein não só pelo humor, mas entrando na alma do fiel escudeiro.

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São Paulo reúne a maioria dos quadrinistas do Brasil. Bom, São Paulo provavelmente reúne a maioria de qualquer coisa do Brasil. Mas é São Paulo, capital, que concentra o que se tem de indústria do quadrinho no Brasil, com estúdios, agentes que intermedeiam trabalho com editoras estrangeiras, cursos de quadrinhos, as principais editoras. São Paulo ainda tem o Proac, edital que financia 20 HQs por ano — mas só de autores que morem no estado (o que já foi motivo de mudança para quadrinistas).

O Rio de Janeiro tem uma turma respeitável de quadrinistas. Belo Horizonte também, com influência forte dos quinze anos de Festival Internacional de Quadrinhos. Brasília, Curitiba e Porto Alegre têm suas cenas, também organizadas em torno de um e outro evento, gibiteca, cursos, estúdios. Recife e Salvador juntam alguns nomes. São cidades que também têm editais de financiamento de projeto cultural, vez por outra uma HQ.

O quadrinho brasileiro é bastante focado em produção independente e amizades. Geralmente se sabe que aquele cara mora no Butantã, que aquele outro mora em Porto Alegre, que aquela menina acaba de se mudar pra cá de Natal, que a outra é de Brasília.

Daniel dos Santos e Ciro Gonçalves moram em Palmas. Caio Oliveira, em Teresina. Tocantins e Piauí não costumam aparecer entre, digamos, “capitais do quadrinho brasileiro”. Na busca por quadrinho nacional, é comum ignorar esses pontos que fogem dos núcleos que já se conhece, dos eixos óbvios. O mais comum é supor que, se o cara faz quadrinho tão bom, deve morar ali no Morumbi.

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Já se falou que a internet descentralizaria todos esses eixos e núcleos. Não é bem assim. Acho que foi num livro do Steven Johnson que li que toda cidade tem o mesmo percentual de gente que se dedica a atividades específicas, tipo lepidopterologia, investimento em debêntures e fazer quadrinhos. A vantagem dos grandes centros está na proporcionalidade: se 0,00001% da população de qualquer cidade é quadrinista, São Paulo tem 120 figuras que se reúnem, trocam projetos, combinam parcerias, montam estúdios, constroem indústrias.

Pelo mesmo percentual, Teresina teria 8 quadrinistas e meio. E se esses oito e meio combinam uma pizzaria, metade não vai, dois dominam a conversa falando de cerveja e os outros dois resolvem virar bancários. Pelo mesmo percentual, Palmas teria 3 quadrinistas e histórias parecidas.

Números fazem a diferença quando uma carreira como esta, que depende de investimento pessoal e muito estímulo. E só o estímulo dos tutoriais e likes da internet não basta. Ter uma cena, uma massa crítica, faz grande diferença.

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Mesmo que os números não ajudem, Daniel, Ciro e Caio se mobilizaram e mobilizaram outros. A passeio é patrocinada pela Prefeitura de Palmas e os trabalhos do Caio são fruto parcial do Núcleo de Quadrinhos do Piauí — que conseguiu organizar mais que 8 quadrinistas e meio.

Aquele proverbial encontro na pizzaria, felizmente, deu muito certo. Trabalhos que nem os deles fazem a gente torcer por mais encontros que nem estes, em outras Teresinas e Palmas por aí.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. É o editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Editora Narval). Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Também escreve em seu site pessoal, A Pilha.