Érico Assis

Cosplay

Por Érico Assis

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(Foto por mchulin)

Tinha um rapaz vestido de Tex. Mirradinho, mal enchia a camisa amarela e meio que sumia embaixo do chapéu. A gente apelidou de “Tex Terceiro Mundo”. Tinha uns caras que usavam roupas tipo Transformers e, sendo bem generoso, vinte e muitos anos na cara. Outro era um Capitão Kirk que certamente viu as exibições originais do seriado. Mas a atração maior foi o Homem-Aranha, de colante, empoleirado nas escadas e entusiasmado para tirar fotos.

Passei o fim de semana numa convenção de quadrinhos, a Gibicon, em Curitiba. Convenção de quadrinhos é o evento em que, como disse alguém nesses dias, você consegue encontrar 50 pessoas que gostam de quadrinhos no mesmo lugar e aí essas pessoas em teoria se veem forçadas a conversar sobre quadrinhos. E não interessa qual seja o tamanho ou a organização ou os convidados do evento, sempre vão aparecer os cosplayers.

Cosplay é essa brincadeira de vestir e encarnar personagens de HQ, cinema, games etc. No Gibicon, além desses do primeiro parágrafo, tinha stormtroopers, steampunkers sem referência identificável e vários Scott Pilgrims — intencionais ou não. Nenhuma Princesa Leia, apesar de ser uma fantasia recorrente.

(Tem cosplay na Flip?)

Apesar de não fazer a minha cabeça, é louvável o tempo que os cosplayers dedicam a montar suas fantasias, interpretar personagem e, enfim, a coragem de vestir colante. Mas, mesmo que não tão dedicado, também me sinto meio cosplayer nesses eventos.

Primeiro por ter que vestir a fantasia de jornalista, de entrevistador, de mediador. Participei de alguns como convidado, outros como enviado para cobertura e acho que até hoje nunca foi só de cidadão comum interessado — embora sempre tivesse interesse, antes de virar profissional.

Mas meu cosplay principal está em fingir que ler quadrinhos (ou escrever sobre eles) não é algo individual, recluso. E, nestes eventos, de repente é algo socializável. Estamos todos ali, todo mundo leu mais ou menos as mesmas coisas, viemos com nossas opiniões e… Pois é. E aí?

Acho que não sou o único que se sente meio incomodado. Penso que o principal indicativo disto sejam os assuntos mais frequentes que eu vi ou em que participei: cinema, futebol, cerveja e mulher (mesmo que elas estejam do lado — realidade recente, admito). Fora os momentos agendados da programação, como as mesas de debate, palestras e oficinas, pouco se fala sobre quadrinhos. Somos todos peixes e ninguém quer conversar sobre a água.

Mas penso que os maiores cosplayers do evento sejam os próprios quadrinistas convidados. Mais do que os leitores, fazem parte do cotidiano deles horas solitárias diante da prancheta ou do computador. Num evento, precisam de uma persona para enfrentar as legiões e suas opiniões. Pode até ser uma continuação do trabalho, como alguns justificam, mas é assustadoramente em público.

(Lourenço Mutarelli estava lá. Não parecia a fim de cosplay. Ficou mais interessado em circular pelos sebos de Curitiba do que passar horas no evento.)

O grande barato, claro, é conhecer ao vivo alguns rostos que só se conhecia na orelha do livro ou que não passavam de arroba-alguém. Os autores justificam que o corpo-a-corpo com os leitores (e não estou falando das groupies, por mais que também se aplique) estimula estes a continuarem lendo quadrinhos. E tem o fato de que autógrafo de quadrinista é o melhor autógrafo que se pode ter, com desenhos elaborados ao invés do tradicional “um abraço, fulano”.

Este ano, que eu me lembre, ainda tem eventos em Florianópolis, Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Os cosplayers vão estar lá: o Superman barrigudo, a adolescente vestida pelo namorado como princesa mangá, o Capitão América com escudo de papel machê, hobbits, zumbis, os quadrinistas e eu. A gente se finge por lá.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
http://www.ericoassis.com.br/

Excursões oculares

Por Érico Assis

A caixa era do tamanho de um frigobar. E bem leve para uma caixa do tamanho de um frigobar. Livros que eu compro pela internet chegam na agência da minha esposa e não é novidade para o pessoal de lá os pacotes e envelopes se empilharem na mesa — ou chegarem em bizarros sacos de batata. Durante a licença da Marcela, eu passava uma ou duas vezes por semana para buscar e tudo bem. Mas nesse dia resolveram me ligar. A caixa era do tamanho de um frigobar.

Nem ideia do que seria. Controlo as pré-vendas que faço na Amazon e outros lugares (sabia que tem um novo do Joe Sacco em fevereiro de 2012?), mas não havia nada de anormal para aquele mês. E certamente nada do tamanho de um frigobar. A não ser que, sei lá, a McSweeney’s tivesse esbanjado na última edição ou a Amazon enviado um brinde (já tive amigos que ganharam canecas; espero a minha). Ou, quem sabe…

Não tinha como, mas era. A compra que eu havia feito quatro dias antes, num surto gastador. Little Nemo in Slumberland: Many more splendid sundays. O livrão.

Não é do tamanho de um frigobar, mas foi a estranha solução encontrada pelos empacotadores amazonianos para preservar o livro no transporte. Essa edição de Little Nemo tem delicados 54 x 42 centímetros, mais que uma Folha de S. Paulo desdobrada. Mais que o dobro de um Breakdowns ou À sombra de torres ausentes, gibizões que a Companhia já publicou. Com umas 100 páginas de papel pesado e capa dura.

(E, sim, chegou quatro dias depois de eu confirmar o pedido. Como veio tão rápido? Mistério. Juro que sempre peço meus livros no modo de envio mais lento e mais barato. Livros de tamanho normal levam um mês, na média.)

Little Nemo in Slumberland: Many more splendid sundays é publicado pela Sunday Press Books, vaidade de um tiozinho californiano chamado Pete Maresca. Maresca e equipe reúnem os jornais originais onde saíram as, hã, tironas do Winsor McCay (publicadas entre 1905 e 1927) e restauram as cores e os desenhos carcomidos pelas décadas. Mantêm os erros de registro e outras falhas de impressão, no intento de dar aos leitores de hoje o mesmo visual que tinham de um século atrás. A única outra diferença é o papel especial, feito para durar. A impressão é feita na Malásia.

Já é a segunda coleção de Little Nemo da editora. A primeira saiu em 2005, comemorando 100 anos do início da HQ. Nesse meio tempo, a Sunday Press também fez coletâneas gigantes de outras tiras, como Krazy Kat e The Upside-Downs (curiosidade dos primeiros anos dos quadrinhos: tiras que podiam ser lidas no sentido normal e depois de cabeça para baixo), entre outras. O preço é salgado, mas não absurdo: 100 dólares, em média.

Em tempos de livro digital, essas anomalias livrescas parecem se justificar — errados são os livros “normais”, e a indústria gráfica existe é para esses virtuosismos (assim como as árvores). Abrir o livrão em cima da mesa é mais do que metade do prazer da leitura. Fica até desnecessário dizer que Little Nemo, a HQ, é fantástica, brilhante, proto-surrealista, inspiradora. O grande barato é fazer as excursões oculares de um ponto a outro da página — ou melhor: prancha — e rir ao compará-lo com os outros livros da estante (não que ele caiba na estante).

Para fins, digamos, científicos, fiz uma segunda experiência: Sundays with Walt & Skeezix, outra publicação da Sunday Press do mesmo tamanho dos Little Nemo, reunindo as tiras coloridas de Gasoline Alley. Também chegou em quatro dias. Dessa vez a caixa parecia uma tábua de passar roupa.

Enfim: Gibis gigantes! Megacaixas! Em quatro dias! O único medo é, como costuma acontecer com o Nemo, voltar para a realidade e cair da cama quando chegar a conta do cartão.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Filosofia de gibi e o sentido da vida

Por Érico Assis

Esses dias alguém deixou comentário num dos meus textos dizendo que pensar demais sobre os quadrinhos — e, por conseguinte, escrever sobre o que se pensa demais sobre quadrinhos — pode estragar algo feito para ser uma diversão leve, entretenimento. Não lembro das palavras exatas, mas acredito que o sentido era este.

Digamos que eu discorde em 90% do comentário. Deixo 10% reservados para comentar mais abaixo.

No meu trabalho como jornalista, acompanho diariamente aí por uma dúzia de blogs cujo único propósito é discutir gibi. Tem os puramente geeks, cuja joie de vivre é fazer listas das 10 melhores sagas dos Vingadores, 20 melhores desenhistas do Batman, 100 namoradas mais gostosas dos super-heróis. Tem os fervorosos, que escrevem ensaios de deixar fininho o nível da barra de rolagem para convocar linchamentos contra o atual escritor dos X-Men. Tem os nostálgicos, para ficar admirando o traço do Hal Foster, do Alex Toth, do Milton Caniff, do Neal Adams.

É um nicho, que tem até microcelebridades. Matt Seneca, de Los Angeles, tem uma coluna semanal para analisar quadros ou sequências de HQ num nível que lembra os ensaístas clássicos da Rolling Stone ou da NME destrinchando os thesaurus para explicar o gosto pelo Velvet Underground. Douglas Wolk, de Portland, aborda desde o impacto de tecnologias digitais até a metafísica lisérgica dos gibis do Warlock em freelas na Wired, na Salon e no New York Times. Chegou a escrever um livro chamado Reading comics (“Ler gibi”) que, veja só, é um monte de textos sobre gibis e quase nenhuma página de gibi.

Há também o Comics Grid, um blog que reúne gente que faz pesquisa acadêmica sobre quadrinhos, principalmente em universidades da Europa (incluindo brasileiros). São papers curtos, com direito a referência bibliográfica, de várias pesquisas maiores sobre linguagem, discurso, arte e técnica das HQs. No mesmo sentido, sabia que a USP tem um Observatório de Histórias em Quadrinhos, com pesquisadores que publicam trabalhos sobre quadrinhos no mundo inteiro? (E que vai organizar um congresso próprio agora em agosto?)

Dos geeks aos acadêmicos, todos são analíticos a seu modo e estão aí para pensar sobre as pretensões e despretensões dos quadrinhos. Mesmo que não goste de todos, é impossível não considerá-los válidos. E acredito que o fim deles não é apenas produzir filosofia sem propósito para os gatos pingados que, além de ler gibi, gostam de discutir e pensar sobre os gibis que leem. Eles propõem argumentos para explicar o que os gibis têm de essencial e específico. Conseguem esquecer que não existe um preconceito histórico contra os quadrinhos e falar deles com a mesma propriedade que se fala de outras mídias. Podem dar camadas novas de significado a algo que, à primeira vista, devia ter como significado único alguns minutos de escapismo.

Acima de tudo, eles constroem o aspecto social e necessário a qualquer tipo de leitura: o de falar para os outros sobre o que gostamos num livro, num filme, numa exposição e, enfim, num gibi. E, a partir daí, conversar. Há quem diga que o sentido da vida — fora a subsistência de pagar contas e preservar a espécie — seja esse: conversar sobre a nossa cultura. Concordo e recomendo.

Quanto àqueles 10%, aceito que ficar falando sobre gibi não seja pra todo mundo, e que às vezes você queira guardar seus significados e emoções com uma leitura para você. E pode-se encaixar aí também as discussões com instransigentes, que lhe chamam de imbecil por ter curtido um gibi mais ou menos do que “devia”. Como em qualquer área, há os teimosos. Porém, o problema é com as pessoas, não com os quadrinhos — culpe o mensageiro, não a mensagem.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Atividades sórdidas e desprezíveis (2)

Por Érico Assis

[Leia aqui a parte 1 do texto sobre o Comics Code Authority]


Dr. Fredric Wertham, psiquiatra que depôs no Senado americano ligando os quadrinhos à delinquência juvenil e à depravação.

Critérios gerais – Seção A: (…) (11) As letras da palavra “crime” na capa de uma revista de quadrinhos nunca deverão ser relevantemente maiores em dimensão do que outras palavras contidas no título. A palavra “crime” nunca deverá aparecer sozinha na capa. (…)

Critérios gerais – Seção B: (…) (4) A inclusão de histórias que lidem com comportamento desvirtuoso só poderão ser utilizadas ou publicadas quando o intento for o de ilustrar uma questão moral, e em caso algum o mal pode ser representado de forma atraente, tampouco de maneira que fira as sensibilidades do leitor. (…)

Diálogos: (1) Blasfêmias, obscenidades, indecências, vulgaridades ou palavras ou símbolos que tenham adquirido conotações indesejáveis são proibidos. (…)

Sexo e Casamento: (1) O divórcio não deve ser tratado com humor nem representado como desejável. (…) (3) O respeito pelos pais, pelo código moral e pelo comportamento honroso devem ser fomentados. A compreensão compassiva dos problemas do amor não é licença para distorções mórbidas.

São trechos do Comics Code, versão original de 1954. Você pode ler o Código completo aqui.

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Com o passar das décadas, o Código foi sendo revisado e a interpretação dos avaliadores tornou-se mais flexível. Em 1971, por exemplo, às portas do Watergate, autorizou-se que o governo ou outras autoridades fossem representados com algum nível de corrupção. Mas ainda aconteciam controvérsias: no mesmo ano, quando o roteirista Stan Lee quis mostrar um amigo do Homem-Aranha tendo problemas com drogas, a história teve que sair sem o selinho.

Na década de 80, estabeleceu-se o “direct market” — quadrinhos passaram a ser vendidos quase que exclusivamente em lojas só de quadrinhos, numa tentativa de estimular a diversidade do mercado (e facilitar a contabilidade, pois as lojas não devolveriam encalhe). As ameaçadoras páginas coloridas começaram a deixar as bancas, mercearias e drogarias, protegendo Johnnys e Marys de tentativas de sedução.

O mesmo período é conhecido como a chegada da maturidade dos quadrinhos nos EUA. Super-heróis ficaram mais soturnos e ganharam tramas mais complexas, em alguns casos até abrindo mão do selinho para permitir-se sangue, violência e insinuações sexuais. E, correndo por fora desde os anos 60, gibis underground como os de Robert Crumb haviam ajudado a criar toda uma vertente do mercado que não estava nem aí para Códigos de Ética — ou tinha prazer em desobedecer cada um dos artigos.

Em 2001, a Marvel Comics, hoje maior editora de gibis do país, abandonou o Código, tendo por pretexto querer publicar quadrinhos para todas as idades. Assim, adotou uma classificação indicativa própria — mesma medida que a concorrente DC Comics anunciou este ano, ao também deixar o selo. A maioria das editoras preferiu esta opção na última década.

Mas a história ganhou um contorno kafkiano: a DC informou que pagara em 2010 sua anuidade de associação ao Código e até então enviava suas HQs pelo correio para receber a benção. Só não sabia para quem enviava nem de quem recebia.

A jornalista Vaneta Rogers apurou que o selo vinha sendo administrado por uma representação, a Kellen Company, até 2009. Terminado o contrato com a Kellen, uma das funcionárias da empresa, Holly Munter Koenig, tomou para si a tarefa de avaliar os quadrinhos — voluntariamente e fora do expediente. Disse que fazia isso por admirar a causa da organização, cinquentenária como ela.

Ou seja: o Código só teve sobrevida por conta de uma carola com um carimbo nas mãos, aproveitando-se do anonimato.

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O principal sucesso do Comics Code Authority foi afugentar diversos talentos do roteiro e dos desenhos, que tinham os gibis como ganha-pão nas décadas de 30 a 40. Ao serem ostracizados como corruptores da juventude, centenas deles decidiram buscar empregos mais legítimos. 10-Cent Plague, livro recente do jornalista David Hadju, registra 902 nomes de profissionais que nunca mais assinaram um gibi após as décadas de 40 e 50.

Na interpretação de alguns, o Comics Code foi um movimento para derrubar a portentosa EC Comics. Acabou afundando todo o mercado. Hoje, as editoras só fecham as contas quando conseguem licenciar seus heróis para o cinema, os games e outras mídias mais lucrativas. As vendas de quadrinhos (fora livrarias) movimentaram US$ 420 milhões em 2010 — menos de 5% do que representa, por exemplo, a venda de ingressos de cinema nos EUA.

O maior trunfo do Código, porém, foi fazer os quadrinhos sumirem de vista. Fora a entrada nas livrarias na última década, nos EUA os gibis ficaram praticamente restritos às lojas especializadas, concentradas em cidades de grande porte. Brinca-se, com certo fundo de verdade, que o consumidor médio atual das revistinhas tem 35 anos e mora no porão da casa dos pais. Os gibis não são mais danosos à juventude, pois a juventude não os conhece — e nem faz questão de conhecer. Perversões sexuais, instituições dilapidadas e mulheres de proporções irreais estão a um Google de distância. Neste mundo, o Comics Code realmente não faz mais sentido. Se é que um dia fez.

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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Atividades sórdidas e desprezíveis

Por Érico Assis

Aos cinquenta e seis anos, o Comics Code Authority teve morte fria, solitária e quase imperceptível em fevereiro último. Conhecido como Código de Ética dos Quadrinhos, era a autoridade responsável por controlar o conteúdo dos gibis nos Estados Unidos, garantindo o entretenimento sadio e inócuo perante pais, crianças e donos de bancas. Seu fim foi recebido com a típica reação reservada a instituições arcaicas e celebridades que não se renovaram: “Ainda existe?”.

A DC Comics, casa-editora de Batman e Superman, anunciou em janeiro o abandono do CCA. O selo de aprovação do Código, símbolo de que havia passado por um rigoroso controle de censores invisíveis, era estampado na capa da maior parte das revistas da editora nas últimas cinco décadas.

No dia seguinte, a Archie Comics anunciou que também abandonaria o selo. Modelo da virtude puritana, seu personagem-título, o colegial Archie Andrews, passou 60 anos indeciso quanto a namorar a amiga loira ou a morena. Assim que decidiu (pela morena), tomou a decisão temente ao Código: casou-se. Apesar da nova liberdade perante as regras do bom-mocismo de gibi, não deve mostrar cenas da lua de mel tão cedo.

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Em 1954, os Estados Unidos viviam um dos momentos de maior popularidade dos quadrinhos. A circulação das revistinhas, mal impressas e ao custo de 10 cents, chegava à casa das dezenas de milhões. Com pouco menos de duas décadas, a mídia era uma febre entre crianças e adolescentes, num mundo sem computadores, videogames e ainda poucos aparelhos de televisão. Os maiores sucessos eram as histórias de crime e terror.

Foi o mesmo ano da publicação de Seduction of the innocent (A sedução do inocente). O livro do psiquiatra Fredric Wertham foi a epítome do repúdio aos gibis no país. Wertham dava razão aos pais, professores e clérigos que já vinham denunciando as revistinhas como instrumentos de sexualização precoce, incitação à delinquência juvenil e prejuízo à boa formação moral.

Para o psiquiatra, havia homoerotismo claro e nocivo na relação entre Batman e Robin. A Mulher-Maravilha, sempre às voltas com inimigas que a amarravam em poses sugestivas, simbolizava as taras sexuais (o que seu criador William Moulton Marston confirmaria, aliás). Superman, o homem melhor que os outros, só poderia estar estimulando impulsos fascistas. “Aquele S grande no uniforme — devíamos, creio eu, agradecer que não é um S.S.”

Wertham municiava um movimento que naquela mesma década já provocara a prisão de donos de bancas — por venda de material impróprio —, a promulgação de leis municipais e estaduais contra a comercialização de quadrinhos e, mesmo à sombra recente do nazismo, fogueiras para queimar gibis. Os incêndios organizados eram promovidos pelas escolas, que congratulavam o civismo do aluno que trazia sua própria coleção e a dos vizinhos. Serviu de iniciação política para vários baby boomers. E, como mostra A guerra dos gibis, de Gonçalo Junior, respingou até no Brasil via Reader’s Digest.

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O quiproquó chegou ao Senado, num comitê especial para tratar das causas da delinquência juvenil. Wertham depôs em audiência, como especialista no assunto, e trouxe exemplos lúgubres da depravação e do sadismo nas revistinhas. William Gaines, proprietário da EC Comics — a editora que concentrava as maiores vendas e as maiores críticas, por seus gibis de crime e terror — foi a voz de defesa da indústria. Seu desempenho, porém, não convenceu.

Às pressas, os donos das principais editoras da época reuniram-se em Nova York para montar a Comics Magazine Association of America. A associação criou as regras do Código de Ética e fez questão de propagandeá-las tão logo quanto pode. A ideia era mostrar que o mercado faria sua autorregulamentação antes que a censura viesse de cima.

Em 31 artigos, o Código mirava claramente os gibis de crime e terror, além da temática sexual. “Quando representados crimes, estes devem ser tratados como atividades sórdidas e desprezíveis”, diz um dos artigos. Mais: “em qualquer instância, o bem deve vencer o mal e os criminosos devem ser punidos por seus delitos”. Para deixar claro quem é o bem e quem é o mal, “policiais, juízes, representantes do governo e instituições distintas nunca devem ser representadas de forma a promover desrespeito para com estas autoridades estabelecidas”.

Para arrematar: “Perversões sexuais ou qualquer sugestão das mesmas são terminantemente proibidas” e “fêmeas devem ser desenhadas de forma realista, sem exageros quanto a seus atributos físicos”.

Todas as editoras deveriam enviar seus quadrinhos, antes da publicação, para serem revisados por um comitê cego. Caso se quisesse o selo de aprovação, a mocinha tinha que usar sutiã e a história acabava em beijos virginais — depois, claro, do mocinho entregar o bandido à altiva força policial. Bancas não vendiam quadrinhos sem o selo, e algumas gráficas recusavam-se a imprimir material não-certificado.

Enquanto isso, quem tinha televisão era agraciado com um episódio de Confidential File, espécie de Globo Repórter de 1955, dedicado à praga dos quadrinhos. Nas cenas dirigidas por Irvin Kershner — que, anos depois, dirigiria O Império Contra-Ataca —, um grupo de crianças envolve-se num ritual sádico de provocação e tortura após ler os maléficos gibis (assista aqui).

É de se imaginar como seriam os gibis hoje — um mercado de pouco mais de US$ 400 milhões nos EUA, nem 5% do que representa a venda de ingressos de cinema no país — se Wertham e o Comics Code não tivessem existido. Fosse ainda relevante ou não, é de se comemorar o apagamento do maldito selinho.

[Continua na próxima coluna]

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Érico Assis é jornalista, professor universitário e tradutor. Do selo Quadrinhos na Cia., ele já traduziu Retalhos, de Craig Thompson, Umbigo sem fundo, de Dash Shaw, e os três volumes de Scott Pilgrim contra o mundo, de Bryan Lee O’Malley, entre outros. Ele contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.
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