Joca Reiners Terron

História sobrenatural do espiritismo

Por Joca Reiners Terron

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1.
Estava eu acocorado diante de minha távola redonda quando entrou meu cliente, o editor de livros espíritas. Arrazoou seus devaneios de sempre, mais um: queria que eu contatasse Rimbaud e Verlaine, pois se cansara de psicografar analfabetismo alheio. Concordei, molhando o bico na xícara de chá onde escondia uísque e iniciamos os preparativos, que incluiriam minha secreta leitura de ambos. A fim de ganhar tempo para tal, marquei a sessão inaugural para a manhã seguinte. Devia era ter fugido.

2.
O editor, como todo malandro, é madrugador. Começamos pelo começo, depois dos finalmentes relacionados ao faz-me-rir. A dúzia de poemas ficou acertada em quinhentos cruzeiros, o que me pareceu honesto. Duvido que Rimbaud ou Verlaine tenham merecido tanto em vida, pois ganharia eu em seu lugar na posteridade, rá. O dia ensaiou dois ou três passos de bebê e se estabacou no chão. Aleguei mal estar e tonturas, sintomas da mediunidade, energia a flux. Ficou para outra. Assim que o editor saiu, corri ao sebo da outra esquina.

3.
No sebo havia apenas uma edição de poemas de Rimbaud. Custava cento e cinquenta cruzeiros, o que dava boa margem de lucro. Pedi fiado, disse que pagava na semana vindoura. O livreiro falou que não precisava tanto, éramos amigos, e consultou-me ali mesmo sobre amores negociados & negócios amorosos. Vislumbrei felicidades passadas, presentes e futuras. Riquezas ao alcance dos dedos e da piça. Arrebanhei o volume grátis.

4.
Na tarde próxima, após o almoço, surgiu atrasado o editor. Não tinha repousado bem, vomitou pela manhã, zonzo zonzo, que diacho. Teria contraído minha indisposição? No entanto, se eu estava melhor, em breve ele me imitaria: haveria de ser necas de pitibiriba, mera virosezinha. Abancamo-nos ao redor da mesa, à direita uma garrafa de vinho chablí de dezoito cruzeiros, o livro de Rimbaud à esquerda. Um de cada vez, expliquei, pois ouvi dizer que terminaram em briga feíssima. O editor concordou, cerrando olhinhos e alcançando minhas mãos. Ommm, meditamos.

5.
Nada aconteceu, mas isso foi só porque a energia do editor de livros espíritas se encontrava enfraquecida, a meio pau. Gripe mela com tudo, até as sagradas coisas do ectoplasma não resistem, expliquei. Voltaria dois dias mais tarde, já devidamente aspirinado. Foi-se, aos espirros. Lavei as mãos e voltei a ler Rimbaud. Devia ter me antecipado ao baixo astral do ambiente, economizaria tempo e fosfato, pois dinheiro não tenho. Muito menos vergonha. No difícil prefácio, soube da precária existência da dupla de facínoras. Um deles atirara no outro. Expuseram intimidades cabeludas ao escrutínio jurídico. Outro tornou-se carola. Um se mandou para África. Fim? Ma che.

6.
Com a tesourinha de cinco cruzeiros, recortei versinhos do livro. Onde estava a Tenaz, que nunca lembro onde escondo? Encontrei, salivei o biquinho com meio chupão, esparramei cola branca no papel almaço. Ficou assim, se eu gostei?

Certos céus aperfeiçoaram minha ótica;
A que animal é preciso adorar?

Rumores das cidades, à noite,
Um verde e um azul bem carregados
Invadem a imagem.

Tudo se fez sombra e aquário ardente.
O mundo reduzido a um único lenho negro.

Ô, gostei demais da conta.

7.
Três dias depois, retornou o editor. Corado. Pimpão. Disse: vamos. E fomos. Destapei nova garrafa de vinho, mais caro, pois parte do fracasso se devera ao chablís de dezoito cruzeiros, expliquei. Este custa vinte e cinco e é francês de origem comprovada, veja. Ergui o selo. Xar-dô-né, sublinhou o editor. E assim baixou Rimbaud, por meio da colagem de poemas, que anotei enquanto sacudia a cabeça para trás e adiante e luzes acendiam e apagavam sob ímpetos da energia do bad boy de Charleville a endemoninhar o ambiente. Suado, entreguei a primeira dúzia, e o editor molhou-me as palmas com quinhentos cruzeiros. Agendamos Verlaine para dali a cinco dias, o poeta adolescente esgotara-me. Trinta e sete, sussurrou o editor. Trinta e sete, não, eu disse, combinamos quinhentos e isso também vale para o Verlaine. Não, disse o editor, quando morreu Rimbaud tinha trinta e sete. Ah, aquiesci. Qual siri, calei a tromba, repousando a poupança no divã, exaurido pelo esforço mediúnico.

8.
O mundo editorial se mexe rápido, no ritmo da gatunagem. Alegando compromissos com a mercancia efervescente, o editor faltou ao encontro seguinte. A dúzia de Verlaines a quinhentos módicos já o aguardava, porém na gaveta. Prossegui ao botequim para enxaguar a alma, e não é que o vespertino estampava na lateral da banca a seguinte manchete? RIMBAUD RESSUSCITADO. Prosseguia: “Eterno poeta adolescente galga lista de mais vendidos”. Tinha mais: “Editor de livros espíritas acerta em psicografias de grandes autores e fatura alto”. Meus advogados! Pressenti que meus royalties eram afanados e profanados. Meus sais, suspirei no balcão do Piolho após a talagada. O Piolho entendeu “quero mais”, e encheu meu copo.

9.
O editor adentrou a sala e a lâmpada oscilou. Sorriu, não mencionou bulhufas, iniciamos a sessão. Como não tinha mais cruzeiros para adquirir exemplar de sua lavra, compus a dúzia de Verlaines com sobras de retalhos de Rimbaud. Ninguém veria a diferença, apostei sem nunca ter tido sorte para tanto. Sob a mesa, pressionei o botão da “psicografia pirotécnica”. Era convincente até para mim. Vento uivava, luz piscava, portas e batentes tremiam. Só as pernas balouçantes da cadeira do cliente mereciam um Oscar de efeitos especiais. No meio dessa balbúrdia, ouvi berros em francês. Não dei bola. Com os quinhentos cruzeiros em caixa, comecei a culpar Zezinho, meu comparsa eletricista. Aquele conversê em francês era o fino da troça. O Oscar de efeitos especiais estava no papo. Esse Zezinho… que danado.

Quando somos muito fortes;
Sim, tenho olhos fechados à vossa luz. 

Eu bem seria a criança abandonada no cais.
Quanto ao mundo, em que se tornará, 

Quando saíres dele? Abertos ao espirito
Dos viajantes e dos nobres. E nós o evocamos

E ele viaja…

Verlaine é o bicho, tilintou o editor: mas que bardo. Pensei: “mas quebrado”.

10.
Ao telefone, Zezinho me disse que não sabia a respeito de que eu tresloucava, pois nunca distinguira francês de russo. Não tinha coisa alguma a ver com o vozerio afrancesado que ouvi durante a sessão. Desliguei e cocei a cachola. Depois, enchi a cara com chá de malte e as pulgas sossegaram detrás da orelha. No meio da noite, acordei com novo fuzuê no centro de atendimento.

Fils de pute, ces vers sont de mois!
Vous êtes ce que c’est. M’a même donné un coup de feu! Crois que j’ai oublié?

Fui até a mesa redonda. Completo silêncio. Tinha algo errado. Ô se tinha.

11.
Em poucos dias, o centro virou a franquia do inferno. A brigaiada em francês não me deixava dormir. O editor sumiu por duas semanas. Na terceira, fui ao balcão do Piolho. Notícia nenhuma nas laterais das bancas de jornal, boa ou má. Inquieto, zaranzei pelo centro. Quem sabe não trombaria com o editor em carne, osso e espírito? Cruzei foi com o bilhete da borboleta da loteria, premiado segundo o vendedor. No dia seguinte, deu zebra. Meu amigo editor flagrou-me no ato de rasgar o bilhete: denúncias de plágio o obrigaram ao sumiço, mas voltara. Acusavam-no — a Associação de Médiums do Brasil — de plagiar Verlaine com pastiches de Rimbaud. Encostou-me na parede: eu precisava desatar o imbróglio. Exibiu o punho diante de meu nariz (usava anel de caveira). De soslaio, procurei a tesourinha de cinco cruzeiros. Alegaria legítima defesa. Por que diabos, porém, nunca lembro onde a deixei?

12.
Plágio em psicografia, como pode?

Pois não pode. A A.M.B. não permite.

E agora? Que fazer?

Convoque Verlaine. Uma dúzia de sonetos há de nos salvar!

Aiai.

Que foi?

Não entendo o que ele fala.

Por quê, sempre chega bêbado?

Não é bem isso.

Demasiado hermético?

Até que não, sabe…

Qual o problema?

É que não entendo francês.

Então quis saber de onde tirei os poemas. Expliquei meu método poético com tesoura, cola Tenaz e um velho livro de Rimbaud. Fez as contas, o resultado em cruzeiros o levou a me plantar um pé-de-orelha. Fiquei com uma caveira em baixo-relevo bem na bochecha. Era para lembrar que eu tinha encrenca a resolver. Com urgência.

13.
Amordaçada e amarrada no chão do centro espírita, a professorinha da Aliança Francesa gemia. Em francês, o que deixava tudo sensualmente incompreensível. Qual seria a pena para sequestro, quinze, vinte anos? Pouco importava. Eu passaria todo esse tempo ao lado dela. Que biquinho. Imaginei-a sem a mordaça, dizendo si-vu-plê, petípoá, sutiã. Começou a ouvir vozes. Desatei-a. Ela sussurou, quase num gemido: ouça, brigam — trata-se de querela romântica. Quem são? Expliquei: Rimbaud e Verlaine. Não acredito, ela ganiu. São meus ídolos! Comecei  a massagear-lhe pulsos e tornozelos e a devassar seu decote, enquanto ela os chamava: venez, venez, cesser les combats et parlons un peu!

14.
Professorinha Lili, assim fora batizada. Era um fenômeno, de língua e linguagem. Na cama, me ensinou o beabá francês, que aprendera na Legião Estrangeira. No centro, transcreveu e traduziu 123.474 sonetos saturnianos compostos por Verlaine no purgatório. Metade reclamava da qualidade do absinto que lhe serviam por lá, outra metade das saudades de Rimbaud. Entendeu-se, o casal. A separação de 135 anos lhes fizera bem. Arthur ditou seus diários de África. Harar, o tráfico de fuzis, Djibouti, sua paixão pela fotografia, Ras Makkonen. O editor de livros espíritas ganhou milhões de cruzeiros com isso, mas nos repassou os royalties. Ficamos ricos, e passamos a viver os quatro no centro. O editor nos visitava com frequência, à cata de psicografias. Trazia sacos de cruzeiros. A Aliança Francesa, que me enviou Lili e uniu os poetas, nos salvou.

15.
No entanto, tudo que é demais acaba cedo e mal. Em uma noite de insônia em que fora até a geladeira do centro espírita, Lili retornou ao quarto com o copinho d’água trêmulo na mão e a má notícia: não são eles — nos enganam. Eram uns surrealistas peraltas, Benjamin Péret e René Crevel. Troçam de nós. Dois espíritos de porco, isto sim. Lili os ouvira enquanto riam às nossas custas. Consumiam drinques de ectoplasma adquiridos com nossos cruzeirinhos. Uns ignóbeis. Estapeá-los-ia se não fossem espectros. Então aconteceu: a Associação de Médiuns do Brasil esmurrava nossa porta, que veio abaixo. No saguão, os agentes carregavam um Detector Estroboscópico de Psicografias Falsas, cujas luzes pisca-piscantes iluminavam o cenário de forma a parecer uma cena natalina. Lili olhou pela janela: o editor de livros espíritas estava lá fora, algemado. Tinha uma melancólica expressão de abandono. Havíamos sido pegos. Malditos surrealistas, quem diria, acabaram com nosso sonho.

* * *

Despeço-me do blogue com este conto publicado originalmente na revista Modo de Usar & Co. 4 (Berinjela, RJ, 2013) e que circulou pouco. Agradeço a todos pela leitura, pelos comentários e curtidas. Muito obrigado à Juliana Vettore pelo convite lá em 2010, e a Clara Dias, Diana Passy, Taize Odelli e demais envolvidos pelo carinho e paciência. Foram 5 anos que passaram num piscar de links & num clicar de olhos.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013.
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Desapontamentos V

Por Joca Reiners Terron

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1.
Em vez de anteciparem o final de semana, anteciparam o fim do mundo. Mas que cousa.

2.
Cena matinal: homem de boné com seu cão na coleira descem do táxi. Assim que o táxi parte, ambos saem correndo atrás do automóvel. Só o cão late, o que não deixa de ser estranho.

3.
No verão tropical todo cidadão deve estar compromissado com este épico decisivo para o futuro da humanidade, a guerra contra as baratas.

4.
Teoria: a abreviação “bj” é usada em emails de trabalho devido à lascívia da palavra escrita por extenso (geraria mal entendidos). Mas sem acaso (por acaso) existiria o amor?

5.
Palavra-valise de ocasião: bibliotencaixotamento.

6.
Estou de mudança. Dá trabalho se despedir dos cantos amados do bairro. A parte mais complicada é explicar as lágrimas diante do bife à milanesa da esquina, do hidrante simpático, da pitangueira generosa, do garçom amigo.

7.
Cena vespertina: pardal iça lagarta sem sucesso. Gorda demais (folhas da amoreira verdejam de tanta chuva), acabou no bico do bem-te-vi.

8.
Agora que tô encaixotando 5 mil livros eu concordo que o e-book é uma boa ideia. Que puta dor nas costas!

9.
De furadeira na mão, seu Lima, marceneiro e filósofo, diz: “No fim, tudo dá certo, seu Joca”. Ou termina em um buraco negro na parede, penso eu.

10.
Escrever resenha não é como andar de bicicleta. A primeira do ano é um parto.

11.
A pessoa que você ama é composta de 7.000.000.000.000.000.000.000.000.000 (7 octilhões) de átomos e você ainda acredita em monogamia?

12.
SP, verão — 2ª fase: chuvas e trovões às 17h. Nessa fase dá pra adotar a cantada do pessoal de Belém: “nos vemos antes ou depois da chuva?”

13.
A resposta mais romântica, claro, deve ser “e por que não DURANTE a chuva?”

14.
Cena vespertina do centro de SP: um homem sozinho na rua acena para os balcões vazios da padaria.

15.
Cena noturna na Zona Oeste: uma jaca se espatifa na calçada. Silêncio, tudo volta ao normal. Então a jaca espatifada começa a exalar seu cheiro e o mundo se transforma, mergulhado em ilusão.

16.
Descubro que Fred Vargas, romancista policial, não é mexicano nem cubano e sim francesa, além de mulher. O enigma já começou no nome da capa.

17.
Na rica Bananalândia o preço da banana tá pela hora da morte. Eis um paradoxo.

18.
Sonhei com pessoas a quem devo trabalhos. A todas eu repetia a máxima de seu Lima, 85, marceneiro e filósofo: “No final, tudo dá certo.” (o buraco negro pisca duas vezes seu olho cego pra mim.)

19.
O meteorito que cai na Rússia derrubou a NET em São Paulo, explicou o atendente. Tá tudo interligado, tá ligado?

18.
Li no jornal que, aos 98 anos, morreu o maquiador que criou o visual do mestre Yoda. Então Yoda não era real? Desisto da vida, quero morrer.

19.
Triste constatar, mas o mendigo gato se internou, desintoxicou-se e perdeu a linha. Sua boa aparência famélica já não serve aos editoriais de moda.

20.
Tem dia de 12 horas que só almoçando coxinha, mesmo.

21.
Oscar Pistorius. Reeva Steenkamp. Hilton Botha e o detetive Vinesh Moonoo. Com esses nomes misteriosos já antecipo o livro, o filme, as cifras. (Que paródia de policial não daria se escrita por Thomas Pynchon — assassino velocista com próteses, detetive serial killer afastado do caso etc.).

22.
Quanto mais podres os dentes, maior a fome.

23.
Limpador de para-brisa só dá problema quando chove.

24.
Vivian Whiteman já disse na Folhinha que Dilma é a Mônica crescida (dentuça, brava e vestida de vermelho). Isso ainda faz sentido, inconsciente brasileiro?

25.
Ter de ir à Eletropaulo do Anhangabaú para alterar titularidade da conta é a forma que SP arranjou para a classe média encarar a realidade.

26.
Estou tão cansado que sentei na poltrona e me transformei na própria poltrona.

27.
A lição de vida que tenho a dar hoje é: nunca coma três burekas seguidas. Até mais ver.

28.
A Louca da Tok&Stok: quem não esteve casado com ela, nem sequer por uma hora?

29.
Sons noturnos do Centro de SP: caminhōes escangalhados, sirenes, alarmes disparados, pedidos de socorro, discursos incoerentes de alguém fritando.

30.
Dicas para uma vida longa: nunca arranje encrenca com o sujeito que faz a manutenção do seu fogāo velho.

* * *

Leia mais Desapontamentos I, II, III e IV.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão do ditado

Por Joca Reiners Terron

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Estávamos sempre de chegada ou de partida. O  intervalo entre esses dois extremos, nossa casa, durava pouco, enquanto viagens de mudança pareciam não ter fim. É o que me lembro dos primeiros tempos até os meus 14 ou 15 anos. Nosso recorde familiar de residência foram três anos em uma cidade, Bela Vista. E foi lá que ganhei a ilusão de que, assim como a maioria das outras pessoas, um dia tive amigos de infância.

A culpa era do Banco do Brasil. Eu amaldiçoava o presidente do Banco do Brasil toda vez que meu pai chegava na porta da sala e dizia: vamos mudar, hora de levantar acampamento. Tínhamos poucos dias para nos despedir dos amigos, antes mesmo de merecer chamá-los assim. Mas talvez a informação nos fosse calculadamente sonegada apenas para não sofrermos mais do que o necessário.

Os primeiros objetos da casa a serem encaixotados eram os livros, outro motivo de ódio pelo presidente do Banco do Brasil. É claro que estou forçando a barra aqui ao dizer que odiava o presidente do banco, alguém que eu nem sabia que existia nos anos 70, e de quem nunca soube o nome: eu odiava o Banco do Brasil como um todo, como a uma Entidade Metafísica do Mal, porém hoje sou correntista (“cliente bancário desde 01/97”).

Bela Vista era uma cidade com rio, o que costuma ser coisa boa para qualquer cidade. Não é bom só para a cidade, claro, mas para os habitantes da cidade, e principalmente para as crianças da cidade, se o rio não for poluído. Era meu caso, o de meu irmão e dos amigos que fizemos por lá. Esqueci de dizer que eu tinha um irmão, mas ele era muito menor, mal tínhamos assuntos a conversar. Era dois anos mais novo do que eu, o que equivale a cem anos quando se é criança.

O rio nos ajudou a fazer amizade com os garotos Palmieri e Garibaldi, que calhavam de ser primos. Com os Palmieri e os Garibaldi, ombro a ombro, nós travamos algumas batalhas fluviais contra inimigos reais e imaginários. Além do rio, existia a fronteira, e além da fronteira, existiam paraguaios. Os paraguaios estavam ali para que nossa autoestima ficasse bem no alto. Eram tempos de ingenuidade, aqueles, e acreditávamos no que líamos nos livros, que éramos descendentes dos heróis que venceram a Guerra do Paraguai. Até então não sabíamos que os verdadeiros heróis se encontravam na outra margem do Apa.

A ditadura então se confundia com o ditado, que podia levar uma aula inteira, nem sempre sendo concluído com um ponto final (às vezes o ponto final era uma régua partida pelo professor em nossa cabeça). O ditado não melhorou minha letra nem minha cabeça, além de se confundir com certa ideia de tortura que me acompanha até os dias de hoje, e cujo efeito colateral é o seguinte: para memorizar um texto, qualquer texto, preciso copiá-lo.

Por sorte, a oralização teve seu contraponto lúdico através dos Garibaldi, na verdade por causa do Garibaldi, pai do Flávio e do Guto, marido da Suely e amigo de meus pais. O Garibaldi era gaúcho e também chegara a Bela Vista amaldiçoado pelo Banco do Brasil, mas lá conheceu a Suely, filha de seu Tibi, um fazendeiro, e por ali ficou, imitando o sogro. Nos finais de semana, o Garibaldi nos levava com os filhos para sua fazenda repleta de lendas, desconfio que em boa parte criadas por ele.

De noite, o palco se armava na varanda do casarão: uma fogueira se acendia, pelegos se esparramavam pelo chão, onde os meninos se deitavam à espera do Garibaldi. Ele aparecia depois de algum suspense, a cuia de tereré na mão, e sua entrada era sempre cercada por inevitável pompa trazida pelo chacoalhar das esporas. Suas histórias falavam de mitos regionais como o Pé-de-Garrafa, noivas que se perderam na mata no dia de seu casamento, tesouros enterrados na selva e escravos assassinados que voltaram para se vingar.

O contador de histórias também era rigoroso encenador, e orientava os peões que fizessem ruídos na escuridão da mata ao redor da varanda, e que em determinado momento da narrativa — marcado por um sinal invisível para a audiência aos seus pés —, eles surgissem ao longe, envergando lençóis brancos. Após aguardar com paciência os efeitos de sua história, Garibaldi se erguia assim que um de nós apontasse os fantasmas, buscando a espingarda e disparando tiros para o alto. Acredito que aquelas encenações foram meu primeiro contato com o teatro. As histórias do Garibaldi representavam a liberdade coibida pelos ditados escolares.

Soube, anos depois, que meu amigo Guto, filho do Garibaldi, morreu em uma fogueira diante daquela mesma varanda. Relato aqui apenas o que me contaram, não sei se foi bem assim: na noite de seu casamento, enquanto deveria estar com sua noiva na lua de mel, Guto apareceu na fazenda, bêbado e confuso. Depois de lamentos incompreensíveis, sacou a arma e se suicidou diante dos peões, colocando um ponto final em nossas infâncias.

José Garibaldi da Rosa Neto morreu no último dia 25, aos 74 anos, de infarto. Deixou boas recordações.

PS.: Meu livro Curva de Rio Sujo (2003), cujas histórias se passam em Bela Vista, foi adaptado para o cinema pelo diretor e roteirista Felipe Bragança (de A Alegria, entre outros). A rodagem acontece na cidade nestes meses de junho e julho, em co-produção com a Globo Filmes.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão dos exercícios

Por Joca Reiners Terron

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1. O incêndio vespertino nas piscinas dos subúrbios

John Cheever, em sua temporada como professor na Iowa University, propunha três exercícios aos seus alunos:

  1. A escritura de um diário pelo tempo mínimo de uma semana, um diário onde aparecesse de tudo: sentimentos, sonhos, orgasmos, todo tipo de sensação, desde as mais íntimas até a descrição da cor de garrafas vazias ou em vias de serem entornadas;
  2. O segundo exercício consistia na composição de um conto no qual sete personagens ou sete paisagens que aparentemente não tivessem nada a ver um com o outro surgissem inevitável e profundamente relacionados entre si;
  3. O terceiro exercício — e esta era sua lição favorita — era redigir uma carta de amor como se estivesse escrevendo em um edifício em chamas — “Um exercício que nunca falha”, dizia.

E Cheever disse mais, num depoimento à Newsweek: “Um conto ou um relato é aquilo que se conta a si mesmo na sala do dentista, enquanto está se aguardando que nos arranquem um molar. O conto curto tem na vida, me parece, uma grande função. É também em sentido muito especial um bálsamo eficaz para a dor: preso na metade do caminho em cima do teleférico que leva a pista de esqui, no bote que se parte ao meio, diante do doutor que observa fixamente as nossas radiografias… Passamos o tempo esperando uma contra-ordem para a nossa morte e quando não temos tempo suficiente para um romance, bem, aí está o conto curto. Tenho certeza de que, no momento exato da morte, o que uma pessoa conta para si mesmo é um conto e não um romance”.

No ensaio Why I Write Short Stories (que coincidiu com a publicação de seus contos reunidos), John Cheever esclareceu a maneira com que compreendia a narrativa curta: “Quem lê contos?, alguém se perguntaria, e gosto de pensar que são homens e mulheres em salas de espera quem os leem; os leem nas viagens aéreas intercontinentais, em vez de assistir filmes banais e vulgares para matar o tempo; os leem homens e mulheres sagazes e bem informadas que parecem sentir que a ficção narrativa pode contribuir muito para nossa compreensão de uns e outros e, algumas vezes, do confuso mundo que nos rodeia. O romance, em toda a sua grandeza, exige, ao menos, algum conhecimento das unidades clássicas, que preservam esse laço misterioso entre a estética e a moral; porém que essa novidade inexorável exclua a novidade em nosso modo de vida seria lamentável. Alguns conhecem esta novidade através de A Guerra das Galáxias, outros através da melancolia que se segue ao erro cometido por um jogador que não rebate sua última chance num jogo de beisebol. Na busca da novidade, a pintura contemporânea parece ter perdido a linguagem da paisagem e — muito mais importante — do nu. A música moderna se separou daqueles ritmos mais profundamente enraizados em nossa memória, porém a literatura ainda possui a narrativa — o conto — e defenderia isto com a própria vida. Nos contos de meus estimados colegas — e alguns dos meus — encontro aquelas casas de verão alugadas, esses amores de apenas uma noite, e os laços extraviados que desconcertam a estética tradicional. Não somos mais nômades, mas isto permanece sem dúvida mais do que uma insinuação no espírito de nosso grande país, e o conto é a literatura do nômade”.

 

2. O fícus etc.

Vejamos: o mais proverbial dos exercícios de criação literária é aquela sugestão de GUS Flaubert a Maupassant, THE GUY:

— Senta-te diante deste fícus, oh Maupassant, e descreva-o em cento e trinta mil palavras.

Ou algo que o valha.

Se Maupassant não fosse tão desobediente, é provável que tivesse antecipado o nouveau roman em século e meio.

Enfim.

(Fícus. Datação: sXX Acepções: substantivo masculino de dois números Rubrica: angiospermas. design. comum às plantas do gên. Ficus, da fam. das moráceas, que reúne cerca de 750 spp. de árvores, arbustos e lianas, tb. conhecidas como figueira , com látex leitoso, raízes aéreas e subterrâneas ger. poderosas, folhas quase sempre simples, e flores e drupas em um receptáculo carnoso (o figo), tido como fruto [Nativas das Américas, África e esp. da Índia à Austrália, várias spp. são cultivadas pelas madeiras, como medicinais, pelo fruto comestível, para extração de fibras e resinas, e esp. como ornamentais.] Etimologia: lat.cien. gên. Ficus (1735); ver fic(i/o)- Sinônimos: fico.)

 

3. Atualizações possíveis, ou tudo fala com você

Cheever:

  1. Comentário da movimentação de um dia de sua timeline no Facebook sob a perspectiva do seu maior inimigo;
  2. Um relato sobre o encontro de cinco gerações de uma família numa tarde de domingo, encontro que só é possível nos dias atuais, com a evolução da capacidade da medicina de prorrogar a morte;
  3. Redigir um hate mail como se o seu laptop estivesse em chamas e sua conexão fosse cair em (contagem regressiva) 5, 4, 3, 2, 1, 0 minutos.

Flaubert:

Senta-te num banquinho no meio desta vida, oh mau passante, e descreva O HORROR em centro e trinta mil palavras.

Ou, mais atual impossível, William S. Burroughs:

“Dê uma volta pelo quarteirão. Volte e escreva precisamente o que aconteceu, com particular atenção àquilo que você pensava ao notar um sinal de trânsito, um carro ou um estranho que passava ou qualquer outra coisa que cativasse sua atenção. Você está recebendo mensagens. Tudo fala com você.”

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão do escritor

Por Joca Reiners Terron

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O cúmulo da ambição de um leitor é desejar todos os livros publicados em todas as línguas existentes, inclusive aquelas ainda por aprender e as que nunca aprenderá, embora saiba que uma vida inteira não seja suficiente para ler a totalidade dos livros publicados em sua língua materna e naquelas que por ventura venha a conhecer.

* * *

No entanto, dentre os maiores leitores da História, Montaigne afirmou ter uma biblioteca de não mais de cem exemplares. Tal economia de recursos não o impediu de ser quem foi. Lembro-me também de uma reportagem com o poeta Décio Pignatari na qual, após sua mudança do sítio onde viveu na região de Jundiaí para um apartamento menor em Curitiba, foi obrigado a se livrar de grande parte de sua biblioteca. Concluía a conversa afirmando que a biblioteca ideal não deve abrigar mais do que oitocentos volumes.

* * *

O conto “A viagem de inverno”, de Georges Perec, relata a descoberta de um livro impossível. Em um final de semana entediante no campo, o professor de letras Vincent Degraël lê ao acaso um volume retirado da biblioteca de seus anfitriões. No livro desconhecido, identifica frases e versos idênticos aos de alguns dos clássicos modernos franceses. Qual sua surpresa, porém, ao descobrir que o livro que tinha em mãos era anterior a todos aqueles clássicos. Aquelas páginas minguadas teriam originado tudo o que havia de essencial na literatura francesa? Então vem a guerra, e a biblioteca da casa de campo é destruída em um bombardeio. Degraël passa a vida a buscar outro exemplar de “A viagem de inverno”, sem nunca encontrá-lo, até morrer em um hospital psiquiátrico.

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Desfecho mais comum entre aqueles marcados pela sina da leitura, a ambição desmedida de um leitor pode ser frustrada logo de início, ao não se encontrar um livro muito desejado, um título que foi traduzido em sua língua, e que em tese estaria ao alcance, dependendo apenas dos talentos de um bom livreiro. No entanto, uma vida inteira pode ser desperdiçada na caça a um volume impossível de ser encontrado, como a do pobre Degraël, e tamanha frustração, além de minar o ânimo de um leitor, pode destruí-lo.

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Ao final do conto de Perec, após a morte de Degraël, seus alunos descobrem o caderno que reunia as informações relativas ao livro “A viagem de inverno”: “as oito primeiras páginas descreviam a história de suas pesquisas frustradas; as outras trezentas e noventa e duas estavam em branco”.

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Interpreto o conto de Perec — um dos mais perfeitos que já li — como uma alegoria do nascimento do impulso criador. É, sem dúvida, uma metáfora de duplo corte, pois ao mesmo tempo que prefigura a faísca da invenção literária, sugere o fracasso que vem embutido em toda criação.

De todo modo, eis o que vem a ser um escritor: o leitor mais ambicioso que, ciente da impossibilidade de ler todos os livros, decide escrever aquele único que lhe falta, aquele único que não pode lhe faltar, preenchendo o espaço vazio da prateleira de sua estante com algo que não desapareça, que não precise ser procurado até o fim do mundo ou o limite de sua sanidade. Se vai conseguir, são outros quinhentos.

Essa busca é a própria atividade do escritor, a sua missão.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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