Joca Reiners Terron

Como fugir de um lugar inexistente

Por Joca Reiners Terron


Confiteria Oro del Rhin

Estive em Montevidéu.

A frase tem algo de irreal, basta escrevê-la e de imediato se estabelece a dúvida. Estive mesmo em Montevidéu, será possível? Se foi um sonho, algumas lembranças ainda permanecem intactas. O vento frio nas ramblas. O solzinho da manhã de primavera filtrado pela ramagem que começa a nascer nos plátanos da praça Sarandí. Sombras de prédios se espreguiçando sobre ruas vazias.

Montevidéu existirá de verdade?

Vasculho a mala e acho uma prova de minha estada. Não poderia ser outro objeto a não ser um livro. É Parir, o segundo romance de Andrés Ressia Colino, único uruguaio na lista de 20 melhores autores de língua espanhola com menos de 35 anos da revista Granta. É a primeira vez que a tradicional revista britânica elege escritores de outra língua que não o inglês. Colino é o único uruguaio, como se de certa forma sua representação solitária de uma literatura de grande tradição atestasse a existência do Uruguai. E se o Uruguai existe, certamente Montevidéu deve existir.

Mas será?

Torres do castelo assombrado por mendigos do parque Rodó são recortadas pelo azul-piscina do céu. Flutua no lago um pedalinho abandonado em forma de cisne que agora é adorado pelos cisnes verdadeiros em círculos a sua volta. É o impassível rei dos cisnes.

O livro de Colino retrata essa cidade fantasma. Parir conta a história de Alejandro, adolescente de 14 anos que zaranzeia pela cidade empobrecida com seus amigos. Eles não têm emprego nem perspectivas, somente hormônios em profusão. A dramaturgia característica da adolescência: sexo solitário, acrescido de drogas e rocanrol coletivos. Alejandro e seus irmãos são sustentados pela mãe divorciada que trabalha num supermercado.

Com bitucas de porros (baseados) nas mãos sujas de porra, os garotos de Andrés Ressia Colino vagam de um kiosco a outro em busca de cigarros soltos e uns trocados que lhes permitam fugir de Montevidéu. Mas como fugir de um lugar que não existe?

É o que se pergunta Gonzalo, o irmão mais velho de Alejandro, cujo desejo é reunir guita para vir ao Brasil. Seu plano de fuga vira obsessão: Gonzalo começa a traficar e se enfia numa enrascada. Um trecho de diálogo dele com Pipa, o patrão na oficina mecânica onde trabalha:

Sabe o que eles fazem no Brasil depois do trampo? Vão à praia e tomam umas cervejas.

Onde? retruca Pipa Em São Paulo que não, com certeza.

Em tudo quanto é lado.

Mas São Paulo não tem praia, imbecil. São uns vinte milhões todos amontoados e não tem nem uma prainha sequer. Toma aí o teu Brasil.

Falou, então não sei de nada interrompe Gonzalo Mas tô falando de onde tipo tem praia no Brasil. Em Florianópolis, no Rio, na Bahia. Por aí.

Isso se você não mora numa favela, né?

Nada a ver, mano. Sabe o que é uma favela? É tipo uma cidade, Pipa, aqui não tem nada parecido. Nada.

Eu que não pago pau pra brazuca, são uns idiotas.

Do lado de fora da janela da Confiteria Oro del Rhin passam vários Alejandros aos bandos. São guardadores de carro e entregadores de pizza e pedintes. Nunca penetram as sombras dos cafés que — iguais a Montevidéu e a literatura —, parecem não mais existir. Me pergunto onde foram parar os velhos cafés da pujante São Paulo dos anos 40. Por que desapareceram se os paulistanos continuam a tomar seu café-da-manhã na rua? Provavelmente foram engolidos por superpadarias onívoras. Sentados numa mesa de canto, Felisberto Hernández, Juan Carlos Onetti e Mario Levrero sorvem seus cortados em silêncio.

Como sou um doente de literatura cisplatina, aos poucos elaboro um plano de fuga semelhante ao de Gonzalo, mas às avessas. Pretendo lhe propor que venha ao Brasil ser escritor em meu lugar, enquanto o substituo em seu emprego na oficina mecânica do Pipa. Levar uma vida simples e ter as unhas sujas de graxa ao chegar em casa. Tomar uma dose de fernet enquanto minha mulher termina de lavar a louça. Depois tirar o lenço de sua cabeça e beijá-la com amor. Descomplicar tudo, inclusive o sexo.

E ficar com as manhãs todas da Confiteria Oro del Rhin só para mim.

PS. Esta coluna vai para Isabel, que hoje (dia 6 de outubro), faz aniversário.

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

A posteridade não era pra ser assim

Por Joca Reiners Terron

Não bastassem a penúria da condição e o isolamento necessário à prática da escritura, o século 21 acrescentou ao menos dois novos pesadelos ao cotidiano dos escritores: o hate-mail e o pânico diante da extinção dos livros. Algum parentesco deve existir entre a carta anônima clássica e o hate-mail, é claro, mas imagine que trabalhão teve em 1838 aquela senhora de Worcester para fazer chegar às mãos de Dickens seu protesto acerca dos maus tratos dados pelo malvado Fagin a Oliver Twist. Posso apostar, porém, que não havia expressões grosseiras na carta da tiazinha provinciana; comparado a ela, o correspondente anônimo atual, oculto sob o manto de pulsos elétricos e a máscara do email de ocasião, é um pusilânime. Sua covardia só é comparável à do necrólogo que tripudia com o defunto ainda fresco. Certos da impunidade e da ausência de respostas, o remetente do hate-mail e o necrólogo vingativo despacham suas maledicências para o limbo sem aguardar devolução por CEP incorreto.

Prometo, todavia, abordar benesses e malefícios do hate-mail num post próximo. Por ora, falemos de necrológios. Mais especificamente, daqueles dedicados à morte recente do escritor argentino Rodolfo Fogwill (1942-2010), desgostosamente falecido em agosto passado devidos a males causados pelo tabagismo extremo. Fogwill, autor de Os Pichicegos, era um notório boquirroto. Publicitário old style (pois cocainômano), lotou a pochete durante a ditadura argentina e depois torrou toda a guita em barcos, talco inca e editoras marginais de poesia como Tierra Baldía, que tornou-se referencial na publicação de novos autores e recuperou veteranos meio esquecidos. Assim, o endinheirado ficou duro na medida em que se assumiu escritor. Polemista feroz, Fogwill era considerado ao lado de Ricardo Piglia e César Aira um dos mais influentes autores argentinos contemporâneos. Tal influência, entretanto, não era somente positiva: Alan Pauls, em um dos numerosos necrológios, recordou que o próprio descrevia a duna branca na qual afundava o nariz diante de noviços literários como um “remédio para sinusite”. A chateação de Pauls — que retratou o ex-amigo de modo nada lisonjeiro em seu romance O Passado — transborda pelas entrelinhas. Terá sido resposta tardia à última entrevista de Fogwill, na qual é taxado de “fracassado”?

Maria Moreno, enegrecendo ainda mais a pintura, acusa o falecido de misógino e de se opor à legalização do aborto, do casamento gay e — paradoxalmente — à liberação das drogas. E assim foram desfiadas más lembranças dedicadas ao escritor, culminando na maior das acusações: Vera Fogwill, a filha igualmente escritora e inegavelmente frustrada, afirmou num magoado depoimento ao suplemento Radar do Página 12 que o pai realizou sua melhor literatura nas noites em que a ninava: “Até quando já estava crescida era capaz de se enfiar em minha cama para me contar um conto, mesmo que eu, adormecida, me assustasse e lhe dissesse: ‘Papai, já estou grande para contos!’, ‘Papai, você está drogado?’, ‘Papai, sou tua filha! Papai!’”. Os pontos de exclamação finais não deixam margem a ambiguidade. Entre amor (pouco) e ódio (muito), o escritor recém falecido de estripolias ainda frescas tem colocado à sombra o anseio pessoal de perenidade da obra literária, pouco lembrada nessa hora, enquanto as lembranças daqueles que o sobreviveram se dedicam a buscar revivê-lo por meio da injúria sem direito a qualquer defesa. Resta adivinhar se Fogwill preferiria esses hate-mails endereçados ao Além ao completo esquecimento.

[Para se aprofundar no caso: o escritor argentino Maximiliano Tomas reuniu em seu blogue boa parte dos necrológios publicados em diversos jornais.]

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Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Seu último livro é o romance Do fundo do poço se vê a lua, publicado pela Companhia das Letras. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.