Joca Reiners Terron

A questão do apocalipse

Por Joca Reiners Terron

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Ilustração: Moebius

A ideia de apocalipse se insinuou em minha imaginação ainda na infância, ao ler histórias em quadrinhos da revista Métal Hurlant. Naquele tempo, o apocalipse chegava acompanhado de fogos de artifício, era espetacular, inclusive desejável (eu tinha muito tempo para dedicar à leitura de gibis e livros cujas tramas quase sempre tinham algo de apocalípticas — a explosão da Terra, fuga do planeta, a colonização de outras galáxias, viagens no tempo), e o apocalipse passou a ser também uma ideia de diversão.

Uma tarde, creio que em algum artigo da mesma Métal Hurlant, li um fragmento de entrevista com um autor regular da revista, não recordo se Druillet ou Dionnet, em que o entrevistado sugeria que na realidade talvez o apocalipse fosse algo bastante diferente da visão veiculada pelos quadrinhos e pelas histórias de ficção científica, e que muito provavelmente não haveria nada de fabuloso nele, não passando de um evento cinzento, sem brilho nem luzes, e que talvez nem o notássemos.

O apocalipse adquiriu para mim uma dimensão inquietante: de repente já o vivíamos e, quem sabe, entre as aulas de Organização Social e Política Brasileira e Educação Religiosa, ele tivesse se instalado sorrateiramente, correndo livre sob as manhãs de sol do mundo sem que ninguém lhe prestasse a mínima atenção — sendo assim, o apocalipse talvez já tivesse começado, mas ninguém dava por isso —, meu pai continuava a ir para o banco trabalhar, minha mãe preparava o almoço e a janta todos os dias, meu irmão andava de bicicleta e enchia o saco, enquanto eu pensava no apocalipse.

Na adolescência, descobri que havia coisas piores que o apocalipse, a falta de namorada e de afinidade com tudo em volta, ou ser desclassificado na semifinal do campeonato regional de voleibol após treinar quatro horas diárias por um ano inteiro. Esses fatos podiam ser apreendidos muito mais urgentemente que o apocalipse, logo notei, pois doíam pra burro como toda coisa imediata e cabal. Tudo o que o apocalipse e suas infinitas prorrogações não eram.

Depois disso, meus apocalipses particulares se tornaram frequentes, quase diários, e nunca deixei de compreendê-los como parte daquilo que Druillet ou Bilal (ou teria sido Moebius?) dissera: cada derrotazinha pessoal não deixava de ser um episódio do apocalipse sem efeitos especiais e desprovido de charme da realidade cotidiana, cenas dos próximos capítulos de uma vida que seguia.

Então as dificuldades da existência adulta se tornaram evidências de que até São João se equivocou: o santo evangelista, autor do “Apocalipse” original, último texto do Novo Testamento, parece ter sido o próprio responsável pela ideia de juízo final mais parecida a um show de tango para turista ver no bairro de San Telmo, com globos iluminados, luz estroboscópica, melodrama e lágrimas fingidas, imagem apropriada bem depois pelas distopias literárias, pelos quadrinhos e o cinema.

No entanto, o apocalipse sugerido pelos autores da Métal Hurlant continuou, descolorido e impiedoso, atingindo seu auge na virada do século: aos 32 anos eu não considerava que a situação poderia piorar. Não bastasse o fato de estar ficando careca, agora o apocalipse prometia destruir meu mundo pessoal, acabando com revistas e jornais: os arautos da extinção do livro impresso soaram suas trombetas. Eu também era pai, o que costuma acelerar o fim.

Daí a começar a faltar fôlego na subida foi um pulo, e a não conseguir mais correr atrás de ônibus, a enxergar cada vez menos, a perder amigos (dois suicídios, um acidente de carro, um desentendimento, duas overdoses), a não ter mais tempo. E então cheguei à metade do caminho desta vida.

Economize o antidepressivo, caro leitor: aos 47 do primeiro tempo, enfim percebi que nossa compreensão do tempo é realmente falha, e não houve um só instante de minha existência — e da sua, caso tenha nascido após a Primeira Guerra Mundial —, desde os mais felizes e insubstituíveis, dos nascimentos e celebrações, das vitórias e leituras, que não tenha sido parte da marcha incessante em direção à aniquilação total e irrestrita deste planeta e dos seus habitantes, aniquilação cujo simples prelúdio foi o século 20 e que a grande literatura — a do século passado, mas também a de Roberto Bolaño, W.G. Sebald e László Krasznahorkai, e a de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca e Bernardo Carvalho — não cessa de testemunhar. A partir de então, nunca houve literatura que não fosse de testemunho, e não há outro tema possível senão o apocalipse.

Agora podem trazer os fogos de artifício.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Um mês

Por Joca Reiners Terron

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1.
às seis estou de pé, primeiro olho a janela, o mundo continua lá

2.
fora, não sei se isso me tranquiliza, preparo a tigela de cereais com leite

3.
e uma fruta, me despeço da filha que segue para a escola quase ao mesmo tempo

4.
que nos damos bom dia, sento na escrivaninha, o computador ficou ligado e o arquivo

5.
do livro já está aberto, leio o último parágrafo que escrevi no dia anterior, as anotações

6.
do meu plano de voo, e esboço a primeira linha do parágrafo

7.
seguinte, o interfone toca, é o síndico, a vizinha de baixo surtou de novo

8.
alega que programei uma máquina para fazer barulho a noite toda

9.
mas fui dormir relativamente cedo, às onze eu estava na cama

10.
mesmo assim o síndico me adverte, volto ao computador e em vez de prosseguir

11.
com o parágrafo, escrevo novo e-mail à administradora do condomínio com cópia

12.
para o síndico, alegando que não faço barulho, e que a velha do andar de baixo

13.
precisa de assistente social, está só, toma remédios e diz a quem quiser ouvir

14.
no prédio que irá me matar, ela diz que tem um revólver que pertenceu ao falecido

15.
um policial aposentado, é o quarto e-mail que envio, incluindo a denúncia

16.
feita na Delegacia do Idoso, retorno ao parágrafo inacabado, o intervalo serviu

17.
para que a consciência se restabelecesse e isso não é bom para o livro

18.
pois preciso reiniciá-lo todo dia no estado semi adormecido da manhã como se

19.
se tratasse da continuação de um sonho, escrevo porém insatisfeito, agora

20.
consciente do que narro, a campainha toca, é a filha que retornou da escola

21.
coloco feijão no fogo e penso na panela de pressão, na estrutura da panela de pressão

22.
em sua permanente ameaça, converso um pouco com minha mulher e minha filha

23.
falo que a vizinha surtou de novo, quando percebo, antes de dar a última garfada, já

24.
é o jantar que termina, já é hora de rezar por chuva em silêncio, de apagar a luminária

25.
sem ter conseguido ler mais que cinco linhas que no dia seguinte esquecerei

26.
então meus pés tocam o tapete ao lado da cama, desligo o despertador, são seis

27.
horas de novo, o computador dormiu ligado, o arquivo do livro permaneceu aberto

28.
e leio a última frase que escrevi sem lembrar de tê-la escrito, tigela de cereais com

29.
leite, beijo, bom dia, plano de voo sem decolagem, campainha do interfone

30.
ameaça de morte, e-mail, rezar por chuva, anoiteceu de dia

31.
às seis estou de pé.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Entrincheirados no balcão

Por Joca Reiners Terron

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1.
Em 1972, depois de assaltar a casa onde hoje fica a Livraria da Vila, o ladrão anarquista Guido Amleto Meneghetti subiu a Fradique Coutinho com guardas no seu encalço. Esbaforido, dobrou à direita na Rodésia e resolveu entrar no boteco de seu Albino.

Meneghetti tinha 92 anos.

Foi a última vez que bebeu em liberdade.

2.
A família Benuthe comprou o bar do seu Albino no ano seguinte, em 1973, e a Mercearia São Pedro (instalada na rua Rodésia desde 1968) começou também a vender molhados, além de secos.

3.
Me ocorre agora que ao morrer em Madri em novembro de 1936, Buonaventura Durruti tinha apenas a muda de roupa, um par de binóculos, duas pistolas, os óculos escuros e uma sede danada.

4.
A primeira vez que arremessaram um legume em Betina foi também a primeira em que ela foi à Mercearia São Pedro. Depois de atravessar a rua e se sentar numa cadeira na calçada, uma abobrinha caiu em seu colo.

5.
Pombinho foi o primeiro a ver o fantasma de Meneghetti diante da Mercearia, num final de tarde de 1976. O anarquista estava em pé, encostado no poste, e ainda tomava sua taça de vinho tinto. Pombinho latiu, pois aquele era o poste onde costumava mijar.

6.
Pombinho era o cachorro do Larilarai, o bêbado mais folclórico da Vila Madalena. Os dois morreram de tanta cachaça: Pombinho de cirrose, Larilarai não se sabe ao certo — numa noite de 1982, depois de sentar no “banquinho do Meneghetti”, ele desapareceu.

7.
Enquanto via seu corpo ser jogado numa vala comum pelos camisas negras de Mussolini, Enrico Malatesta pensava que uma cerveja viria a calhar, “Afinal não há melhor lugar para se entrincheirar do que um balcão”. Os fascistas não desejavam ver o túmulo de Malatesta transformado num símbolo anarquista.

8.
Há trinta anos, todos os dias, seu Sorrentino bebe um conhaque, porém nos anos bissextos pede duas taças. Uma taça é para ele mesmo, a outra coloca diante de si, do outro lado da mesa. Nessas ocasiões seu Sorrentino conversa longamente em italiano, mas nenhum garçom ousa perguntar com quem.

9.
Depois de trabalhar no Cineclube Oscarito, Marquinhos Benuthe iniciou em 1985 a projeção de curtas-metragens na Mercearia. O primeiro filme foi Dov’e Meneghetti, de Beto Brant.

10.
Às 23h30 de uma noite de 1998, Betina achou um pimentão amarelo dentro de sua bolsa.

11.
O cantor australiano Nick Cave mudou-se para São Paulo em 1990. Depois de alguns dias perdido pela cidade, foi parar na Mercearia São Pedro. Lá, ele começou a bater cartão todos os dias. Os clientes achavam que ele era um sósia e se espantavam com sua semelhança com um certo cantor de rock australiano.

12.
O culpado pelo França ter começado a trabalhar na Mercearia em 1992 foi o Magrão. O França continua por lá, porém o Magrão deve estar queimando no inferno para onde vão os garçons quando cometem atos imperdoáveis.

13.
França viu o fantasma de Meneghetti no final de uma noite fria de 1993. Nem ligou, pois não acreditava em fantasmas. O fantasma também não lhe deu crédito, já que não acreditava em pigmeus.

14.
Depois de um pico de heroína batizada e dez doses de uísque, Nick Cave ficou horas na locadora de vídeo nos fundos da Mercearia procurando um filme, ele próprio não sabia qual. Foi quando o fantasma de Meneghetti apareceu e lhe sugeriu qualquer coisa dos Irmãos Marx.

15.
Diz uma lenda da Mercearia São Pedro que se o cliente sentar-se no “banquinho do Meneghetti” aquela será sua última bebida.

16.
Ao atravessar a Rodésia em direção à Mercearia numa noite de 2001, Betina recebeu do carro que passava uma berinjela siamesa que lhe foi arremessada. Ela ficou feliz por não ter sido uma jaca.

17.
Andando pela Broadway em 2002, Nick Cave viu uma foto de Buonaventura Durruti na vitrine da livraria Shakespeare & Co. Ao lado do anarquista espanhol estavam dois homens que Cave teve a nítida impressão de conhecer. Um deles era o fantasma que vira anos atrás, na Mercearia. O outro parecia o seu Sorrentino, um velho cliente do bar, mas como poderia ser?

18.
Em torno das 11h da manhã de sábado, 21 de setembro de 2003, a cozinheira afoita chamou Pedro Benuthe até a cozinha. De dentro do caldeirão da feijoada ela retirou com a colher de pau um colar de ouro e pedras preciosas. Na parte de trás da maior gema havia um entalhe de brasão familiar. Depois de consultado um especialista, descobriu-se que a joia havia sido roubada por Meneghetti da mansão Matarazzo em 1936.

19.
Toda vez que vem a São Paulo participar da Mostra de Cinema, o cineasta alemão Peter Sempel faz questão de cumprimentar os amigos na Mercearia São Pedro. Ele fica horas lá sentado, tomando cerveja, mas às vezes desaparece entre as estantes da locadora de vídeo. Marquinhos diz que Sempel aproveita para fazer uma consultoria com Meneghetti. É só verificar nos créditos de seu filme mais conhecido, Punk + Glory — argumento: Guido Amleto Meneghetti.

20.
No começo de 2004, depois de beber uma cerveja sentado no “banquinho do Meneghetti”, Bijóia foi para casa, porém antes resolveu tomar a saideira num boteco da rua Harmonia. Enquanto bebia começou a chover, e Bijóia entornou mais cinco “saideiras”, aguardando o pé-d‘água passar. Quando enfim resolveu ir embora, tropeçou na calçada, bateu a cabeça no meio-fio e se afogou na enxurrada.

21.
A confusão se estabelece todas as noites entre os garçons da Mercearia São Pedro. Nessas ocasiões em que França briga com Neto por causa das comandas e Dario alisa os bigodes, procure não prestar atenção apenas na anarquia promovida por eles. Você poderá ouvir uma gargalhada com nítido sotaque italiano vinda bem lá do fundo do bar.

[Conto em homenagem à Mercearia São Pedro, meu bar predileto de toda vida, publicado originalmente em Uma antologia bêbada (2004), volume que reunia textos de 17 escritores habituês.]

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão do controle

Por Joca Reiners Terron

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Este foi o ano do centenário de William S. Burroughs (1914-1997), embora a efeméride pouco tenha repercutido no Brasil, na exata proporção em que sua obra mal é difundida e reconhecida entre nós. De sua vasta bibliografia, foram traduzidos apenas Junky, Almoço Nu, Cartas do Yage (com Allen Ginsberg), Cidades da Noite Escarlate, O Gato por Dentro e Os Hipopótamos foram Cozidos em seus Tanques (com Jack Kerouac).

Mas ninguém deve ser recriminado pelo lapso, pois a produção do escritor norte-americano é informe, no sentido de que lhe falta aparência reconhecível que satisfaça a maioria dos editores e o leitor tradicional (sempre tão afeitos ao familiar), resultando em leituras descontínuas e difíceis. Remetendo às cenas do Coiote com focinho chamuscado nos desenhos do Papa-Léguas, os livros de WSB são experimentos artísticos que invariavelmente explodem na cara do leitor, mas o fato de explodirem significa que o experimento deu certo, não o contrário.

Os textos de Burroughs não chegam a ser contos, nem poemas, e seus romances se estruturam (não creio que o termo se aplique ao resultado final) sobre uma alta frequência de justaposições. Almoço Nu, por exemplo, foi escrito em cartas enviadas a Ginsberg quando Burroughs vivia em Tânger nos anos 50, e batizado por Kerouac, suscitando anos depois em Martin Amis a crítica burlona de que WSB não passava de “um autor de bons trechos” (ou de boas passagens). De parágrafo a parágrafo de Almoço Nu, o leitor (como se o lesse sentado em um touro mecânico) quica dos antros de Interzona ao espaço sideral com uma mera quebra de linha.

(“Um escritor só consegue escrever sobre uma única coisa: aquilo que se apresenta aos seus sentidos no momento da escrita… Sou um instrumento de registro… Não tenho intenção alguma de impor ‘história’ ‘enredo’ ‘continuidade’… Na medida em que for bem-sucedido no registro Direto de certas áreas do processo psíquico, ainda posso desempenhar alguma função limitada… Não estou aqui para oferecer entretenimento…”, Almoço Nu, pg. 227, trad. Daniel Pellizzari.)

A paranoia junky de Burroughs e suas leituras de filosofia aliadas às ficções baratas que devorou em revistas pulp, mais dois anos de estudos de medicina em Viena o levaram a criar (assim que conseguiu se livrar da heroína) uma literatura de alta voltagem política e satírica: WSB compreendia a linguagem como um mecanismo de controle, desconfiava dela (Nietzsche embebido em morfina), e com sua técnica de colagem e montagem (o cut-up aprendido com Brion Gysin), para além de procurar desmontar essa bomba, inventou uma realidade.

(“Para viajar no espaço temos que deixar para trás o velho lixo verbal: Deus, pátria, família, amor, partido. Liberar-se por completo do condicionamento do passado é estar no espaço”, WSB.)

Daí que a forma literária em Burroughs se dá melhor com a miscelânea, pois seus romances se assemelham a panfletos anárquicos com ritmo e compasso ditados pelo combate ao inimigo (os fascistas, os comunistas, a direita, a esquerda, a mulher, o homem, o gay, o hétero, Deus e o Diabo, aliens e terráqueos, os viciados, os traficantes, a polícia, os bandidos). Algumas dessas melhores antologias (The Job, The Burroughs File, The Adding Machine) devem ser lidas como manuais de guerrilha escritos com “uma voz dura, zombeteira, inventiva, livre, cômica, grave, poética, inequivocamente americana, uma voz na qual é possível ouvir rádios transistorizados e filmes antigos e todos os clichês e todas as teorias conspiratórias e todos os jornais, um otimismo todo peculiar, o fracasso completo”, segundo Joan Didion.

(“Reparem no estado de coisas — investiguem do estado até o autor — Quem monopolizou o Amor, o Sexo e o Sonho? — Quem tirou o que é de vocês? — Alguma vez eles deram alguma coisa a troco de nada? — Não voltaram a se apossar daquilo que haviam dado a cada vez que foi possível e sempre o foi? — Ouçam: o Jardim das Delícias que lhes prometem é uma cloaca”, WSB.)

Grande admirador de Burroughs, J.G. Ballard afirmou que “ele via o mundo como uma perigosa conspiração dos grandes conglomerados de mídia, dos grandes establishments políticos de sua época, da medicina corrupta, na qual enxergava uma grande conspiração. Ele compreendia a maioria das profissões, a jurídica em particular, mas também a submissão da lei, tudo fazendo parte de uma enorme conspiração para nos manter sob controle, para nos manter para baixo. E os livros dele são uma tentativa de explodir com essa cômoda conspiração, de permitir que vejamos o que está na ponta do garfo.”

A propósito, um de seus ensaios mais provocadores se chama Control (está em The Job) e procura compreender como a antiga civilização Maia através de sacerdotes utilizou seu calendário como um eficaz método de manipulação das castas agrárias da sociedade utilizando-se de policiamento mínimo. Por meio da comparação da psicologia pavloviana com os métodos da Mente Reativa postulados por L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, WSB promove um arrazoado contra esta religião, além de estender os fundamentos do controle exercidos pelo calendário maia para a atualidade das grandes corporações midiáticas dos anos 70, onde os períodos cíclicos de colheitas e festivais maias (“Todos os sistemas de controle se baseiam no binômio castigo-recompensa”) são substituídos pelo complexo sistema de emissão de notícias ou ordens subliminares (“Do ponto de vista de um sistema de controle, a finalidade destas ordens é limitar e confinar”) compreendidos pelo jogo de mostra-esconde do processo editorial dos jornais e da publicidade.

Não é difícil imaginar para que alvo Burroughs apontaria seu rifle, se vivo fosse nos dias de hoje: com a derrocada de circulação da imprensa tradicional, o sistema de controle se transfere para novos setores mais aptos a praticar o jogo de castigo-recompensa, a internet e suas mídias sociais como forma de reclusão espacial e cadeias de previsibilidade, enquanto simultaneamente disfarça-se sob a promessa de liberdade temporal (pois, afinal, o computador pessoal é um aparelho que reúne em si ferramentas de trabalho e dispositivos de entretenimento, como professou Nicholas Negroponte).

Tomada por sua paranoia, a obra de William S. Burroughs é oracular. Nela, demonstrou que a pandemia da droga não é um problema policial, mas de saúde, e a Álgebra da Necessidade (outro de seus conceitos essenciais) que promove seu uso desenfreado é a mesma que nos conduz pelos caminhos do vício generalizado: em trabalho, informação, consumo, sexo e poder. A droga estaria no centro político de toda a sociedade, sendo o núcleo do verdadeiro sistema que controla este mundo. Nos anos 50, ao viver no caótico México, WSB percebeu a farsa social do American Way of Life. Lá, permaneceu encarcerado apenas 14 dias após meter uma bala no cérebro de sua mulher, Joan Vollmer. Para perceber como sua visão é acertada, basta-nos observar o papel aparentemente inextricável que Estado, políticos, polícia e narcotraficantes cumprem nos 43 assassinatos dos estudantes de Ayotzinapa em setembro de 2014.

(“Depois de uma só olhada neste planeta, qualquer visitante do espaço sideral diria: QUERO FALAR COM O GERENTE”, WSB.)

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Desapontamentos IV

Por Joca Reiners Terron

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1.
É impossível secar time alheio em plena temporada de chuva.

2.
Dica de escrita: uma volta no quarteirão seguida de dose de uísque resolve qualquer impasse narrativo. E o bom é que pintam vários impasses por dia.

3.
Durma-se com um silêncio desses.

4.
Para o míope, tomar banho e não lavar os óculos é o mesmo que continuar um pouco sujo.

5.
Quando criança eu achava que o cão pequinês de minha avó tinha esse nome porque era pequeno, e não porque sua raça vinha de Pequim.

6.
Para chamar o meu nome, minha mulher — assim como os esquimós ao gelo e os gatos à fome —, inventou cinquenta diferentes formas de cicios e sussurros.

7.
É muito ingênuo aquele que não acredita que os japoneses já inventaram o frango com doze corações e seis coxas.

8.
É complicado se autopremiar com um automóvel por uma vitória pessoal, pois automóveis vêm com defeito, quebram ou são roubados, enquanto a verdadeira vitória nunca tem defeito, quebra ou pode ser roubada.

9.
Tem noites de insônia em que me sinto um atum no convés de um pesqueiro japonês forrado de colchões para não me deixar hematomas.

10.
Lição de Política Atualizada: Esquerda e Direita se fundiram na Ambidestra.

11.
É impossível ler nas entrelinhas do Tuíter, no máximo dá pra ler nas entreletras.

12.
Todo aforismo que se leva a sério tem cheirinho de epitáfio. Como este aqui.

13.
Qual criança brasileira não temeu que um dia Zumbi dos Palmares lhe aparecesse e devorasse o cérebro?

14.
Um dicionário que cai da estante em nossa cabeça sempre nos deixa sem palavras.

15.
Onde foi parar a balconista? Não a moça ou a função, mas a palavra. Detrás do balcão é que não está. Terá fugido com o guarda-chaves?

16.
A cada encontro no banheiro com as exigências da fisiologia, dois ou três capítulos do Brás Cubas: esse é o ritmo do sábio.

17.
A grossura da unha do dedão do pé de um velho é a medida exata de sua teimosia, justamente a necessária para aparar a unha.

18.
Desafio contemporâneo: não se conformar ao Daltontrevisanismo semioculto e almejar a impossível Btravenidade em tempos de exposição total.

19.
Senhora do prédio me conta no elevador que passeando no bairro levou uma queda e se machucou. Quando levantou, foi assaltada. Que acontece?

20.
O fato é que Giordano Bruno está mais para prato grelhado do que para nome de dono de restaurante.

21.
Minha amiga Regina está de seis meses e trabalha doze horas por dia como garçonete. Seu primogênito acha que o irmão caçula já vai nascer cansado.

22.
Preferia o Tuíter ao Instagrã, pois sempre acreditou que cento e quarenta caracteres falam mais do que mil imagens.

23.
O toca-cd teve uma vida útil tão curta que não houve nem mesmo tempo para se criar um nome afetuoso para ele, como vitrola ou radiola.

24.
Só o cérebro consome quarenta por cento da energia do corpo. E ainda dizem que não custa nada sonhar.

25.
Piada ouvida em Belém: o prefeito ia receber uma comissão da OEA e tascou essa: “Como assim, ó é a? Pois lá na minha terra ó é ó e a é a…” E assim segue o baile da política.

26.
Há um grupo de cantores de ópera no hotel. Falam e se comportam como se o saguão fosse um palco. Batem palmas para tudo. As sopranos lembram focas. Os tenores, leões marinhos. Eu sou a sardinha espectadora.

27.
Aquele que hesita em passar adiante a nota de dez reais estalante de tão nova no fundo não acredita na existência de outras iguais.

28.
Não é no mínimo curioso criticar a acefalia política de São Paulo, uma cidade cujo padroeiro foi decapitado?

29.
Um homem é devorado por seus porcos nos EUA e todos estranham, menos os porcos. Estes só estranham quando são devorados pelo homem.

30.
Não é irônico que os grandes revisores ortográficos sempre se chamem Huendel ou Uílson?

* * *

Leia também os Desapontamentos I, II e III.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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