Joca Reiners Terron

A questão dos superdotados

Por Joca Reiners Terron


A expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA…, que geralmente demarca o espanto de gente mais velha diante de um bom exemplo de esperteza infantil, tem encontrado eco nos livros de ficção. Uma verdadeira febre de narradores adolescentes superdotados tem afetado a literatura mundial. Esse espanto em relação à agilidade sináptica dos pimpolhos remonta a alguns espertinhos do passado, como as histórias de Pedro Malasartes, por exemplo, ou nosso Pedrinho do Sítio do Pica-pau Amarelo, de Monteiro Lobato. Na literatura de língua inglesa a ocorrência é ainda maior, do Tom Sawyer, de Mark Twain, ou Jim Hawkins, o protagonista de A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, ao Peter Pan, de J. M. Barrie.

Em livros mais recentes, entretanto, esses heróis adolescentes evoluíram de meramente espertinhos a verdadeiras sumidades intelectuais. Será um sinal dos tempos e da evolução da tecnologia e das ciências? Em O Último Samurai, da norte-americana Helen Dewitt, Ludo é um menino órfão de pai que aprende a ler aos 2 anos de idade; aos 4 ele já fala diversas línguas estrangeiras, entre elas japonês; por causa disso, desenvolve uma obsessão por Os sete samurais, filme de Kurosawa, e a partir daí segue uma peregrinação em busca do paradeiro de seu verdadeiro pai. Apesar de sua inteligência aguda, Ludo não passa de uma criança com todas as suas carências. Carência, porém, não é algo que exista no fabuloso livro de Hellen Dewitt, entre as grandes narradoras de língua inglesa da ficção contemporânea.

Em City, do italiano Alessandro Baricco, o garoto Gould, de 13 anos, está na universidade. Superdotado, ele constrói uma cidade onde pretende encenar um bangue bangue, gênero pelo qual é fissurado, e novamente — como acontece com Ludo — o cinema alimenta o cérebro do garoto. Aos poucos o leitor descobre (ou desconfia) que nenhum dos personagens malucos que atravessam a história “existem” de verdade, a não ser na poderosa imaginação de Gould, um menino solitário que preenche o vazio de sua existência com amigos imaginários.

Diário Absolutamente Verdadeiro de Um Índio de Meio Expediente, de Sherman Alexie, ganhou o National Book Award e conta a história de Arnold Spirit Junior, um menino de 14 anos que tem uma cabeça gigante, nasceu com 42 dentes e com água no cérebro e mesmo assim descobre ser um grande lutador. Nascido numa tribo spokane, ele lutará por uma educação melhor para si e para seus iguais. Arnold representa nesta seleção de supercérebros a variação que apresenta narradores adolescentes que sofrem de doenças raras, um outro fenômeno da ficção recente que também pode ser conferido em Afluentes do Rio Silencioso, de John Wray, que conta a história de William Heller, jovem esquizofrênico de 16 anos que desenvolve um fascínio pelos subterrâneos do metrô, onde se perde após um surto.

Já Oliver Tate, o narrador de Submarino, de Joe Dunthorne, é um típico representante da geração Google. Curioso e esperto, ele usa todas as suas habilidades aliadas à infinita curiosidade para investigar a depressão enfrentada pelo pai desde que sua mãe resolveu tomar aulas de surfe com um antigo namorado. Conhecedor de todos os becos possíveis e impossíveis da internet, Oliver descobre aos poucos os descaminhos da vida sentimental dos adultos.

Todos esses personagens ultraespertos e inteligentíssimos parecem ter se originado na figura de Holden Caulfield, o moleque boca suja criado por J.D. Salinger em O Apanhador no Campo de Centeio. Pioneiro em retratar um menino que enfrenta os dilemas do amadurecimento ao desenvolver sua singular visão de mundo, Salinger inaugurou uma tradição na ficção moderna que culminaria em Hal Incandenza, uma jovem promessa do tênis e herói de Graça Infinita, o clássico contemporâneo de David Foster Wallace (a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras), ele próprio um escritor de capacidade mental trocentos mil pontos acima da média que se suicidou aos 43 anos de idade em 2008, após um forte período de depressão.

Sinal dos tempos ou não — afinal seguidas gerações foram saudadas com a espantada expressão ESSAS CRIANÇAS DE HOJE EM DIA… —, os narradores adolescentes de romances, por mais superdotados que sejam, uma hora ou outra são obrigados a enfrentar a realidade e seus dilemas. Nesse embate a inteligência é essencial, mas também é fácil perceber através desses destinos literários que não é a única arma de sobrevivência, além de nem sempre ser uma bênção.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão do Snoopy

Por Joca Reiners Terron


Muitos escritores devem ter sido inspirados na infância por um certo cão beagle que finge ser um ás combatente da Primeira Guerra que trava batalhas aéreas encarapitado no teto de sua casinha de cachorro. Snoopy é o único cão escritor do mundo. Talvez por isso também seja o único personagem a suplantar a realidade e seus problemas em Peanuts, cartum criado por Charles Schulz em 1950 e publicado até a morte do autor, em 13 de fevereiro de 2000, véspera da publicação da última tira.

Peanuts é a série de tiras de jornal mais longa da história. Inteiramente escrita, desenhada e letreirada por Schulz sem qualquer ajuda de assistentes, foi publicada ao longo de cinquenta anos em 2600 jornais de todo o mundo, atingindo mais de 350 milhões de leitores. Com números tão expressivos, Schulz criou o modelo tira de jornal como é conhecido e explorado hoje por filhos diletos como Calvin & Haroldo ou Garfield.

Schulz conseguiu traduzir a ambivalência do comportamento humano por meio de seus personagens desde a tira inaugural, publicada em 2 de outubro de 1950. Nela, dois garotinhos no meio-fio festejam a aproximação do “velho e bom Charlie Brown”. Todavia, quando Charlie Brown cruza sem lhes dar atenção, passa imediatamente a ser odiado. Várias qualidades do trabalho de Schulz já se faziam notar nessa primeira tira, como o caráter realista de bonequinhos infantis somente na aparência e o domínio da progressão temporal em apenas quatro quadrinhos.

Como observou o quadrinista Art Spiegelman, “Schulz separou diferentes aspectos de sua própria personalidade em vários personagens e passou o resto de sua vida permitindo que eles se chocassem uns contra os outros”. Assim, o fantasioso Snoopy, o preocupado Charlie Brown, o filosófico Linus e a mandona Lucy, entre outros personagens, tipificaram comportamentos com os quais pessoas de todo o mundo se identificaram.

Com Peanuts, pela primeira vez na história dos quadrinhos os leitores se preocupavam com pequenas crianças feitas de papel e tinta como se elas fossem de verdade. A longevidade da série criada por Charles Schulz levou esse envolvimento a um paroxismo: muita gente começou a acompanhar as aventuras de Charlie Brown e companhia na infância e fez isso até a maturidade, crescendo ao mesmo tempo que eles. Diagnosticado com uma doença que o impediu de continuar a criar em 1999, Schulz caía em lágrimas todas as vezes que era obrigado a falar de seus personagens.

Se o bom e velho Charlie Brown é o garotinho que mais se parecia com seu criador, inclusive fisicamente, o cão beagle Snoopy é a perfeita tradução da imaginação criadora de Charles Schulz. Ao travar batalhas aéreas matutinas contra o Barão Vermelho e ao batucar lentamente suas histórias numa máquina de escrever, Snoopy divertiu e demonstrou a importância da vida secreta das fantasias para a preservação da lucidez na vida real. Com isto, inspirou muitos escritores. Eu, muito humildemente, sou apenas um deles.

[Em novembro, a Companhia das Letrinhas vai publicar quatro livros infantis de Snoopy e sua turma: É hora da escola, Charlie Brown; Charlie Brown e a Grande Abóbora de Halloween; Largue o cobertor, Linus e O dia dos namorados de Charlie Brown.]

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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John em Estocolmo, Michael na Lua

Por Joca Reiners Terron


1. John em Estocolmo

John Lennon afastou a cortina para conferir se os malucos continuavam do outro lado da rua. Lá estavam, claro. “Eu devo ter atirado pedra na cruz de Barrabás e acertado no cocuruto de Jesus… Esses malucos não saem do meu pé desde 1963… Mas até aqui em Estocolmo?! Como é possível?”

— Sir Lennon, aquelas pessoas não são seus fãs, mas paparazzi…

— E qual é a diferença, mr. Eggman?

— O senhor não poderia me chamar pelo nome certo ao menos uma vez?

— E qual é o seu nome, mr. Postman?

— Chapman, sir Lennon, CHAPman!

— Ok, procurarei me lembrar. Agora traga o chá e os jornais, mr. Milkman. E não esqueça do leite!

Yes, sir Lennon…

Jornais, chá e um baseado. Algumas coisas se mantêm sempre iguais nas manhãs de um beatle mesmo aos sessenta e cinco, um ano depois de superados os melhores prognósticos daquela canção escrita pelo Paul.

— Notícias e mais notícias! Há vinte e cinco anos que são as mesmas: o Oriente continua médio, os americanos medíocres e a Terra e Paul McCartney permanecem uns chatos, mr. Policeman! Olha só, depois de assombrar a ópera, o bochechudo agora deu de escrever livro pra criança! Isto sim é que eu chamo de atentado terrorista, mr. Breadman! Traga os brioches!

— Sir Lennon, o alfaiate está aí fora. Veio trazer o fraque para o senhor provar…

— Fraque? Eu não sou um pinguim qualquer, mr. Fireman! I‘m the Walrus! Meio banguela à esta altura, claro, mas ainda dou minhas dentadas. E os sexagenários têm duplo sex appeal, sacou o trocadilho?

— Não, senhor.

— Mas claro que não, mr. Garbageman, o senhor entende tudo ao pé da letra! Não é assim que fica por aí lendo aquele panaca do Salinger?

— Graças ao Apanhador no Campo de Centeio consegui este emprego de mordomo há vinte e cinco anos, sir. Foi diante do prédio Dakota, onde o sr. vivia em Nova York.

— É mesmo, mr. Batman?

— Batman?

— Prefere Robin?

— Naquele dia o sr. autografou a cópia do livro que tenho até hoje. Era casado com madame Yoko, lembra-se?

— Não me lembro! Não me lembro! Como pude ter sido casado com uma mulher sem bunda por tanto tempo, mr. Repairman? Bundas são acessórios indispensáveis às mulheres! Bem, graças ao Mick conheci uma brasileira…

— O sr. se refere à dona Luciana?

— Que bunda, mr. Nowhereman! Ela não é lá muito boa das ideias, mas que bunda!

— Sir Lennon, há duas visitas esperando aí fora, mr. Bono Vox e mr. Bob Geldof…

— Diga a esses imitadores baratos que me escafedi num submarino amarelo pra Nowhere Land, mr. Honktonkman! Não quero saber de ninguém, quero ficar sozinho!

— Mas sir Lennon, será uma noite memorável, a dupla cerimônia de entrega do prêmio…

— Não quero saber, mr. Hiphiphurraman! Não tô nem aí com a academia sueca, com paz no Iraque, marcianos, beatles ou mulheres. Nem céus com diamantes me tirariam hoje deste hotel, mr. Forhe‘sajollygoodfellowman!

— Mas, sir Lennon! Nenhuma pessoa mereceu a honraria de receber o Nobel em duas categorias distintas numa só cerimônia…

— Eu não zelo pela paz tem muito tempo, mr. Fuckmei‘msickman! E a única coisa boa em literatura que fiz foi plagiar Lewis Carroll!

— Pela última vez, sir Lennon, me chame pelo nome certo!

— Mas… O que você está fazendo com esse revólver na mão, mr. Killerman? Deixa disso, mr. Markchapman!

 

2. Michael na Lua

Michael Jackson acordou disposto na manhã de seu aniversário de oitenta anos. O timbre mavioso de Diana Ross do robô varou a penumbra, despertando-o às seis. O clima no interior da cápsula espacial fora programado para mantê-lo de bom humor até de noite. Tudo estava tranquilo.

— Bom dia, Jacko, dormiu bem? — disse a Diana Ross robô. — Feliz aniversário! Oitenta anos, nossa, quem diria.

— Bom dia, suprema — respondeu Michael. Sua voz continuava tão aguda quanto nos tempos em que gravara “Ben”. — Mas me poupe desse lance de oitenta anos, tá certo? — ele prosseguiu. — Setenta e oito e nem mais um minuto. Você sabe que eu não conto aqueles dois anos em que fiquei hibernando.

Após verificar a ponta reluzente de seu dedão do pé e calçar o chinelo, Michael olhou de relance a chuva de meteoros lá fora e lembrou como foi difícil acordar naquela câmara hiperbárica em 2011. Tanto tempo naquela merda. Suas costas ainda doíam.

— Tá bem — disse Diana Ross. — Mas níver é níver, né? Tem que comemorar. Além disso, hoje é o grande dia.

— É — resmungou Michael. — O grande dia.

Nesse momento apareceu um robozinho flutuante em formato de bandeja carregando o breakfast: — Oi, cara, feliz aniversário! — disse a bandeja com voz de Brooke Shields. — Que tal um chá?

— Não, valeu, Brooke — disse Michael. — Quero ficar sozinho um instante.

Então os robôs sumiram e Michael flutuou até a escotilha. Quando encostou o nariz no vidro frio, viu a Lua imensa tomando toda a janela e sorriu na quietude. Horas se passaram e ele ficou ali, observando nuvens de gás se metamorfoseando em amigos do passado. “Olha”, pensou, “aquela de óculos escuros parece o Stevie.”

Um estalo zuniu e o sistema de circulação de ar exalou um perfume suave reconhecido de imediato. Surgiu a voz de Elizabeth Taylor.

— Chegou a hora, querido — disse a voz de Liz. Seu perfume era almiscarado. — Quanto tempo a gente esperou por este momento!

— É verdade — disse Michael. — Mas agora que chegou, não sei se tô pronto.

A superfície lunar então assomou pela janela. Dava para ver que eram milhões, talvez bilhões, as pessoas que o esperavam lá embaixo, sob o vidro da redoma que envolvia a Lua. A nave começou a pousar ao som de “Billie Jean”. Todos aplaudiram.

— Viu só? — disse Liz. — Estão te esperando.

— É isso aí — disse Michael. — Vamos nessa.

Então a porta da cápsula se abriu e ele flutuou para fora. A luz do Sol atravessou seu corpo transparente e irradiou os rostos felizes de todos que o aguardavam. Michael Jackson deu um moonwalk sobre o Mar da Tranquilidade envidraçado e transformou-se para sempre em uma estrela do céu.

* * *

[O primeiro conto foi publicado originalmente na Folha de S. Paulo em 07/12/2005 em comemoração aos 20 anos da morte de John Lennon; o segundo saiu no mesmo jornal em 25/06/2010, aniversário de Michael Jackson, morto um ano antes]

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Dois episódios acerca de intolerância e flores

Por Joca Reiners Terron


Arquivo pessoal do autor.

“Todo homem traz consigo a inteira humana condição
MONTAIGNE

Existem escritores certamente mais privilegiados, que observam pássaros e caçam borboletas; já eu estou condenado a observar mendigos.

Em uma crônica de 1957 publicada no France-Observateur, Marguerite Duras relata a seguinte história: estava em um cruzamento de Paris quando surgiu, vindo do mercado, um jovem argelino. Carregava um cesto de flores nas mãos. O rapaz pretendia vender as flores na esquina seguinte, quando surgiram dois policiais. Pediram documentos, que o clandestino não pôde apresentar. Um policial arrebentou a cesta, e as flores se espalharam pela calçada. Sem querer danificá-las, os passantes se desviaram delas. Uma senhora parabenizou os policiais por reprimirem “aquela escória”. Então outras mulheres que tudo acompanhavam passaram a recolher as flores da calçada e a pagar o rapaz. Faziam um buquê, pagavam-no, iam embora. A cena foi rápida, e só depois os policiais — perplexos — levaram o argelino para a delegacia. Não restou sequer uma flor sobre a calçada.

Aperte o botão FF do controle remoto e adiante o filme uns cinquenta e cinco anos: estamos no meu bairro, região central de Necrópolis, Brasil. Na esquina está o Assombração. É um mendigo, eu o apelidei assim. Ele vive na porta de casa há mais ou menos um ano e meio. Quando veio parar aqui, fiz a seguinte nota mental:

Na minha rua vive um mendigo
que tudo pede apesar de mudo: é um pidão.
Apelidei-o, já lhes digo, “Assombração”.

Era para ser um poema, mas após a terceira linha fiquei mudo tal qual minha musa rueira; na verdade se tornou impossível pensar com a barulhada do Assombração na vizinhança: surdo-mudo a quem a vida não deu nada, a não ser o direito de usar sons guturais para exigir o mínimo dos passantes; um prato de comida, roupa, dinheiro, migalha de atenção, qualquer coisa; voz já não tem, o que dizer?

De início pensei que fosse louco. Era viciado em crack, com certeza, sumia de vez em quando e dias depois aparecia num estado de lascar. Também já o flagrei em plena nóia, fritando miolo pelas calçadas. Numa dessas estava com um tamborzinho daqueles infantis e azucrinou a rapaziada e moças do comércio com sua batucada surda e a cantoria muda.

Seria necessário dizer que Assombração não é o único a apavorar o pedaço, e a Alameda Barros é um verdadeiro corredor da morte? Na primeira reunião de condomínio de que participei, semanas após me mudar, pude ver como a favela móvel da rua era tema premente aos moradores mais incontidos. Um deles, muito assustador, quase pregou na porrada o síndico liberal de então em pleno meeting porque este não “expulsava a escória”. Lembrei de Marguerite Duras e suas flores.

Havia também aqui ao lado uma comunidade travesti, liderada por uma figura que era a cara do Gilberto Gil na capa de “Refavela”. Minha simpatia por ela não se resumia a isso, por sua touca de crochê e sorrisos de bom dia, mas porque era querida pelas senhorinhas judias do bairro, às quais sempre guardava duas palavras de atenção. Lucidamente política, escolheu como abrigo um trecho do quarteirão ao lado da lotérica e da farmácia de genéricos (com isso, contava com trocados da sorte — a respeito, leiam outra coluna passada — e cuidados contra a morte). E por aqui foi ficando.

Acabou por atrair para a lateral do prédio onde dormia todo um séquito de travestis de rua. Era mais que atraente estar a meio caminho do restaurante luso-nordestino na hora do almoço. Como são exagerados, os PFs servidos pelos restaurantes populares: são feitos para serem divididos. Era o que a rapaziada fazia ao voltar para o batente da firma. Os proprietários do prédio não gostavam disso.

Mas o Assombração, por motivos óbvios, não tinha qualquer possibilidade de diálogo. Logo percebi que não era louco, pois tinha senso de humor. Montava fantasias a partir de roupas encontradas no lixo. Um dia apareceu calçando um par de botas de jóquei e ficou a semana inteira disfarçado de marechal. Sei que galardão militar é o preferidão dos hospícios, mas nem bem passou seus dias viajando por terra, mar e ar e ressurgiu todo estropiado: antes não tinha voz, agora nem tinha dentes. A vida continuava a subtraí-lo em uma conta sempre de menos.


Arquivo pessoal do autor.

E berrava de manhã, de tarde, de noite, de madrugada. Deitado em minha cama sem conseguir dormir, assistindo no teto um filme do qual eu já sabia o final, eu pensava: como tolerar esse som que trespassa tudo, porta, grade e janela anti-ruído e que me diz que em qualquer hora do dia existe na calçada lá de baixo um cara igual a mim, mas que não faz a menor ideia do odor lavanda de Confort de meu lençol? O amaciante amaciava a quem, afinal, o tecido ou a mim?

Um dia meu vizinho Chico me relatou que a câmera de vigilância de seu prédio filmara o Assombração incendiando um carro estacionado em frente. A simplicidade da técnica o surpreendeu: bastou botar um papelão debaixo do carro e atear fogo. Semanas adiante, o Assombração tentou incendiar a sibipiruna aqui em frente. Usou um material plástico qualquer que corroeu o tronco da árvore de mais de cinquenta anos de idade. Era um mala, porém insisto que não era louco. Por um motivo: ele adorava assustar mocinhas que passavam. Ficava em silêncio, e quando se aproximavam: buuu! Nunca falhava.

Nessas ocasiões não pedia nada, apenas sorria esvaziadamente. Depois de observar Assombração repetir a cena muitas vezes, percebi qual era o sentido da pantomima repetitiva: sem ouvir, sem ser ouvido, aquela era a sua única chance de perceber que o som que fazia causava algum efeito. A cada berro seu as meninas pulavam, e depois o xingavam. E às vezes lhe sorriam de volta.

Fui viajar um tempo, e quando voltei Refavela Gil e sua comunidade travesti não estavam mais na calçada próxima à lotérica. Em seu lugar havia uma fileira com seis gigantescos vasos de flores de uns duzentos quilos cada um, instalados irregularmente ali pelo condomínio privado em plena via pública apenas para espantá-los. Ironia irremediável, a flora aplicada no combate à fauna. Como na crônica de Duras, passados cinquenta e cinco anos, não restou sequer uma flor verdadeira sobre a calçada.

O Assombração desapareceu há dois meses.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu último livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril de 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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O fim da infância

Por Joca Reiners Terron


A Seleção de 1982

Ah, época de Copa do Mundo é fogo… daqui a exatos dezenove dias muitos meninos e meninas em todo o mundo terão deixado de ser crianças antes da hora.

Copas do Mundo são especialistas nisso, em antecipar as coisas. Eu mesmo vi minha infância se escafeder num átimo: foi em 5 de julho de 1982. Quando Brasil e Itália começaram a jogar eu ainda era um moleque de 14 anos. No final da partida já havia nascido uma barba cerrada em minha cara, chegava quase ao peito. E enquanto minha infância entrava no túnel do vestiário e desaparecia para sempre junto de Zico, Sócrates e turma, eu arrancava o meu primeiro fio de cabelo branco.

O problema de ser jogado na vida adulta desse jeito, sem vaselina ou KY algum, é que a gente fica meio cético. Não só no referente ao futebol, mas em relação a tudo. Por exemplo, quando me casei e o padre perguntou à minha noiva se ela se casava por livre e espontânea vontade, ela disse que sim, mas eu, que sou vítima da Copa de 1982 e cético, não acreditei muito, e murmurei um “mas é SIM de verdade?” que arrancou risos dos padrinhos. E quando minha filha nasceu e a colocaram em minhas mãos pela primeira vez fiquei com um verdadeiro circo de pulgas atrás da orelha. Perguntei à enfermeira: “Tem certeza que é a minha filha mesmo, né? Não é possível que vocês tenham se enganado de bebê, não é mesmo?”.

Tudo culpa da Copa do Mundo.

E não é só comigo que é assim, não, mas com o Delei, com o Ary, com o Xandão, meus amigos do tempo do colégio: todos céticos de carteirinha que duvidam até da própria mãe. Absoluta e irrevogável culpa da Copa de 1982, tudo por conta de nossa infância surrupiada antes da hora.

Para você fazer ideia: quando hoje em dia ouvimos os comentários do Falcão naqueles jogos de futebol na TV, eu, o Delei, o Ary e o Xandão tapamos os ouvidos. E quando o Zico promete mundos e fundos dizendo que a seleção japonesa — que ele conhece bem — vai fazer barba e cabelo, sushi e sashimi hoje contra a Colômbia, eu, o Delei, o Ary e o Xandão pensamos que os japoneses deveriam mais é abrir os olhos, se pudessem. Promessas de Zico nunca mais, entoamos em coro. Daquela trupe de 82 o único que merece algum crédito ainda é o Arnaldo César Coelho. E somente porque ao apitar a final entre Itália e Alemanha ele nos deu um gostinho esquisito na boca que nós, ingênuos que éramos, confundimos com felicidade. Era só patriotada pré-Abertura política.

Por outro lado, a molecada de hoje em dia vê sua infância correr risco de extermínio bem antes da Copa do Mundo ter início. Sim, pois antigamente eram as crianças as encarregadas de decorar as ruas dos bairros, as calçadas, a pintar os muros com os nomes dos jogadores. Hoje em dia quem decora as ruas são os bancos e as operadoras de celular. Qual a necessidade de meninos e meninas decorarem a rua, pois se onde quer que olhemos há pôsteres e outdoors de Neymar e David Luiz? Hoje em dia as figurinhas dos álbuns são autocolantes, meu Deus! Não tenho mais certeza se a seleção brasileira é o time dos sonhos das crianças, mas dos publicitários certamente ela é. E que sonhos cheios de cifrões.

Pensando bem, até que tive uma infância legal. Foi curta e dolorida, mas foi feliz.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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