Joca Reiners Terron

Oração de São Malcolm dos Pés Sujos

Por Joca Reiners Terron

O escritor inglês Malcolm Lowry no México em 1936

Sou assombrado pela ideia de no futuro pensar “poderia ter sido rico, porém gastei tudo o que ganhei em livros”. Estou no México há vinte dias, por isto meus pensamentos são confusos. Gastei o que ganhei por aqui em livros. Por sorte, era pouco. Também gastei em bares. Resolvi fazer um percorrido por bares citados por Bolaño em Os detetives selvagens. Como meu exemplar todo rabiscado do livro não estava ao alcance e lembrava apenas do Café La Habana, determinei que todos os bares com idade suficiente para terem sido frequentados por Ulises Lima e Arturo Belano pertenciam à lista. Deixei o Café La Habana por último sem esquecer que lá também foi o quartel-general de Fidel e do Che para planejarem a revolução em Cuba. Aparentemente, os revolucionários cubanos estiveram em todos os cantos da Cidade do México. Ao saber que eu me hospedava no Hotel Roosevelt da Avenida Insurgentes, o poeta mexicano Óscar de Pablo assinalou que Fidel partira dali para promover a revolução em Cuba. Em minhas idas e vindas, perguntei ao concierge Alfredo se a história era verdadeira. Alfredo assegurou que sim, “toda una leyenda”, mas não havia nenhuma foto ou prova. Sozinho com minhas fichas, considerei como teria sido possível que Fidel deixasse algum recuerdo, já que ele só se tornou verdadeiramente Fidel depois de liderar a revolução. O fato é que aparentemente Fidel deu bandeiras consideráveis pelo DF, pois muitos lugares afirmam tê-lo recebido antes de partir. Depois de visitar o país dos vulcões, André Breton afirmou que o México era surrealista por natureza. Isso não passaria de um clichê se a afirmação não tivesse vindo do chefāo do surrealismo. Ganha outro peso. Não sei se é verdade ou não, mas de fato muitos escritores e artistas estrangeiros encontraram neste lugar uma espécie de crisol para suas inquietudes. Breton é um deles, outro é Antonin Artaud: como conceber seu país dos tarahumaras sem sua viagem a Chihuahaua em 1936? Ali, Artaud mandou ver no peiote, acrescentando aspectos ritualísticos à sua visão teatral. Confundo livrarias com bares. Entro meio trôpego na Libreria El Péndulo pensando que é uma “cantina”. Uma silhueta entre as estantes de livros lembra a de Bolaño. Consulta um livro e fuma cigarro. Me aproximo, mas o vulto desaparece entre as prateleiras. O leitor esfumaçado usava uma mochila de carteiro igual aquela de Wittgenstein que W.G. Sebald mostra em uma foto de seu livro Austerlitz. Penso na primeira mochila de Bolaño, devia ser igual, de lona, a que usou em sua viagem de retorno do México ao Chile na véspera do golpe de 73. A mochila de Bolaño deve ter sido sempre a mesma, a mochila que usou para sair do México rumo à Espanha, a mesma mochila na qual carregou o original de El Gaucho Insufrible que levou ao editor Herralde um dia antes de morrer, a mesma mochila que levou, vazia, ao hospital onde morreria. A mesma mochila usada para carregar livros roubados nas livrarias do DF, na El Péndulo, na El Sótano, na Inframundo, na Atraves Del Espejo. Finalmente acerto a porta de um bar. É o Salón Niza, em Juárez. Os garçons pré-históricos observam a sacola de onde retiro livros que esparramo pela mesa. Peço uma dose do mezcal El Pelotón de La Muerte. O nome do mezcal, contraditoriamente, me anima. Sou assombrado pela ideia de no futuro pensar “poderia ter sido rico, porém gastei tudo o que ganhei em mezcal”. A literatura beat não existiria sem o México. Jack Kerouac trincou o cabeçote entre os bairros de Roma e Condesa no ano de 1956. A concepção caótica da Realidade segundo William S. Burroughs não seria possível sem sua permanência neste “país oriental que reflete dois mil anos de doenças e miséria e degradação e estupidez e escravidão e brutalidade e terrorismo físico e psicológico. O México é sinistro e tenebroso e caótico, com o caos próprio dos sonhos”, como descreveu em uma carta a Kerouac. O Salón Niza é mesmo um sonho. Com meus livros e meu mezcal eu poderia passar dias sem sair dali, mantido a frijoles refritos e chipotles. Malcolm Lowry, o genial autor de À sombra do vulcão, também não poderia ter passado sem o México. Igualmente sem os bares mexicanos, como anotou em um poema: “Que beleza pode se comparar à de um pé-sujo nas primeiras horas da manhã?/ Pois nem mesmo as portas do céu abertas de par em par (e existem dois céus?)/ Poderiam me encher de um gozo celestial tão complexo e desesperado…/ A ideia de liberdade está ligada à manguaça…/ Ah, está!/ Nossa vida ideal contém um boteco,/ Onde um homem pode sentar-se e falar, ou até mesmo pensar// Nada mais// Um bar onde não existam/ Tabuletas tipo FIADO SÓ AMANHÃ ou MANGUAÇA NEM DE GRAÇA/ A quem, senão a um merda de um mexicano, lhe haveria ocorrido/ a ideia de chamar um botequim de EL CIELO?” Saio do fabuloso Salón Niza acompanhado dos detetives selvagens. Tropeço por duas quadras e entro em outro bar, o Covadonga. Sou assombrado pela ideia de não ter fortuna nem futuro. Murmuro a mim mesmo a Oração de São Malcolm dos Pés Sujos. O tempo passa, menos nos livros e nos bares do DF. Passei vinte dias no México, por isso meus pensamentos são confusos. Não cheguei a conhecer o Café La Habana.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Aforismos de Kafka adaptados para a internet

Por Joca Reiners Terron


1.
A partir de certo número de curtidas não há mais retorno. É este o ponto que tem de ser evitado.

2.
O momento decisivo da regressão humana é permanente. Por isso estão certos os movimentos revolucionários do Facebook que declaram nulo tudo o que veio antes, pois nada ainda aconteceu.

3.
Como um post bêbado no domingo: mal foi bloqueado, cobre-se outra vez de ressentimento.

4.
Não deixe que a mídia social o faça acreditar que você poderia guardar segredos diante dela.

5.
Com tanta firmeza quanto a mão segura a pedra, segura o mouse. Ela segura a pedra firmemente, porém, só para atirá-la mais longe. Porém mesmo sem ser arremessado, um mouse causa mais ferimentos.

6.
Você é o tuíte máximo que diz toda a verdade. Por todos os lados, nenhum seguidor.

7.
Como é possível alguém alegrar-se com o Instagram, a não ser quando se refugia nele?

8.
O imbecil arranca o meme das mãos do dono e o aplica a si mesmo, sem saber que isso é apenas uma fantasia produzida por um novo nó na corrente.

9.
Em certo sentido o comentarista de internet nunca terá consolo a não ser a anonimidade.

10.
Não aspiro a self-performance. Self-performance significa: querer atuar num ponto aleatório das irradiações infinitas da minha existência virtual. Mas tenho de traçar estes círculos em torno de mim, por isso é melhor fazê-lo passivamente no puro espanto de admiração perante o imenso complexo e levar para casa apenas a força que e contrario essa visão oferece.

11.
Sua exaustão é a do gladiador após a luta, seu trabalho foi minar a credibilidade de um blogue publicado em sânscrito por um fantasma e seguido apenas por analfabetos.

12.
Antes eu não entendia por que não recebia nenhum comentário às verdades em meus pôstes, hoje não entendo como podia acreditar que era capaz de postá-las. Mas realmente não acreditava, só postava.

13.
Sua resposta à afirmação de que talvez tivesse relevância virtual e bom número de hits vindos do Japão e da Tailândia, mas não existência, foi apenas tremor e taquicardia.

14.
Não se pode pagar o mal à prestação e, no entanto, as pessoas tentam isso sem parar.

Seria concebível que o grande Mark Zuckerberg, a despeito dos êxitos financeiros de sua juventude, do excelente exército que formou, das forças que sentia dentro de si para mudar o mundo, tivesse estacado em Times Square diante do painel da Nasdaq e jamais o enxergasse, na verdade não por medo, indecisão ou falta de energia, mas por causa de sua total incapacidade de abstração.

15.
Os cães de caça ainda jogam Call of Duty interconectados, mas a presa não lhes escapa, por mais que já desabilite suas contas nas redes sociais e mude de IP.

16.
Quanto mais mulas você atrela para o cyberbullying, tanto mais rápido ele anda, ou seja: não para arrancar os blocos de alicerce, o que é impossível, mas para rebentar a fibra e, como resultado, a alegre viagem vazia.

17.
Mente-se o menos possível só quando se mente o menos possível e não quando se tem a menor oportunidade possível para mentir. No caso de se ter a maior oportunidade possível para mentir (a vida nas redes sociais), mente-se o tempo todo.

18.
Quem renuncia ao Facebook tem de amar a todos os seres humanos, pois também renuncia ao mundo deles. A partir daí começa a pressentir a verdadeira essência humana, que não é outra coisa senão poder ser amado, pressupondo-se que esteja à altura disso.

19.
Nossa arte consiste em sermos ofuscados pela verdade: a luz artificial do monitor sobre o rosto horrível que vai recuando é verdadeira, de resto nada.

20.
O espírito só fica livre quando deixa de ser um link.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Teste de empatia para comentaristas de blogue

Por Joca Reiners Terron
Looking Back

Proponho aos leitores um teste em comemoração a este meu heptagésimo post. É uma data festiva, ao menos para mim (talvez só para mim), e faz-se mister festejar. O teste abaixo é utilizado pelo Instituto de Psiquiatria britânico para identificar psicopatas entre candidatos a cargos públicos. Com ligeiras alterações em alguns enunciados (duvido que as identifiquem), todas com fins mais que justificáveis em decorrência desta efeméride, deve ser respondido apenas com “sim” e “não”. As respostas podem ser mentais, porém tudo ok se quiserem enumerá-las na caixa de comentários. Serão muito bem-vindas. Aqueles que o fizerem receberão um beijo telepático do colunista. É desnecessário se preocupar com o resultado. Se der positivo para falta de empatia, por exemplo, ninguém será despertado com enfermeiros na porta. Ninguém será denunciado, podem ficar tranquilos. Certa vez, em entrevista a um documentário, J.G. Ballard respondeu a estas questões. Depois de fazê-lo, ressaltou que as perguntas diziam mais da mentalidade dos psiquiatras que as elaboraram do que as respostas revelavam dos entrevistados. Então não se preocupem. A mim o teste lembra aqueles formulários de imigração que do nada perguntam se você está carregando explosivos ou uma metralhadora. Por isso está tudo bem, basta ser sincero nas respostas para que a avaliação seja produtiva. Não haverá represálias. Expresse-se à vontade. Vamos, compartilhe seus sentimentos. Está tudo bem, relaxe. Enquanto isso, me diga: você está carregando uma metralhadora?

Questionário

1. Está certo de que tem o que fazer?

2. Costuma pensar nas coisas antes de fazê-las?

3. Sofre alterações de humor com frequência?

4. Alguma vez recebeu elogios por algo que sabia ter sido feito por outra pessoa?

5. Gosta de conversar?

6. Preocupa-se por estar em dívida com alguém?

7. Sentiu-se alguma vez “realmente infeliz” sem razão?

8. Considera que esteve alguma vez centrado em si mesmo mais do que devia?

9. Tem a precaução de fechar sua casa a chave toda noite?

10. É uma pessoa animada?

11. Incomoda-se muito ao ver uma criança ou um animal sofrer?

12. Preocupa-se com frequência por coisas que não deveria ter dito ou feito?

13. Alguma vez se sentiu incomodado com o teor deste ou de outros textos publicados na internet?

14. Se afirma que vai fazer algo mantém sempre a promessa, sem se importar com o incômodo que possa vir a ser?

15. Em geral você se deixa levar e consegue aproveitar uma festa animada?

16. Irrita-se facilmente?

17. Alguma vez culpou alguém por fazer algo que sabia ter sido culpa sua?

18. Gosta de conhecer gente nova?

19. Elogia algo aqui e depois fala mal no Facebook?

20. Acredita que planos de seguro são uma boa ideia?

21. É fácil ferir seus sentimentos?

22. Todos os seus hábitos são bons e agradáveis?

23. Você tende a se manter em segundo plano nas reuniões sociais?

24. Você conta até 10 antes de fazer um comentário em blogue?

25. Tomaria drogas que pudessem ter efeitos estranhos ou realmente perigosos?

26. Sente-se amargurado com frequência?

27. Alguma vez tomou algo que pertencia a outra pessoa?

28. Gosta muito de sair?

29. Desfruta fazendo mal às pessoas que quer bem?

30. É atormentado frequentemente pelo sentimento de culpa?

31. Costuma falar de coisas das quais não sabe absolutamente nada?

32. Prefere ler em vez de conhecer pessoas?

33. Tem inimigos que desejem lhe fazer mal?

34. Diria que é uma pessoa nervosa?

35. Tem muitos amigos?

36. Tem feito amor nos últimos tempos?

37. Sente prazer em fazer piadas pesadas, dessas que às vezes realmente fazem mal?

38. Acha que pornô grátis na internet pode salvar o mundo?

39. Você é do tipo que se preocupa com tudo?

40. Quando era criança era obrigado a fazer o que lhe mandavam de imediato e sem protestar?

41. Quando faz amor sua(seu) parceira(o) faz cara de quem está sentindo cócegas?

42. Se definiria como uma pessoa despreocupada?

43. Importa-se com os bons modos e a higiene pessoal?

44. Preocupa-se com coisas horríveis que possam vir a acontecer?

45. Alguma vez perdeu ou estragou algo que pertencia a outra pessoa?

46. É você quem habitualmente toma a iniciativa na hora de fazer novos amigos?

47. Considera-se alguém tenso ou irritável?

48. Em geral você é calado quando está com outras pessoas?

49. Na escola você sentava na frente ou no fundão?

50. Considera que o casamento está fora de moda e que deveriam acabar com ele?

51. Você consegue se animar facilmente em uma festa muito chata?

52. Gosta de se gabar de vez em quando?

53. Incomoda-se com pessoas que dirigem com cuidado?

54. Preocupa-se com sua saúde?

55. Tem hemorróidas?

56. Alguma vez disse algo ruim ou feio de alguém?

57. Gosta de contar piadas ou histórias divertidas aos amigos?

58. Passa mais tempo do que devia na internet?

59. A maioria das coisas têm o mesmo sabor para você?

60. Era atrevido com seus pais quando criança?

61. Gosta de se misturar com as pessoas?

62. Espiona antigos(as) namorados(as) nas redes sociais?

63. Preocupa-se ao descobrir erros em seu trabalho?

64. Sofre de insônia?

65. Lava sempre as mãos antes de comer?

66. É antissocial mas adora uma rede social?

67. Quase sempre tem uma “resposta pronta” quando alguém fala com você?

68. Gosta de chegar aos seus compromissos com tempo de sobra?

69. Sente-se apático e cansado com muita frequência?

70. Já trapaceou no jogo?

71. Gosta de estar em situações nas quais seja obrigado a agir rapidamente?

72. Sua mãe é (ou era) uma boa pessoa?

73. Sente com frequência que a vida é muito tediosa?

74. Alguma vez se aproveitou de alguém?

75. Costuma ter mais atividades do que seu tempo permite?

76. Considera a literatura brasileira contemporânea um lixo?

77. Há pessoas que tentam evitá-lo?

78. Preocupa-se muito com seu aspecto?

79. Acredita que as pessoas passam tempo demais se precavendo com poupanças e economias para o futuro?

80. Desejou alguma vez estar morto?

81. Evitaria pagar impostos se tivesse certeza de que nunca o descobririam?

82. Costuma ir a festas?

83. Procura não ser grosseiro com as pessoas?

84. Permanece preocupado durante muito tempo depois de um comentário vexaminoso num blogue?

85. Alguma vez insistiu em fazer as coisas de sua maneira?

86. Quando toma um trem costuma chegar no último minuto?

87. Sofre dos nervos?

88. Trata bem os atendentes de telemarketing?

89. Rompe facilmente suas amizades sem sentir culpa?

90. Sente-se sozinho com frequência?

91. Reclama muito da qualidade das companhias telefônicas?

92. Pratica sempre o que prega?

93. Já arremessou seu smartphone na privada ao ler esta coluna?

94. Gosta de atormentar animais de vez em quando?

95. Magoa-se facilmente com as pessoas que encontrem falhas em você ou no seu trabalho?

96. Alguma vez chegou tarde a um compromisso ou ao seu trabalho?

97. Gosta que haja muita agitação e alvoroço ao seu redor?

98. Já foi espancado por vizinhos?

99. Gosta que outras pessoas tenham medo de você?

100. Sente que às vezes transborda energia e outras vezes é muito preguiçoso?

101. De vez em quando deixa para amanhã o que deveria fazer hoje?

102. Acredita que as pessoas o achem animado?

103. Mentem muito para você?

104. Você é suscetível a determinadas coisas?

105. Está sempre disposto a reconhecer um erro que cometeu?

106. Sentiria muita pena de um animal que caiu em uma armadilha?

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão do feedback

Por Joca Reiners Terron


“Feedback é um método para controlar um sistema reinserindo nele os resultados do desempenho passado”. Wiener, Norbert. Deus, Golem & Cia, 1971

1.

Parece que não temos sido suficientemente artísticos. É claro que não temos nos dedicado o suficiente, não mergulhamos tão fundo, estamos longe de alcançar o cume. Não temos sido tão estéticos quanto deveríamos, não desenvolvemos uma poética, como dizem. Não temos passado sozinhos o tempo que deveríamos, deve ser isso. Andamos nos preocupando demasiado com os rumos da política do país.

Não conseguimos ficar em casa tempo suficiente, e mesmo quando ficamos, desperdiçamos nosso tempo nas redes sociais. Talvez sejamos bons em automarketing, parece que sim, talvez sim. Alguns de nós também são bons no que se nomeou self-performance, e até mesmo desenvolvemos alguma consciência do novo modo que as coisas arranjaram para funcionar. Isso tudo, claro, aliado à nossa dedicação em usufruir do tempo em que vivemos, ocupa todo o nosso tempo. Não sobra muito tempo para que sejamos artísticos o suficiente, para que mergulhemos suficientemente fundo. Para que desenvolvamos uma poética, como dizem.

Desperdiçamos tempo demais vivendo nosso tempo, a vida de nosso tempo, gastamos tempo demais com o tempo dos outros. Não conseguimos ficar muito tempo sozinhos, precisamos de feedback. Alguns de nós talvez sejam bons em obter feedback, e parecem entender disso, de feedback, da importância do feedback, do modus operandi das novas mídias. Mas a verdade é que não conseguimos comover ninguém, não tocamos suficientemente fundo as pessoas. É o que dizem.

Parece que é uma limitação geracional, essa impossibilidade de ir mais a fundo, de ter coragem de ficar sozinho por tempo suficiente para que a mágica ocorra. Não acreditamos muito em mágica, certamente isso faz parte do problema. Necessitamos de feedback, nascemos quase ao mesmo tempo que o Big Brother. Não me refiro ao personagem de Orwell, mas ao reality show. É imprescindível que tenhamos tanto feedback quanto um big brother, e se isso não for possível, que ao menos recebamos o feedback dedicado a um ex big brother.

A verdade é que não dedicamos tempo suficiente para desenvolver uma poética, como dizem, para adquirir uma voz própria, como também dizem, pois passamos o tempo todo pensando em feedback, em convívio digital, em militância política nas redes sociais, em pensar os rumos do país por meio de tweets de cento e quarenta toques. E não temos sido suficientemente artísticos nisso, parece que não dedicamos o tempo necessário para que desses tweets e posts e fotos saia algo meramente digno de nota. Passamos o tempo todo pensando em feedback, em talvez obter algum feedback na França, na Alemanha, lá em Frankfurt, quem sabe. E com isso desperdiçamos a possibilidade de estarmos a sós e sermos verdadeiramente artísticos ao estarmos sozinhos, pensando, sofrendo muito, sofrendo demais mesmo.

Parece que não somos muito bons nisso de sofrer, e há quem sofra melhor que nós. Deve ser muito bom poder sofrer bem, sofrer à altura, sofrer artisticamente e com isso fazer com que a mágica ocorra, que surja a poética, como dizem. Mas também não somos muito bons nisso, em mágica. Somos bem medíocres mesmo, artisticamente falando. É porque precisamos verificar o andamento daquele botão de likes ali de cima, e conferir os comentários naquela caixa ali embaixo, e a repercussão nas mídias sociais. Também temos passado tempo demais nos preocupando com a PM, o que acaba atrapalhando o sofrimento estético pois o que a PM causa nem sempre é um sofrimento estético, é porrada mesmo e dói no couro, não na estética. Mas parece que nisso nós somos bons, em levar porrada, até parece que gostamos. Talvez porque a porrada também seja um tipo de feedback, deve ser isso, e nós precisamos muito de feedback. Talvez seja pelo fato de termos nascido quase ao mesmo tempo que o Big Brother (o reality show), que foi um programa de TV que meio que mudou tudo isso, que “colapsou a diferença entre produtor e consumidor”, como definiu alguém mais inteligente que eu (e que fica tempo suficiente sozinho para desenvolver um raciocínio estético convincente). Esse alguém, chamado Steve Rushton, escreveu um dos livros mais interessantes que li o ano passado (levei muito tempo para lê-lo, pois não conseguia ficar suficientemente sozinho para me concentrar), e nele afirma que o Big Brother teve “interessantes consequências econômicas porque, apesar de trabalharmos para que essa mídia funcione, recebemos pouco ou nenhum dinheiro pelo trabalho que realizamos — de fato, na maioria dos casos somos nós quem pagamos de nossos próprios bolsos. O lucro de nosso trabalho vai, na verdade, para produtoras (de TV), companhias telefônicas e conglomerados da grande mídia, assim como para as empresas que nos vendem equipamentos mais atuais. Como consequência disso tudo, não podemos mais afirmar que vivemos na “sociedade do espetáculo”. Somos tudo, exceto consumidores passivos de produtos; nós vivemos em uma sociedade de self-performance na qual constantemente apresentamos a nós mesmos e despertamos o interesse dos outros por aquilo que fazemos, e esta self-performance é uma mercadoria que tem um preço.”

2.

A reflexão de Rushton (que se estende a outros aspectos — todos interessantes — das relações entre a TV comercial, novas mídias e arte contemporânea) fornece aqui outra chave de interpretação, pois sua descrição das novas formas de recepção surgidas com o reality show descreve à perfeição o que é e como funciona a literatura, principalmente a poesia e a dita ficção literária, nos dias atuais. Se não existe algo novo nessas relações é justamente o feedback, e a necessidade que todo autor tem de retorno, não necessariamente financeiro. O lucro costuma passar bem longe da preocupação de qualquer autor com certo nível de sanidade, e não me refiro somente a brasileiros.

Porém alguma distorção surge do choque entre self-performance e criação literária — de novo Rushton: “Não creio que desvie para os campos da ficção científica se sugerir que a mídia contemporânea criou uma forma de relação imediata na qual a subjetividade humana é o principal objeto de produção e consumo, e a mídia funciona como facilitadora de produção e consumo” —, e não é de todo impossível que justamente desse atrito surjam qualidades bastante características da literatura contemporânea. Exemplo 1: que grandes e ricos personagens são J.P. Cuenca e Xico Sá. Problema 1: que grande desafio os escritores J.P. Cuenca e Xico Sá têm pela frente, o de criar personagens literários tão bons quanto eles próprios são (na vida real e no ambiente midiático da self-performance, que no caso de ambos inclui a TV). Problema 2: como disputar atenção consigo mesmo? Exemplo 2: o escritor self-performer não compete com os personagens resultantes de sua própria criação, pois são um sujeito só, uma commodity que tem um preço. Hipótese 1: não existe competição em literatura; não é possível haver competição fora do mercado. Hipótese 2: portanto, se a obra compete no mercado — é incluída em listas de mais vendidos, vende, é comprada —, por exclusão, não é literatura. Hipótese 3: tudo o que é verdadeiramente literatura converge — reúne, soma, expande, amplia —, encontrando particular espaço de desenvolvimento em situações coletivas: revistas literárias, blogues, mídias sociais tipo Skoob, clubes do livro, oficinas de criação e leitura etc. Exemplo 4: no mundo da cyberliteratura (e da self-performance) só existe o feedback, cujas atribuições antigamente eram dadas ao velho DESTINO.

3.

Ezra Pound comparou o capital do conhecimento com o crédito bancário. “A referência de um escritor é o seu ‘nome'”, escreveu o poeta em ABC da Literatura (1934), prosseguindo: “(…) uma afirmação abstrata ou genérica é BOA quando se verifica, em última análise, que ela corresponde aos fatos. Mas nenhum leigo será capaz de dizer à primeira vista se ela é boa ou má.” E completou: “Seu significado só pode ser avaliado adequadamente por alguém que SAIBA.”

Com a self-performance, porém, as tradicionais etapas do aprendizado são borradas: não há mais a divisão professor/pupilo. O escritor self-performer já nasce sabendo, ou melhor: sua prioridade é existir, atuar, dar-se a ver, e não professar um ofício. Literatura em tempos de Facebook é, nesse sentido, ressurreição: “ei, nem todos os escritores estão mortos, eu estou vivo, por exemplo, e estou bem aqui”, diz o self-performer. Não há ascensão (o lento desenvolvimento do ofício literário), só queda. Ao escritor vivo só lhe resta morrer. Mas antes terá de errar. Se tiver sorte, terá tempo para isso.

Assim como na trajetória de um big brother, o self-performer deve dar sinais de desenvolvimento: 1. Por meio de provações, deve provar que é boa pessoa. 2. Deve evoluir, pois isso ensinará algo a seus seguidores, que também querem se tornar pessoas melhores. 3. É um personagem regido pelo feedback, pela moldagem progressiva de seu caráter em decorrência do desejo de seus seguidores (seja bom que eu serei também; na linguagem do BBB, aja corretamente que te salvaremos do paredão).

Períodos de turbulência sociopolítica são ideais ao self-performer, que pode se autoatribuir valores positivos. Para isso, basta se armar contra o Estado-nação e suas instituições (a PM, por exemplo, mas também outras manifestações da tradição, como a própria ideia de literatura nacional, ou contra a geração a que pertence, ou contra a ex-mulher que o corneou). Isso deve ser observado com muita isenção, pois o self-performer não é mais regido pelas convenções, e sim por um estado de permanente visibilidade e autoconfiança.

4.

A cultura do feedback tem mecânica idêntica à da construção de celebridades do star system. De acordo com Mark Andrejevic, o regime panóptico (poucos vigiam muitos) terminou e vivemos sob o regime do sinóptico (muitos vigiam poucos). No caso da literatura isso tem provocado impensáveis demandas de domesticação. Penso no artigo que o escritor selvagem Reinaldo Moraes fez para a Audi Magazine, relatando test-drive de dois dias feito ao volante de um Audi S5 Sportback. Ou de outra experiência do mesmo autor de Pornopopéia, na qual relata aos entretidos leitores da revista do banco Itaú Personnalité seu primeiro vôo em um planador. Tal submissão, da mesma forma que a autoadesão do escritor a valores positivos como a militância política ou a qualquer posição de poder e de correção, age ao mesmo tempo a favor do self-performer — e de sua sobrevivência econômica — e contrariamente à literatura e sua essência negativa, composta de caos e anarquia.

5.

Como o assunto não tem fim, mas o espaço sim, encerro com uma citação de Don DeLillo (extraída de Mao II):

“— Faz algum tempo que tenho a sensação de que tanto romancistas como terroristas se encontram imersos em um jogo de lógica.

— Interessante. Em que sentido?

— O que os últimos ganham, perdem os primeiros. O grau de influência que obtém sobre a consciência das massas depende de nossa decadência como modeladores do pensamento e da sensibilidade. O perigo que representam equivale ao nosso próprio fracasso na hora de sermos perigosos.

— E quanto mais claramente vemos o terror, menor impacto nos produz a arte.”

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu livro mais recente, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em 2013. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Os alegres coveiros querem fazer amor

Por Joca Reiners Terron
Mourning dove
É verão em São Paulo, época de chuvas, e a prefeitura se esmera no trabalho preventivo do diagnóstico de árvores doentes ou mortas e sua posterior derrubada.

Acordar na segunda-feira com a barulheira de motosserras não facilita o restante de minha semana, seria melhor acordar com pássaros. Sei bem, porém, dos benefícios desse desmatamento urbano de janeiro: prefiro o mau humor subsequente à visão dos galhos cortados a qualquer possibilidade de testemunhar a retirada de um tronco caído sobre uma criança que seguia com inocência em direção à escola numa manhã de temporal.

Mas não posso deixar de censurar o comportamento dos funcionários da Unidade de Parques e Jardins: por que sorrir, cantarolar ou mesmo conversar enquanto operam tesouras, machados, serras, martelos e cordas? Não deveriam adotar modos mais circunspectos e adequados ao momento? Não é fácil ver a partida de uma árvore que, oca ou não, acabou de florir umas bonitas flores amarelas bem na copa que posso ver daqui do escritório. É comum nascerem trepadeiras, parasitas e orquídeas nesses troncos mortos, o que acaba lhes atribuindo sobrevida estética, além de certa aparência lúgubre. A cidade não tem muita vegetação e é triste enxergar cada vez menos verde. Até o uniforme laranja dos funcionários contrasta com a sensação cinzenta de perda.

Entre todos, o mais exibido é o que empunha a motosserra. Sua função é superior inclusive na posição que ocupa em cima da árvore, enquanto os demais permanecem no chão tracionando a corda que determinará o sentido da queda dos galhos e do tronco. Em seu palco improvisado, o rapaz da motosserra consegue cantar quase mais alto que a ferramenta que opera. Enquanto corta gravetos menos desafiadores ele se exibe para babás e secretárias a caminho do expediente, caprichando na escolha do repertório romântico. As moças lhe devolvem um sorriso da cor amarela das flores que estão indo embora junto com a árvore. Acho impossível que simplesmente não passe pela cabeça do rapaz a ideia de colhê-las e jogá-las às moças que se afastam. Sua única plateia consiste nos outros sujeitos de macacão laranja, que apupam e pedem canções como se ouvissem seu programa predileto no rádio.

Devido à gravidade da ocasião, o comportamento ingênuo desses funcionários acaba adquirindo traços de um improvável sadismo. Cantam e aplaudem enquanto derrubam árvores. Têm intenções amorosas ou até mais objetivas que isso, de atender ao seu instinto de reprodução no momento exato em que celebram a culminância da vida ou talvez justamente por isso sintam necessidade de prosseguir com o baile da existência, obedecendo sua própria natureza. Os alegres coveiros querem fazer amor.

Na imaginação, substituo os macacões dos funcionários por ternos escuros e o caminhão que transporta o tronco por uma daquelas peruas negras de funerária. Depois, no velório, as outras árvores suas amigas tomariam um drinque de orvalho e, em vez de fazerem aqueles costumeiros elogios à falecida, ficariam em silêncio, ouvindo o sibilar do vento nas folhas. Então, como em uma telenovela de Dias Gomes, a árvore ressuscitaria no caixão e diria “Brincadeirinha, gente, vamos voltar lá pra rua que hoje dona Sabiá ficou de aparecer pra contar fofocas de dona Maritaca e seu namorado novo.”

Daqui de minha janela agora posso ver uma nesga de calçada que antes não via. Nela, o tronco amputado. Árvores têm dessas coisas, não precisam de lápides, pois em sua fixidez de raiz já são marcos de sua própria morte. Ficam ali, no meio do caminho, até virarem pedra. Não há nada mais beckettiano do que uma árvore, ainda mais quando se trata de um resto de tronco cortado de uma árvore morta. E, como diria Beckett, não há nada mais a dizer, embora nada tenha sido dito.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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