Joca Reiners Terron

A questão do suicídio

Por Joca Reiners Terron
Joseph Cornell, Sorrows of Young Werther, 1966

Com frequência tem-se falado da crescente profissionalização dos escritores brasileiros. Andam com excesso de trabalho, cheios de oportunidades etc. O mercado editorial é uma mãe, e mesmo que a maior parte dos autores não sobreviva de direitos autorais (parece ser apenas questão de tempo que os livros comecem a vender, é o que se diz), não lhes faltam serviços muito bem pagos de preparação de texto, tradução, revisão, redação de aparatos (que é jargão para orelhas, sinopses, releases e demais instrumentos utilizados na divulgação de um livro) e o circuito de festivais literários só aumenta, com gordos cachês para os palestrantes (cuja frequente solicitação obriga os autores a desenvolver seu talento retórico, ao qual também é desejável somar-se alguma propensão à comédia stand-up, muito em voga nos dias de hoje), hospedados habitualmente em hotéis e resorts de alto nível, além de alimentados com o que há de melhor na rica e variada culinária regional do país, ademais três vezes ao dia (pelo menos nos dias em que tais escritores se encontram no cumprimento da função para a qual foram convidados, de palestrantes ou então debatedores, e que não são poucos ao ano). Alguns até colaboram com a imprensa e escrevem em blogues, meios reconhecidamente esbanjadores no que se refere a pró-labores. São todos uns vendidos.

O óbvio reflexo desse processo (e o relativo conforto que tão recente condição lhes atribui, ainda mais se acrescida às vultuosas somas distribuídas pelos prêmios e bolsas de criação literária ou mesmo a alta grana resultante da venda de histórias para o cinema), é a queda acentuada da taxa de suicídio entre escritores brasileiros das novas, novíssimas e nem tão novas gerações. Evidentemente, a consolidação do ofício não parece ser o único motivo para que isso aconteça.

Não é de hoje que se sabe das relações entre criatividade artística e doenças mentais. Aristóteles menciona a ligação entre melancolia e “enfermidades oriundas da bile negra” em um ensaio clássico que lhe foi atribuído, Problema xxx, no qual comenta aspectos da medicina antiga, que relacionava os quatro elementos naturais – a saber, água, terra, fogo e ar – à tipificação dos humores, divididos em sangue, fleuma, bile amarela dos coléricos e bile negra dos melancólicos. O escritor, o poeta e o filósofo, portanto, estariam sob influência de Saturno, planeta que rege os humores. Desse modo, ao nascer tinham seu destino artístico assinalado, ao mesmo tempo em que eram condenados à instabilidade psíquica. Essa condição bipolar, aparentemente, facilitava (ou induzia) à compreensão anímica da realidade, culminando em obras de arte (no caso, obras de arte clássicas, ou seja obras que deram sentido àquilo que atualmente se compreende como arte).

A coisa não parou por aí: em um curioso livrinho de 1997 chamado …Or Not to Be, A Collection of Suicide Notes, Mark Etkind cita estudos mais recentes, como aqueles realizados pelo psiquiatra Kay Jamison, que afirmam que maníacos depressivos usam rimas, aliterações e palavras idiossincráticas em proporção muito maior que outras pessoas. “Quando pensamos em escritores criativos”, afirma Jamison, “pensamos em ousadia, sensibilidade, inquietude e descontentamento, todas qualidades do temperamento maníaco depressivo”. Etkind lamenta o fato de que a mesma doença que conduz artistas à grandeza, também os impeça de usufruir de seu sucesso. Pesquisas do dr. Jamison concluíram que 1) Escritores sofrem de dez a vinte vezes mais de crises maníaco-depressivas do que outras pessoas; 2) Entre os britânicos, amostragem indica que 38% dos artistas criativos passam por tratamentos de transtornos de humor. Entre poetas, a porcentagem é ainda mais alta, atingindo 50%.

É notória, assim como anacrônica, a conformação romântica da persona literária. O escritor contemporâneo, para ajustar medidas de seu próprio éthos, recorre a crenças passadistas. O incrível é que não se suicide mais. O estudo de Jamison constatou o aumento estatístico de suicídios ocorridos após a morte de uma figura pública, invariavelmente um artista. É chamado de “Efeito Werther”, pois refere-se à onda de suicídios causada no século 18 pelo romance de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther. A. Alvarez, em seu ensaio O Deus Selvagem, afirma que “no ponto mais alto do Romantismo a vida em si mesma era como se fosse ficcional, e o suicídio se tornou um ato literário.” Para verificar a índole composta de recusas e ressentimentos dos escritores atuais, basta visitar o Facebook. A lista de acusações de uns contra outros é imensa: são vendidos. Entreguistas. A panelinha do norte acusa a do sul de privilégios e submissão às forças do capital. E vice-versa. No entanto, não se suicidam mais. Por quê? Parece-me um contrassenso.

Essa mistura inseparável entre vida e arte que parece subsistir à prova da passagem do tempo nas mídias sociais conspira para que a literatura permaneça em sua posição aprioristicamente imaterial, que não deve ser conspurcada por aspectos comerciais ou mesmo que não possa ser profissionalizada, tornando-se motivo de sustentação financeira de quem a faz, com o preço de não ser literatura, de ser outra coisa qualquer que não seja literatura verdadeira. Comparada com o negócio das artes plásticas, da música popular ou do cinema, por exemplo, no qual artistas sobrevivem de sua produção (e até enriquecem), a literatura contemporânea não pertence a 2013, mas a 1787, ano da publicação do livro de Goethe.

E no entanto não se suicidam.

Tenho uma teoria a respeito, vaga como provavelmente é vago este artigo: não se suicidam porque não estão mais sozinhos, porque agora têm com quem falar. Não são muitos, apenas uns cinco ou seis amigos que comentam a cada vitupério essencial de um, que retribui ao brado retumbante de outro, e assim vão, nessa pequena cadeia inconsútil de almas de outrora, perdidas no presente desses espasmos e frêmitos digitais de Facebook. Às vezes brigam entre si.

Não faz mal ressaltar que — assim como Edwin Schneidman — nunca li um bilhete de suicídio que desejasse ter escrito.

E no entanto não se suicidam, nem mesmo no Facebook onde poderiam apagar seus perfis. Porém não apagam.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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A questão da verossimilhança

Por Joca Reiners Terron

Temos no Brasil um clichê contemporâneo que afirma que a arte produzida pelos argentinos é melhor que a nossa. Os filmes deles são sempre mais competentes, e feitos com menos dinheiro. A literatura, desde sempre, foi melhor. Eles têm Borges, Cortázar e nenhum romance brasileiro dos últimos cinquenta anos chega aos calcanhares de Respiração Artificial, de Ricardo Piglia. Mas existe um equívoco nessa comparação. Para que seja coerente, é necessário que a busca de equivalência se utilize do que eles têm de melhor, porém nós também. Os argentinos sabem fazer filmes e livros. E nós sabemos fazer armas de fogo.

Foi muito difundida recentemente a imagem acima, na qual um garoto mostra a procedência da bomba de gás lacrimogêneo lançada pela polícia turca contra um acampamento sírio. Talvez menos conhecido seja o fato de que atualmente o cidadão norte-americano — pródigo em exercer seu direito de legítima defesa — é o maior comprador de armamento produzido no Brasil. Nos últimos 10 anos, a indústria brasileira do armamento vendeu mais de 5 milhões de armas para o mercado dos EUA. De acordo com esta matéria da Folha, é número suficiente “para armar a população inteira de países como Noruega e Croácia”. Nossos vizinhos também são bons fregueses. Enquanto produziam filmes e livros melhores que os nossos, no mesmo período os argentinos compraram 215 mil de nossas excelentes armas.

Corta para a noite de ontem.

Ontem à noite, depois de voltar de uma viagem ao exterior que durou um mês e que incluiu minha participação como integrante da delegação brasileira na Feira de Frankfurt na qual o Brasil foi homenageado, bem, ontem à noite eu recebi um telefonema a cobrar. Como sempre nessas ocasiões, atendi imaginando que fosse minha filha de 14 anos, pois só ela liga aqui em casa a cobrar. Esse fato contribuiu para a questão da verossimilhança, e era realmente ela ao telefone, aos prantos, dizendo que havia sido sequestrada, espancada e que estava nas mãos dos sequestradores. Eu pedi que se acalmasse e daí surgiu ao fone a voz de um homem com o registro linguístico típico da criminalidade, exigindo dinheiro para libertá-la. Eu já ouvira falar desse tipo de golpe, mesmo assim o impacto foi grande. Fiquei a mercê do sujeito, por um motivo simples: minha filha vive em outra cidade, a mil quilômetros de mim, e antes de mandar o bandido àquele lugar eu precisava confirmar se ela estava bem. Isso levou uma hora e meia, uma hora e meia de puro terror.

Corta para vinte dias atrás.

Vinte dias atrás eu atravessava à noite um bosque de Berlim. Era um lugar absolutamente ermo que eu precisava atravessar para chegar ao hotel onde estava, único lugar que obtive para me hospedar durante o feriado da unificação alemã, pois a cidade estava cheia. Ao me enfiar naquela escuridão fui tomado pelo pavor. O que eu fazia ali naquele lugar? Podia ser assaltado, sequestrado e morto. Mas nada disso aconteceu, e durante minha estada na cidade eu atravessei aquele bosque e outros lugares ainda mais escuros, sempre com medo. Aparentemente, investir em segurança permite ao Estado alemão que economize em iluminação pública. Berlim é uma cidade bastante escura.

Corta para dez dias atrás.

Outra notícia que repercutiu ultimamente foi o discurso de abertura feito por Luiz Rufatto em Frankfurt. Trechos de sua fala afirmavam que “nascemos sob a égide do genocídio” e que “a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.” Em minha participação no pavilhão brasileiro, ao lado de Sérgio Sant’Anna, recordei minha sensação de temor ao atravessar o bosque de Berlim, concluindo que nós, brasileiros, carregamos uma variação ainda mais perversa de trauma de guerra do que aquele sofrido por militares. Nós somos civis. Supostamente — é o que nos fazem crer —, não estamos em guerra. Podemos não praticar a violência, porém a violência não nos abandona. É traço indelével de nosso caráter. É o que temos de melhor? Pois até a exportamos, e o governo brasileiro fornece generosos subsídios fiscais para isso, assim como recebe apoio financeiro para suas campanhas políticas.

Corta para ontem à noite.

Levei uma hora e meia para localizar minha filha e descobrir que ela estava bem, na casa de sua mãe. Durante esse tempo, muita bobagem passou pela minha cabeça. Lembrei, por exemplo, que era eu o ficcionista ali, além disso um paranoico. Devia ser minha obrigação prever quais os passos seguintes daquela pantomima cruel. Mas a verossimilhança dos dados sobre minha filha que me eram fornecidos me derrubou. Acostumado ao pânico, ao ouvir aquela voz de alguém que fingia ser minha filha implorando por socorro, meu cérebro imediatamente codificou aquela voz — que devia ser a de um prisioneiro qualquer com talento interpretativo à altura de grandes atrizes argentinas — na voz de minha filha. Simplesmente porque era perfeitamente verossímil que aquilo estivesse acontecendo. Por sorte, minha mulher — que foi mantida o tempo todo no outro telefone — conseguiu se comunicar com um amigo, que localizou minha filha. Estava em casa. Soube disso a tempo de não cumprir as exigências dos bandidos. Tudo acabou bem?

Corta para a questão da verossimilhança.

Rufatto foi simultanteamente aplaudido e execrado, em sua tentativa de elucidar a plateia de Frankfurt acerca das contradições que nos conformam, que nos deformam. Evidentemente, foi execrado por gente que não suporta se ver no espelho, e que não admite a má procedência do que oferecemos ou as reais patologias psíquicas e espirituais que sofremos enquanto cidadãos violentos, criados sob violência em uma nação violenta. Isso é o que somos, nossa matéria-prima. O que fazemos de melhor.

Corta para o futuro, circa 2050.

Andei lendo 10 Billion, um panfleto apocalíptico de Stephen Emmett, cientista de Cambridge que estuda os efeitos da hiperpopulação e do desgaste natural provocado pela agricultura e pela indústria no planeta e como isso refletirá daqui a algumas décadas, quando atingirmos a cifra de 10 bilhões de habitantes. É assustador, quase tão atemorizante quanto pode ser a um traumatizado pela violência atravessar bosques tranquilos de países civilizados na escuridão. Em diversas passagens do livro, minha mente paranoica deduziu que Emmett sugere que o Brasil — “o celeiro do mundo?” — pode perfeitamente ser palco de uma guerra mundial por comida. Pois isso, comida, vai ser artigo raro em 2050.

Corta para o momento de agora.

Lá pelas tantas, Emmett resolve perguntar ao seu assistente mais brilhante qual seria sua providência para preparar seu filho para o futuro. A resposta do jovem cientista o surpreendeu: “Ensiná-lo a usar uma arma.”

Nossa providência, porém, é ligeiramente mais complicada. Precisamos ensinar nossos filhos a ler, e a ler livros que reproduzam nossa verdadeira essência de povo regido pela violência. Não vejo aspiração maior para nossa literatura atual do que a de refletir nosso verdadeiro caráter. Enquanto isso, precisamos ensinar nossos filhos a usar uma arma.

*

PS. Peço aos leitores que relevem o possível elogio da legítima defesa deste texto. Sou contra o uso de armas e abomino a violência. A coluna, porém, está sujeita aos humores de seu autor, e hoje é, pelos motivos expostos, daqueles dias em que me permito um hipotético “e se”?

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Viajar esperançoso é melhor que chegar

Por Joca Reiners Terron

Scrap Metal Salvager - Long Island City, Queens

No bairro em que vou vivendo ultimamente, capto sinais de uma guerra que pouca gente parece perceber; há um travesti que dorme em frente à farmácia de genéricos, em um ninho de cobertores; todos os dias, esse travesti, que é negro além de travesti (paro um instante, acendo um cigarro e me pergunto por que um gay negro escolheria aumentar seu enorme fardo optando por ser mulher e lembro de Lennon: “a mulher é o negro do mundo”), estaciona na esquina, senta-se em uma grade e lá pede dinheiro a quem passar, oferecendo em troca sua conversa gentil; as senhoras do bairro, em particular, adoram ouvi-lo; não tenho certeza, mas algo me diz (minha intuição, e um pouco de bisbilhotice) que sua suscetibilidade (afinal são velhas solitárias) não é a única causa de pararem ali todos os dias por alguns minutos, e talvez o travesti tenha algum talento oracular para prever o futuro ou resolver mazelas do passado.

Esse lugar onde vivo atualmente tem entre seus pontos centrais um supermercado chamado Futurama, cuja ironia suprema é ser frequentado somente por velhos. Nos domingos pela manhã, essas pessoas arrastam suas vidas entre os corredores de produtos higiênicos e congelados, numa espécie de corrida de carrinhos bate-bate na qual nunca há um vencedor; eu me misturo a eles, e a transposição das fronteiras desse mundo nem sempre é impune: algumas vezes já os empurrei em suas cadeiras de roda na subida que leva até a rua; escolhi vinhos para os maridos que ficaram em casa e cerveja para o sobrinho que os visita aos domingos (“anda bebendo cada vez mais, o meu sobrinho”, me confidenciou uma senhora, “antes eram duas garrafas, e agora já são três”); mas nem tudo é ternura em meio às filas do Futurama, e às vezes discussões sem sentido irrompem, assim como cotoveladas.

Nesse pedaço da cidade que habito, as bancas de jogo do bicho se escondem detrás de sebos de fachada, e quem ali chega (um leitor assíduo como eu, por exemplo), pode imaginar que adentra o Paraíso. Porém vamos nos deter um pouco sobre o conteúdo das prateleiras dessas livrarias ficcionais cuja única função é atribuir alguma dignidade ao negócio escuso que acontece nos fundos: em geral o que se encontra sob a poeira dessas estantes são livros femininos de capa cor-de-rosa, histórias românticas que já cumpriram sua função, preenchendo noites de sábado de senhoras de perna engessada que não puderam comparecer ao baile da Primavera do Clube Piratininga; nelas também é possível encontrar livros de Júlio Verne e Emilio Salgari que pertenceram aos filhos dessas mesmas senhoras, filhos que hoje entram na meia-idade e não têm mais tempo para aventuras fantasiosas na hora do almoço de seus expedientes bancários.

Em frente às lotéricas que se avizinham a essas bancas do bicho livreiras, nos dias em que a mega-sena está acumulada, reúnem-se duas filas: a dos apostadores e a dos mendigos dispostos a explorar o otimismo desenfreado daqueles imbuídos de fé; o jogo que se estabelece entre as duas filas é curioso, pois os apostadores entregam aos mendigos um dinheiro que ainda não têm, que ainda ganharão; assim, investem no almoço de seus vizinhos que vivem na rua, enquanto podem igualmente colocar tais gastos “por conta” em sua lista de boas ações, gentilezas que se fazem necessárias no mundo repleto de superstições facilitadoras dos apostadores. Algumas quadras abaixo da lotérica mais próxima de minha casa existe uma banca do Jóquei Clube. Fica num estratégico andar subterrâneo, onde os velhos podem se esconder de suas consortes, deixando-as à Corrida Maluca dos corredores do Futurama, e assim torrar suas aposentadorias em paz.

Nos dias de chuva e frio do início da Primavera, os velhos judeus vestem seus sobretudos negros e passeiam pelas esquinas ao vento, e meu vizinho, o sr. Wolfgang, veste sua longa bermuda e seus sapatos de montanhês com as meias puxadas até a altura dos joelhos; quando o encontro no elevador costumo perguntar se o passeio pelos Alpes tinha sido aprazível; da primeira vez ele estranhou, mas agora aderiu ao meu jogo, respondendo “sim, e o clima anda maravilhoso”. Da próxima vez que encontrá-lo vou incrementar nossa conversa, citando aquela passagem inesquecível de Robert Louis Stevenson e seu “El Dorado”, e direi: “que mal conhecemos nossa sorte, porque viajar esperançoso é melhor que chegar, e o verdadeiro êxito reside no esforço.”

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, foi publicado em abril. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Novos heróis para novos tempos

Por Joca Reiners Terron

testosterone & horsepower

Nunca foi fácil trajar cueca em qualquer época, fosse na Idade da Pedra — usariam tanga de oncinha então? — ou agora, na Idade da Moleza. A verdade é que os homens nunca foram tão mimados quanto no século 21. Cueca atualmente anda pesando mais que a camisa da seleção.

O avanço da medicina e da tecnologia nos desobriga ao confronto. Às vésperas do apocalipse da testosterona, o macho atual cambaleia perdido sem um mero código de comportamento que o guie. Sua noção de duelo ao pôr do sol é uma caixa de comentários de blogue. Quando bato cartão no bar, por exemplo, observo com dedicada curiosidade a multidão de garotos disposta à procriação descompromissada e só posso imaginar quantos ali saíram de casa armados de viagras no bolso. O destemor romântico já era e todos temem dar chabu na primeira transa. A pílula azul aposentou a pistola.

Nessas ocasiões lembro da “lição da pizza” dada por meu velho pai, uma tese que defendia que o homem — para não ser facilmente dobrado pelas amplas dificuldades da vida — deve impreterivelmente iniciar a fatia pela borda, e não pelo vértice inundado de queijo e demais guloseimas corruptoras da fibra masculina. O velho levava tão a sério o paradigma que avaliava o caráter de parceiros de negócios em jantares estrategicamente agendados em pizzarias.

Hoje em dia, porém, aí está a borda recheada a nivelar todo e qualquer sujeito por baixo. É a conspiração do catupiry. Avaliações morais ainda mais duras têm sido feitas por mulheres de inabalável senso crítico. Uma delas, a alemã Meredith Haaf, publicou um tratado sobre o assunto, inspiradamente intitulado “Chega de Mimimi — sobre uma geração e seus problemas supérfluos” (tradução aproximada).

“Minha geração teve de tudo, então há muito pouco a se esperar. Cresceu com mais bem-estar e ofertas de informação e de mobilidade que todas as gerações que a precederam. É uma geração com uma juventude dourada, cujas perspectivas de futuro a curto e a longo prazo são tudo, menos brilhantes”, afirma Haaf, ecoando aquele refrão oitentista do Timbuk 3, “the future’s so bright, I’ve gotta wear shades”.

A dissecação da ensaísta alemã se refere àqueles nascidos nos anos 80, “que só conhecem o socialismo real graças aos relatos de seus pais ou às incompetentes aulas de história, e cuja juventude transcorreu entre a queda do muro, a bolha das novas mídias e o 11 de Setembro” e evidentemente não exclui ninguém: independente da questão de gênero, todos são culpados de sua acédia.

Acédia = cf. Houaiss: 1. enfraquecimento da vontade; inércia, tibieza, preguiça, a moleza, a preguiça, a acédia dos bem alimentados; 2. melancolia profunda, acédia de espírito; 3. med desordem mental caracterizada por apatia, melancolia e descuido; 4. teol abulia espiritual quanto ao exercício das virtudes, esp. no que respeita ao culto e à comunicação com Deus.

Faltam modelos morais, símbolos metafísicos da masculinidade presente e futura a serem inventados. Desde o sumiço do panteão de Apolo de caubóis, astronautas e soldados — substituídos por mercenários anônimos até no imaginário ianque, vide as últimas produções hollywoodianas — todo homem se encontra órfão de liderança. Mesmo jogadores de futebol, antes viris e bigodudos, tornaram-se metrossexuais. É hora de surgirem heróis para os novos tempos. Naturalmente durões como nas antigas, devotos do amendoim e desconfiados com ereções químicas.

Apoiado em outro velho mandamento esquecido, proponho uma grande fogueira de cuecas em praça pública: cuecas boxer, machão, slip, samba-canção, ceroulas, todas devem ser queimadas na fogueira da vaidade masculina. E a partir daí, como no passado, o bicho deve ser criado solto.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, acaba de ser publicado. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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Companhia das letras brasilienses

Por Joca Reiners Terron


Houve um tempo, ali por 1986 e 1987, em que a ficção publicada pela Companhia das Letras lembrava um pouco a Brasiliense, editora de onde o Luiz Schwarcz saíra. Suponho que ainda estivessem adaptando a linha editorial, ou recriando nova orientação com total autonomia. Mas para os leitores que haviam delineado seu gosto literário com livros da Brasiliense, aquele chorinho era um consolo para nossa orfandade fora de hora.

Algumas escolhas de títulos de ficção foram especialmente marcantes. Isso incluía também a arte gráfica das capas, que recorria muito à ilustração. Hoje em dia a maior parte dos capistas — eu mesmo — se apóia no uso da fotografia, o que em geral resulta em capas meio burocráticas — foto ok, lettering ok, mas e daí? Talvez para distingui-las das capas da Brasiliense, as da editora recém criada quase sempre eram brancas, ou traziam boa parte da capa de área em branco. Ou seria coincidência?

Nesse sentido, acredito em coincidências tanto quanto na inocência dos editores. Aposto que tudo, desde a escolha de certos livros e autores até a escolha do papel alta alvura das páginas — já falei aqui dos fungos alucinógenos que nascem nas páginas dos livros — foi crime premeditado para não causar síndrome de abstinência nos antigos leitores viciados.

Dois títulos que ando lendo por esses dias me fazem lembrar daquela época, O Arquivo Dalkey, de Flann O’Brien, e Meus Amigos, de Emmanuel Bove. Que livros, meus amigos, que livros. Deste último falarei numa próxima.

Flann O’Brien é o grande desfalque da inesquecível coleção Circo de Letras, da Brasiliense. É o Romário não convocado por Telê em 1986, o Neymar esquecido em 2010. Nascido em 1911 com o nome de Brian O’Nolan, o irlandês teve várias encarnações. Como colunista de humor, publicou centenas de artigos no jornal The Irish Times com o pseudônimo Myles na Gopaleen. Sob o disfarce de Flann O’Brien, publicou ao menos três obras-primas, O Terceiro Tira (publicado aqui pela L&PM em 1987) e At Swin Two-Birds (que a Cavalo de Ferro acaba de publicar em Portugal). Dizem que James Joyce tinha este último na cabeceira da cama quando morreu.

O Arquivo Dalkey trata das idas e vindas de dois amigos, Mick e Hackett, que ao tomarem um banho de mar conhecem por acaso o dr. De Selby, um cientista louco que fabrica seu próprio uísque e vai destruir o mundo. Para realizar tal façanha, De Selby descobriu que o tempo linear não existe. Se isso vai lhe ajudar ou não a realizar seu intento não interessa muito. O que realmente vale é que a inexistência do tempo lhe permite uns encontros hilários.

Um deles é com Santo Agostinho debaixo d’água. Depois de encherem a cara de uísque artesanal, Mick, Hackett e De Selby vestem trajes de mergulho e vão ao encontro do filósofo. Não dá para revelar aqui o conteúdo da tertúlia subaquática, mas nela O’Brien destila todos os ingredientes de que sua prosa é feita: anarquia, eclesiofobia, surrealismo etílico ou etilismo surrealista e extrema aversão ao banal. Em suma: sátira das mais escuras, forjada nas mesmas caldeiras infernais de onde escaparam Jonathan Swift, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Samuel Beckett e James Joyce.

O autor de Ulysses, aliás, descoberto ressurrecto por Mick no pub de um vilarejo litorâneo no qual trabalha como barman, é a arma secreta para combater os nefastos planos do simpático De Selby. Como diagnostica Vivian Mercier na orelha de O Arquivo Dalkey, “nenhum aspecto da existência é sagrado o bastante para escapar ao escárnio do riso irlandês”. Muito menos James Joyce escaparia, é claro.

Dentre todos os personagens insanos de O’Brien meu predileto é o sargento Fotrell, beberrão dos beberrões (o esporte mais praticado no livro é esporte nacional irlandês, a nobre biritagem), um policial tomado pela verborreia pernóstica e por uma visão muito particular da ciência que turbina a doses de vinho tonificante de Hurley, um biotônico endemoninhado que mistura ao uísque e às cervejas.

Em meio aos eflúvios farmacêuticos, Fotrell acredita na sensata ideia de que os homens de sua província estejam pouco a pouco adquirindo as características de suas bicicletas. Para evitar que isso aconteça, ele as rouba. Melhor delinquir com boas intenções do que permitir que os rapazes fossem acometidos de barbaridade semelhante à ocorrida com seu avô, que passou a agir como o seu velho cavalo Dan.

Com Fotrell, Mick, Hackett e outros, Flann O’Brien faz o leitor crer que o humor negro escurecido ainda mais por doses equinas de cerveja preta Guiness, da mesma forma que a noite na curiosa acepção do dr. De Selby, não passa do “acúmulo de substâncias negras fuliginosas na atmosfera”. FIAT LUX.

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Joca Reiners Terron é escritor. Pela Companhia das Letras, lançou os romances Do fundo do poço se vê a lua Não há nada lá. Seu novo livro, A tristeza extraordinária do leopardo-das-neves, acaba de ser publicado. Ele contribui para o blog com uma coluna mensal.
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