José Luiz Passos

A vida contada

Por José Luiz Passos

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Recebi meu diagnóstico de câncer na mesma semana em que David Bowie morreu. Ao contrário da minha mãe, que havia recebido o mesmo diagnóstico no mês anterior, não postei a notícia no Facebook. A novidade me parecia injusta. Como assim? Tenho 44, um casal de filhos pequenos, corro toda semana, como salada. No telefonema, a médica me disse que eu estava fora da curva, não era um caso óbvio, tinha sido um acidente e eu teria boas chances depois da cirurgia. Desliguei, agradecendo não sei bem o quê, e, quando minha esposa chegou, falei que precisávamos conversar. Ela ficou com os olhos parados, o rosto lívido. Ligamos a tevê para as crianças e fomos até o quintal. Ela sabia que por esses dias deveria vir o resultado da primeira biópsia. Lá fora não achei outra forma de dizer isso, então falei que a minha bolacha tinha caído com a manteiga para baixo. Ela começou a chorar.

Os primeiros dias foram de grande confusão. Pensar nos filhos, como apoio, era pior. Arrumei as contas de casa e a minha mesa de trabalho. Pedi uma licença à universidade, clareei o horizonte. Restava o quê? Comuniquei o resultado à família e a alguns poucos amigos. Era fevereiro, mês de carnaval. Restavam os livros. Estava no meio d’O marechal de costas, um romance sobre Floriano Peixoto e uma cozinheira tocada pelo desmantelo da nossa política atual. Os meses seguintes foram difíceis. Perdi doze quilos. A cada manhã, penteando os cabelos, eles ficavam mais ralos. As minhas unhas, mais doloridas e finas. A urina mudou de cor. O suor ficou ácido. A caminhada para a escola, a dois quarentões de casa, me dava taquicardia. Os dedos das mãos e dos pés ainda hoje ardem, formigam vinte e quatro horas por dia. Há seis meses que não consigo escrever à mão.

Mas a cada semana também chegavam pedidos de mais notícias. Entre eles, os de Marcelo Ferroni me desejavam melhoras e perguntavam como ia o marechal. Essas perguntas me fizeram voltar ao romance, depois de já ter desistido dele várias vezes no ano.

O marechal de costas faz a crônica da vida íntima e política de Floriano Peixoto, no gosto das amizades e antipatias que guardou por décadas, das humilhações de juventude, da imaginação erótica desabrochada na guerra, de sua obsessão por Napoleão Bonaparte e pela meia-irmã com quem se casou. Em paralelo, há a história de uma cozinheira a quem é atribuído um suposto parentesco com Floriano. No curso de uma noite, após o jantar na casa de um advogado, ela participa de uma longa conversa com um professor falastrão, que ouve a história de sua vida enquanto enxerta casos e teorias sobre a relação entre a política e os afetos. A noite leva todos a participarem de uma passeata de protesto. Tentei mostrar como, aos poucos, a relação entre eles revela laços de dependência e ressentimento. Maltratados por traições e pela solidão, suas vidas denunciam, num eco sombrio, o paralelo entre a crise política presente e a era Floriano.

2016 não está fácil para ninguém. A frustração com o fato de não poder mudar minhas próprias circunstâncias se somou ao espanto com a nossa vida política recente. Essa soma foi o motor do romance. Em Nosso grão mais fino (2009) procurei retratar a ligação entre nostalgia e decadência agroindustrial a partir de uma relação amorosa marcada pelo tabu. Em O sonâmbulo amador (2012) figurou a confusão entre as várias formas de amizade diante de um quadro de perdas afetivas e da dignidade do trabalho. Com O marechal de costas busco mostrar o lado privado e perverso de indivíduos e palavras de ordem que se incumbem da promoção do bem comum. O início da República foi marcado por uma profunda polarização na política e nos costumes. O jacobinismo dos florianistas era, curiosamente, mais conservador do que a agenda liberal do Império. Enquanto escrevia o romance, me vinha uma sensação de déjà-vu. Alguém duvida de que, no presente, o ontem se impôs ao hoje?

Tenho grande interesse pelo gênero da biografia, embora não acredite na maioria das que já li. Na biografia de ficção, por outro lado, a vida de um indivíduo pode ser contada como soma de uma experiência coletiva. E o romance é o campo onde a complexa sensação de tempos entrecruzados pode ser pensada por dentro, enquanto acontece e se torna visível. Por isso escrevi essa pequena biografia de Floriano e da sua parente, a cozinheira. Eles me fizeram companhia nos dois anos mais difíceis da minha vida. Ambos reforçam a minha convicção de que os poemas, contos e romances que escrevemos são parte importante de nosso futuro, ainda mais quando ele se encontra verdadeiramente ameaçado.

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marechal_de_costasO MARECHAL DE COSTAS
Sinopse: Por trás de um olhar imóvel e de um silêncio desconcertante, o marechal Floriano definiu o período mais turbulento da nossa República. Mas o marechal de ferro oculta o sonhador casado com a própria irmã e obcecado por Napoleão Bonaparte. Nascido em Alagoas, Floriano é a figura de maior importância política nos primeiros anos da República. Nas páginas deste romance, passado e presente se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos turbulentos do presente, por meio de uma antiga cozinheira que segue, de perto, as manifestações de 2013 e seus desdobramentos políticos. Um livro poderoso sobre a construção de nossa nação.

O marechal de costas chega às livrarias no dia 21 de outubro pela Alfaguara.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas(originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revista Granta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Lança em outubro o romance O marechal de costas.

A primeira aula

Por José Luiz Passos

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Durante janeiro, o blog da Companhia das Letras recebe colaborações semanais de autores convidados a escreverem sobre as suas primeiras vezes: a primeira vez que leram seu autor favorito, primeira viagem, primeira vez que sentiram pertencer a um grupo e outras experiências marcantes. Em sua coluna deste mês, José Luiz Passos escreve sobres sua primeira aula de literatura brasileira no exterior.

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Quando minha filha tinha sete anos, na primeira semana de aulas da segunda série, num teste em sala, ela desenhou um balão com palavras ligadas por setas e escreveu em inglês a seguinte frase: “As casas das formigas ficam, em geral, perto de árvores, para que elas possam usar a casca delas para construir uma casa muito forte, com quartos fortes que não podem ser destruídos por nenhum dos inimigos que queiram incomodar as valentes e fortes formigas, que constroem casas escondidas, com coisas seguras que elas encontram nos diferentes lugares para onde viajam, quando não estão tão ocupadas e têm mais tempo para descansar do trabalho, assim como as férias de verão que nós, os humanos, gostamos de ter após um longo ano na escola, onde aprendemos todo dia coisas novas para mostrar aos nossos pais.”

Essa longa frase me ajuda a pensar no vazio que colore uma primeira aula de literatura brasileira no exterior. Num apanhado da poesia brasileira moderna para alunos americanos — situação em que me encontro neste semestre — não há como contar com um corpo de referências comum aos alunos. As disciplinas são abertas à graduação e à pós; os alunos vêm de vários cursos e departamentos. Em sala é preciso especificar as coisas uma por uma, e contar as histórias desde o começo, de maneira acessível a qualquer interessado. Por isso, quando volto a pensar na frase da minha filha, noto com maravilha a conexão realizada entre a astúcia de uma construção forte e discreta — uma casa invisível — e a distância percorrida pelas formigas, em busca de algo diferente, ao mesmo tempo novo e seguro, que a criança de sete anos equipara às viagens de férias, no verão, rumo ao distante país dos seus pais.

O desafio de uma primeira aula no exterior é parecido a esse sentimento. O ensino da matéria brasileira fora do Brasil não será, jamais, mera transposição de métodos, programas e conteúdo brasileiro. É, ao contrário, um modo de pensar essa matéria a partir da distância — real e simbólica — entre a experiência que se quer contar e a função que essa experiência terá longe do lugar em que ocorreu. Nos Estados Unidos, o professor de literatura estrangeira — ele próprio estrangeiro ou não — existe como ponte para algo que não está necessariamente ali, que não pode ser entendido por contiguidade nem testemunhado no caminho de casa. Sua lição é algo que apenas se torna visível quando mediado pelo aprendizado de outra língua, pelo ofício da tradução ou, em última instância, pela própria viagem.

Com isso quero dizer, simplesmente, que minha dependência com relação a canais de comunicação material — as linhas aéreas e os correios, por exemplo — é traço constitutivo do ofício que exerço, tal e qual as formigas que buscam “coisas seguras”, safe things, fora de casa, para construir as suas casas. Nos últimos dez anos intensificou-se a presença de professores brasileiros atuando em universidades norte-americanas. A lista hoje é numerosa; quando cheguei à Califórnia, há exatos vinte anos, era bem menor. O vazio da primeira aula, aquele causado pela distância material e simbólica do professor, é o limite de um intervalo comum ao magistério cuja tópica e os profissionais vêm de longe e vão longe, em busca do que precisam levar para a sala de aula. Para esses, o ensino é a prática de uma perspectiva em trânsito.

Visto de fora, a grandeza dessa primeira aula está precisamente no instante em que os alunos se dão conta de tal esforço; do fato de que estão lidando com valores e bens culturais que vêm de longe, demoram a chegar, custam a ser repostos, pedem o esforço de outra língua e a mediação levada a cabo por um profissional no cruzamento de fronteiras. Essa prática, que define parte de nossa inserção no mercado intelectual internacional, me lembra a figura de um tropeiro, cujos cestos, matulas, cangalhas e alforjes, recompostos de trens a cada rota, são arrastados através de campo extenso, para serem trocados lá adiante com quem precise ou, simplesmente, queira aquilo que vem de outro lugar.

Por mais que se busque entender as dinâmicas de produção, tradução, circulação, catalogação e canonização das nossas obras clássicas e contemporâneas, em congressos, teses e sites, resta ainda, mais humilde e menor, a lógica das formigas; resta a pergunta do tropeiro: qual é o livro que você levaria numa viagem longa, por companhia — livro que fosse passado adiante no encontro com alguém tão diferente de você e tão alheio ao seu ponto de partida que, talvez, sequer tal livro tenha para esse estranho o sentido de uma companhia? Qual é a história que vale a pena ser espalhada como quem espalha feijões, sem contar que eles necessariamente venham a se desdobrar naquelas plantas majestosas que nos levam às nuvens? O vazio da primeira aula é um ensaio na resposta a essas perguntas. E nelas cabe um futuro em que a literatura brasileira pertença, cada vez mais, a um número maior de brasileiros e também, igualmente, em outras línguas, àqueles que sequer puseram os pés no Brasil.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

O primeiro vice a gente nunca esquece

Por José Luiz Passos

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Estava Floriano Peixoto à porta de sua casa, na rua Santa Alexandrina, n.9, observando a recém-nascida República, quando de repente vieram chamar por ele.

Algumas das primeiras reuniões da República aconteceram no Rio, no Instituto de Meninos Cegos, dirigido por Benjamin Constant, que, aliás, logo após a proclamação publicou uma carta na imprensa, datada do dia 19 de maio de 1890, dizendo que não aceitaria concorrer à Presidência. Ele havia sido conclamado entre os do Governo Provisório. Sobrou, então, para o marechal Deodoro da Fonseca. Mas o general Floriano, herói da campanha do Paraguai, Vice-Chefe do Governo Provisório, quando vieram as primeiras eleições no Congresso, foi apoiar outro candidato: Prudente de Morais, e não o seu próprio amigo e chefe militar. Em jogo está o nascimento da nossa democracia. Então, por favor, prestem atenção.

Sempre que paira alguma dúvida sobre o presente, me concentro no passado. Minha sensação hoje é a de que, afinal, há vice-presidentes que realmente fizeram diferença. É o caso do nosso primeiro, o caladão Floriano. Talvez seus futuros seguidores, os vices subsequentes, tenham nele um modelo de cópia impossível. E isto, claro, é um peso.

O primeiro Presidente da República não foi eleito em pleito regulamentar. Logo após a proclamação, o marechal Deodoro assumiu a Presidência por um acordo entre os fundadores do regime. Havia apoio a ele, também havia muita confusão e indiferença. Mas ao contrário dele, o primeiro Vice foi de fato eleito por um gesto de confiança da Assembleia, numa votação de dar inveja ao próprio Presidente. Tudo indica que Deodoro levou o resultado para o lado, digamos, “pessoal”. Ressentiu-se. Apesar de fundador da República e primeiro Presidente, ele queria mais, queria um consenso de maior margem em torno a seu nome, e era homem de fácil ressentimento.

O resultado da primeira eleição é bem curioso. Quando, em 25 de fevereiro de 1891, a Assembleia Constituinte se reuniu para escolher Presidente e Vice-Presidente da República, os oficiais das Forças Armadas que constavam do quadro legislativo foram recomendados a comparecerem à sessão fardados e armados. Os primeiros minutos de qualquer democracia são, realmente, inacreditáveis. Havia duas chapas. Estavam o marechal Deodoro da Fonseca e o almirante Wandenkolk contra Prudente de Morais e o general Floriano Peixoto. Computados os votos, tchã! 129 e 57 contra 153 e 97. Claro está, a República tinha preferência por números ímpares. E mais importante ainda, Deodoro, com 129 votos, foi eleito Presidente junto com Floriano, Vice da chapa oposta, e este com saldo de 153 votos, superior ao do próprio Presidente… Que situação. O segundo lugar havia chegado na frente. O Brasil é incrível. Por isso que volto para cá todo ano. Com maior apoio político do que o seu próprio líder no primeiro governo de direito, Floriano foi eleito o nosso primeiro Vice-Presidente.

Quanto ao Presidente marechal Deodoro da Fonseca, insensível ao trato democrático entre os três poderes, recebeu críticas pesadas, pagou caro por sua interferência na política estadual da nova federação, enfrentou um legislativo discordante e duríssimo. Oito meses e oito dias após a sua posse constitucional, Deodoro dissolveu o Congresso, restringiu a liberdade de imprensa e convocou novas eleições. Floriano permaneceu Vice fiel, embora contra o “golpe”. Em carta ao Barão de Lucena, diz, “eu não sou mais amigo do sr. marechal Deodoro desde o dia em que ele duvidou da minha lealdade, mas sou seu camarada, sou militar e, antes de tudo, sou brasileiro. V. Exa. pode assegurar ao sr. Generalíssimo que me terá sempre a seu lado em toda e qualquer emergência”. Em 23 de novembro de 1891, vinte dias depois da dissolução do Congresso, Deodoro, enfrentando o levantamento da Marinha, chama “o funcionário a quem incumbe substituir-me” e entrega o poder a Floriano, e este torna-se o segundo Presidente, conhecido como Caboclo, o Disciplinador, Marechal de Ferro. O Vice Floriano entrou para a história como o consolidador da República.

Sarney, Itamar etc. são palidíssimas emanações do efeito Floriano. Isto, claro, de um ponto de vista estético. Na política, há muitas teorias a respeito, e elas estão naturalmente em desacordo umas com as outras. Fico pensando naquela boa pichação, aqui, na muralha do forte do Brum, onde começou a república pernambucana de 1817, “Quem é vice, que vista a camisa ou saia, visse!” Numa democracia, a vontade do povo é a fonte e o objeto da coisa pública. E sobre essa pichação, convenhamos que nenhum publicitário, mesmo contratado com as verbas escusas de todos os partidos simultaneamente, jamais alcançou tamanho apelo nem sutileza.

Se eu fosse Nelson Rodrigues, poderia dizer, impunemente, “Floriano é o inconsciente dissoluto de todos os vices”. Carreira-modelo. Mas paremos por aí. Seja você quem for, por favor, não vá competir com Floriano. Ele é o super-homem dos vices. Se você é vice, não há como não querer ser Floriano, entendo. Mas para todos nós, o povo, eis a questão. Temer ou não temer os vices? Deodoro, primeiro Presidente, parece que temia. Com razão. Às vezes penso que Floriano Peixoto era de outro mundo. A propósito, lembro aos leitores que ele era alagoano, de vila de Ipioca, e que se casou com a própria irmã. Não há como esquecer, nem querer competir com isso. Como diz outra pichação oracular, “Era outra época. Já passou”.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Os móveis do mundo

Por José Luiz Passos

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Em geral, nos domingos não me pedem para cozinhar. Aqui no casarão eles saem para rezar ou recebem gente próxima, só com aperitivos. O dr. Ramil uma vez quis saber se eu não sentia falta das coisas do Norte. Que Norte, se não venho da Amazônia? “O Brasil não cabe no Brasil”, diz o filho da casa, que também se chama Ramil.

Longe de onde nasci, aqui me sinto à vontade, mesmo com esse cheiro de gás no ar. “São Paulo é sertão e aeroporto”, me disse um taxista. Não discordo, mas também não venho do sertão. “A senhora às vezes é uma filósofa”, Ramil filho diz. À noite penso nisso. O cheiro da cozinha se entranha nas roupas e no meu lenço. Quando tomo banho e me troco, passo pelo cesto na área de serviço, sinto o fartum oleoso que vem dos panos embolados no chão. E a memória puxa pelo cheiro de outras épocas.

O dono da casa é advogado, mas não advoga. Depois de ganhar minha causa, foi fazer a vida na fábrica de ventiladores da família. Acho São Paulo mais fria do que quente. Mesmo assim todo mundo compra um ventilador, não compra? De acordo. Igual com a comida. “Então, a cozinha não é a única língua universal?” A pergunta não é minha, é de alguém da universidade, freguês da casa, um professor de Ramil. “A senhora não acha?”, ele insiste, logo quando entro na sala de jantar equilibrando a sopeira grande, em forma de taça.

O dr. Ramil pede que eu deixe a sopeira, “Vá se sentar. O professor quer saber da nossa causa, hum?”, e ele espalha os braços, mostrando o tamanho da vitória no fórum. O professor diz, “É, a senhora conta?”. Ramil filho puxa uma cadeira para mais longe da mesa, e lá vou eu me sentar. Agora eles estão me olhando.

A Beef’s entrou no Brasil como uma cadeia de lanchonetes gaúcha faz vinte anos. Dali foi se espalhando. Tem o Beef’s Supreme, com ovo, e o Xis Beef’s, com queijo. Já teve um Beef’s Picanha, que não era feito com bolo de carne mas com tiras do corte na chapa, e era o mais caro. O Beef’s Dublê tem dois andares. O Natura vem sem pão, com o hambúrguer em folhas de alface. A carne é pré-cozida, moída, depois frita nas caçambas. A mistura é feita em forma de bolota ou pratinho. O dr. Ramil diz que encontraram ali dentro, ainda na minha época, farelo de soja, frango e farinha de ossos misturados com gordura de várias qualidades, até formar uma esponja. Associo essa massa à inhaca das várias frituras e aos bonés com o enorme B na testa, berrante, alaranjado. De longe as Beef’s gritam nessa cor uma nuvem sabor banha, ketchup e salmoura.

Ficávamos enfileiradas num banco comprido, contra a parede do corredor entre a cozinha e os fundos. Ao lado do relógio de ponto tinha uma prancheta marrom com a lista dos funcionários móveis. A Beef’s faz propaganda mostrando gente risonha com o boné do B grande na cabeça, “Beef’s, bom gosto é aqui”. Na época, os clientes iam e vinham, incertos. “Pra um movimento desses”, o gerente falou, “só mesmo funcionário flexível, trabalha quando tem trabalho. Melhor pra todo mundo.” Éramos os móveis do mundo Beef’s. Ficávamos em fila no banco lá atrás. Quando chegavam os clientes, o gerente nos trazia para o turno flexível. Cheguei a pegar uma hora e meia de serviço, num dia inteiro, contente com o visto na prancheta marrom. Não esqueço do meu primeiro gerente, Jéferson, inocente do cabelo pastoso, um homem de fé batista.

As Beef’s não permite que os funcionários tragam comida de casa. As refeições são tiradas em forma de vale. Com as jornadas curtas, os móveis acumulam poucas horas. Chegam na sexta-feira devendo os adiantamentos da comida. Nos fins de semana, a fila dos flexíveis aumenta no corredor malcheiroso. Lembro disso até no nariz. De repente, o professor me interrompe, diz, “O olfato não é parte intrínseca do eu, o gosto também não, já a memória, sim, pois não há eu sem a faculdade de saber ter durado no tempo”. Ramil jovem diz, “Ouvir essa merda me dá é vontade de ter nascido vegetariano”. O dr. Ramil quer que o rapaz estude para ser advogado, como ele, “Olhe, a senhora é como se fosse da família. Nossa ação contra a Beef’s, hum? Acabou-se essa sem-vergonhice”. Associo a jornada móvel ao cheiro das caçambas de óleo chiando com carne de terceira, a bolotas pescadas na escumadeira para as refeições dos móveis da Beef’s. E, hoje, o que a memória me dá é a sensação de alternar o assento com uma colega. Eu e ela de olho na porta envidraçada, na torcida por um feriado ou um jogo no campo do bairro, quando os clientes cantavam vitória enfiando a cara de uma vida estável nas suas pequenas esponjas de carne.

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Versão do texto de mesmo nome publicado na antologia O verso dos trabalhadores (São Paulo: Terceiro Nome, 2015), coordenada pelo Ministério Público do Trabalho. Os recursos para o financiamento do livro resultaram de uma multa trabalhista por conta da terceirização ilícita de mão de obra e condições insalubres de trabalho.

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Pare de sofrer

Por José Luiz Passos

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De minha parte, “Boas Festas” a todos vocês. Já comecei a distribuir os meus votos. Quero que o ano acabe logo. Tenho vontade de lhes desejar isso, independente da sua fé, ou da ausência dela. Aliás, dizendo isto a uma colega, ela me respondeu com um “Pare de sofrer…”, em espanhol, que soa ainda mais forte, ¡Pare de sufrir! E como acontece aos autores bloqueados, a imagem do meu editor me veio à cabeça, ¡Marcelo Ferroni! Um ano atrás estávamos eu e ele em Guadalajara, num bar, debatendo a possibilidade de irmos a outro bar com reputação de ser a melhor mezcalería do México. O mezcal é um destilado de agave que tem uma larva de borboleta dentro da garrafa, o “gusano”, verme de um tipo gastronomicamente correto. Ora, o tal bar, cujo nome é Pare de sufrir, já tinha sido qualificado por dois motoristas de táxi como um lugar inóspito, No creo que sea un buen sitio para ustedes… Convenci Marcelo a ficarmos no hotel, para dividir ali mesmo uma meia de mezcal. Ele ficou com o gusano.

No dia seguinte, fui dar minha palestra sobre a imigração brasileira para a Califórnia, que acabou reunindo longe de mim, longe daqui, as memórias de meu pai, de minha avó americana e de um pastor brasileiro, imigrante em San Francisco, como eu em Los Angeles. Por vários meses cogitei procurar por ele, pensei em escrever a história do pastor Jéferson. Disse a Marcelo que daria um bom romance. Por que não? Um professor de sociologia me falou que o principal produto cultural brasileiro nos Estados Unidos não era a telenovela nem o candomblé, nem Caetano Veloso, mas as seitas evangélicas. Face a isso, numericamente, comercialmente, só mesmo Paulo Coelho. Tomei coragem e viajei de volta ao norte da Califórnia, buscando o contato do pastor.

Voltando ali, logo que entrei no café reconheci a figura de dois anos atrás. Jéferson trajava camisa branca, de gola e mangas compridas, calça social e sapato tênis. Ele disse que era de Goiás. Falei que, embora não fosse casado na igreja, após uma visita ao cartório um pastor tinha nos abençoado na casa dos meus sogros, em Olinda. Porém, o que não lhe contei foi que, nos quase dez anos em que estudei em escola católica, num colégio de jardins e sobrados onde D. Pedro II havia se hospedado, vi tolerarem ali, entre o alunado, judeus, algum negro e os filhos das divorciadas, mas nunca um evangélico. Estes, na pregação com seus folhetos a postos, eram chamados de “os bodes”. E isto, talvez, pelo rumor nas abordagens, em suas visitas, no modo de estarem à vontade em praça pública, soando hinos, lendo versículos em voz alta. Só depois soube por um amigo historiador que a alcunha vinha de longe, possivelmente da Colônia, quando se dizia que bastava levantar a barra da roupa dos crentes para se ver as pernas montadas em pés fendidos, como nas patas de um bode. Mas o bode, a cabra, por exemplo, como nos diz João Cabral, escava as coisas até encontrar dentro do que é familiar um estrangeiro. E entre esses animais de senso impaciente, tais quais foram a minha avó americana e o meu pai estrangeirado, o bode, errado ou ruminante, será sempre um sofredor profissional.

Essa foi justamente a questão que quis puxar na conversa com Jéferson, em San Francisco, sobre estarmos aqui, fora do Brasil, dispersos da onda, por vontade própria, tentando não abraçar nenhuma bandeira rápido demais, nem nos julgarmos indignos dela.

“Ser imigrante, você quer dizer? O mundo é feito praticamente só disso”, Jéferson me falou. Eis o ponto alto de sua filosofia. E, com minha teologia de algibeira, expliquei que, semelhante ao exílio, o sagrado repõe a falta como forma de consciência. Mas, realmente, o que era aquilo? A falta como forma de consciência… nem eu mesmo entendia. Ser professor, às vezes, é jamais poder tirar do rosto aquele duvidoso par de óculos ray-ban. Nosso encontro tinha dado em nada. A conversa esfriou, ele saiu do café antes de mim, pardo, sorrindo, digno na sua dedicação aos outros, no Castro, o bairro gay de San Francisco, onde ele pregava num cinema reformado, nos subúrbios dali e do mundo: um pastor suave em prol de gente humilde, que trabalha por pouco e vive longe de casa.

Desse randevu de almas, um goiano e outro pernambucano na Califórnia, resta hoje algo que para mim conta muito. Eu comecei a imaginar a vida que os primeiros missionários protestantes teriam levado no Brasil, quando, no final da conversa, Jéferson me perguntou, “Mas você sabe da história do começo de nossa igreja na Bahia, não sabe?” Acontece que eu não sabia.

“Isso não daria um bom livro, Marcelo? Os que vão fora de casa, tentando a alma dos outros, como nós tentamos o bolso e a atenção dos outros”, e ele me ouviu calado, acompanhando o brinde. Acho que o gusano, no copo, até se mexeu.

Foi o pastor Jéferson quem me explicou que “Pare de sofrer” era um bordão clássico dos pregadores evangélicos, o mesmo usado por um brasileiro em Guadalajara, com seu tom nasalado e tal, cujos programas de rádio e TV faziam sucesso. Numa tirada genial, o bar adotou o bordão por nome. E, coincidência ou não, aqui fica assinalada a moral da história, atrelando San Francisco a Goiâna e Guadalajara: o que nos representa em massa, aqui fora, é menos Clarice Lispector e as telenovelas da Globo do que as vocações na emenda da vida espiritual, vocações com sotaque, que espalham por cá, ainda hoje, uma imagem do Brasil como fonte de concórdia e fronteira a ser conquistada. E os gusanos do mezcal, rústicos, imóveis e sem sofrer, são brindes de exceção, que observam o revolver das coisas e a conexão entre lugares aparentemente sem laço em comum. Lugares ligados, talvez, por uma certeza que se espalha no mundo, enquanto eu e você celebramos livros e autores raros, sorrindo alto, diante de um verme torpe dormindo no álcool.

 

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José Luiz Passos nasceu em Catende, Pernambuco, em 1971. Formado em sociologia, doutorou-se em letras nos Estados Unidos. É autor dos ensaios Ruínas de linhas puras(1998) — sobre as viagens de Macunaíma — e Romance com pessoas (originalmente publicado em 2007 e reeditado pela Alfaguara em 2014). Também pela Alfaguara, publicou em 2009 seu primeiro romance, Nosso grão mais fino, selecionado para o prêmio Zaffari & Bourbon de literatura, e, em 2012, O sonâmbulo amador, com o qual venceu o Grande Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa em 2013. É autor de uma peça de teatro e de contos publicados no Brasil e no exterior — inclusive na revistaGranta em português. Vive atualmente com a esposa e os dois filhos nos Estados Unidos, onde é professor titular na Universidade da Califórnia em Los Angeles.

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