Júlia Moritz Schwarcz

Uma questão de gênero

Por Júlia Moritz Schwarcz

reading on the roof
(Foto por Raul Lieberwirth)

Veja se conhece esta história: Deus estava farto da perversidade humana e decidiu destruir a Terra e quase todos que nela moravam com um grande dilúvio. Digo quase todos porque avisou Noé, que construiu uma grande arca, onde abrigou um macho de cada espécie de animal para serem salvos.

Bizarro, né? Eu não tomei chá de cogumelo, na verdade li uma matéria no site do The New York Times (segundo indicação do meu novo querido colega de sala, Leandro Sarmatz) sobre os americanos e sua mania de gêneros. Um professor da Flórida analisou mais de 6 mil livros, escritos entre 1900 e 2000, para chegar à conclusão de que existe um forte predomínio de protagonistas masculinos — sejam homens, meninos ou animais — nos livros infantis. É um verdadeiro bias na literatura infantil!

Não sei se a pesquisa envolveu apenas livros americanos, e na verdade nem acho essa questão deveras importante, mas fiquei, de fato, pensando nos personagens dos clássicos e também dos livros que têm saído. Acho bastante variado o sexo dos humanos (dos animais menos, de fato), e, considerando a última década, existe maior liberdade até mesmo da “opção sexual” dos personagens: os gays têm aparecido nos livros para crianças também.

Aparecem mas me parece que não agradam demais. Publicamos no ano passado um livro muito bonito, sobre o qual falei no primeiro post que fiz neste blog, chamado Olívia tem dois papais. O título já explica muito da história, e sabe que, ao contrário do que eu imaginava, o livro tem vivido suas dificuldades? No caso das adoções escolares está bem difícil, já que os professores não se sentem à vontade para falar de um tema que é visto de maneiras bem diferentes por cada família. Uma pena mas, enfim, acho que ainda chegaremos lá.

Quanto à nossa misógina pesquisa americana, fico pensando que o mais interessante seria bater esse dado sobre os personagens com o sexo dos autores. Imagino que até poucas décadas atrás o número de escritores homens deveria ser muito maior do que o de mulheres, mas tenho a impressão que de uns tempos pra cá livro infantil é cada vez mais coisa de autora, em geral mãe. Besteira minha?

De todo jeito, existe uma identificação importante do escritor com o seu personagem, assim como existe do leitor com esse mesmo personagem. Quem conta história para criança sabe que, assim que o enredo principal se apresenta, começa a divisão de papeis — eu sou a princesa, eu, a velhinha! quero ser a bruxa, dizem as meninas; sou o pai, o cachorrão, o menino!, dizem vocês sabem quem. E, por causa dessa identificação tão forte, a idade do protagonista de um livro geralmente é a mesma da faixa de idade do leitor a que ele se destina.

É, quem sabe essa pesquisa americana não seja tão esdrúxula assim.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Profissão: Editor (2)

Por Júlia Moritz Schwarcz

(9h10, no estacionamento do prédio, encontro o recepcionista)

Oi, Oliveira, bom dia.

Oi, Júlia. Será que você me ajuda com a lição de inglês? Entendi a frase toda, só faltou esse tal de “still”:

Mary is very famous, but she still lives in a small apartment with her parents.

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(na minha mesa, computador, e-mails)

—–Original Message—–
From: Cláudia
Sent: Friday, August 27, 2010 3:41 PM
To: Júlia
Subject: RES: parecer positivo da fulana para The trouble with xxxs

oi júlia, outro que eu queria confirmar contigo. a lili gostou mas vc não se entusiasmou muito, deixamos pra lá ou ofertamos? (este é menos urgente que o alberic).

obrigada, bjs, claudia

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(um autor me liga para falar das impressões sobre os rafes das ilustrações do seu livro novo)

Oi, Jú. Tá lindo, mas aqueles peitos da mãe estão muito estranhos, meio caídos, e muito pros lados, sei lá.

Nós também achamos. A Geane vai falar com a ilustradora e perguntar se pode fazer uma plástica por aqui mesmo.

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(depois de um certo tempo em silêncio com o meu computador, termino uma tarefa e falo com um colega de sala)

André, você leria esse livrinho que eu traduzi?

Pó de chá.

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(na cortiça da sala do Thyago, editor do Jorge Amado, tem um anúncio, feito só de brincadeira, em comemoração à vinda da obra do autor para a Companhia. Embaixo de uma foto simpática, lê-se)

O cacau é nosso

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(um tradutor está por aqui, e dá a deixa para uma pequena disputa entre dois colegas de sala)

E aí, como é que está a sua fila [de traduções]? — eu pergunto.

Nem vem, está cheia! — responde o próprio editor, meu colega.

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(e mais um e-mail)

—– Original Message —–
From: Paula
To: otavio; andre; lucila; Vanessa; julia
Sent: Tuesday, August 27, 2010 11:28 AM
Subject: Fw: Textos pequenos para Catálogo Letras 2010

pessoas,

vcs podem separar os textos que lhes dizem respeito da lista abaixo para hoje depois do almoço? podem me mandar por e-mail que eu junto tudo e mando pra gisela.

jú, os claro enigma são seus, né?

gracias

beijos

paula

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(hora do almoço, logo alguém diz)

E aí, vamos praticar a arte da alimentação hoje?

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(depois do almoço, pego o telefone)

Alô, Tatiana? Tudo bem? Olha, o nosso Caldeirão 3 está ficando muito legal, mas você não teria uns 5 poeminhas para rechear ele mais um pouco?

Júlia, querida, você está parecendo uma açougueira, tentando me espremer para fazer salsicha!

* * * * *

(a Helen me chama para discutir uma capa, chego lá e não acho ela)

Oi, pessoal, a Helen não tá?

É que ela tá lá na laje, pegando a programação que voou pela janela.

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(volto para a mesa, onde há uma prova de livro )

O homem acordou no meio da noite:

“Quem é que estica a linha do horizonte?”.

Vestiu o chapéu, o capotão

e abriu a porta.

* * * * *

(da copa, escuto um berro de “nossa!”. É que, depois de muito tempo, temos bolachas recheadas no pote de vidro)

É genérica mas depois da segunda já fica igual à Negresco.

Otávio, você está muito glutão hoje! Já comeu demais hoje e tá com 6 bolachas na mão!

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(entrevista, por telefone, sobre literatura infantil)

Você acha que as tendências na literatura infantil nos outros países influenciam a produção nacional?

Puxa vida, infelizmente não consigo nem acompanhar bem o suficiente as editoras nacionais.

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(mando um e-mail para o autor preocupado com os peitos da sua personagem)

a geane arrumou os peitos e ficou mil vezes melhor, ainda bem que vc insistiu na questão; ela vai tirar uma prova de cor para que vc veja também a fonte (parece que muda “o olho da fonte nos livros”, mas já te garanto que está bem grandinha).

beijos,

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(mais um final de tarde, com seus assuntos adversos)

—– Original Message —–
From: Vanessa
To: paula; lucila; andre; Otávio; Julia
Sent: Friday, August 27, 2010 5:14 PM
Subject: trecho temático para o dia de hoje

ENTREVISTADORA

Que tipo de trabalho o senhor fazia para ganhar aquele “algum dinheiro de vez em quando”?

FAULKNER

Tudo o que aparecesse. Eu podia fazer um pouco de quase tudo — dirigir barcos, pintar casas, pilotar aviões. Nunca precisei de muito dinheiro, porque a vida em Nova Orleans era barata nessa época, e tudo o que eu queria era um lugar para dormir, um pouco de comida, fumo e uísque. Havia muitas coisas que eu podia fazer por dois ou três dias, ganhando o suficiente para passar o resto do mês. Sou, por temperamento, um vagabundo, um erradio. Não quero dinheiro tanto a ponto de ter de trabalhar por ele. Na minha opinião, é uma pena haver tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes que existem é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas por dia, todos os dias, é trabalhar. Você não pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor por oito horas — só trabalhar é o que você pode fazer por oito horas. E é por essa razão que o homem faz a si mesmo e a todos os outros tão miseráveis e infelizes.

[Leia o 1º “Profissão: Editor”]

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Pós-Bolonha

Por Júlia Moritz Schwarcz


Mural na entrada da Feira de Bolonha.

Cheguei com as panturrilhas doloridas. Juro. Andei tanto pela Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha que não devo ter ficado longe de completar uma maratona. Foi assim…

Depois de quase um dia de viagem — avião, ônibus, trem, táxi, exatamente nessa ordem —, cheguei no meu quarto de hotel; havia saído de casa umas 19h da noite anterior e já eram 20h passadas. Chuviscava e fazia frio. Desacostumada a ficar sozinha, acabei desistindo de caminhar uma quadra até a cantina Snoopy, apesar do nome brilhante. Era domingo e a partir do dia seguinte teria nada menos do que 38 reuniões nas próximas 72 horas, uma rotina até tranquila em se tratando de uma feira, me disse meu pai.

Senti o clima profissio-internacional já no café da manhã: aquele monte de gente animada, bem-vestida, falando alto em línguas diferentes. “Preciso passar batom”, pensei, lembrando da recomendação da minha mãe de não usar jeans nos encontros.

Pedi ajuda ao concierge do hotel, que gesticulava, gesticulava, mas não conseguia acertar a direita e a esquerda de jeito nenhum, e foi incapaz de me ensinar como chegar à feira. Bom, eu tinha o Google Maps e não precisei de mais de 7 minutos, a pé. Esse caminho de ida e volta me acompanhou prazerosamente nos próximos quatro dias: seguia por uma via de bicicleta, passava por um parquinho infantil, um cruzamento de avenida e mais vinte passos, pronto. Nessa primeira manhã, sentia o ar gelado na cara e um frio na barriga. “Que raios eu vou falar com todas essas pessoas?”

Lá dentro, eram cinco pavilhões com muitos, mas muitos estandes — só de editoras de livros infantojuvenis. Tinha os alemães modernos e esquisitos; os italianos espalhafatosos e escandalosos; os indianos ultracoloridos e brilhantes; os franceses descolados e finos; os lituanos, grandes homenageados do ano e um tanto quanto indefiníveis, os americanos, bem americanos. Vi montes desses estandes na primeira manhã, que deixei estrategicamente livre. Gastei quase uma hora em um espaço coletivo que o governo de Taiwan montou para promover a sua literatura infantil, lendo alguns dos livros que tinham tradução, decifrando outros, adorando as ilustrações e sendo assediada por editores em busca de negócios. “I’m the editor of Muji Muji, nice to meet you, Brazil.”

Este é o intuito da feira: compra e venda de direitos. Não há livros para se pagar e levar para casa, estilo Bienal. Em Bolonha, os livros estão expostos para que os visitantes (que são, em 99,9% dos casos, profissionais do ramo) os folheiem, e depois, nos encontros, conversem sobre a compra dos direitos para traduzir e publicar a obra em seu país. No caso dos países “ascendentes”, como o Brasil, normalmente os editores vão para comprar, enquanto que os europeus e americanos investem pesado no departamento de vendas, importando pouquíssimos livros de outras nacionalidades.

Quanto aos encontros, foram, para mim, um verdadeiro festival da troca de cartões de visita. “Hi, I’m Júlia, I have a meeting with Sam/ Elinor/ Joanna/ Sarah/ Greg/ Wang/ Maheena/ Anne-Marie…”. As frases se repetiram bastante, porque eles sempre queriam saber “o que estamos procurando”, e a minha resposta não costumava variar. Depois de um “E este livro aqui?”, eles tiravam um exemplar do carrinho ao lado da mesa, ou da estante logo atrás. Algumas pessoas narravam as histórias do começo ao fim, enquanto outros, cansados de tanta repetição, se limitavam a virar as páginas, esperando uma reação. “Ah, c’est mignon!”, eu disse mais de vinte vezes. No começo achava difícil dizer um NÃO cara a cara com a pessoa que tinha acabado de me contar toda a história de um livro com grande animação. Mas, depois do septuagésimo-oitavo título que me era apresentado, e sabendo que vinham uns mil pela frente, saí dizendo “este não é para nós” com toda a naturalidade.

Cada encontro dura meia-hora, sem nem um minuto de folga entre um e outro. É dizer “bye-bye, very nice to meet you” e sair correndo atrás do próximo estande, H29/ A114, ou qualquer coisa do tipo. Se alguém é mais ágil e o encontro acaba uns cinco minutos antes, é a grande chance de correr para o banheiro.

De noite, ainda tinha os jantares. O ponto alto foi a turma dos brasileiros, editores, autores e ilustradores, todos muito simpáticos, felizes por estarem viajando, comendo um prato de massa em uma cidade tão bonita, e muito animados para um sorvete italiano.

Foram poucos dias totalmente recheados de acontecimentos, pessoas e coisas novas. E eu voltei para casa feliz por ter vivido, por uma semana, uma vida completamente diferente da minha.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Pré-Bolonha

Por Júlia Moritz Schwarcz

Gosto muito do meu trabalho, mas tem um aspecto barra-pesada: todo santo dia acordo e vou dormir devendo um monte de leituras, respostas e decisões. Deixo pessoas esperando, livros na estante, 1259 e-mails na caixa de entrada (conforme me informa meu outlook de hoje). E passo o dia lutando contra essa maré, sempre na correria.

Essas últimas semanas, a situação se agravou. Pela primeira vez vou à feira de livros infantis de Bolonha. Serão 38 encontros com agentes literários e representantes de editoras de diversos países, para os quais seria bom já ter uma resposta quanto aos livros que enviaram para análise, e que lotam algumas estantes aqui no Itaim Bibi.

Ao enfrentar pilhas e pilhas de livros, fico me perguntando o que define um bom livro infantil. A qualidade do texto e das ilustrações, tudo bem, mas existem milhões de livros que cumprem esses quesitos. Tem mais dois pontos: cada editora tem a sua linha, e busca publicar títulos que façam sucesso, mas tanto uma coisa quanto a outra são difíceis de definir. Já me perguntaram o que um livro precisa ter para ser publicado pela Companhia das Letrinhas mas, se quiser ser totalmente sincera, vou dizer que não há critérios fixos.

Outro dia estava fechando um livro da Ana Maria Machado, de ensaios sobre literatura, e encontrei, pela primeira vez, uma explicação do que deveria conter um grande livro. Ela diz que os clássicos são “as tais obras que guardam sentidos múltiplos, que não se prendem a uma única interpretação, que permitam o incrível fenômeno de parecer ter significados diversos a cada encontro. Em linguagem mais popular, obras que tenham o poder de dizer coisas distintas a cada um, de dar recados novos e diferentes a cada leitor, em cada época, em cada sociedade, em cada cultura. Ou até ao mesmo leitor em diferentes momentos de sua vida. Ou seja, que cada leitor possa se apropriar deles de modo distinto. Quer dizer, tomar posse deles, torná-los também sua propriedade, fazê-los seus — como legítimos proprietários, herdeiros desse legado”.

Os livros não só mostram às crianças a existência de um espaço íntimo e pessoal, povoado pela imaginação de cada um, como são fundamentais para se discutir questões morais e éticas. Como diz a Ana mais uma vez, “ajudam os pequenos leitores a ir buscando ou construindo o sentido de suas experiências do estar-no-mundo”.

O livro tem o poder de ser fundamental na vida de uma pessoa. Mesmo que seja apenas de uma, já é grande coisa. Por isso não me sinto mais culpada ao sair de casa para trabalhar, deixando as minhas filhas em seus afazeres. Quando elas me perguntam por que tenho que trabalhar, digo que preciso fazer livros para todas as crianças lerem — um jeito mais otimista de encarar a pilha de tarefas eternamente pendentes que povoam o meu dia a dia.

E, se agora essa pilha está ficando menor por conta da organização pré-Bolonha, uma coisa é certa: quando eu voltar, mais do que nunca, as estantes vão estar explodindo.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

O desaparecimento da infância

Por Júlia Moritz Schwarcz


(Foto por pimpexposure)

Martin Amis, prestigiado e polêmico autor inglês, soltou mais uma de suas frases amargas, atacando desta vez a literatura infantil. Em seu novo programa na BBC, disse que só escreveria para crianças se sofresse algum sério dano cerebral. Para ele, o problema é precisar se dirigir a um público específico. Ter algum tipo de restrição na hora de escrever é um anátema, pois, em suas palavras, “ficção é liberdade”. Amis disse ainda que nunca criaria um personagem que o forçasse a escrever em um registro inferior ao que ele é capaz.

Claro que muitos autores reagiram a tamanha indelicadeza. Ainda mais porque Amis tocou em uma questão delicada: uma certa hierarquia (velada) existente dentro da literatura, que coloca a ficção adulta acima da infantojuvenil. Já tratei desse assunto em outro post — sobre a necessidade de exigirmos o mesmo rigor na forma, no texto, quando estamos falando de livros para crianças. Acho mesmo que a história não deve bastar para compor um bom livro infantil, que não se mantém em pé sem o texto bem escrito, rico na linguagem e cuidado em sua composição, mas também não acho que exista a mesma liberdade em ambos os campos.

Lucy Coats, autora inglesa que costuma escrever aos jovens, respondeu furiosa, dizendo, entre outras coisas, que, quando está escrevendo, não lembra que está se dirigindo aos pequenos, que não há censura na hora de colocar a narrativa no papel, pois as crianças são espertas e odeiam que os adultos sejam condescendentes com elas. Coats disse que escreve da maneira mais rica possível para que seu leitor se sinta atraído pelo que está lendo, não importando sua idade.

Não sei se concordo com isso. Há um certo tempo atrás, li um livro chamado O desaparecimento da infância, do americano Neil Postman, que me deixou muito impressionada e que me voltou à cabeça quando acompanhava a polêmica de Amis. Postman explica como a ideia de infância pôde surgir com a criação da imprensa, que criou um novo mundo simbólico, o qual excluía as crianças, pois acabava por limitar a circulação de certo tipo de informação. Até a Idade Média, a cultura era algo que acontecia no campo da oralidade, e as crianças estavam expostas a todo tipo de assunto, pois não se acreditava que elas necessitassem de proteção nem cuidado nem escolarização — elas não estavam a salvo dos segredos dos adultos. Com a disseminação da palavra impressa, criou-se uma nova compreensão de infância, que se baseava na ideia de incompetência de leitura. “Ser um adulto em pleno funcionamento exigia que o indivíduo fosse além do costume e da memória e penetrasse em mundos não conhecidos nem contemplados antes”, ou seja, a idade adulta tinha de ser conquistada, era uma realização simbólica e não mais biológica. As crianças não eram mais vistas como miniaturas de adultos, mas como adultos ainda não formados, e precisavam frequentar escolas para adquirir a capacidade de leitura. Resumindo bem, para Postman, foi como uma bola de neve: a necessidade de alfabetização trouxe consigo a multiplicação das escolas, que hierarquizaram o conhecimento por faixas etárias, criando dois mundos bastante separados.

Assim como a imprensa foi capaz de gestar a ideia de infância, a televisão e a informação eletrônica estão apagando a linha que separa a idade adulta da infância. Isso porque as crianças estão mais uma vez expostas aos tais segredos do mundo adulto: seja na televisão, seja pelo computador, ou mesmo nas conversas entre os adultos, que usam palavras inadequadas para falar de temas inadequados na frente dos filhos, as crianças não estão mais protegidas de certos conteúdos. Como consequência, para Postman, as crianças e os adultos estão cada vez mais parecidos — desde as roupas até o seu comportamento.

Tudo isso para dizer que tenho muito medo de um tipo de discurso que acaba por levantar barreiras que separam a literatura infantil da adulta. Não concordo nem com uma vírgula do que disse Martin Amis, mas também não acho que seja fácil para um escritor acostumado a falar ao mundo adulto se dirigir às crianças. Seja no mundo da educação, seja no mundo da arte (representado aqui pela literatura), precisam estar bem claras algumas diferenças, assim como precisam ser estabelecidas algumas barreiras importantes.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.