Júlia Moritz Schwarcz

Dia das crianças

Por Júlia Moritz Schwarcz

Amanhã é dia das crianças — nem que você fizesse questão de não saber, já saberia. Eu resolvi me aproveitar da efeméride para fazer meus colegas prestarem uma homenagem à minha editoria, mais conhecida como “a ala infantil da Companhia”. Se há uma criança nesta empresa, ela é a Companhia das Letrinhas. Assim, pedi a todos os funcionários da editora que falassem sobre um livro da Letrinhas de que gostam. Nem todo mundo respondeu, nem era obrigado. Mas dá para conhecer um tanto de gente que trabalha aqui e várias das funções que compõem uma editora pela lista a seguir.

(Eu vou sair pela tangente e dizer que indico o catálogo inteiro da Companhia das Letrinhas — só tem livro ó-te-mo, gente!)

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Como contar crocodilos é um livro com oito historinhas, todas ótimas. Este com certeza é o meu predileto. Já li várias vezes e em todas as ocasiões a reação foi a mesma, muito riso, principalmente com a primeira história, que é justamente a que intitula o livro. Minha filha também gosta muito, só precisamos descobrir quem gosta mais, se eu ou ela (rs). Acho que o livro infantil precisa ter este formato, divertir e fazer com que as crianças sonhem, e fazer com que o adulto acorde sempre a criança adormecida que existe dentro dele.

Alexandra Muller
Departamento de vendas

Difícil dizer qual livro a gente mais gosta, eu tenho uma paixão pela Píppi, mas aqui quero registrar um em especial: Minha querida assombração, do Reginaldo Prandi, um livro singelo, que nos remete à infância. Eu me emocionei com a história e as estórias do livro, porque lembrei de quando minha mãe nos contava histórias de sua infância no interior aos finais de tarde, e também de assombrações (essas ela deixava para dias chuvosos em que faltava energia elétrica).

Cintia Oliveira
Departamento de vendas

Escolher um livro da Letrinhas é uma “tarefa” deliciosa e muito difícil, pois são tantos os que adoro e escolher um não é simples. Resolvi oferecer o dia das crianças ao meu avô, que fez da minha infância uma lembrança tão doce e linda.
O meu livro preferido é Macacos me mordam, do Ernani Ssó, pois sempre que leio esse livro tenho a impressão de que estou ouvindo os “causos” que meu avô contava, quando a família se reunia à noite na cozinha em volta do fogão de lenha.

Patrícia
Departamento de divulgação escolar

Tenho um carinho especial pelo livro A espiã, escrito em 1964. Harriet, a personagem principal, é uma menina carismática que está decidida a se tornar uma escritora famosa.

Mariana Mendes
Supervisora de divulgação escolar

O meu filho Guilherme gargalhava quando eu lia pra ele o Cocô no trono. Era leitura obrigatória no penico lá de casa.

Cintia Lublanski
Departamento Editorial

O Barata!… Esse livro faz você morrer de rir… Lembro que, antes de dormir, minhas filhas já cada uma na sua cama, ficavam lendo e não queriam parar, era preciso tirar os livros delas para que pudessem dormir. No outro dia de manhã e na hora do almoço, quando elas chegavam da escola, comentavam e davam risadas das travessuras da barata.

Mario Fernandes
Responsável pelo xerox, encadernamentos e papel

Minha indicação e desejo de muita diversão para nossos pequeninos leitores é o divertidíssimo Quem soltou o Pum?, um jogo de palavras onde o riso é garantido! É pura brincadeira de criança.

Renata Callari
Revisão

Difícil escolher só um, mas Dez patinhos com certeza está entre os meus prediletos. A partir da história de nove patinhos que, ao longo de seu caminho, se distraem com outros bichos e saem da história, as crianças aprendem subtração e adição de maneira fácil, além da ilustração ser linda e muito fofa. E ainda, no fim, tem um joguinho dos patinhos. Esse eu recomendo.

Andreia Arruda
Departamento de vendas

Sou editora da Companhia das Letras e tenho duas filhas, agora com dez e treze anos. O Caldeirão de poemas, da Tatiana Belinky, foi muito importante pras duas, quando tinham em torno de sete anos: descobriram o prazer de ler sozinhas, aliado ao prazer de ler poesia mais especificamente, poesia gostosa e variada, às vezes mais brincalhona, às vezes mais lírica. Descobriram também que é muito legal ler em voz alta.

Marta Garcia
Editora

Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela é um dos livros mais divertidos que eu já li! Engraçado para os pais e os filhos, tios e sobrinhos.
Ainda mais na versão pop-up.

Fabio
Produtor gráfico

Histórias da Bíblia é um livro maravilhoso, e que indica um caminho para as crianças.

Izabel Cerdeira
RH

Gosto muito de ler e contar histórias tradicionais com um novo sentido. Por isso recomendo, dentre outros, A verdadeira história dos três porquinhos, o livro que me fez concluir que o lobo estava apenas resfriado e os porquinhos é que são mal-humorados. Na mesma linha acho que vale a pena ler O carteiro chegou: um personagem tradicional de contos de fadas manda mensagens para outro e assim vamos. O resultado é que as histórias vão ficando todas misturadas. Por fim, não deixem de ler Vice-versa ao contrário, em que autores nacionais entortam de vez o conteúdo dos contos que mais conhecemos.
Posso indicar mais um? O homem no teto é um livro que me arrepia desde a primeira leitura. Feiffer mostra as dificuldades do dia a dia de uma maneira sensível e bem-humorada. O desafio final (e maior) do menino é conseguir desenhar uma mão. Até hoje ando tentando finalizar uma e ainda não tive sucesso.

Lili Schwarcz
Editora do selo infantil e da linha de não-ficção da editora

Um dos livros da Companhia das Letrinhas de que gosto muito é Píppi Meialonga, uma obra fascinante que presenteia os grandes e pequenos com fantasia.

Tamara Queiroz
Departamento de produção

De Aristófanes a Twain, todos concordam, humor de flatulência é um clássico. Assim, indico Quem soltou o Pum?.

Arthur Higasi
Departamento de divulgação escolar

Eu indico Zoo zureta, do Fabrício Corsaletti. Poemas curtos e bem-humorados sobre vários animais combinam perfeitamente com ilustrações super criativas, feitas de colagens.

Luciana Gonçalves
Departamento de divulgação (imprensa)

O meu livro infantil preferido é Queria ser alta como um tuiuiú, pois além de lindo (texto e ilustrações) me fez amar demais as capivaras.

Raquel Vieira
Responsável pela “lojinha” da editora

Eu indico o livro O gato e o escuro, de Mia Couto. Além de abordar com muita delicadeza a relação da curiosidade e do medo, as ilustrações são divinas. É um prazer ler esse livrinho tão gostoso.

Mariana Figueiredo
Estagiária do departamento de divulgação

Meu circo, de Xavier Deneux: um livrinho simpático para os pequeninos aprenderem a gostar de livros.

Clara Dias
Estagiária do departamento editorial

Minha sobrinha Alice (de 10 meses) fica hipnotizada com as cores vermelho, preto e branco do livro Meu circo. Ela presta a maior atenção enquanto conto e viro as páginas do livrinho. Ela ainda aproveita para coçar sua gengiva na capa emborrachada.

Gisela Creni
Departamento de produção (responsável pela liberação de imagens, site, entre outros)

Eu gostaria de recomendar o livro O patinho realmente feio e outras histórias malucas, do Jon Scieszka, um livro super divertido e bem-humorado para ler e reler.

Priscilla
Departamento de direitos estrangeiros

Como contar crocodilos foi eleito o livro preferido de meu filho Bruno, que adora histórias de bichos.

Fabiana Roncoroni
Supervisora do departamento de produção

Minha irmãzinha Maria Eduarda adora as artimanhas da Píppi. O livro que ela mais gosta é o Píppi Meialonga. Ela disse “eu gosto muito da Píppi porque ela é divertida e mora sozinha”. Ah, a Maria tem oito anos!

Ana Laura Souza
Departamento de produção (liberação de imagens)

Queria ser alta como um tuiuiú, de Florence Breton. Personagens fofas e carismáticas da fauna brasileira com bonitas ilustrações.

Carolina Grego
Estagiária de direitos estrangeiros

Livros de poesia para crianças fazem muito sucesso com meu filho Francisco, de oito anos. E um dos mais bacanas é Ri melhor quem ri primeiro, uma coletânea de 31 poemas de diversos lugares e épocas, selecionados e traduzidos por José Paulo Paes. Ah, e o Francisco também adora os livros da Babette Cole.

Ana Maria Alvares
Editora assistente da Companhia das Letrinhas

Um dos livros com os quais eu me divirto com um dos meus sobrinhos é o Seu Soninho, cadê você?, sobre uma época da vida da qual temos saudades quando envelhecemos. E é exatamente nessa data dedicada a todos esses pequenos seres, que têm a inocência como principal característica, que devemos não só valorizar a vitalidade infantil, como também procurar resgatar a essência da criança. Feliz dia das crianças!

Luciana Cavalcante
Assistente contábil

Adoro As lavadeiras fuzarqueiras, de John Yeoman e Quentin Blake, porque ele tem o espírito libertário! As lavadeiras fazem muita fuzarca em busca de sua própria felicidade… E, com certeza, uma bagunça feliz agradará as crianças.

Rafaela Deiab
Departamento de divulgação a professores

O livro Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela faz a alegria de qualquer criança (e qualquer adulto também). Nada rende tanto assunto quanto “cocô”, e a investigação que a toupeirinha faz sobre a quem pertence cada excremento é fabulosa!

Júlia Bussius
Editora assistente

O livro que mais diverte minha “criança interna” é o Liga-Desliga. Extremamente criativo (Painasonic e Mãetsubishi — muito bom!!) e estimulante! A inversão dos papéis é muito bem pensada e explorada. Vale a pena ler, reler e rir sempre!

Thaís Richter
Revisão

Meu circo: tão fofo que dá vontade até de morder!

Otávio Costa
Editor assistente

No meu caso, é praticamente uma covardia me fazer escolher um livro querido… Eu tenho tantos que não saberia por onde começar… Essa semana fiquei ouvindo tanto sobre o dias das criancas e propagandas de brinquedos e doces feitos especialmente para a data… Mas sobre trabalho infantil ouvi falar apenas uma vez, e na verdade não muito a respeito de políticas preventivas ou sobre subsídios para evitar que isso aconteça… Por isso pensei em comentar sobre o livro do Roger Mello, o Carvoeirinhos, que tem tudo a ver com a data e com o assunto do trabalho infantil. Esse livro é especial para mim porque os livros do Roger são sempre um desafio gráfico, e ele trata o assunto do trabalho infatil de uma maneira tão poética, leve e plasticamente inusitada… Foi um livro particularmente difícil no tratamento de imagens porque o Roger sempre associa colagens de materiais improváveis e contrastes divertidos… Melhor para mim, já que livros como esse são um ensinamento! Ele concorreu este ano ao Jabuti e ganhou o segundo lugar! Espero que gostem!

Helen Nakao
Responsável pela produção gráfica da Companhia das Letrinhas e do selo Quadrinhos na Cia.

O Gato Malhado e a andorinha Sinhá, um livro encantador que fala sobre intolerância e preconceito!

Geane Mantovani
Assistente de produção da Companhia das Letrinhas e do selo Quadrinhos na Cia.

O menino que gritava olha o lobo, do Tony Ross. Acho esse livro muito divertido, por ser uma paródia da fábula do menino pastor. As ilustrações são engraçadas e o final da história também!

Natália
Estagiária do departamento de produção da Companhia das Letrinhas e do selo Quadrinhos na Cia.

Além de ser o mais simpático de todos os animais, e a melhor editora de clássicos do mundo, o pinguim é o símbolo máximo da elegância: sempre de fraque, porte austero, temperamento sóbrio. Para celebrar essa graciosa ave, a Companhia das Letrinhas publicou 365 pinguins, uma ode ao verdadeiro rei dos animais, além de uma inteligente e bem-sacada brincadeira com os números e a matemática.

André Conti
Editor dos selos Quadrinhos na Cia. e Penguin-Companhia das Letras

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Com a palavra, o ilustrador

Por Júlia Moritz Schwarcz

Em 19 de agosto de 2010 10:15, Júlia Moritz Schwarcz escreveu:

oi, andrés, tudo bem?
o thyago me falou do seu convite e fiquei animadíssima com a possibilidade de conversar e aprender mais sobre o trabalho do ilustrador. estou realmente com a pulga atrás da orelha, achando que deveria participar mais do processo da ilustração, como acontece com o texto, mas ao mesmo tempo com medo de não ter cacife para isso. enfim, é uma conversa e tanto. e acho que vc me ajudaria muito!
vamos marcar na semana que vem? eu poderia sair mais cedo para passar aí antes de chegar em casa.
posso qualquer dia menos 3a.
beijos e muito obrigada

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From: Andrés Sandoval
To: Júlia Moritz Schwarcz
Sent: Thursday, August 19, 2010 10:53 AM
Subject: Re: visita

júlia querida,
vai ser um prazer conversar com você sobre livros ilustrados. melhor papo do mundo! tô animadíssimo também com a ideia.
hoje à tarde começo a mudança do meu escritório. lá vou dividir um espaço com mais três designers. e o escritório aqui já ficou o caos! adoraria fazer a reunião aqui em casa porque ainda sei onde estão as coisas, os livros, os papéis (já estou saudoso), mas tudo vai ficar de pernas pro ar em poucas horas! Te aviso assim que me organizar.
Vai ser rápido, espero!
Beijo grande,
Obrigado
Andrés

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Eu fui na casa do Andrés. Conversamos sobre assuntos variados: o trabalho do ilustrador, o trabalho do editor, o trabalho do designer, quem faz o quê e quando. Ele me contou sobre o processo de criação dele, e me mostrou os rafes e as ilustrações finais de um livro novo que está fazendo para uma editora portuguesa chamada Planeta Tangerina (que é demais, sugiro darem uma procurada).

Isso porque eu ando mesmo pensando muito sobre o quanto o editor e o editor de arte devem interferir no trabalho dos ilustradores. Palpitamos e mexemos bastante nos textos, já com as ilustrações, a coisa é mais melindrosa. Por um lado, se trata de um trabalho encomendado, e entendo que a editora tenha escolhido aquele artista já conhecendo o seu traço. Também acho que o ilustrador deve ter total liberdade para criar e fazer a sua leitura do livro (e considero a autoria das ilustrações tão importante quanto a do texto). Mas, por outro lado, acredito que o livro seja fruto de um trabalho em grupo, e que nós, acostumados a lidar com o público da editora, temos um olhar direcionado e talvez treinado, que pode acrescentar qualidades ao conjunto da obra. Ilustração de livro infantil é arte mas não só, porque um livro é um produto, que precisa ser bem acolhido nas livrarias e nas escolas.

Muitos ilustradores recebem mal as críticas, os comentários, as sugestões e os pedidos de mudança em seu trabalho, e acho que essa participação da equipe da editora poderia ser encarada de outro jeito. Enfim, são reflexões de uma jovem editora.

Isso tudo é muito importante mas, como disse pro Andrés, a melhor parte desse meu trabalho é encontrar (no sentido de conhecer, conversar, se aproximar, passar a se relacionar com) pessoas como o Andrés.

E o que seria dos livros sem as amizades?

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Pérolas de um elefante voador

Por Júlia Moritz Schwarcz


Ilustração de Cocô no trono, de Benoit Charlat.

Outro dia, estava conversando com a minha filha mais velha no carro, na volta pra casa, e caí numa daquelas conversas sobre a vida e a origem do homem — no caso, a origem da pequena Zizi mesmo.

Estava contando sobre uma massagem que fazia antes dela existir, e com ela na barriga também, e contei que a moça me lambuzava (a Zizi tinha visto a avó “lambuzada” naquele dia, daí a conversa) onde hoje está o quarto dela, que láááá naquela época funcionava como escritório. Claro que ela não gostou dessa história toda, a começar pela parte do quarto, que, como assim, tinha mesa, cadeira e computador?! Tentei explicar que tudo aquilo aconteceu antes dela estar por aqui — o que só complicou as coisas.

“E onde é que eu estava?”, (não existir não era uma possibilidade). Pensei em dizer a verdade, até me dar conta de que não existia uma verdade. E percebi que era hora de recorrer à ficção, peloamordedeus. Com medo de falar alguma besteira, passei a bola pra criancinha: “onde você acha que estava?”. “No céu.” Xi, pensei, alguém já enfiou Deus na cachola da moça. “Então você era um anjinho? Um passarinho? Uma nuvem? Um avião?”, tentei expandir as possibilidades. “Não, mamãe, eu era uma sementinha.” “Então choveu e você caiu, com os pingos, na minha barriga?”, olha a anta tentando dar um sentido pra coisa. “Nada disso, um elefante voador me comeu, fez cocô na terra, e ali nasceu uma planta”, foi a explicação. “Você era a planta, Zizi?” “Não, mamãe!”, ela estava ficando impaciente com a minha total falta de noção das coisas. “Sou ser humano! Eu só vim comer uma frutinha da planta, que era rosa e estava deliciosa.”

As histórias nascem de muitas conversas, às vezes de algumas necessidades, se misturam, se transformam, e viram coisas malucas e incríveis. Acho que elas são fundamentais para todo mundo, e totalmente naturais para as crianças, que pensam em forma de fantasia e entendem o mundo através dela. Não dá para existir sem.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Com a palavra, o divulgador

Por Júlia Moritz Schwarcz


Ilustrações de Rui de Oliveira para o livro Chapeuzinho Vermelho e outros contos por imagem.

Semana passada participei, como ouvinte, de uma convenção com todos os divulgadores da Companhia das Letras. Tinha gente da Bahia, do Rio, Paraná, Espírito Santo, Goiás, Piauí, Rio Grande do Sul, São Paulo (capital e interior) e espero não ter esquecido de muitos. Esses são os profissionais que visitam as escolas para apresentar o catálogo da Companhia (e de outras editoras), trabalhando em busca de adoções e mais adoções.

Ouvi ideias e sugestões bem interessantes, com as quais jamais tinha topado. E parei para pensar no mundo das salas de aula e dos livros didáticos (ou dos chamados sistemas de ensino, espécie de apostilas, grandes rivais dos didáticos), um pouco afastados, infelizmente, aqui do escritório da Companhia e do meu cotidiano. Se é difícil demais tentar entrar na cabeça das crianças, imagine na cabeça dos professores, cujas realidades são muitas e ainda por cima distantes para quem não está lidando com o ensino. O que cada um busca na literatura, e o que lê no livro que tem em mãos, é mesmo uma incógnita, mas o meu papel é, de alguma forma, adivinhar as necessidades dos diferentes públicos.

Muitos pais, professores, pedagogos e editores se preocupam com a abordagem de temas espinhudos — como a homossexualidade, por exemplo — nos livros destinados às crianças, e muitas vezes carregam seus próprios julgamentos, traumas e complicações nessa leitura. Tendem também a evitar que as crianças enfrentem sentimentos fortes e situações desafiadoras — como o terror e o medo — na leitura de histórias. Felizmente, as crianças não reagem a esses sentimentos da mesma maneira, e, no mais das vezes, sentem-se mesmo atraídas a eles. Bruxas, lobos e monstros são tão apetitosos quanto as cenas em que essas criaturas são mortas, com requintes de crueldade, para nunca mais voltar (ou melhor, até a próxima leitura). O ponto entre o quanto de medo e violência as crianças suportam enfrentar é bastante sutil, mas tendo a achar que a inteligência infantil poupa anos de análise ao exorcizar o medo através da imaginação. Quando encontram uma história que lhes desafie ou atraia por um motivo qualquer, as crianças costumam pedir que a contemos algumas dezenas de vezes, semanas a fio. A repetição seria, nesse caso, mais uma forma de exorcismo. Saudável demais.

Por isso me preocupo com a importância da censura adulta na edição de um livro para crianças. Com tantos “não se deve” ditando as normas, e uma boa dose de superproteção, muito dessa função da narrativa, a de aliviar a alma humana, vai se perdendo. Hoje essa barreira é menos significativa do que costumava ser, mas livros polêmicos em sala de aula, hum… complicado.

Professores são fundamentais na vida de um livro. Os infantis, salvo algumas exceções, vendem pouco nas livrarias e por isso dependem bem das adoções. Os livros com mais truques e recursos gráficos ou eletrônicos têm um comportamento diferente, assunto sobre o qual tratei em outro texto.

Nessa mesma convenção, foram apresentadas as adoções dos livros da Letrinhas — conhecemos os colégios que adotaram cada livro, e até mesmo o número de alunos de cada adoção: 32, 54, 128… Lembro de um ou outro caso de adoções maiores, de turmas de mil alunos, mas em geral predominaram os números picados e bem baixos. Um autor da Companhia que acabou de lançar um livro pelo selo Letras havia sido convidado a participar do evento e estava sentado ao meu lado. Ficou um tanto espantado com os números e ainda lembrou que nem todos os alunos cujos professores haviam adotado os livros os comprariam. Mas a realidade do livro infantojuvenil no Brasil envolve cifras nada astronômicas, em geral, e sua participação nas vendas da editora é de fato menor, em quantidade, se comparada à dos outros selos.

(Queria esclarecer que não faço coro àquele discurso derrotista que acha que as pessoas veem a literatura infantil como inferior, pobre e recheada de diminutivos. Acho que o posto de “coisa séria” já foi alcançado há algumas décadas, com autores consagrados e muitos de grande qualidade. Isso sem falar na realidade dos planos de governo — que são estáveis há quase dez anos e não param de crescer, com compras não só do governo federal como dos estaduais, das prefeituras, secretarias e demais órgãos.)

Claro que as vendas, adoções e planos de governo importam demais, mas tento me pautar não só pela qualidade como também por outros critérios, como o envolvimento passional com os livros (tudo bem, eu sei que isso vale para qualquer profissão e que não é nenhuma novidade para ninguém).

O melhor de encontros “convencionais” como esse de que tive a honra de participar é poder se internar por dois dias no Hotel Tryp Itaim (por favor, leiam com o devido sotaque para dar alguma leveza a um texto que está ficando chato, apesar do meu esforço) para tomar café com pão de queijo e falar, sempre com muito gosto, sobre o que o autor Ilan Brenman definiu por lá como “carne de língua” (ou, se preferirem, histórias; contadas por nossas línguas, daí a expressão). Só mesmo com muita carne de língua para sobreviver. E você, freguês, quantos quilos vai querer?

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

A Flipinha é demais

Por Júlia Moritz Schwarcz


(Foto por Walter Craveiro)

Dessa vez o Ziraldo errou feio. Disse que não é autor de Flipinha. É que ele não sabe do que está falando. A Flipinha é demais. Acontece de janeiro a dezembro e envolve as escolas da região de uma maneira incrível. Quem participa da Flip percebe isso. O palco da Flipinha, em frente à praça da Matriz, está enfeitado com os trabalhos feitos pelos alunos, e tem sempre alguma atração ou apresentação acontecendo. As árvores da praça estão cheias de livros, e uma biblioteca em forma de circo ocupa todo o espaço do meio — jovens muito bem treinados leem para as criancinhas de bobeira e para os alunos paratyenses, que frequentam aos montes a Festa. Ah, tem os bichos e bonecos de papel machê, feitos pelos alunos em oficinas. Eles trabalham com os livros durante os doze meses do ano, e os professores também passam por cursos sobre literatura. Enfim, parece até propaganda, mas eu sou mesmo fã, acho demais o que se criou a partir de 2003, com essa história de Flipinha.

Este ano, a Laurabeatriz e o Lalau foram convidados da Flipinha. Pedi um depoimento a cada um sobre essa experiência. É o que vem a seguir.

Sempre tive curiosidade de conhecer a Flipinha e tive uma bela surpresa. Achei importantíssimo o papel que esse programa educativo está desempenhando junto às crianças e adolescentes, especialmente os de Paraty e cercanias. Com essa influência superpositiva, com certeza as crianças que vêm participando da Flipinha vão ter uma mudança bem significativa em suas vidas.

É muito animador, neste mundo de hoje, tão ameaçado por catástrofes dos mais variados tipos, tão bombardeado pela mídia do consumismo, encontrar um oásis tão florescente e uma atmosfera tão promissora. Certamente, essas sementes que a Flipinha está semeando já estão começando a brotar e são uma notícia muito alvissareira no cenário do planeta Terra neste ano de 2010.

Laurabeatriz

Charretes transportavam poemas. Homens e mulheres trocavam palavras impressas em várias línguas. Algumas estátuas ficavam paradas, enquanto outras se moviam de tempos em tempos. Ondas pequeninas escreviam suas memórias na areia. Vi um livro bater suas páginas, sobrevoar a cidade e pousar numa das árvores da praça. Depois, veio outro, outro, mais outro. E vieram centenas deles. Vi crianças perseguindo histórias pelas ruelas de pedras no chão. Vi crianças sorrindo para mim. Foi um sonho, um dos grandes sonhos de minha vida.

Lalau

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.