Júlia Moritz Schwarcz

Diário de uma mãe e duas criancinhas mal intencionadas – Dia 5

Por Júlia Moritz Schwarcz


(Foto por Thiago Queiroz de Andrade)

A Flip vale a pena.

É o que vim pensando no meu caminho de volta para São Paulo.

É cansativo (principalmente para aqueles que estão trabalhando; se levam as criancinhas, aí nem se fala); muito intenso e um programa caro. Mas acontecem coisas boas. Até onde posso falar, sempre escuto alguma coisa interessante nas mesas, encontro pessoas queridas e conheço tantas outras, passeio em uma cidade bonita, respiro um ar bastante mais fresco que o de São Paulo, dou muita risada, como cocada e me interesso por uns trinta livros.

Escutar autores lendo passagens de suas próprias obras dá uma vontade louca de ler o resto; interessante como, na voz do escritor, o texto vira um objeto de afeto.

Nem todo autor gosta do contato com o terceiro elemento do triângulo amoroso escritor-livro-leitor, e não deve ser obrigado a desempenhar como um apresentador de televisão, mas mesmo aqueles que estão desconfortáveis no palco passam algo de bom.

E no meu quinto e último dia em Paraty fiquei reparando no clima e nas pessoas que em pouco tempo não estariam mais lá, nenhum dos dois.

Vi uma dupla caipira se apresentando do lado de um casal hippie cantando Raul e achei lindo; vi o repentista a uma esquina do poeta e achei uma coisa curiosa; vi um restaurante argentino dividindo parede com uma creperia francesa e fiquei com vontade de jantar em um e comer sobremesa no outro; vi uma loja de barquinhos de madeira ocupando a mesma casa que uma de havaianas personalizadas e não comprei nada em nenhuma das duas; vi um engolidor de fogo se apresentando a poucos metros de uma roda de capoeiristas e passei batido pelos dois; vi cavalos dividindo a rua alagada com carros e barcos e pensei “puxa, andei nos três”; vi um realejo com pinguim e um móbile de tartaruga; li um livro chamado A vaca que botou um ovo e folheei um chamado A dama do cachorrinho e outros contos e levei os dois para casa; e, no fundo, participei da Flip com os olhos deste “Diário de uma mãe e duas criancinhas”, sempre pensando no que ia contar nos posts.

Espero, sinceramente, ter agradado.

Ps: Peço desculpas pelo tom sentimental, sei que não pega bem. Mas nunca tive um diário e sempre imaginei que, se fizesse um, ele seria bem brega, com corações pelas páginas e tudo.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Diário de uma mãe e duas criancinhas mal intencionadas – Dia 4

Por Júlia Moritz Schwarcz

Ferreira Gullar e Robert Crumb (Fotos por Walter Craveiro)

Eram 8 e pouco quando recebi um SMS da amiga do coração, minha chefe (que palavra horrível!) por uns bons 7 anos, que me gelou a espinha:

Post ótimo. Correção urgente: encharcado com ch. Bj, amiga!

Pronto, tava demorando… Assim como também demorou muito pra conseguir achar alguém que tivesse acesso à correção.

— Pelo menos era sábado de manhã — fui consolada.

Mas essa história não importa de verdade, no fundo achei que seria um bom assunto para se começar o texto. E antes que meu Dia 4 vire uma grande enrolação, vamos aos escritores que visitaram o palco da Flip neste sábado, tão opostos quanto Salman Rushdie e Terry Eagleton. Estou falando de Ferreira Gullar e Robert Crumb, protagonistas das minhas Mesas do Dia 4.

Já que assisti os dois e, como uma boa jornalista amadora/freelancer/por-4-dias/ de meia-tigela (como preferirem), anotei as melhores frases, resolvi brincar de quebra-cabeça. Com vocês, Crumb e Gullar em um diálogo desencontrado sobre a arte e a vida:

Ferreira Gullar — Estou aqui mais uma vez. Mas falar sobre poesia é sempre bom, e falar sobre a minha é fácil.

Robert Crumb — Meu trabalho é mais interessante do que minha personalidade. Sou chato e essa coisa de fotógrafo é muito desconfortável.

FG — Minha vida é muito engraçada, estou sempre fora de propósito.

RC — Não me lembro direito do que aconteceu nos anos 60, tava sempre muito chapado.

FG — A poesia nasce do espanto, do imprevisível, de um estado de espírito. Mas sempre do cotidiano. A poesia é fora de abismo, não responde à lei.

RC — Os Estados Unidos são o grande centro do corporativismo do mal. Mas não publiquem isso, não quero a CIA no meu pé.

FG — A arte é a invenção da vida, existe porque a vida não basta. E fazer poesia é bom, é transformar a dor em alegria.

RC — Janis Joplin deveria ter parado no folk; estaria viva até hoje.

FG — É complicado, se você não é de vanguarda, é de retaguarda.

RC — Estou velho, não sou mais tão obcecado pelo sexo; hoje em dia, o que faço é mais acadêmico.

FG — Fui para o Chile, morreu o Allende, fui para Buenos Aires, morreu o Perón, aí o pessoal dizia “não vem pra cá!”.

RC — Um dia acordei e estava morando na França.

FG — O homem inventou Deus para que este o criasse, porque, como diria Waldick Soriano, “Eu não sou cachorro, não”.

RC — Adão nasceu de uma parte de Eva, era brand new demais para que eu o pintasse de barba.

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— Mas, mamãe, meu sono está preso na barriga.

— Boa noite, Zizi.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Diário de uma mãe e duas criancinhas mal intencionadas – Dia 3

Por Júlia Moritz Schwarcz


Depois de uma festa de arromba, que enterrou de vez o jantar institucional da Companhia, em que éramos escolhidos para sentar naquela mesa esquisita pra fazer o papo render, o sol resolveu brilhar pela primeira vez na 8ª Flip.

Enquanto, às 9h, o querido Roger Mello falava na Flipinha, eu era escalada pelas criancinhas mal intencionadas para um passeio de barco.

“Se você nunca voou em um tapete voador, não sabe o que é enjoo”, diria Salman Rushdie, mais especificamente em seu novo romance, Luka e o fogo da vida, com lançamento mundial aqui na Flip.

Eu diria que um barco já causa enjoo suficiente. “Filhas, a vida não é justa”, é o que eu poderia ter dito pras minhas, enquanto elas olhavam assustadas para uma mãe de cara verde-azulada, e também o que Rushdie poderia ter dito ao seu filho Milan, quando este lhe pediu que escrevesse um livro como havia feito para o irmão — mas ele acabou escrevendo o Luka, sobre tapetes voadores, um urso que se chama Cão e um cão que se chama Urso.

— Hoje os iranianos estão preocupados com outras condenações, como apedrejamentos e afins, e Salman pôde voltar a escrever mais romances, em vez de fugir de uma pena de morte por ter escrito seus versos satânicos — comenta Silio Boccanera na minha última mesa do Dia 3.

— Uma coisa posso dizer, penas de morte dão em boas piadas.

Escutei várias frases memoráveis nessa palestra, frases de efeito, mas boas, sim, para repassar.

— O countryside é para vacas, não para mim — Rushdie se define como um garoto da metrópole.

— Não tenho interesse nas pessoas que têm as respostas. As perguntas são muito mais valiosas — ele disse a certa altura, o que me fez pensar com mais carinho nos mil porquês — alguns mal intencionados — que saem por minuto da boca da minha criancinha mais velha.

— Você pode ensinar técnica de escrita, mas não pode ensinar talento. Você não pode formar um olho nem um ouvido, porque bons escritores precisam necessariamente ter um olhar original e interessante do que veem e escutam do mundo.

Salman é professor de literatura e descreveu um exercício muito interessante que propôs a seus alunos: escolher alguma coisa muito, muito importante — uma pessoa, um lugar, um momento etc. — e escrever 300 palavras sobre ela sem usar nem unzinho adjetivo.

— Sem poder dizer que uma coisa é verde, ou gorda, ou amedrontadora, você é obrigado a contar uma história para comunicar essa qualidade. Ou seja, sem usar adjetivos você é empurrado para a narrativa.

Até que chegamos À Pergunta Da 8ª Flip.

— E os livros eletrônicos?

— Se você levar um livro para a praia e deixar cair areia, não trava. Se ele for molhado, não perde sua “data”. Uma garrafa de coca-cola mata um iMac, como aconteceu comigo, já um livro encharcado retém toda a sua informação.

— Se você é um autor e não sabe escrever a história infantil que gostaria de ter lido quando criança, que tipo de escritor você é?

E, para terminar o dia e a palestra de Rushdie, uma pergunta idiota com uma resposta, no mínimo, generosa:

— Você não é um grande dançarino nem especialmente bonito. Qual o segredo para conquistar mulheres tão bonitas?

— Se eu contasse não seria mais um segredo.

Pois é, com tanta literatura em poucos metros quadrados, fico pensando que sem a ficção não sobra quase nada. Muito melhor fantasiar sobre os outros do que acompanhar sua triste existência, não é, Salman Rushdie, grande mestre da fantasia?

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Diário de uma mãe e duas criancinhas mal intencionadas – Dia 2

Por Júlia Moritz Schwarcz

(Foto por Fabio Uehara)

Dormi pouco demais e assim fica muito mais difícil não cair nesse pé de moleque de Paraty.

— As pedras todas vieram de Portugal — conta meu charreteiro-guia número 4.

— Esse chão foi feito para ser pisado por escravos descalços — completa dr. Alberto da Costa e Silva.

Fico parecendo ainda mais pata quando, boquiaberta, acompanho nosso ex-presidente vencendo pedras e areia numa velocidade incrível para despistar os fotógrafos. Impressionante, só com muita prática mesmo.

E não precisa andar muito para ouvir o de sempre:

— Gosta de poesia?

— Não, obrigada.

— Tudo bem, amanhã você vai estar menos cansada.

— Puxa, isso é uma ameaça?

Na próxima esquina, encontro um autor com autoestima em baixa:

— A mochila tá pesada, os livros, bem baratinhos, você bem que podia comprar um.

Como não falta esquina em Paraty, acabo alcançando mais uma, onde encontro a primeira dupla de músicos estilo cultura hispânica:

— Guantanamera, amigo Guantanamera.

Ufa, consegui atravessar a ponte, para  a Mesa 1 do meu Dia 2.

— Com o meu livro foi como disse um jogador do Flamengo sobre um gol que não conseguiu impedir: “foi indo, indo, e, quando vi, iu!” — revela Reinaldo Moraes, o mais engraçado de todos os tempos.

— A ficção que criamos é sempre autobiográfica, não tento mais achar que não é. Só queria entender como personagens tão díspares podem falar de uma pessoa só — diz Beatriz Bracher mais à frente.

Meu caminho de volta percorre a rua do Comércio, e noto uma de suas quadras totalmente ocupada por indígenas e seus artefatos: de um lado estão os tapajó e de outro os tupi-guarani.

— Há pouco tempo um comia o fígado do outro — lembra Luis Felipe de Alencastro.

— Por que comia o fígado, mamãe?

O sol já baixou e uma das criancinhas mal intencionadas resolve correr atrás de um cachorro. Como ela não tem a prática de FHC, vai ao chão, ganhando um “rombo” de 2 centímetros e meio no joelho. Esse é o começo do fim do dia para a ala infantil da família.

O chororô corre solto, e uma puxa a outra: tudo bem, é mais que hora do banho-janta-cama pra elas.

Finda a tarefa, minha vez de correr, agora pra Mesa 2, Dia 2. Robert Darnton, Peter Burke e Lilia Moritz Schwarcz, mais conhecida por mamãe.

— Meu pai é professor de pornografia — conta, em certo momento,  o historiador Darnton sobre um diálogo da própria filha na escola, para falar da visão de seu objeto de estudo (na verdade uma literatura erótico-filosófica da França do século  XVIII); enquanto seu colega inglês explica o seu: como estudar, a partir de relatos escritos, culturas predominantemente orais.

— Os historiadores talvez sejam os melhores fofoqueiros — conclui a mediadora.

E chega porque não se fala sobre o que acontece depois das 10 da noite — pelo menos no caso daqueles que têm apreço pelos amigos — e também porque meu dedão da mão direita já está doendo (Ernani, juro que é tudo pelo celular, não tenho outro “meio”).

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.

Diário de uma mãe e duas criancinhas mal intencionadas – Dia 1

Por Júlia Moritz Schwarcz

A Flip sempre começa pela Flipinha. É só chegar na praça da Matriz pra encontrar aqueles bonecões de papel machê de sempre — entre o Dom Quixote, a Pequena Sereia e um singelo cachorrinho, há também uma ama de leite em ação.

— Cadê a baleia com o Pinóquio dentro, mamãe? E aquele boi com o pintão que dava pra balançar? (O boi, logo vi, cá está mais uma vez, mas melhor não informar a criancinha mal intencionada.)

A tenda da Flipinha fica logo ao lado da tenda principal e já tá bombando, com peças de teatro e danças típicas sendo apresentadas pelas criancinhas paratienses. É coisa pra ficar emocionado, juro pra vocês. E, se querem saber, a Flipinha é demais, feita para os alunos da região e muito bem aproveitada por eles.

As árvores da praça também estão cheias de livros, e é só a criancinha mal intencionada chegar perto de uma para ser convidada a escolher um livro para que lhe fosse lido. Um sucesso essa atividade , tanto que só consegui arrancar as minhas criancinhas dali umas 2 horas (e 23 livros) depois.

Segunda parada do dia: lounge Penguin-Companhia, que está lindão, com uma bela geladeira laranja estilo vintage cheia de livros dentro — ideia genial.

— Essa Flip tá mais pra pinguim mesmo — alguém diz, com muita propriedade, aliás, já que desta vez o sol não resolveu aparecer, e pra compensar essa simpática ave das neves já tá espalhada pelos pontos  clássicos de Paraty.

Mais perna batida, ou pedras galgadas, e encontro um amigo jornalista.

— Júlia, fique de orelhas em pé, fazendo favor. Vou fazer uma coluna diária sobre a Flip, mas só com fofoca. Se tiver alguma história interessante, de bastidor, não deixe de me informar.

Mais alguns passos e encontro outro amigo, igualmente jornalista, com a mesma proposta indecente.

— Ó, tenho que fazer vídeos sobre os bastidores da Flip, se souber de algum babado me passa?

E eu queimando pestana desde que cheguei para pinçar as boas passagens de bastidores para fazer um “diário pouco convencional para o blog” como me foi pedido. Engraçado, é uma sede pelo que tá acontecendo com a gente como a gente, né não? Os tais bastidores tão com tudo, gente!

E, se querem saber dos meus, dei almoço pras criancinhas e fui andar de charrete com elas.

— Esta é a casa de Amyr Klink, nosso navegador solitário, que remou pelo mundo todo — é o que escuto do meu cavaleiro-guia, e pela terceira vez, já que essa é a principal atração para a ala infantil da família.

Depois do sorvete, de mais passeio, cada vez mais gente conhecida pelas ruas, jantar, banho e cama para as criancinhas, é hora para um cooper até a grande palestra inaugural.

— Juliquinha, só me diga uma coisa: onde fica o palco? — é o que me pergunta a minha avó, já dentro da tenda e a pouquíssimos metros do microfone presidencial.

E se vocês gostam de bastidores, lá vai uma das boas: o FHC tá aqui falando de Gilberto Freyre, com uma mini arquibancada bizarra de cada lado do palco e mais não sei quantos em frente, enquanto essa  escrava das letras cata milhos na tela de seu pobre celular (rachada por mãozinhas de alguma das duas criancinhas mal intencionadas) para vos falar da Flip.

Melhor deixar com o presidente (minha vizinha de cadeira já tá me olhando feio demais!), e que venha mais uma Festa Literária de Paraty, meu povo.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.