Júlia Moritz Schwarcz

É o amor

Por Júlia Moritz Schwarcz

Outro dia chego em casa e encontro a Filó e a Kelé, duas “filhas” da minha filha Maria Isabel, abraçadas, de nó de braço, num canto. Até aí tudo normal, em se tratando de um quarto de uma menininha de três anos. Preciso que me acompanhem em meus afazeres domésticos para entender o que de realmente novo e notável aconteceu na minha casa.

Enquanto eu preparava o jantar, vejo a Zizi (como é conhecida a Maria Isabel) rodopiando com as duas numa dança romântica — “liri, liri, isso é o amor” —, na saída do banho foi a hora dos beijos e abraços e, um pouco mais tarde, quando as badaladas marcaram o momento de ir dormir, as duas finalmente se casaram e ganharam a sua cama, muito aconchegante, preparada com os panos mais especiais da caixa de panos da minha filha: era a lua de mel. Não é que a Zizi tenha apenas bonecas do “sexo” feminino, estão lá o Palhaço, o André e o Tião para equilibrar a brincadeira, matar os dragões e também dançar balé e fazer comidinha.

Quando chegou a minha hora de tomar banho e jantar, me peguei matutando, feliz com a simplicidade do amor e das relações de gênero na vida da minha filha. Mas, se por um lado tudo pode ser mais simples por enquanto, é claro que, por outro, ela já se depara com as questões da vida real, sempre mais complicadas: por que as tias solteironas não acharam o seu príncipe encantado, por que os pais da minha amiga Clara não moram juntos e por que aquele menino tem dois pais e apenas uma mãe.

Não sou psicóloga nem pedagoga, mas confio no meu bom senso e… trabalho com livros infantis! Maravilha, nada como buscar neles um sinal dessa nova disposição social que vivemos, marcada por agrupamentos familiares que seriam bastante inusitados até pouco tempo. Para a minha sorte, um dia recebi um livro lindo, muito especial, sobre esse tema. E para a sorte de vocês, leitores, ele sai este mês.

Não se trata de fazer propaganda (apesar de parecer!), mas principalmente de falar de um tema que me parece presente tanto no dia a dia da minha filha quanto no mundo dos livros infantis — há bem mais de um título saído do forno sobre crianças e seus pais gays. Olívia tem dois papais narra um dia na vida dessa menina que, além de muito esperta — ligada em palavras, que ela sabe usar muito bem para conseguir o que quer —, vive com seus dois pais, Raul e Luís, que a adotaram pequenininha.

A casa da Olívia é uma casa como a minha, por exemplo, com pais que trabalham, cozinham e brincam com a filha, que por sua vez tem suas bonecas apaixonadas, que se abraçam e rodopiam de amor. Nada mais natural.

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Júlia Moritz Schwarcz é editora dos selos Companhia das Letrinhas e Cia. das Letras. Ela contribui quinzenalmente para o blog com textos sobre literatura infantil.