Leandro Sarmatz

Uma obra em muitas voltas

Por Leandro Sarmatz

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Está para sair o volume 12 do bootlegs de Bob Dylan, com sessões de estúdio e gravações de shows que nunca tinham sido editados. Dessa vez, registros até então inéditos dos anos 1965-66, incluindo um disco inteiro apenas com as muitas conformações do clássico “Like a rolling stone”: de valsinha retrô à energética versão que se tornaria clássica, verdadeiro hino da contracultura, como defende Greil Marcus em Like a rolling stone.

Muito já se disse sobre essa potência inconformista de Dylan. Quando ele usou a guitarra elétrica (enquanto a plateia urrava de ódio gritando “Judas!”); quando ele altera completamente a harmonia de uma canção considerada clássica fazendo com que até o mais empedernido dos fãs se sinta meio desorientado; quando ele se compraz em seguir fazendo turnê e cantando com aquele fiapo roufenho de voz que mais parece o som de um fumante com laringite urrando dentro de uma cela de Guantánamo. Dylan, como talvez nenhum outro artista contemporâneo, constrói a partir do desconcerto e da surpresa.

Claro que Dylan é toda uma indústria. Mesmo assim, não se tem notícia de qualquer outro criador que coloque permanentemente a própria obra em questão com tamanha radicalidade. Durante muito tempo pensei que apenas Godard, talvez, se aproximasse dessa desconstrução. Pode até ser. Mas então comecei a enxergar parentesco entre as artimanhas do artista americano daquelas de João Gilberto.

À primeira vista, parecem duas atitudes diferentes diante da produção autoral. Enquanto Dylan compôs o corpus principal de sua obra, João Gilberto — que é autor de meia-dúzia de canções — trabalhou obsessivamente sobre repertório alheio: dos sambas ouvidos na mocidade baiana a clássicos da bossa nova e da canção mundial. É um clichê mas também uma verdade fundamental enxergar nessas regravações do baiano uma apropriação do original, uma recriação que opera uma espécie de feitiço autoral: as músicas de Tom Jobim, Caymmi ou mesmo Cole Porter tornam-se canções de João Gilberto, tamanha é a densidade da operação musical empreendida por ele.

Recentemente vi estes dois artistas icônicos do século XX se aproximarem graças a Frank Sinatra. Shadows in the night, com canções que fizeram parte do repertório de Sinatra, é um disco joãogilbertiano de Bob Dylan, quem diria. Ali só se trabalha o “cover”. Porém, numa operação criativa digna do intérprete brasileiro, todas aquelas canções compostas por terceiros e gravadas por Sinatra são atraídas para o centro gravitacional de Bob Dylan, parecendo ter sido criadas por ele mesmo.

Eis uma arte genuína e poderosa.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Nosso amado neurótico

Por Leandro Sarmatz

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Vejo em algum lugar que Woody Allen fará oitenta anos em dezembro. A rigor, Allan Stewart Königsberg já teria essa idade desde, pelo menos, a década de 1970. Woody é um desses velhos vocacionais. Ele é nostálgico, apegado às referências da infância, não curte grandes elucubrações formais. Preste atenção à trilha sonora de seus filmes, é quase sempre aquele jazz dos anos 30, bandas de swing, pequenas joias do pop da era do rádio pré avalanche do marketing e da embromação. Também se observamos a sua pinta: chinos cáqui, docksides, camisas oxford em cores discretas, o chapeuzinho quase caricatural. É o uniforme do ancião nova-iorquino afluente.

A arte de Woody Allen, porém, não é coisa de velho. Manejando desde seus primeiros filmes um humor que se mostra herdeiro daquele riso clássico da aurora do cinema (os astros iídiches do vaudeville que migraram para Hollywood e que forjaram nossa ideia do humor, como os Marx Brothers etc.) e ao mesmo tempo embebendo seus roteiros de referências culturais, comentários políticos e observação social, o pequeno artista (1m65cm) do Bronx mostrou que a alta modernidade no cinema pôde tanto comportar a desconstrução de Godard quanto a aparente leveza de seus próprios filmes.

Aparente, digo, e quase mordo a língua. Filmes como Noivo neurótico, noiva nervosa, Hannah e suas irmãs e Meia-noite em Paris investem com uma ferocidade poucas vezes vista respectivamente em temas como a própria forma da comédia romântica, as relações familiares e seus venenos e a impotência causada pela nostalgia. Isso sem falar naquelas sombrias (chatésimas para alguns; eu gosto) homenagens a Ingmar Bergman, seu ídolo maior, em Interiores e A outra. Na dramaturgia americana, apenas Edward Albee (Quem tem medo de Virginia Woolf?, Três mulheres altas) soube retratar com tanta mordacidade e violência — mas sempre entretendo — as relações da classe média alta pra cima. Mas se o pileque dos personagens de Albee é obtido com gin, whisky e assemelhados, em Allen a turma toda sem embriaga de psicanálise, filmes, revista boa e neuroses.

Woody também escreve bem à beça. Getting even (1971), reunião de textos variados aparecidos na revista New Yorker, é um troço impressionante. Em termos brasileiros, pense num combo de Ivan Lessa, Millôr e Luis Fernando Verissimo, sim, um quê de velha guarda, mas quem até hoje se aproximou desses três? (Aposto transnacionalmente em David Sedaris, Antonio Prata, Tina Fey e Gregorio Duvivier.)

É óbvio que ele será lembrado pelos filmes (uns 50 ou mais) e não pelos poucos livros que deixou. Tudo bem. A escrita de cinema afinal foi sempre seu métier. A própria literatura americana tem seus lampejos de Woddy Allen, o que mostra uma contaminação saudável entre o cineasta e os autores que ele lê. Personagens ou mesmo capítulos inteiros de Bellow, Malamud, Roth e Auster parecem tomados pelo temperamento cômico e algo intelectualizado (que ele diz ser apenas uma persona para consumo fílmico, pois gosta mesmo de assistir baseball pela TV) do diretor nova-iorquino. Suas neuroses, hoje, são um sintoma da nossa cultura.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Nostalgia, aventura (e cervejas)

Por Leandro Sarmatz

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Veja bem, não me entenda mal. Não sou reacionário, passadista, há tempos que me esforço para deixar de ser nostálgico. Porque cada vez mais acho a nostalgia o fascismo da memória. Sim: lembrar é importante, a memória é o que nos faz humanos, mas nostalgia é outro negócio. Nostalgia é política daninha, nostalgia é marketing ruim, é uma engenhoca mental que pode nos aprisionar em desvãos pouco recomendáveis. A nostalgia está para memória assim como a aventura está para o turismo. É outra coisa. Talvez um rebaixamento da experiência, um universo edulcorado, frequentemente falso, uma impostura esperneando sua pretensa verdade. Tenho lutado contra a nostalgia.

É difícil, todavia. Esses dias meu boteco predileto atravessou a rua em Santa Cecília, aqui em São Paulo, e foi para um logradouro a princípio melhor, mais novo, mais ajeitado, moderno e cômodo. (O imóvel antes era ocupado por uma videolocadora, e é lícito dizer então que o streaming ajudou o boteco, tão real, a desbancar um negócio que sobreviveu mais do que deveria graças à nostalgia.) Ainda não o conheci — faltou tempo, e também coragem. Receio desgostar de cara, temo não aprovar a mudança e me enredar (novamente) na teia horrorosa da nostalgia.

Porém, se na chamada “vida real” a nostalgia pode ser corrosiva e paralisante, nas artes da imaginação ela me parece essencial. Como combustível, a nostalgia é parte constituinte da própria criação literária. A literatura ocidental, que começou sob o signo da aventura homérica, iria se nutrir da nostalgia desde o princípio. Pois ela é a fonte primordial da aventura. Exércitos empreendem uma guerra para reaver o status perdido; busca-se a amada para recriar um éden de paixão original; sujeito embarca num navio para reencontrar as paragens da infância. Sempre que há ação, a nostalgia está lá, explícita ou bem disfarçada.

É mesmo paradoxal. Porque realmente, na vida cotidiana, a nostalgia é uma botinada na memória, é uma violência e uma prisão. O que diferencia, digamos, um sujeito que fica com muxoxos diante da mudança de seu bar predileto e aquele que, num poema, romance ou filme evoca um passado? Antes que você diga, claro, o talento, acho que tem alguma coisa além disso. Talvez o filtro da linguagem seja a grande questão. Porque quando você reconstrói uma cena antiga — numa crônica, digamos —, é necessário um esforço organizador entre a memória e os limites (reais, possíveis) do próprio meio de expressão. É aí, então, que começa a aventura: a nostalgia deixa de ser um objeto em si (um telefone de baquelite anunciando uma ligação perdida) e passa a ser algo significativo não apenas para um pessoa. Ela vai falar algo para quem lembra e para quem lê (ou escuta) essa memória alheia.

Pensando bem, acho que vou fazer um poema pelo meu querido e velho bar Ugue’s.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

A derrota pelo verbo

Por Leandro Sarmatz

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Cena de Os Simpsons

Talvez eu esteja ficando velho (estou), mas o fato é que tenho percebido cada vez mais uma confusão entre o que somos — ou imaginamos ser — e o que projetamos. Sim, falo das (perdão mil vezes) redes sociais. É fato que antes havia um abismo necessário, construído por nós mesmos ou pelos outros, entre a experiência íntima e o nosso embate com a vida em sociedade. Repare, isso sumiu. Perceba, pode ser parte da explicação do atoleiro (moral, pessoal, social, filosófico) em que vivemos.

Um grande amigo que vive numa cidade civilizadíssima da Europa, esses dias observou (no gtalk): “Sinto o espaço público cada vez mais parecido com uma timeline podre”. Ele se referia sobretudo ao aumento da desigualdade, do consumismo, do discurso de gentrificação e da xenofobia feroz numa das capitais mundiais do estado de bem-estar social. É um mundo — de igualdade e equilíbrio — que está desaparecendo. E as palavras (em caixa-alta, nos espaços de comentários de portais, nas redes sociais) tornam tudo mais agudo, acelerando processos. O começo (e o fim) está no verbo.

Peraí. Antes que você me acuse de vovô Simpson gritando pra nuvem: tudo na vida é fronteira. Algumas são saudáveis, necessárias ou constituem o mapa de acesso da nossa geografia emocional. Borrá-las seria o caos. Outras são paredes que construímos para nós mesmos. Isso sempre houve, não é uma invenção contemporânea. Inclusive já foi pior — basta ler qualquer romance de Dickens ou de Tolstói para perceber o quanto o embate entre o indivíduo e o mundo constituiu grande parte da narrativa (emocional) humana.

Isso já não está mais tão claro. Se você ler um dos volumes do ciclo de Knausgård, o autor que de tanto falar de si acaba prestando o maior depoimento sobre esse nosso tempo tão confuso, vai perceber o quanto o nó da chamada interioridade já se confunde com algo próximo a um concerto de vozes. O romanção não é mais o Eu diante do mundo. Não é mais o discurso rimbaudiano do Eu é um outro, mas uma mixórdia emocional, espécie de ganguebangue moral: Nós somos o Eu.

A melhor ficção vale por mil palavras e teorias de caixa de fósforo. Bernardo Carvalho captura muito desse novo mundo em seu formidável Reprodução. Ali, dito muito melhor do que aqui, está a percepção desse abismo em movimento que estamos abrindo para nós mesmos. E a própria obra do Knausgård traz isso, numa amplitude e com uma ambição que pareciam não mais existir na prosa contemporânea. Porque é disso que se trata, afinal, nos livros, na rua ou no Facebook: o poder imorredouro (e igualmente fatal) da prosa.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Pessoas

Por Leandro Sarmatz

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Em novembro, vamos lembrar dos 80 anos da morte de Fernando Pessoa (1888-1935). Pessoa é um dos titãs da poesia de língua portuguesa no século XX. O outro é coisa nossa, é o brasileiro Carlos Drummond de Andrade. O mineiro ainda está para entrar completamente no grande circuito universal, e uma tradução norte-americana que sai no próximo mês de junho promete fazer um bom serviço: a seleção é criteriosa, a tradução — a cargo do grande Richard Zenith, que também verteu Pessoa, olha só — equilibra-se com talento entre o espírito e a letra. Agora vai.

O lisboeta já é bastante difundido em outros idiomas, principalmente no continente da língua inglesa, esse império. Harold Bloom o incluiu em seu O cânone ocidental, George Steiner — que, por sinal, comemorou 86 anos ontem — escreveu um ensaio decisivo, em que o compara a outros grandes mestres da invenção na literatura modernista, como Beckett e Borges. Aliás, Steiner acha a concepção dos heterônimos pessoanos uma criação mais engenhosa do que a ficção borgeana, com seus espelhamentos. Mas não entremos neste fla-flu. Há uma afinidade muito particular entre o alfacinha e o portenho. Matéria para outro comentário, em breve.

O certo é que, sem Fernando Pessoa e suas criações, suas vozes, a poesia do século XX seria bem mais pobre. Pessoa, leitor dos clássicos latinos e de Whitman, adestrado (como Borges, aliás) na melhor literatura de língua inglesa, levando uma existência prosaica, renovou temática e estilisticamente a poesia. E inaugurou o futuro da literatura de língua portuguesa. Mesmo que muitas vezes sob uma pátina aparentemente tradicional (ou mesmo passadista: Mensagem é um exemplo disso), sua poesia exibe uma audácia até hoje inigualada. Ter esses vários poetas em torno de si, compor essa obra tão rica e com esquinas tão diversas, é um triunfo supremo da imaginação humana.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.