Leandro Sarmatz

O vigor do verso

Por Leandro Sarmatz

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Há uns dez anos, pouco mais, dois amigos fundaram uma revista de poesia, a Cacto. Publicações assim costumam ter vida breve, e não seria diferente com essa. Durou, se não me engano, uns três números. Dito assim não parece grande coisa: mas naquele momento e com o talento desses dois amigos para radiografar a boa poesia, a revista, embora de vida tão curta, deixou grande memória. Muitos dos poetas que apareceram em suas páginas hoje estão por aí, publicando, fazendo barulho, repercutindo.

Claro que já existiam editoras como a 7Letras, que nos últimos vinte anos trouxe boa parte da poesia brasileira, e mesmo grandes editoras publicavam alguma poesia — canônica ou nova, isso não importa. Fato é que quase sempre este gênero foi o das multidinhas: um público não muito grande, mas cativo, fiel e habitando uma espécie de “sistema paralelo” que independe de fogos de artifício para encontrar aquilo que deseja.

De lá pra cá, o cenário mudou. Há muitas outras editoras, grandes e pequenas, trazendo boa poesia, há sites, blogs, vídeos. A poesia produzida hoje no Brasil é das coisas mais fortes da nossa vida cultural. Sua energia parece ter ocupado inclusive o lugar que antes era o da canção, diferenças mercadológicas à parte. Poder contar hoje com nomes como Armando Freitas Filho, Chico Alvim, Paulo Henriques Britto, Angélica Freitas, Eucanaã Ferraz, Tarso de Melo, Ferreira Gullar, Fabricio Corsaletti, Carlito Azevedo, Paulo Scott, Diego Grando, Marília Garcia, Gregorio Duvivier, Fabio Weintraub, Laura Liuzzi, Arnaldo Antunes, Joca Reiners Terron, Eduardo Sterzi, Ana Martins Marques — todos vivos, atuantes, vibrantes — é privilégio de poucas culturas literárias. Há outros, claro, mas seria impossível colocar todos os nomes aqui. Prova de uma vitalidade que sempre existiu entre nós mas que antes, por diversos fatores (editoriais, econômicos, industriais), não conseguia encontrar tantos canais de escoamento.

Pensei nesse argumento rápido hoje depois de saber da morte (a segunda esta semana: no dia 23  morreu o grande Herberto Helder) de um imenso poeta, o sueco Tomas Tranströmer, de quem vamos em breve publicar uma antologia.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Banal Day

Por Leandro Sarmatz

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Tem aquele clássico tópico da crônica sobre a falta de assunto para escrever uma crônica. Sempre me perguntei — como leitor e, mais recentemente, como contribuinte deste blog — o que aconteceria quando eu resolvesse (premido pelas circunstâncias) fazer um texto sobre a falta de um tema para escrever um texto. Chamo esse subgênero de texto matrioska (você sabe: as bonequinhas russas dentro de outras bonequinhas russas), a falta de surpresa inserida na falta de surpresa.

Não sejamos tão cruéis. Há grandes crônicas, de ontem e de hoje, que versam sobre o tema. O problema, se encararmos que isso é um problema (mas não sei não), é o perigo da diluição. Onde no passado houve brilho e engenho para se escrever sobre o não ter o que escrever, hoje — nessa era de ironia infinita — eu posso estar querendo mascarar o assunto numa suposta falta de assunto. Pescou? Se admitirmos minha tipificação do chamado texto matrioska, poderemos nos deparar com mais uma forma, outro soneto em nossas convenções literárias. Forjo um vazio (mental, de assunto) para me inserir numa vasta e até respeitável tradição.

Balela? Tenho minhas dúvidas. Não sou nenhum Roland Barthes, mas posso ver por aí o resultado de anos de escritura sobre a falta do que dizer. No names, please. Somos gente educada. Eu, pelo menos, tento. Mas posso até enxergar alguém sentado diante do computador, tela branca e cabeça cheia de ideias, faxinando dentro de si todos os temas mais estimulantes e as sacadas (insight, em bom português) mais crocantes, então jogando tudo num balde com água do volume morto e — surpresa! — iniciando sua crônica sobre o clássico tópico da falta de assunto. “Vai render, vai render”, pensa o sujeito, esfregando as mãos, perfilando-se ao lado de Rubem Braga, Otto Lara Resende e outros maiorais.

Sei…

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Formas híbridas

Por Leandro Sarmatz

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W. G. Sebald. Foto: Jerry Bauer

O romance, romanção à século XIX, com aquela histamina tolstoiana, parece bem vivo: pense nos calhamaços de Franzen, por exemplo. Aquele debate, passadérrimo, aliás, sobre a morte do romance, não passou de conversa para escargot dormir. Bom para construir teorias. Reputações ergueram seus castelos. Mas há, nos últimos 30 anos, pelo menos, a prevalência de uma outra forma romanesca, outro (perdão o português) approach da realidade sensível (ops) na construção da prosa de ficção.

Falo dessas formas híbridas, desses romances (?) que têm fabulação, narrativa, laivos de ensaio (ou ensaios propriamente ditos), documento, algum jornalismo, relato de viagem. Ou então romances que usam as estratégias discursivas do ensaio, pegam emprestados a retórica e a legitimação daquilo que não é associado à invenção para então construir seu universo ficcional. É um gênero contemporâneo por excelência, me peguei pensando esses dias ao ler Limonov (Alfaguara), do francês Emmanuel Carrère, a história (biografia romanceada, romance biográfico, quase todo calcado no real) do russo Eduard Limonov (1943), autoproclamado Johnny Rotten da poesia russa, marginal, mendigo, sex symbol, astro, político fascistoide. É um livro que, embora tenha levado uma cacetada fenomenal do britânico Julian Barnes (resumo: Carrère está in love, metaforicamente, com seu russinho, e daí perde qualquer distanciamento, tal qual um Dante com sua Beatriz barbada), é uma das obras mais inteligentes que li nos últimos tempos.

Limonov me parece marcar uma culminância (problemática, inclusive) de um processo que, pelo menos desde Bruce Chatwin — passando por Sebald, Bolaño, Bernardo Carvalho — tem marcado a construção do romance. De que se trata? Nestes autores, a ficção vem envenenada pelo real sensível e narrativo, ou seja, não se trata mais de falar que a “marquesa saiu às cinco horas” (na equação azeda de Valéry), mas de trazer recortes de jornal sobre a marquesa, investigar sua criadagem, recriar a saída da marquesa, ir à fábrica de relógios. Claro: é um exemplo bobo, banal, pedestre e cômico. Mas que em Carrère é levado ao extremo: tanto que seu livro apenas apreende a forma do romance: o resto é construído a partir de entrevistas, confissões, livros do próprio Limonov. O real está tão próximo de tudo que parece por vezes dar uma rasteira na ficção, que sai enfraquecida do livro. As poucas passagens em que parece haver alguma fabulação são mais frágeis que tudo o que é “verdadeiro” (com mil aspas) na construção de Carrère. Será este o limite dessas formas híbridas?

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Quente e frio

Por Leandro Sarmatz

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Ainda não tive a sorte de ler Graça infinita, o enorme catatau (todavia assombrosamente divertido, dizem) que influenciou uma penca de escritores contemporâneos. De Foster Wallace li apenas os contos e alguns ensaios, portanto a visão que tenho de seu trabalho é penosamente parcial, uma vez que ainda não mergulhei no seu grande romance. Admiro tanto sua ficção curta quanto a produção ficcional, inteligente, divertida, irônica e formalmente brilhante. Todavia, chamar DFW de escritor engenhoso é baratear demais a expressão, pois a primeira impressão que o virtuosismo causa (seja na literatura, seja no cabeludo solando quinze minutos em sua guitarra) é de que onde há “técnica” demais falta “alma”. Salpique as duas palavras com todas as aspas disponíveis em seu teclado. Terror, né?

Claro que há escritores (e guitarristas e pintores e cineastas e dançarinos) que se movem justamente no terreno da técnica extrema. Mas estes, em sua grande maioria, costumam provocar bocejos na maioria e entusiasmar apenas alguns acólitos. Porque a técnica, por mais difícil que seja dominá-la, é apenas isso: uma forma, uma gramática, um procedimento. Há qualquer coisa de impostura quando nos deparamos com um artista que é só técnica. Sem incorrer (novamente) na chorumela da “alma”, falta ao mero virtuose um não sei o quê de próximo de nós, seus irmãos humanos, de mais cálido. Sim: trata-se de temperatura. Parece haver uma frieza inerente em qualquer demonstração extrema de perícia. Escritores “quentes” costumam ser menos atentos à técnica, escritores “frios” são os calculistas da página em branco. Esse é mais ou menos um tópico recorrente, comum, clássico.

Será? Em muitos casos, sim, porque a técnica serve para talvez escamotear alguns traços indesejáveis ou driblar até mesmo algum tipo de dificuldade. Mas é possível ter a técnica e ser quente, e para isso há uma longa fila de autores nos esperando, como Joyce (até Ulysses; depois ele torrou o coco), Beckett, Bellow e Bernhard que dominam perfeitamente os instrumentos de sua arte (o ritmo e os silêncios, a construção de vozes e a música interior da página em prosa, respectivamente) e mesmo assim continuam carne, sangue e (perdão) fezes. Atingiram o máximo com sua arte, mas estão do nosso lado, ainda que fazendo fricassê das nossas boas intenções, visão de mundo etc.

Tenho a impressão que David Foster Wallace fazia parte dessa linhagem.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Convite à viagem

Por Leandro Sarmatz


Leio um ensaiozinho sobre os primórdios dos guias de viagem, The portable Paradise: Baedeker, Murray and the Victorian Guidebook. O “inho” aqui serve para denotar afeição (opa) pelo assunto e também porque o texto relativamente breve (100 páginas), elegante e despretensioso de Jonathan Keates é um repositório de anedotas inteligentes e comentários atilados. Não esgota o assunto e nem tem essa pretensão. Se é para ler ensaio forte que margeia o tema (escritores viajantes ingleses), fiquemos como Abroad: Literary Traveling between the Wars, obra-prima de Paul Fussel. Aí sim a conversa é de gente grande.

O Baedeker, então, já foi uma glória. O primeiro grande guia de viagens, um clássico do gênero e — dizem — tão acurado que muitos de seus mapas compostos ainda antes da Primeira Guerra eram consultados por espiões e estrategistas militares durante a guerra de 39. Virou ícone cultural. Aparece às pencas em poemas (T. S. Eliot, Mina Loy), romances (A room with a view, de E. M. Foster), é referência para muita gente. Leio que Thomas Pynchon suga toda a informação que pode em velhos baedekers em busca de mais elementos para escrever sobre lugares em que nunca esteve.

Aliás, o jornalismo e os guias de viagens são contemporâneos da ascensão do romance. Os três gêneros se beneficiaram da mesma massa crítica: aumento da alfabetização nas cidades, popularização da imprensa, relativa estabilização das fronteiras geopolíticas, fixação dos idiomas nacionais, industrialização. O curioso, e isso aparece no fino volume de Keates, é que a própria mentalidade do viajante dos séculos XVIII e XIX (e aqui poderíamos trocar por leitor de jornais ou de romances) iria moldar a forma como se escreveria sobre os países visitados. Quem leu Orientalismo, de Edward Said, sabe do que se está falando: é nesse mesmo momento que o discurso sobre o “exotismo”, sobre o “outro” (geralmente visto com complacência ou desfaçatez) passa a ser construído, o que se tornaria inclusive traço constitutivo da produção artística de europeus (e depois norte-americanos) até, pelo menos, os anos 1960.

Assim, num caso que aqui seria “benigno”, uma nascente indústria de água mineral era anunciada para o viajante que se afastasse da civilização (ou seja, Londres), lembra Keates. O reclame mostra uma garrafa e várias frases de efeito e/ou ameaçadoras. O curioso é que muito dessa retórica se mantém (leia qualquer guia contemporâneo sobre lugares da África, da Ásia ou mesmo da América Latina), ainda que de fato existam lugares em que tomar água da bica seja a antessala das danações intestinais e das maiores pestilências.

A segunda metade do século XX não seria muito favorável a esses guias estilo Baedeker, que durante anos se mantiveram como referência. O mundo mudou muito rápido, e hoje um guia de viagem sobre Nova York (ou São Paulo, ou Maputo) de, digamos, 1999, é das coisas mais obsoletas que existem. Nada mais antigo que o passado recente, escreveu Nelson Rodrigues. E nada mais estimulante que o passado remoto, poderia dizer Jonathan Keates. Ou mesmo alguns de seus leitores.

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Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.