Leandro Sarmatz

O “outro” Roth

Por Leandro Sarmatz


Há 120 anos, num dia 2 de setembro, nascia Joseph Roth, um dos maiorais da literatura de língua alemã. A reputação literária é um cassino. Roth, que elegeu para se expressar — como Kafka, como Nabokov, como Beckett — num idioma que não era, no seu caso, o iídiche falado em casa, sofreu ao longo do último século as oscilações da bolsa literária. Fez sucesso em vida, como prosador e jornalista estrelado da imprensa alemã, e depois ficou um tempo meio esquecido, um camafeu dos velhos tempos da valsa e dos cafés vienenses. Autores como Claudio Magris (que escreveu um ensaio incontornável sobre ele) ajudaram numa certa reabilitação. Hoje Roth figura, ao lado de uns poucos, como um dos mestres da modernidade. Está no seu lugar, enfim.

Roth nasceu sob a sombra dos vastos domínios do Império Austro-Húngaro, e muitos de seus textos evocam, com nostalgia, esse tempo e esse espaço que foram pras cucuias com o advento da Primeira Guerra. Escrevia fácil, rápido, era absolutamente profissional, parecia não enjeitar trabalho. Como repórter, tinha olhos e ouvidos apurados. Suas reportagens sobre Berlim, a grande metrópole que foi a esquina do mundo no entreguerras, são primorosas na recuperação do turbilhão da cidade. Judeu, fronteiriço, abraçando uma profissão da modernidade — o jornalismo —, Roth tinha especial pendor para observar as classes menos favorecidas, aqueles que viviam à margem.

Seus textos de ficção trazem esses predicados todos, além de uma linguagem que, mesmo em traduções, exibe a mão leve do autor para conduzir suas narrativas. Livros como , A Marcha Radetzky ou A lenda do santo beberrão (meu favorito) encantam por diversos motivos. A linguagem algo crepuscular (no limite do poético), o gosto pela construção de personagens absolutamente críveis, o despudor de, quando preciso, avançar sobre terreno sentimental sem medo de pisar no jardim.

Roth era pinguço, bebia hectolitros — conhaque, vinho, aguardentes várias, o que houvesse à mão em matéria de destilados —, era um desses alcoólatras produtivos. Macilento, rosto de pizza amanhecida, com tremores na Paris de 1939 (porque a essa altura a Alemanha já não era uma opção para homens como ele), ainda terminou A lenda do santo beberrão, a poética narrativa de um clochard às voltas com uma dívida. Foi seu testamento. Morreu em maio de 39. Poucos meses depois, Hitler começaria a marcha que sepultaria, para sempre, aquela Europa que Joseph Roth um dia conhecera.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

Ubaldo

Por Leandro Sarmatz


Foto: Daniela Dacorso

João Ubaldo, que morreu no último dia 18, deixou pelo menos duas obras-primas: Sargento Getúlio (1971) e Viva o povo brasileiro (1984). No meio disso, bons romances e uma penca de crônicas. Fico mais com Sargento Getúlio, coisa de gosto pessoal. Ubaldo, que em mais de uma ocasião fez picadinho de Guimarães Rosa — a torrente de linguagem, a invenção linguística, o aparente hermetismo não lhe atravessavam a garganta nem lubrificavam seus ouvidos —, operou cirurgicamente o seu mini Grande sertão. Porque Sargento Getúlio é mesmo isso, um bonequinho de marzipã esculpido a partir do metafísico bangue-bangue rosiano, um aleph para onde grande parte da energia levantada por Rosa converge, em tom menor mas com não menos brilho literário.

E tem a maldade do sargento, um tipo de perversidade que, se não é épica como a de Hermógenes, vale por algumas dezenas de ensaios sobre a banalidade do Mal à brasileira. Exemplos aos milhares, basta clicar agorinha na página de notícias mais à mão. É uma perversidade “quente” (sem a frieza do psicopata, portanto), quase familiar, intensamente anedótica. E contida numa linguagem de câmara, menos épica que a da narrativa de Riobaldo, mas completamente tersa e em consonância com a forma adotada pelo autor, a do romance breve. Sargento Getúlio é uma glória da literatura brasileira da década de 1970, e olha que esse foi um período rico. Lavoura arcaica é de 1975. Assim como Pilatos (1974), Galvez, o Imperador do Acre (1976) e A hora da estrela (1977) etc.

Viva o povo brasileiro, e isso já se disse muito por aí, talvez tenha sido a última tentativa do grande romance de identidade nacional, e numa forma épica. Não há mais lugar para um tipo de narrativa assim ou o país mudou? Difícil responder. O fato é que escritores que vieram depois de Ubaldo não parecem mais interessados nessa tarefa, e isso se dá tanto na ficção quanto no ensaio. O Brasil é imenso e não é só um, o Brasil são vários. E a “grande narrativa”, seja ela romanesca ou historiográfica, já não ressoa. Ou talvez nem faça mais sentido.

Ubaldo foi um grande. E foi o último de uma linhagem.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Puxa-puxa

Por Leandro Sarmatz


Não é preciso ler Kant para sabermos — aproximadamente, pelo menos — por que gostamos daquilo que gostamos. De fato é um cadinho de coisas: nossa história, formação, ânimo, gostos que puxam outros e que fazem parte de uma mesma constelação de referências.

Tem algo de muito especial quando travamos o primeiro contato com algum autor forte. Porque a coisa nunca se esgota. É uma promessa muito íntima de felicidade. Lembro, muito tempo atrás, quando “descobri” Borges. Eu sabia que agora teria um oceano de leituras pela frente. Os livros do próprio autor de Ficções mas também — numa operação que não tardei a descobrir como muito borgeana — todos os autores que o influenciaram, assim como aqueles que vieram depois. Era como “Kafka e seus precursores”, o ensaio clássico do argentino, só que na prática. E, como acontece com leitores adolescentes (meu caso naquele tempo distante), num processo entre trancos e barrancos. (Sim, Borges é um caso extremo para a minha argumentação, mas ok, isso acontece com quase todo autor forte.)

E a coisa se repete de tempos em tempos. Esse círculo virtuoso de descoberta e leitura-que-puxa-leitura. Isso se deu em 2005, quando li Noturno do Chile, de Roberto Bolaño, e aí corri atrás de tudo o que o chileno tinha escrito ou lido. Ou antes, no início da década passada, quando comecei a ler Joseph Roth em edições espanholas. Ou em 2007, quando tracei toda a obra de Bruce Chatwin e depois fiquei — nômade literário — buscando todos os escritores-viajantes britânicos do século XX. Ou mesmo os poetas todos, em que o diálogo com a tradição e os pósteros parece ser ainda mais agudo, embora igualmente difícil (e fascinante) de escavar. Trata-se de um esporte obsessivo. É mesmo um tipo de adição.

Acho que isso deve acontecer com muitos leitores. Ou ouvintes de jazz, cinéfilos etc. É o que deve manter a curiosidade aguda e o élan para novas leituras. Sinto-me vazio, só casca e serragem, quando habito algum tipo de hiato entre essas descobertas e buscas incessantes. A vida (de leituras, pelo menos, ou a minha, se tanto) parece andar de fato quando isso está acontecendo. Um livro novo, uma penca de livros antigos, a expectativa por leituras futuras. O nome disso é alegria, ou alguma coisa muito parecida com ela.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

 

A capital do debate

Por Leandro Sarmatz


Foto: Julie Imbert

Entre 20 e 26 do último mês de abril, estive em Buenos Aires participando de um encontro com editores e intelectuais argentinos. A semana de intercâmbio profissional, promovida pela Fundación TyPA, era este ano dedicada à produção de não-ficção na Argentina, sobretudo o ensaio, gênero que, entre nossos vizinhos do Prata, alcançou alturas bastante invejáveis. Basta pensar rapidamente, por exemplo, em Ezequiel Martinez Estrada — que nos anos 1930 escreveu Radiografía de la pampa, ensaio de identidade nacional que é contemporâneo dos textos de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda —, Beatriz Sarlo, Ricardo Piglia (entre os mais conhecidos pelos leitores brasileiros) e outros nomes que merecem ser mais lidos por aqui, como Daniel Link, Josefina Ludmer e Oscar Masotta.

Éramos dez editores. Além de mim e de uma colega da Boitempo representando este Brasil varonil, havia profissionais da Alemanha, França, Croácia, Itália e Inglaterra. Colegas brilhantes, interessados (e não apenas na Argentina, mas também no que fazemos por aqui), completamente abertos à experiência de conhecer o que produz no campo intelectual este outro, o latino-americano.

Foram dias intensos de visitas a editoras como Siglo XXI, Fondo de Cultura, Adriana Hidalgo, Katz, Mar Dulce, entre outras, e charlas com editores, escritores, jornalistas e intelectuais. As conversas foram variadas, claro, mas se fosse possível construir uma nuvem de tags a partir dos diversos encontros, palavras como “desastre”, “memória”, “terrorismo de estado”, “biopolítica”, “polarização”, “crise” estariam com destaque. Dito assim parece que nossos dramáticos vizinhos portenhos passam a vida a lamber velhas e não-cicatrizadas feridas, mas não se trata disso. Há, isso sim, uma consciência aflorada sobre os descaminhos da História. O tema da memória é a obsessão nacional. A memória recente, claro, a partir da devastação produzida a partir de 1976, quando uma das mais sanguinárias ditaduras da América Latina ceifou pelo menos duas gerações de jovens e intelectuais. No campo editorial, isso se dá desde trabalhos teóricos de altíssimo nível — muitos deles na vanguarda do que melhor se especula sobre tragédia e memória —, quanto em livros feitos por jornalistas para um grande público leitor.

Buenos Aires ostenta uma dinâmica cultural bastante peculiar. Como se trata da Capital Federal, ela reúne toda a vida cultural e concentra todo o debate político. Isso pode ser ótimo (significa menos dispersão, mais coesão na vida intelectual), como também um pouco complicado (todo debate, sobre praticamente qualquer assunto, é polarizado hoje em Kirchner ou anti-Kirchner). Nós, brasileiros, de algum modo já experimentamos isso até 1960, quando o Rio de Janeiro, que concentrava até então a vida cultural e política, foi depauperado (em todos os sentidos) com a mudança da capital para Brasília.

No campo editorial, há um boom de pequenas e nano editoras, muitas delas tocadas por professores universitários ou editores oriundos de grandes casas. Tanto grandes quanto pequenas tentam pensar não só em termos locais, mas — graças ao fato de falarem espanhol — vislumbram toda América Latina e Espanha. Mesmo uma editora pequena como a Katz, criada por um publisher e intelectual de primeira que é Alejandro Katz, tem um braço em Madri. Assim é possível tocar o negócio em meio às oscilações, por vezes desastrosas, entre as economias dos dois países.

Embora o governo só dificulte a vida de quem trabalha com difusão cultural (longo capítulo; não tenho paciência nem fígado para descrever), a Argentina tem uma vida cultural e universitária ainda muito apegada ao livro. Nomes como Michel Foucault e Giorgio Agamben foram pronunciados com frequência e algum ardor, e o editor do filósofo italiano descreveu a aparição na Argentina do autor de Profanações um êxito digno dos astros pop: auditórios lotados, multidões à espera, notícia nos jornais.

De forma geral, todos eram bem-informados a respeito do que se faz nos melhores centros de produção cultural. Mas são — para o bem e para o mal — muito autorreferentes. Parecem ilustrar na prática o texto clássico de Borges, “O escritor argentino e a tradição”, em que há mais ou menos a seguinte postulação: sul-americanos, como irlandeses ou judeus, compartilham o legado cultural do Ocidente, mas estão historicamente à margem. Isso, contudo, pode dotá-los de inauditas forças criativas no manejo dessa herança justamente por causa da posição temerária e ambígua que ocupam.

Esse poderia ser um novo hino argentino.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.

Poesia organizada

Por Leandro Sarmatz
Sem título

Dia desses cometi a loucura de polemizar com um velho poeta sobre alguns tópicos da lírica contemporânea. Digo loucura porque é isso aí mesmo, não há palavra melhor disponível no léxico: pois é preciso estar com alguns parafusos meio desajustados para entrar numa contenda – delicadíssima, teórica, gentil, aliás – com um velho e venerável vate.

O poeta (experiente, lidíssimo, embora um pouco inclinado a valorizar apenas uma lírica de teor mais clássico) argumentava que, tirando um e outro nome, o catálogo de poesia brasileira contemporânea da editora não era lá grande coisa. Ora, isso mexeu com meus brios, então me pus a discordar, elencando de forma mais ou menos generalizada algumas das qualidades mais gritantes (e também aquelas mais sutis) dos nossos poetas.

Trocamos alguns e-mails, formulamos, cada qual com seu a + b, nossos argumentos, e demos por encerrada a correspondência sem no entanto chegarmos a um consenso. Não brigamos, operamos tudo na maior delicadeza. Mas havia algo ali que não era apenas visões de mundo e de leitura diferentes, tampouco se tratava do abismo geracional entre dois leitores de poesia. Era todo um universo de critérios e valores diferentes em ação para tentar entender os mesmos versos.

Grande parte da argumentação do poeta era contra uma suposta “coesão” de alguns de nossos títulos recentes na coleção de poesia brasileira. Dizia que a grande lírica, feita no cotidiano disforme de todos nós, não precisava ser artificiosamente reajustada como um livro de não-ficção. Correto, pensei (ou respondi), mas também era preciso lembrar que alguns de nossos grandes, como Drummond e João Cabral, publicaram volumes de verso absolutamente organizados em torno de algumas ideias. Citei A rosa do povo e Claro enigma, do mineiro, e A educação pela pedra, do pernambucano. Livros “coesos”, como dizia depreciativamente o poeta.

Contemporâneos também fazem isso – e isso é possível atestar a partir de alguns dos livros mais fortes do catálogo de poesia brasileira aqui da editora. Confesso: como leitor, e eventualmente como editor de alguns dos títulos, tendo a organizar minha leitura em seções, e inclusive às vezes sugiro alguns arranjos para o autor. Não por didatismo ou espírito vulgar, mas porque às vezes uma – digamos – redistribuição dos poemas ao longo do livro ajuda o volume inteiro a fazer aquele tão sonhado “clic” na cabeça e no espírito do leitor.

Claro que isso não é uma receita universalmente válida para todo livro de poesia. Às vezes o que se quer é mesmo é multiplicidade, variedade, outras vozes. O poeta discordou (educadamente, como já disse) de toda essa conversa, mas lá pelas tantas citou com entusiasmo dois livros recentes, publicados aqui, que contrariavam toda a sua linha de raciocínio. Bom, nossa conversa estava bem civilizada, então moitei e não observei isso para o meu doce polemista. Não é preciso ganhar todas, ou se é, não se faz necessário soltar fogos de artifício. Barulho é inimigo da leitura.

* * * * *

Leandro Sarmatz é editor da Companhia das Letras e no tempo livre está tentando — sem muito sucesso, diga-se — organizar sua biblioteca. Uma vez por mês ele escreve sobre livros que foram fundamentais para sua trajetória como leitor.